




       ROBIN COOK
       A INVASO
       Traduo de RAQUEL ZAMPIL
       3 EDIO
       EDITORA RECORD
       RIO DE JANEIRO  SO PAULO: 1999
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       Digitalizao: Vtor Chaves
       Correo: Marcilene Aparecida Alberton Ghisi Chaves
       
PRLOGO



       Nas glidas vastides do espao interestelar, um minsculo ponto de matria-antimatria surgiu do vcuo flutuando, criando um intenso claro de radiao eletromagntica. 
Para a retina humana, esses fenmenos teriam parecido a sbita emergncia e expanso de um ponto de cores representando todo o espectro de luz visvel. Naturalmente, 
nem os raios gama, os raios X e mesmo os infravermelhos e as ondas de rdio seriam perceptveis  limitada viso do homem.
       Simultaneamente  exploso de cores, a testemunha humana teria visto o surgimento de um nmero astronmico de tomos, sob a forma de uma concreo negra, 
disciforme e giratria. O fenmeno pareceria um videoteipe passado em reverso do objeto caindo em um lago cristalino de fluidos, cujas ondulaes eram a urdidura 
do espao e do tempo.
       Ainda viajando prximo  velocidade da luz, o imenso nmero de tomos aglutinados disparou em direo s distantes regies do sistema solar, atravessando 
como um raio as rbitas dos planetas gasosos mais distantes - Netuno, Urano, Saturno e Jpiter. No momento em que a concreo alcanou a rbita de Marte, sua rotao 
e velocidade haviam desacelerado significativamente.
       O objeto podia agora ser visto pelo que era: uma espaonave intergalctica cuja superfcie externa brilhante assemelhava-se ao nix extremamente polido. A 
nica irregularidade em seu desenho disciforme era uma srie de protuberncias ao longo da face superior da extremidade da borda. O contorno de cada uma dessas protuberncias 
refletia a silhueta da macia nave-me.
       No havia outras distores em sua superfcie: nada de vigias, sadas de ar ou antenas. No havia nem mesmo linhas de juno estruturais.
       Entrando velozmente nas fmbrias da atmosfera terrestre, a temperatura externa da espaonave elevou-se. Uma cauda flamejante pareceu iluminar o cu noturno 
no rastro da nave,  medida que os tomos atmosfricos excitados pelo calor desprendiam ftons em protesto.
       A nave continuou a desacelerar, tanto em termos de rotao quanto de velocidade. L embaixo, as luzes cintilantes de uma cidade desavisada surgiram, sendo, 
porm ignoradas pela nave pr-programada. Foi por sorte que o impacto ocorreu num espao rido e rochoso, onde se espalhavam vrios penedos. Apesar da velocidade 
relativamente baixa, o pouso foi mais uma coliso controlada do que uma aterrissagem propriamente dita, lanando pedra, areia e p em ondas pelo ar. Quando a nave 
finalmente parou, estava meio enterrada na areia. Os destroos lanados ao ar com o impacto desabaram sobre sua superfcie polida.
       Depois que a temperatura externa caiu abaixo dos duzentos graus centgrados, uma abertura vertical, semelhante a uma fenda, surgiu ao longo da borda. Aquilo 
no parecia uma porta mecnica. Era como se as prprias molculas trabalhassem de comum acordo para permitir que se penetrasse o exterior inconstil da nave.
       A abertura deixou escapar vapor, evidncia de que o interior da nave guardava a frigidez do espao. L dentro, uma srie de computadores executavam diligentemente 
seqncias automticas. Amostras da atmosfera e do solo da Terra foram arrastadas para dentro da nave, a fim de serem analisadas. Esses procedimentos automatizados 
funcionaram como o planejado, inclusive o isolamento de formas de vida procariticas (bactrias), retiradas do p. As anlises de todas as amostras, inclusive do 
DNA nelas contido, confirmaram que o destino correto fora alcanado. Teve incio ento a seqncia de aparelhamento. Enquanto isso, uma antena estendeu-se na direo 
do cu, preparando-se para a transmisso em freqncia de quasar, a fim de anunciar que Magnum chegara.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       1
       22:15
       
       - Ei, ei! - dizia Candee Taylor, enquanto batia no ombro de Jonathan Sellers. Naquele momento, Jonathan estava muito ocupado, beijando-lhe o pescoo. - Terra 
para Jonathan, responda, por favor! - acrescentou Candee, comeando a dar pancadinhas na cabea do rapaz com os ns dos dedos.
       Tanto Candee quanto Jonathan estavam com dezessete anos, no terceiro ano da Escola Secundria Anna C. Scott. Jonathan acabara de tirar a carteira de motorista 
e, embora ainda no tivesse permisso para usar o carro da famlia, pegara emprestado o VW de Tim Appleton. Apesar de terem aula naquela noite, Candee e Jonathan 
deram uma escapulida e dirigiram-se ao penhasco que se erguia acima da cidade. Ambos haviam esperado ansiosamente por essa primeira visita  "alameda do amor" favorita 
dos jovens da escola Para ajudar a criar o clima, como se precisassem de alguma ajuda, o rdio estava ligado na KNGA, a emissora que tocava sem intervalos os quarenta 
maiores kits da parada de sucesso.
       - O que foi? - perguntou Jonathan, enquanto apalpava o ponto sensibilizado no alto de sua cabea. Candee tivera de acert-lo com fora razovel para desviar 
sua ateno. Jonathan era magro e muito alto para sua idade. A arrancada de crescimento por que passam os adolescentes fora apenas vertical, para alegria de seu 
treinador de basquete.
       - Queria que voc visse a estrela cadente. - Sendo uma ginasta, Candee era significativamente mais desenvolvida do que Jonathan no aspecto fsico. Seu corpo 
era motivo de admirao por parte dos garotos e de inveja por parte das garotas. Ela poderia ter namorado praticamente qualquer um que desejasse, mas escolheu Jonathan 
graas a uma combinao de seu jeito engraadinho com sua habilidade com os computadores, que eram tambm um dos interesses de Candee.
       - O que tem demais numa estrela cadente? - gemeu Jonathan. Ele ergueu os olhos para as estrelas, mas rapidamente voltou a olhar para Candee. No tinha certeza, 
mas pensou que um dos botes da blusa dela que, ao chegarem ali estava abotoado, agora estava misteriosamente desabotoado.
       - Ela atravessou todo o cu - disse Candee, traando com o dedo indicador uma linha no pra-brisa para dar nfase. - Foi incrvel!
        meia-luz no interior do carro, Jonathan s conseguia distinguir o imperceptvel movimento dos seios de Candee, que desciam e subiam com a respirao. Ele 
achou aquilo mais incrvel do que qualquer estrela que pudesse existir. Estava prestes a inclinar-se para tentar beij-la quando, aparentemente, o rdio se autodestruiu.
       Primeiro o volume subiu, alcanando um nvel ensurdecedor, e instantaneamente seguiu-se uma seqncia de ruidosos estalidos e silvos. Fagulhas saltaram do 
painel, de onde tambm subiu uma espiral de fumaa.
       - Merda! - gritaram Jonathan e Candee em unssono, ao mesmo tempo em que instintivamente tentavam afastar-se do receptor lanando fascas, ambos saltando 
do carro. J na segurana do exterior, perscrutaram o interior do carro, quase esperando pelas chamas. Em vez disso, porm, as centelhas pararam quase to abruptamente 
quanto haviam comeado. Aprumando-se, eles se entreolharam por sobre a capota do carro.
       - Que diabos euvou dizer a Tim? - gemeu Jonathan.
       - Olhe a antena! - exclamou Candee.
       Mesmo na escurido, Jonathan pde ver que a ponta havia enegrecido.
       Candee estendeu a mo e a tocou.
       - Ai! - exclamou. - Est quente!
       Ouvindo um burburinho de vozes, Jonathan e Candee olharam  sua volta. Outros jovens haviam sado de seus carros. Uma nuvem de fumaa acre pairava sobre o 
local. Os rdios que estiveram ligados, fosse tocando rap, rock ou msica clssica, haviam queimado o fusvel. Pelo menos era o que todos estavam dizendo.
       
       
       22:15
       
       A Dra. Sheila Miller morava num dos poucos edifcios residenciais da cidade. Ela gostava da vista, da brisa que vinha do deserto e da proximidade com o Centro 
Mdico da Universidade. Dos trs aspectos, o ltimo era o mais importante.
       Aos 35 anos de idade, ela se sentia como se tivesse vivido duas vezes. Casara-se cedo, ainda na universidade,com um colega do curso pr-mdico. Eles tinham 
tanta coisa em comum! Ambos acreditavam que a medicina era o interesse que os absorveria por toda a vida e que partilhariam esse sonho. Infelizmente, a realidade 
exclura de maneira brutal o romantismo, graas aos rgidos horrios de ambos. Ainda assim, o relacionamento poderia ter sobrevivido, se George no houvesse tido 
a irritante idia de que sua carreira como cirurgio era mais importante do que o caminho escolhido por Sheila, primeiro na clnica mdica e depois na emergncia. 
No tocante  responsabilidade domstica, ficara tudo sobre os ombros de Sheila.
       A deciso de George de aceitar, sem antes discutir com ela, uma bolsa de estudo de dois anos em Nova York fora a gota d'gua. A constatao de que George 
esperava que ela o seguisse na mudana, quando Sheila acabara de aceitar a posio de chefe do departamento de emergncia do Centro Mdico da Universidade, mostrou-lhe 
o quanto os dois eram incompatveis. Qualquer romance que um dia existira entre eles havia muito se evaporara; assim,com pouca discusso e sem nenhuma paixo, dividiram 
a coleo de CDs e os nmeros antigos das publicaes mdicas, e cada um seguiu seu caminho. No que dizia respeito a Sheila, o nico legado foi uma leve amargura 
em relao s supostas prerrogativas masculinas.
       Naquela noite em particular, como na maioria das outras, Sheila estava ocupada lendo sua interminvel pilha de revistas mdicas. Ao mesmo tempo, gravava um 
antigo clssico do cinema que estava sendo exibido na TV,com o intuito de assistir ao filme no final de semana. Assim, o apartamento estava em silncio, salvo pelo 
ocasional tilintar dos sinos chineses na varanda.
       Sheila no viu a estrela cadente avistada por Candee, mas no mesmo momento em que esta e Jonathan se assustavamcom a destruio do rdio no carro de Tim, 
Sheila era igualmente abalada por uma catstrofe semelhante ocorridacom seu videocassete. De repente, o aparelho comeou a faiscar e zumbir, como se estivesse prestes 
a lanar-se ao espao.
       Arrancada das profundezas da concentrao, Sheila ainda teve a presena de esprito de puxar a tomada da parede. Infelizmente, tal manobra teve pouco efeito. 
Foi s quando ela desconectou o fio que o aparelho silenciou, embora continuasse a expelir fumaa. Com cautela, Sheila tateou a superfcie do painel. Estava quente, 
mas certamente no o bastante para pegar fogo.
       Praguejando em silncio, Sheila retornou  leitura. Vagamente, cogitou de levar o videocassete para o hospital no dia seguinte, para ver se um dos tcnicos 
em eletrnica no podia consert-lo. Justificou a idia com o fato de sua agenda estar lotada. No tinha como arranjar tempo para levar o aparelho at a loja onde 
o comprou.
       
       
       22:15
       
       Pitt Henderson fora escorregando aos poucos, de modo que agora estava praticamente na posio horizontal, esparramado no sof surrado, apertado em seu quarto 
no terceiro andar do dormitrio do campus da universidade, diante do aparelho de TV preto-e-branco de treze polegadas, que ganhara dos pais em seu ltimo aniversrio. 
A tela podia ser minscula, mas a recepo era boa e a imagem ntida como um cristal.
       Pitt planejava se formar naquele ano na universidade. Fazia o curso pr-mdico, na rea de qumica. Embora fosse um aluno apenas ligeiramente acima da mdia, 
conseguira garantir uma vaga na faculdade de medicina atravs de trabalho duro e responsabilidade. Era o nico formando em qumica que optara pelo programa de estudo 
e trabalho, e vinha estagiando no Centro Mdico da Universidade desde o segundo ano, a maior parte do tempo nos laboratrios. No momento, estava numa etapa de revezamento, 
trabalhando no departamento de emergncia. No decorrer daqueles anos, Pitt adquirira o hbito de tornar-se til em qualquer setor do hospital a que fosse designado.
       Um enorme bocejo fez seus olhos lacrimejarem e o jogo de basquete a que ele estivera assistindo comeou a enevoar-se  medida que sua mente mergulhava no 
sono. Pitt era um rapaz de 21 anos, corpulento e musculoso, que na escola secundria fora um astro do futebol americano, mas que na universidade no conseguira incorporar-se 
ao time. Superara a decepo e a transformara numa experincia positiva, concentrando-se ainda mais no objetivo de ser mdico.
       No momento exato em que as pestanas de Pitt se tocaram, o tubo de imagem de sua adorada TV explodiu, espalhando cacos de vidro sobre seu abdmen e peito. 
Aconteceu no mesmo instante em que o rdio de Jonathan e Candee e tambm o videocassete de Sheila sofreram a avaria.
       Durante um segundo, Pitt no se moveu. Estava atnito e confuso, sem saber se a perturbao que o acordara fora externa ou interna, como um daqueles sobressaltos 
que experimentava s vezes assim que caa no sono. Depois de ajeitar os culos no nariz e de se ver fitando as profundezas de um tubo de raios catdicos queimado, 
soube que no estava sonhando.
       - Merda! - praguejou ele, pondo-se de p e sacudindo cuidadosamente os cacos de vidro de seu colo. L fora, no corredor, ele ouviu vrias portas se abrirem, 
rangendo as dobradias.
       Saindo do quarto, Pitt olhou de um lado e do outro. Vrios estudantes,com os mais diversos tipos de roupa, entreolhavam-se com expresses estupefatas.
       - Meu computador acaba de queimar um fusvel - disse John Barkly. - Eu estava navegando na Internet. -John ocupava o quarto  direita do de Pitt.
       - A droga da minha TV explodiu - anunciou outro estudante.
       - Meu rdio-relgio praticamente pegou fogo - informou um outro. - Que diabos est acontecendo? Ser algum tipo de brincadeira?
       Pitt fechou a porta e olhou os tristes restos de sua adorada TV. Uma brincadeira, refletiu ele. Se pegasse o sujeito responsvel, ele o arrebentaria...
       
       
       2
       7:30
       
       Deixando a Main Street em direo ao Costa's Diner, um pequeno restaurante 24 horas, o pneu traseiro direito do Toyota preto com trao nas quatro rodas de 
Beau Stark bateu no meio-fio, fazendo o veculo dar um solavanco. Sentada no banco do passageiro, Cassy Winthrope bateu com a cabea na janela lateral. Ela no se 
machucou, mas o tranco fora inesperado. Felizmente, estava usando o cinto de segurana.
       - Meu Deus! - exclamou Cassy. - Onde voc aprendeu a dirigir, sabe-tudo?
       - Engraadinha - disse Beau, envergonhado. - Virei um pouquinho cedo demais, foi s isso.
       - Deveria me deixar dirigir, se est preocupado - retrucou Cassy.
       Beau conduziu o carro atravs do estacionamento coberto de cascalho, que j estava cheio, e parou numa vaga em frente ao restaurante.
       - Como sabe que estou preocupado? - perguntou ele, freando e desligando o motor.
       - Quando voc mora com uma pessoa, comea a interpretar todos os pequenos sinais que ela lhe d - afirmou Cassy, enquanto soltava o cinto de segurana e descia 
do carro. - Principalmente quando essa pessoa  o seu noivo.
       Beau fez o mesmo, mas, quando seu p tocou o cho, escorregou sobre uma pedra. Ele agarrou-se  porta aberta para no cair.
       - Est resolvido - decidiu Cassy, tendo percebido mais esse ltimo sinal da desateno e temporria falta de coordenao de Beau. - Depois do caf, eu dirijo.
       - Eu posso dirigir muito bem - disse Beau, irritado, batendo a porta do carro com fora e trancando-a com o controle remoto. Juntou-se a Cassy atrs do veculo 
e seguiram em direo  entrada do restaurante.
       - Com certeza, assim como pode se barbear muito bem - replicou Cassy.
       Beau trazia uma pequena floresta de pedacinhos de leno de papel colados aos vrios cortes e arranhes que infligira a si prprio naquela manh.
       - E tambm fazer caf - acrescentou Cassy. Em casa, Beau havia derrubado a cafeteira e, ainda por cima, quebrado uma de suas canecas.
       - Bem, talvez eu esteja um pouco preocupado, sim - admitiu Beau,com relutncia.
       Beau e Cassy estavam vivendo juntos havia oito meses. Ambos tinham 21 anos e estavam no ltimo ano de seus cursos, como Pitt. Os dois se conheciam desde o 
primeiro ano da universidade, mas nunca haviam sado juntos, cada um certo de que o outro estava sempre envolvido com outra pessoa. Quando por fim foram unidos inadvertidamente 
pelo amigo comum, Pitt, que na ocasio andava saindo ocasionalmente com Cassy, eles se combinaram como se seu relacionamento estivesse predestinado.
       A maioria das pessoas achava que eles se pareciam um com o outro e quase podiam passar por irmo e irm. Ambos tinham cabelos castanho-escuros espessos, pele 
cor de oliva sem imperfeies e olhos azuis de uma tonalidade incrivelmente cristalina. Os dois tambm possuam uma inclinao atltica e com freqncia faziam exerccios 
juntos. Algumas pessoas brincavam que se tratava de uma verso morena dos bonecos Ken e Barbie.
       Acredita mesmo que vai ter uma resposta do pessoal de Nite? - indagou Cassy, enquanto Beau abria a porta para ela. O que quero dizer  que a Cipher  "apenas" 
a maior empresa de software do mundo. Acho que voc est se arriscando a uma grande decepo.
       - No tenho a menor dvida de que vo me ligar - disse Beau com confiana, entrando no restaurante atrs de Cassy. - Depois do currculo que mandei, iro 
me ligar a qualquer minuto. - Ele afastou um dos lados do palet Cerruti, deixando-a ver a ponta do telefone celular guardado no bolso interno.
       O elegante traje de Beau naquela manh no era por acaso. Ele fazia questo de se vestir elegantemente todos os dias. Acreditava que parecer bem-sucedido 
trazia o sucesso. Felizmente, seus pais, ambos trabalhando, podiam e estavam dispostos a satisfazer suas vontades. A seu favor, havia o fato de se esforar muito, 
ser um aluno aplicado e tirar notas excelentes. Confiana no era algo que lhe faltasse.
       - Ei, pessoal! - chamou Pitt de uma mesa junto s janelas da frente. - Aqui!
       Cassy acenou e abriu caminho em meio s pessoas. Costa's Diner, afetuosamente chamado de "p-sujo", era um ponto de encontro dos universitrios, principalmente 
para o caf da manh. Cassy deslizou para o banco em frente a Pitt. Beau fez o mesmo.
       - Vocs tiveram algum problema com a TV ou o rdio ontem  noite? - perguntou Pitt, excitado, antes mesmo de dizerem ol. - Estavam com algum aparelho ligado 
por volta das dez e quinze?
       Cassy fez uma expresso de desdm exagerado.
       - Ao contrrio das outras pessoas - afirmou Beau com fingida arrogncia -, ns estudamos  noite.
       Sem a menor cerimnia, Pitt atirou um guardanapo embolado na testa de Beau. Estivera brincando nervosamente com o papel, enquanto esperava que Beau e Cassy 
chegassem.
       - Pois saibam, seus idiotas que no tm a menor idia do que est se passando no mundo real, que ontem  noite, s dez e quinze, um monte de rdios e TVs 
em toda a cidade se queimou - informou Pitt. - Inclusive a minha TV. Algumas pessoas acham que foi uma brincadeira de alguns caras do departamento de fsica e euvou 
lhes dizer uma coisa: estou furioso.
       - Seria bom se isso acontecesse no pas todo - disse Beau. - Com uma semana sem televiso, a mdia nacional de QI certamente subiria.
       - Suco de laranja para todo mundo? - perguntou Marjorie, a garonete, que se aproximara da mesa. Antes que algum pudesse responder, ela comeou a servir. 
Era tudo parte do ritual de todas as manhs. Em seguida, Marjorie anotou os pedidos e passou-os aos gritos, em grego, por sobre o balco para os dois cozinheiros.
       Quando todos bebericavam o suco, o toque abafado do celular de Beau pde ser ouvido sob o tecido do palet. Em sua pressa para atend-lo, ele derrubou seu 
copo de suco. Pitt teve de saltar instintivamente a fim de evitar um banho de suco de laranja.
       Cassy abanou a cabea capciosamente, enquanto apanhava uma meia dzia de guardanapos e secava o suco derramado. Ela revirou os olhos para Pitt e contou a 
ele que Beau fizera outras proezas daquele tipo nessa manh.
       A expresso de Beau se iluminou quando ele se deu conta de que suas esperanas haviam obtido resposta: o telefonema vinha da organizao de Randy Nite. Ele 
inclusive fez questo de pronunciar o nome, Cipher, com bastante clareza, especialmente para Cassy.
       Cassy explicou a Pitt que Beau estava tentando obter um emprego junto ao papa.
       - Eu teria prazer em comparecer para uma entrevista - ia dizendo Beau com calma estudada. - Seria uma honra. No momento em que o Sr. Nite quiser me ver, terei 
prazer em tomar um avio para o Leste. Como mencionei na carta que lhes enviei, estou me formando no prximo ms e, por conseguinte, estarei disponvel para comear 
a trabalhar... Bem, a qualquer momento depois da formatura.
       - "Por conseguinte"! - repetiu Cassy, engasgando com o suco de laranja.
       -  - concordou Pitt. - De onde ele tirou isso? Essas no parecem as palavras do meu amigo Beau.
       Beau fez sinal para que se calassem, fuzilando-os com um olhar de desaprovao.
       - Correto - disse ele ao telefone. - O que estou procurando  uma permutao do papel de assistente pessoal do Sr. Nite.
       - Permutao? - questionou Cassy, abafando uma gargalhada.
       - O que me agrada  o leve e falso sotaque ingls - afirmou Pitt. - Talvez Beau devesse entrar para o teatro e esquecer os computadores.
       - Ele  um excelente ator - disse Cassy, fazendo ccegas em sua orelha. - Hoje de manh estava fingindo ser um bobalho.
       Beau afastou-lhe a mo com um tapa.
       - Sim, seria timo - continuou ele ao telefone. - Tomarei as providncias para estar l. Por favor, diga ao Sr. Nite que estarei esperando com grande alacridade 
nosso encontro.
       - "Alacridade"? - repetiu Pitt, fingindo provocar o vmito com o dedo indicador.
       Beau apertou o boto que punha fim  ligao e fechou o telefone. Fuzilou Cassy e Pitt com o olhar.
       - Vocs so mesmo imaturos. Possivelmente esse era o telefonema mais importante de minha vida, e vocs a fazendo palhaadas.
       - "Vocs so mesmo imaturos"! Esse parece mais com o Beau que conheo - disse Cassy.
       - , quem era aquele outro cara falando no telefone? - perguntou Pitt.
       -  o cara que vai estar trabalhando na Cipher em junho prximo - afirmou Beau. - Oua o que eu digo. Depois disso, quem sabe? Enquanto voc, meu amigo, vai 
perder mais quatro anos na faculdade de medicina.
       Pitt deu uma gargalhada.
       - Perder quatro anos na faculdade de medicina? - perguntou ele. - Bem, no deixa de ser um ponto de vista curioso, embora distorcido.
       Cassy aproximou-se mais de Beau e comeou a mordiscar o lbulo de sua orelha. Beau afastou-a.
       - Meu Deus, Cassy, h professores que eu conheo aqui, gente que pode escrever cartas de recomendao para mim.
       - Ah, no seja to quadrado - retrucou Cassy. - S estamos provocando voc porque est tenso. Na verdade, estou pasma que tenham ligado para voc da Cipher. 
 uma vitria e tanto. Imagino que recebam um mundo de pedidos de emprego.
       - Vai ser uma vitria ainda maior quando Randy Nite me oferecer um emprego - disse Beau. - Uma experincia inimaginvel.  um emprego de sonho. O homem vale 
bilhes.
       - Um emprego que tambm vai exigir muito de voc - lembrou Cassy, pensativa. - Provavelmente vinte e cinco horas por dia, oito dias por semana, quatorze meses 
por ano. No vai sobrar muito tempo para ns, principalmente se eu estiver dando aulas aqui.
       -  s uma maneira de dar um empurro na carreira - disse Beau. - Quero ganhar bem para que ns dois possamos desfrutar a vida.
       Pitt fingiu vomitar outra vez e implorou aos companheiros de desjejum que no o deixassem enjoado com aquelas bobagens sentimentais e romnticas.
       Assim que a comida chegou, o trio comeu rapidamente. Num gesto involuntrio, os trs consultaram seus respectivos relgios. No dispunham de muito tempo.
       - Algum topa um cinema hoje  noite? - perguntou Cassy, enquanto terminava o caf. - Tenho uma prova hoje e mereo um pequeno descanso.
       - Eu no posso, doura - respondeu Beau. - Tenho um trabalho para entregar daqui a dois dias. - Ele se virou e tentou chamar a ateno de Marjorie para pedir 
a conta.
       - E quanto a voc? - Cassy perguntou a Pitt.
       - Lamento - disse ele. - Estou de planto no centro mdico.
       - E o que me diz de Jennifer? - insistiu Cassy. - Eu podia ligar para ela.
       - Bem, voc  quem sabe - replicou Pitt. - Mas no por minha causa. Eu e Jennifer terminamos.
       - Ah, que pena - disse Cassy, sentida. - Eu achava que vocs formavam um belo casal.
       - Eu tambm - disse Pitt. - Infelizmente ela parece ter encontrado algum mais ao seu gosto.
       Durante um momento os olhos de Cassy e Pitt se encontraram e ento ambos desviaram o olhar, experimentando uma pontada de constrangimento e uma leve sensao 
de dj vu.
       Beau recebeu a conta e a estendeu sobre a mesa. Apesar dos trs terem tido vrios cursos de matemtica na universidade, foram necessrios cinco minutos para 
que calculassem quanto cada um devia, depois de acrescentarem uma gorjeta razovel.
       - Quer uma carona para o centro mdico? - Beau ofereceu a Pitt quando deixavam o restaurante, saindo para o sol da manh.
       - Obrigado - disse Pitt, de modo ambivalente. Estava se sentindo um pouco deprimido. O problema era que ainda nutria sentimentos romnticos em relao a Cassy, 
a despeito do fato de que ela o rejeitara e de Beau ser seu melhor amigo. Os dois se conheciam desde a escola elementar.
       Pitt estava alguns passos atrs dos amigos. Sua vontade era dar a volta at o lado do passageiro do carro de Beau e abrir a porta para Cassy, mas ele no 
queria fazer o amigo parecer mau. Em vez disso, seguiu-o, e estava prestes a passar para o banco traseiro, quando Beau ps o brao em seu ombro.
       - Que diabos  aquilo? - perguntou ele.
       Pitt seguiu o olhar de Beau. Enfiado na areia, bem em frente  porta do motorista, havia um curioso objeto preto e redondo, do tamanho aproximado da moeda 
de um dlar. Era liso, num formato simtrico abobadado e,  luz do sol, parecia ter um acabamento fosco que tornava difcil dizer se se tratava de metal ou pedra.
       - Devo ter pisado nessa porcaria quando saltei do carro - disse Beau. Via-se claramente a marca imprecisa de um p, formando um ngulo com um dos lados da 
cpula arredondada do objeto. - Fiquei imaginando por que teria escorregado.
       - Voc acha que caiu do seu carro? - indagou Pitt.
       - Parece estranho - afirmou Beau. Em seguida, abaixou-se e,com a lateral da mo, afastou parte da areia que cobria parcialmente o curioso objeto. Ao faz-lo, 
pde ver oito domos minsculos, simetricamente dispostos em torno da borda do objeto.
       - Ei, vamos, rapazes! - chamou Cassy de dentro do carro. - Tenho um compromisso na escola onde fao o estgio. J estou atrasada.
       - S um segundo - respondeu Beau. Em seguida, perguntou a Pitt: - Tem idia do que seja isso?
       - Nem imagino - admitiu Pitt. - Vamos ver se o carro funciona.
       - Isso no  do carro, seu idiota - retrucou Beau  com o polegar e o indicador da mo direita, tentou apanhar o objeto, que, no entanto, resistiu a seus esforos. 
- Deve ser a extremidade de algum basto ou tubo enterrado.
       Usando ambas as mos para afastar o cascalho e a areia que se amontoavam em torno do pequeno objeto, Beau surpreendeu-se ao conseguir ergu-lo rapidamente. 
No era parte de um basto. A parte de baixo era achatada. Beau o apanhou. Na altura da abbada, tinha cerca de um centmetro de espessura.
       - Merda, esta coisa  pesada para o tamanho que tem - constatou Beau, passando-o a Pitt, que o sopesou na palma da mo. Pitt assoviou e fez uma expresso 
de perplexidade, devolvendo-o ento a Beau.
       - Do que  feito? - indagou Pitt.
       - Parece chumbo. - Beau tentou arranhar a superfcie do objeto com a unha, mas no conseguiu. - Mas no  chumbo. Diabos, aposto que  mais pesado do que 
chumbo.
       - Me faz lembrar uma daquelas pedras pretas que de vez em quando encontramos na praia - disse Pitt. -Voc sabe, uma daquelas pedras que ficam rolando para 
c e para l durante anos com as ondas.
       Beau contornou a margem do objeto com os dedos indicador e polegar e fez um gesto como se fosse lan-lo.
       - Com essa base plana, aposto que posso faz-lo quicar na gua umas vinte vezes.
       - Que disparate! - replicou Pitt. -com esse peso, afundaria depois de quicar uma ou duas vezes.
       - Aposto cinco dlares como eu posso faz-lo quicar pelo menos dez vezes - desafiou Beau.
       - Apostado.
       - Am! - gritou Beau de repente. Deixando cair o objeto, que mais uma vez ficou meio enterrado na areia e no cascalho, ele agarrou a mo direita com a esquerda.
       - O que aconteceu? - perguntou Pitt, alarmado.
       - Essa maldita coisa me espetou - disse Beau,com raiva. Ao espremer a base do dedo indicador, fez com que uma gota de sangue aflorasse na ponta.
       - Ah, nossa! - exclamou Pitt,com sarcasmo. - Um ferimento mortal!
       - V se ferrar, Henderson - disse Beau,com uma careta. - Doeu. Parecia a ferroada de uma maldita abelha. Cheguei a sentir no brao.
       - Ah, septicemia instantnea - concluiu Pitt, mantendo o sarcasmo.
       - Que diabos  isso? - perguntou Beau,com nervosismo.
       - Levaria muito tempo para explicar, Sr. Hipocondraco. Alm disso, s estou brincando com voc.
       Beau abaixou-se e tornou a apanhar o pequeno disco negro. Inspecionou cuidadosamente sua borda, mas nada encontrou que pudesse justificar a ferroada.
       - Vamos, Beau! - chamou Cassy, zangada. - Preciso ir. Que droga vocs dois esto fazendo?
       - Est bem, est bem - disse Beau, olhando para Pitt e dando de ombros.
       Pitt curvou-se e, da base da ltima marca deixada pelo objeto na areia, ergueu um fino caco de vidro.
       - Isso no poderia ter-se prendido a essa coisa de alguma forma e cortado voc?
       - Suponho que sim - disse Beau. No achava muito provvel, mas no lhe ocorria nenhuma outra explicao. Estava convencido de que no havia como atribuir 
a culpa ao objeto.
       - Beauuuuu! - chamou Cassycom os dentes cerrados.
       Beau acomodou-se ao volante de seu 4x4. Ao faz-lo, distraidamente guardou o curioso disco abobadado no bolso do palet. Pitt tambm entrou no carro.
       - Agora, sim, vou chegar atrasada - bufou Cassy.
       - Qual foi a ltima vez em que tomou uma vacina antitetnica? - perguntou Pitt do banco de trs.
       A menos de dois quilmetros do Costa's Diner, os Sellers encontravam-se nos estgios finais de sua rotina matinal. A minivan da famlia j tinha o motor ligado 
graas a Jonathan, que estava sentado, em expectativa, ao volante do carro. Sua me, Nancy, podia ser vista emoldurada pela porta aberta da frente da casa. Vestia 
um conjunto simples, condizente com sua posio de virologista pesquisadora numa empresa farmacutica local. Tratava-se de uma mulher pequena, 1,58m de altura,com 
os cabelos de cachos compactos e louros de uma Medusa.
       - Ande logo, meu bem. - Nancy chamou o marido, Eugene, que estava ao telefone da cozinha, falando com um reprter do jornal local, um conhecido seu. Eugene 
fez sinal pedindo mais um minuto.
       Impaciente, Nancy transferiu o peso do corpo de uma perna para a outra e observou o homem que h vinte anos era seu marido. Ele parecia exatamente o que era: 
um professor universitrio de fsica. Ela nunca conseguira convenc-lo a deixar as calas largas e o palet de veludo cotel, a camisa de cambraia azul e a gravata 
de tric. Chegara ao ponto de comprar-lhe roupas melhores, mas estas ficaram penduradas, sem uso, no armrio. No entanto, ela no se casara com Eugene por sua conscincia 
da moda ou pela falta desta. Haviam se conhecido na universidade e ela se apaixonara perdidamente por sua inteligncia, seu humor e a suavidade de suas feies.
       Voltando-se, ela olhou para o filho, em cujo rosto podia decididamente ver tanto a si mesma quanto ao marido. Ele lhe parecera assumir uma atitude defensiva 
nessa manh, quando ela havia perguntado o que ele fizera na noite anterior na casa do amigo Tim. O tom evasivo, pouco caracterstico de Jonathan, deixou-a preocupada. 
Nancy sabia das presses a que eram submetidos os adolescentes.
       - Estou sendo franco, Art - ia dizendo Eugene, num tom de voz alto o bastante para que Nancy ouvisse. - No existe a possibilidade de uma carga to poderosa 
de ondas de rdio ter vindo de um dos laboratrios do departamento de fsica. Eu sugeriria que vocs checassem com as estaes de rdio da rea. Existem duas, alm 
da rdio universitria. Suponho que possa ter sido alguma brincadeira. Eu simplesmente no sei.
       Nancy tornou a olhar para o marido. Ela sabia que era difcil para ele ser indelicado com algum, mas todos iriam se atrasar. Erguendo um dedo, ela pronunciou 
as palavras "um minuto" para Eugene. Em seguida, andou at o carro.
       - Posso dirigir hoje? - pediu Jonathan.
       - No creio que seja o dia ideal - replicou Nancy. - J estamos atrasados. Chegue para l.
       - Puxa - queixou-se Jonathan. - Vocs nunca acreditam que eu seja capaz de fazer nada.
       - Isso no  verdade - objetou Nancy. - Mas com certeza no acho que seja apropriado faz-lo dirigir quando estamos com tanta pressa.
       Nancy acomodou-se ao volante.
       - Cad o papai? - murmurou Jonathan.
       - Est falando com Art Talbot - explicou Nancy. Ela olhou para o relgio. O minuto estava esgotado. Nancy acionou a buzina.
       Felizmente Eugene apareceu  porta, que ele ento trancou. Correu para o carro e saltou para o banco de trs. Nancy rapidamente deu marcha  r, saindo para 
a rua, e acelerou em direo  primeira parada: a escola de Jonathan.
       - Lamento fazer todos esperarem - disse Eugene depois de percorrerem uma pequena distncia em silncio. - Aconteceu um fenmeno curioso na noite passada. 
Parece que vrios aparelhos de TV, rdios e at mesmo os mecanismos de portas de garagem eletrnicas foram danificados na rea prxima  universidade. Me diga uma 
coisa, Jonathan: voc e Tim estavam ouvindo rdio ou vendo TV por volta das dez e quinze? Pelo que eu saiba, os Appleton moram naquela rea.
       - Quem, eu? - perguntou Jonathan de pronto. - No, no. A gente estava... lendo. , a gente estava lendo.
       Nancy olhou o filho com o canto dos olhos. No pde deixar de se perguntar o que na verdade ele estivera fazendo.
       - Uau! - exclamou Jesse Kemper, conseguindo evitar que um copo fumegante de caf entornasse em seu colo quando seu parceiro, Vince Garbon, manobrou o carro 
da ronda na entrada da Pierson's Electrical Supply, fornecedores de equipamento eletrnico, localizada a algumas quadras do Costa's Diner.
       Jesse j havia passado dos cinqenta e ainda era atltico. A maioria das pessoas pensava que ele no tivesse mais de quarenta. Era um homem que impressionava, 
com um bigode farto compensando o cabelo que escasseava no alto da grande cabea.
       Jesse era um tenente detetive da polcia municipal muito estimado pelos colegas. Fora apenas o quinto afro-americano na fora policial, mas, encorajada por 
sua folha de servios, a cidade comeara um srio trabalho de recrutamento de afro-americanos, ao ponto de agora o departamento espelhar, no aspecto racial, a comunidade.
       Vince guiou o sed sem distintivo em torno do edifcio e parou diante de uma porta de garagem aberta, perto de uma radiopatrulha municipal.
       - Preciso ver isso - disse Jesse, descendo do banco do passageiro.
       Voltando de uma sada para um caf, ele e Vince ouviram no rdio que um ladrozinho reincidente, de nome Eddie Howard, fora encontrado depois de passar a 
noite encurralado por um co de guarda. Eddie era to conhecido do departamento de polcia que era quase um amigo.
       Esperando at que seus olhos acostumados  luz do sol brilhante se ajustassem ao interior sombrio, Jesse e Vince ouviram vozes  direita, atrs de uma estante 
de prateleiras macias que iam do cho ao teto. Quando deram a volta at l, encontraram dois policiais uniformizados recostados, como se tivessem parado para fumar 
um cigarro. Grudado a um canto estava Eddie Fjoward.  frente dele, um enorme pitbull preto e branco, imvel como uma esttua. Os olhos fixos do animal estavam colados 
em Eddie, como duas bolas de gude negras.
       - Kemper, graas a Deus - disse Eddie, permanecendo rgido, enquanto falava. - Leve esse bicho para longe de mim!
       Jesse olhou para os dois policiais uniformizados.
       - J telefonamos e o proprietrio est a caminho - esclareceu um deles. - Normalmente no chegam aqui antes das nove.
       Jesse assentiu e voltou-se para Eddie.
       - H quanto tempo est a?
       - A droga da noite toda - disse Eddie. - Espremido contra essa parede.
       - Como entrou? - indagou Jesse.
       - Simplesmente andando - respondeu Eddie. - Estava perambulando pela vizinhana e de repente a porta da garagem se abriu sozinha, como num passe de mgica. 
Ento, entrei para me certificar de que tudo estava bem. Voc sabe, eu quis ajudar.
       Jesse deu uma gargalhada breve e zombeteira.
       - Acho que o tot aqui pensou que voc quisesse outra coisa.
       - Vamos l, Kemper - gemeu Eddie. - Tire essa fera de perto de mim.
       - No devido tempo - respondeu Jesse,com uma risadinha.
       - No devido tempo. - Em seguida, tornou a dirigir-se aos policiais. - Vocs verificaram a porta da garagem?
       - Com certeza - replicou o segundo policial.
       - Algum sinal de que a entrada tenha sido forada? - perguntou Jesse.
       - Acho que Eddie est falando a verdade com relao a isso - respondeu o policial. Jesse abanou a cabea.
       - Aconteceram mais coisas estranhas na noite passada do que se pode imaginar.
       - Principalmente neste lado da cidade - acrescentou Vince.
       Sheila Miller estacionou o BMW vermelho conversvel em sua vaga cativa perto da entrada da Emergncia. Deslizando o banco dianteiro para a frente, ela olhou 
o videocassete queimado. Tentou pensar numa forma de levar o aparelho, a valise e uma pilha de pastas para sua sala numa s viagem. Parecia pouco provvel que conseguisse 
at que viu um Toyota utilitrio preto parar na rea de descarga e dele saltar um passageiro.
       - Por favor, Sr. Henderson - chamou Sheila quando reconheceu Pitt. Ela fazia questo de saber o nome de todos que trabalhassem em seu departamento, do recepcionista 
ao cirurgio. - Posso lhe falar por um momento?
       Embora estivesse obviamente com pressa, Pitt voltou-se ao ouvir seu nome. Reconheceu de imediato a Dra. Miller. Timidamente, mudou de direo, desceu os degraus 
da plataforma de carga e aproximou-se do carro dela.
       - Sei que estou um bocadinho atrasado - disse Pitt, nervoso. A Dra. Miller tinha a reputao de ser uma administradora severa. Seu apelido entre os funcionrios 
do escalo mais baixo, principalmente os residentes do primeiro ano, era "Senhora Drago". - Mas no vai acontecer de novo - acrescentou Pitt.
       Sheila consultou o relgio e ento voltou a olhar para Pitt.
       - Voc est indicado para comear medicina no outono.
       - Isso mesmo - respondeu Pitt, seu pulso acelerando.
       - Bem, pelo menos tem uma aparncia melhor do que a maior parte dos alunos deste ano - observou Sheila, ocultando um sorriso. Ela podia perceber a ansiedade 
de Pitt.
       Confuso pelo comentrio, que lhe pareceu um elogio, Pitt simplesmente assentiu. Na verdade, ele no sabia o que dizer. Tinha a sensao que ela estava brincando 
com ele, mas no estava muito certo.
       -Vou lhe dizer uma coisa - comeou Sheila, fazendo um gesto com a cabea na direo do assento traseiro. - Se voc levar esse vdeo para a minha sala, no 
mencionarei essa grave infrao ao sub-reitor.
       Pitt agora tinha uma razovel certeza de que a Dra. Miller estava caoando dele, mas ainda assim achava melhor manter a boca fechada. Sem dizer nada, apanhou 
o videocassete e seguiu a Dra. Miller, entrando na Emergncia.
       Havia uma atividade moderada, principalmente devido a alguns pequenos acidentes de trnsito no comeo da manh. De quinze a vinte pacientes aguardavam na 
sala de espera, contando-se mais alguns na seo de trauma. Os funcionrios presentes na recepo cumprimentaram a Dra. Millercom sorrisos, mas lanaram olhares 
perplexos a Pitt, especialmente aquele que deveria ser rendido por Pitt.
       Eles seguiram pelo corredor principal e estavam prestes a entrar na sala de Sheila quando ela avistou Kerry Winetrop, um dos tcnicos em eletrnica do hospital. 
Manter todo o equipamento de monitoramento do hospital funcionando era uma tarefa que ocupava em tempo integral vrias pessoas. Sheila chamou o homem, que obsequiosamente 
se aproximou.
       - Meu videocassete teve um problema ontem  noite - disse Sheila, indicando com a cabea o aparelho nas mos de Pitt.
       - Seja bem-vinda ao clube - disse Kerr. - A senhora e mais um bando de gente. Parece que houve uma sobretenso na rede de TV a cabo na rea da universidade 
cerca de dez e quinze da noite de ontem. Eu j dei uma olhada em alguns aparelhos que as pessoas trouxeram hoje cedo.
       - Sobretenso, ? - observou Sheila.
       - Minha TV explodiu - disse Pitt.
       - Pelo menos minha TV est OK - ponderou Sheila.
       - Ela estava ligada quando o vdeo queimou? - indagou Kerry.
       - No - respondeu Sheila.
       - Bem, esse  o motivo por que ela no explodiu - afirmou o eletricista. - Se estivesse ligada, a senhora teria perdido tambm seu tubo de imagem.
       - O vdeo tem conserto? - perguntou Sheila.
       - S se trocarmos a maior parte das peas - esclareceu Kerry. - Para lhe dizer a verdade, fica mais barato comprar um novo.
       - Que pena - lamentou-se Sheila. - Justo agora que eu finalmente aprendi a acertar o relgio deste.
       Cassy subiu correndo os degraus da Escola Secundria Anna C. Scott e entrou no momento em que a sineta anunciava o comeo da primeira aula. Lembrando a si 
mesma que se desesperar em nada ajudaria, ela disparou pela escada principal acima e atravessou apressada o corredor at a sala que lhe fora designada. Estava na 
metade do ms de observao das aulas de ingls numa turma do terceiro ano. Essa era a primeira vez que se atrasava.
       Parando  porta para tirar o cabelo do rosto e alisar a frente do recatado vestido de algodo, no pde deixar de ouvir o evidente pandemnio que acontecia 
no interior da sala. Esperara ouvir a voz estridente da Sra. Edelman, mas em vez disso veio uma mixrdia de vozes e risadas. Cassy entreabriu a porta e olhou para 
dentro da sala.
       Os alunos estavam casualmente espalhados pela sala. Alguns de p, outros sentados sobre a tampa dos aquecedores e nas mesas. Era uma colmia de grupos isolados 
de conversa.
       Abrindo um pouco mais a porta, Cassy pde ver o porqu daquele caos. A Sra. Edelman no estava presente.
       Cassy engoliu em seco. Sua boca se ressecara. Durante um segundo, debateu sobre o que fazer. Sua experincia com garotos do ginsio era mnima. Toda a sua 
prtica de ensino at ali fora no nvel elementar. Concluindo que tinha pouca escolha e respirando fundo, empurrou a porta e entrou.
       Ningum prestou ateno a ela. Avanando at a mesa da Sra. Edelman, na frente da sala, Cassy viu um bilhete com a letra da professora, que dizia simplesmente: 
Srta. Winthrape, eu me atrasarei por alguns minutos. Por favor, comece a aula. Com o corao disparado, Cassy relanceou os olhos pela cena que tinha diante de si. 
Sentiu-se incompetente, uma impostora. Ela no era uma professora, pelo menos no ainda.
       - Com licena! - gritou Cassy, sem obter resposta.
       Gritou ento mais alto. Por fim, berrou o mais alto que pde, o que produziu um silncio perplexo na sala, fazendo com que ela se visse agraciada com cerca 
de trinta pares de olhos fixos, cujas expresses iam da surpresa  irritao por terem sido interrompidos, passando ainda pelo franco desdm.
       - Por favor, voltem a seus lugares - disse Cassy. Sua voz tremia mais do que ela gostaria que transparecesse.
       Relutantes, os alunos fizeram o que lhes foi pedido.
       - Muito bem - prosseguiu Cassy, tentando ganhar confiana. - Sei qual era a tarefa de vocs, portanto, at a Sra. Edelman chegar, que tal discutirmos o estilo 
de Faulkner num sentido geral? Algum voluntrio para comear?
       Os olhos de Cassy percorreram a sala. Os alunos, que momentos antes eram a imagem da animao, agora pareciam talhados em mrmore. A expresso daqueles que 
ainda olhavam para ela era vazia. Um garoto ruivo impertinente franziu os lbios num beijo silencioso no momento em que os olhos de Cassy encontraram os seus. A 
jovem ignorou o gesto.
       Cassy podia sentir o suor que brotava junto  linha de seus cabelos. As coisas no estavam indo bem. No fim da segunda fileira de cadeiras, ela viu um garoto 
louro absorto com um computador laptop.
       Relanceando os olhos pelo grfico das cadeiras afixado no meio do mata-borro que cobria a mesa da professora, Cassy leu o nome do garoto: Jonathan Sellers.
       Tornando a erguer os olhos, Cassy tentou outra vez:
       - OK, pessoal. Eu sei que  legal bagunar a minha aula. Afinal, sou apenas uma estudante que ainda vai ser professora e vocs todos sabem muito mais sobre 
o que se passa aqui do que eu, mas...
       Naquele momento, a porta se abriu. Cassy virou-se, esperando ver a competente Sra. Edelman. Em vez disso, porm, a situao tornou-se ainda pior. O Sr. Partridge, 
o diretor, entrou na sala.
       Cassy entrou em pnico. O Sr. Partridge era um homem austero e um rgido disciplinador. Cassy s o vira uma vez, quando ela e seus colegas passavam pela etapa 
da orientao. Ele deixara bem claro que o programa de estgio no lhe agradava e que s concordara com ele sob coao.
       - Bom dia, Sr. Partridge - Cassy conseguiu dizer. - Posso ajud-lo em alguma coisa?
       - Apenas continue!-respondeu asperamente o Sr. Partridge.
       - Fui informado do atraso da Sra. Edelman e ento resolvi passar aqui para observar um pouco.
       - Naturalmente - disse Cassy, voltando a ateno para os alunos paralisados e limpando a garganta. -Jonathan Sellers - chamou. - Talvez voc pudesse comear 
o debate.
       -  claro - assentiu Jonathan, agradavelmente. Cassy deixou escapar um imperceptvel suspiro de alvio.
       - William Faulkner foi um dos principais escritores americanos - anunciou Jonathan, tentando fazer suas palavras parecerem de improviso.
       Cassy podia ver que ele estava lendo na tela do computador, mas no se importava. Na verdade, sentia-se grata por seu expediente.
       - Ele  conhecido pela vivida caracterizao de seus personagens e por seu estilo rebuscado...
       Tim Appleton, sentado na frente de Jonathan, tentava em vo abafar uma risada, pois sabia o que o amigo estava fazendo.
       - Muito bem - disse Cassy. - Vamos ver como essas caractersticas se aplicam  histria que lhes foi pedida que lessem para hoje. - Ela voltou-se para o quadro-negro 
e escreveu "personagens vividos" e ao lado "estrutura narrativa complexa". Ento, ouviu a porta do corredor se abrir e fechar. Lanando um olhar naquela direo, 
ficou aliviada em ver que o carrancudo Sr. Partridge se fora.
       Voltando a encarar a turma, sentiu-se feliz ao ver as mos erguidas de vrios alunos dispostos a participar da discusso. Antes de passar a palavra a um deles, 
Cassy dirigiu a Jonathan um sorriso discreto, porm agradecido. Ela no tinha certeza, mas acreditou ver que o garoto enrubescia antes de voltar a ateno para seu 
laptop.
       
       
       3
       11:15
       
       O Olgavee Hall, com fileiras de assentos escalonadas, era um dos maiores auditrios da faculdade de administrao. Embora no fosse aluno da ps-graduao, 
Beau recebera permisso especial para assistir a um curso de marketing avanado que era extremamente popular entre os alunos de administrao. Na verdade, era to 
popular que necessitava da lotao do Olgavee. As palestras eram animadas e estimulantes. O curso era ministrado num estilo interativo, com um professor diferente 
a cada semana. A desvantagem era que cada aula exigia muita preparao. Era necessrio estar pronto para ser requisitado a qualquer momento.
       Beau, porm, atipicamente, estava tendo problemas em se concentrar na palestra desse dia. E a culpa no era do professor. Era sua. Para consternao de seus 
vizinhos imediatos, assim como dele mesmo, Beau no conseguia parar de se remexer em sua cadeira. Comeara a sentir dores incmodas nos msculos, o que o impedia 
de encontrar uma posio confortvel. E ainda por cima tinha uma dor de cabea indefinida por trs dos olhos. O que piorava as coisas era o fato de estar sentado 
no centro do auditrio, na quarta fileira, imediatamente  frente do palestrante. Beau sempre fazia questo de chegar cedo para conseguir o melhor lugar.
       Ele podia perceber que o palestrante estava ficando irritado, mas no sabia o que fazer.
       Tudo comeara quando estava a caminho do Olgavee Hall. O primeiro sintoma fora uma sensao de formigamento no nariz, provocando uma onda de espirros violentos. 
No levou muito tempo para que ele comeasse a assoar o nariz a todo instante. Inicialmente, pensou que havia apanhado uma gripe. Mas agora era obrigado a admitir 
que devia ser algo mais. A irritao progredira com rapidez, passando dos seios nasais  garganta, que agora estava dolorida, principalmente quando ele engolia. 
Para tornar as coisas piores, teve incio uma tosse persistente, que fazia doer sua garganta tanto quanto o ato de engolir.
       A pessoa sentada logo  frente de Beau voltou-se e fuzilou-o com o olhar, depois de um acesso especialmente explosivo de tosse.
        medida que o tempo se arrastava, o pescoo enrijecido de Beau comeou a incomod-lo particularmente. Ele tentou massagear os msculos, mas isso de nada 
adiantou. At mesmo a lapela do palet parecia exacerbar-lhe o desconforto. Pensando que o objeto que parecia de chumbo em seu bolso poderia estar contribuindo de 
algum modo para aquele mal-estar, Beau apanhou-o e colocou-o sobre a mesa  sua frente. Ele parecia estranho, apoiado ali sobre suas anotaes. Sua forma perfeitamente 
redonda e simetria singular sugeriam tratar-se de uma pea manufaturada, no entanto Beau no tinha a menor idia se era mesmo. Por um momento, pensou que talvez 
pudesse ser um peso para papis de desenho futurista, mas rejeitou a idia como por demais prosaica. O mais provvel era que fosse uma minscula escultura, mas honestamente 
ele no saberia dizer. Ocorreu-lhe a vaga idia de lev-lo ao departamento de geologia a fim de perguntar se no poderia ser o resultado de um fenmeno natural, 
como um geodo.
       Ao refletir sobre o objeto, Beau foi levado a examinar o minsculo ferimento na ponta de seu dedo indicador. Agora via-se um ponto vermelho no centro de alguns 
milmetros de pele plida e azulada, em torno dos quais havia um halo avermelhado de uns dois milmetros. O local estava levemente dolorido ao toque. Era como se 
um mdico o houvesse espetado com uma daquelas estranhas lancetas usadas para extrair uma pequena amostra de sangue.
       Um calafrio interrompeu os pensamentos de Beau, sacudindo-lhe o corpo. O tremor foi seguido por um acesso prolongado de tosse. Quando finalmente conseguiu 
recuperar o flego, reconheceu a inutilidade de tentar ficar at o fim da palestra. Ele no estava aproveitando nada e, alm de tudo, estava atrapalhando os colegas 
e o palestrante.
       Beau juntou seus papis, tornou a guardar a suposta miniatura no bolso e se levantou. Precisou pedir licena mltiplas vezes a fim de mover-se lateralmente 
ao longo da fileira. Devido ao espao restrito, sua sada causou uma significativa comoo. Um dos alunos chegou a deixar cair o fichrio de folhas soltas, que se 
abriu e espalhou o contedo.
       Quando Beau finalmente conseguiu chegar ao corredor, viu de relance o palestrante protegendo os olhos de modo a ver com clareza quem estava causando toda 
aquela confuso. Aquela era uma pessoa a quem Beau no pediria uma carta de recomendao.
       Sentindo-se tanto emocional quanto fisicamente exausta ao fim do dia letivo, Cassy desceu a escadaria principal da escola e alcanou o caminho no formato 
de ferradura diante do prdio. Estava bastante claro para ela que, do ponto de vista do professor, preferia a escola elementar  secundria. Em sua opinio, os secundaristas, 
j adolescentes, em geral pareciam excessivamente egocntricos e interessados em desafiar com freqncia os seus limites. Ela achava at mesmo que alguns deles eram 
decididamente maldosos. Mil vezes uma criana da terceira srie, inocente e vida em aprender, refletiu ela.
       O sol da tarde aqueceu o rosto de Cassy. Protegendo os olhos com a mo, ela examinou a profuso de veculos estacionados ali. Estava procurando o 4x4 de Beau, 
que insistia em ir busc-la todas as tardes e costumava estar sempre  sua espera quando ela saa. Obviamente, hoje seria diferente.
       Procurando um lugar para sentar, Cassy viu um rosto familiar esperando ali perto. Era Jonathan Sellers, da aula de ingls da Sra. Edelman. Cassy foi at ele 
e o cumprimentou.
       - Ah... oi - gaguejou Jonathan. Ele olhou  sua volta, nervoso, esperando no ser visto por nenhum dos colegas de turma. Podia sentir o rosto queimando. O 
fato era que em sua opinio Cassy era a professora mais bonita que eles j haviam tido, e fora o que ele dissera a Tim depois da aula.
       - Obrigada por quebrar o gelo hoje de manh - agradeceu Cassy. - Foi uma grande ajuda. Por um momento, pensei que estivesse num enterro, no meu enterro.
       - Foi pura sorte eu estar tentando ver o que havia sobre Faulkner em meu laptop.
       - Ainda acho que foi preciso coragem da sua parte para dizer alguma coisa - afirmou Cassy. - Eu agradeo. Aquele certamente foi o pontap inicial. Tive medo 
de que ningum falasse.
       - Meus amigos s vezes sabem como ser sacanas - admitiu Jonathan.
       Uma mini van azul-escura parou junto ao meio-fio. Nancy Sellers curvou-se sobre o banco dianteiro e abriu a porta do passageiro.
       - Oi, me - disse Jonathan,com um aceno um tanto constrangido.
       Os olhos brilhantes e inteligentes de Nancy Sellers saltavam do filho de dezessete anos para a jovem bastante sexy, j em idade universitria. Ela sabia que 
o interesse do filho por garotas crescera subitamente, mas aquela situao parecia um pouquinho inadequada.
       - Voc no vai me apresentar  sua amiga? - indagou Nancy.
       - Ah, claro - disse Jonathan, fitando a rachadura na calada. - Essa  a Srta. Winthrope.
       Cassy inclinou-se para diante e estendeu a mo.
       - Prazer em conhec-la, Sra. Sellers. Pode me chamar de Cassy.
       - Cassy, ento - replicou Nancy, apertando a mo estendida da jovem. Houve um silncio breve, porm incmodo, antes que Nancy perguntasse h quanto tempo 
Cassy e Jonathan se conheciam.
       - Meeee! - gemeu Jonathan. Ele soube instantaneamente o que ela estava insinuando e ficou mortificado. - A Srta. Winthrope  estagiria na aula de ingls.
       - Ah, entendo - disse Nancy,com um certo alvio.
       - Minha me  uma virologista pesquisadora - informou Jonathan para mudar de assunto e tentar explicar como ela era capaz de dizer uma coisa to estpida.
       -  mesmo? - replicou Cassy. - Trata-se certamente de um campo interessante e importante no mundo de hoje. A senhora trabalha no Centro Mdico da Universidade?
       - No, sou funcionria da Serotec Pharmaceuticals - respondeu Nancy. - Mas meu marido trabalha na universidade.  o diretor do departamento de fsica.
       - Nossa me! - exclamou Cassy. Estava impressionada. - No  de se admirar que tenham um filho to brilhante assim.
       Sobre o cap da van dos Sellers, Cassy avistou Beau entrando no caminho em forma de ferradura.
       - Bem, foi um prazer conhec-la. - Cassy disse a Nancy. Em seguida, virando-se para Jonathan: - Obrigada mais uma vez por hoje.
       - No foi nada - insistiu Jonathan.
       Cassy dirigiu-se meio saltitando meio correndo para o ponto onde Beau havia estacionado.
       Jonathan observou-a ir, hipnotizado pelo movimento de suas ndegas sob o fino vestido de algodo.
       - Bem, voc vai comigo para casa ou no? - perguntou Nancy para quebrar o encanto. Estava voltando a pensar que alguma coisa estava acontecendo e que ela 
ignorava o que fosse.
       Jonathan sentou-se no banco da frente depois de colocar cuidadosamente o laptop no assento de trs.
       - Por que ela estava agradecendo a voc? - indagou Nancy quando se afastavam. Ela podia ver Cassy entrando num veculo utilitrio, dirigido por um rapaz atraente 
cuja idade regulava com a da jovem. As preocupaes de Nancy tornaram a se desfazer. Era difcil educar um adolescente: num minuto voc se sentia orgulhosa, no seguinte, 
preocupada. Era uma montanha-russa emocional para a qual Nancy no estava preparada. Jonathan deu de ombros.
       - Como eu disse, por nada.
       - Puxa vida! - exclamou Nancy, frustrada. - Conseguir arrancar uma informao, por menor que seja, de voc, me faz lembrar daquele ditado que fala sobre tirar 
leite de pedra.
       - Me d um tempo, me - foi a resposta de Jonthan. Quando passavam pelo 4x4, ele tornou a olhar Cassy de soslaio. Ela estava sentada no carro, conversando 
com o motorista.
       - Voc parece pssimo - observou Cassy. Ela havia girado o corpo no banco de modo a olhar diretamente para o rosto de Beau. Cassy nunca o vira to plido 
assim. O suor brotava emm sua testa, como minsculos caboches de topzio. Os olhos do rapaz estavam vermelhos, expelindo secreo.
       - Obrigado pelo elogio - replicou Beau.
       -  verdade - disse Cassy. - Qual o problema?
       - No sei - respondeu Beau. Ele cobriu a boca, enquanto tossia. - Comecei com isso pouco antes da aula de marketing e est piorando. Acho que peguei uma gripe. 
Sabe, dores musculares, dor de garganta, nariz escorrendo, dor de cabea, essas coisas.
       Cassy estendeu a mo e tocou-lhe a fronte suada.
       - Voc est quente - constatou.
       - Estranho, pois estou com frio. Estou tendo calafrios. Cheguei a me enfiar na cama, mas assim que me vi debaixo de cobertores, senti calor e chutei-os para 
longe.
       --Deveria ter ficado na cama - observou Cassy. - Eu podia ter pegado uma carona com um dos outros estagirios.
       - No havia como entrar em contato com voc - retrucou Beau.
       - Homens! - exclamou Cassy, saltando do carro. - Vocs nunca admitem quando esto doentes.
       - Aonde est indo? - indagou Beau.
       Cassy no respondeu. Em vez disso, deu a volta pela frent do carro e abriu a porta de Beau.
       - Chega pra l - disse ela. - Eu dirijo.
       Posso muito bem dirigir - insistiu Beau.
       - Sem discusso. Anda logo!
       Beau no tinha energia para protestar. Alm disso, ele sabia que era melhor mesmo, ainda que no admitisse.
       Cassy deu a partida no carro. Na esquina, ela virou  direita ao invs de  esquerda.
       - Aonde diabos voc est indo? - perguntou Beau com a cabea latejando, ele queria voltar para a cama.
       - Vamos para a enfermaria estudantil no Centro Mdico da Universidade - explicou Cassy. - No estou gostando do seu jeito.
       - Eu vou ficar bem - queixou-se Beau, mas no continuou a protestar. Estava se sentindo pior a cada minuto.
       A entrada da enfermaria estudantil era por dentro da Emergncia e, quando Cassy e Beau passavam, Pitt os viu e saiu detrs do balco da recepo.
       - Santo Deus! - exclamou Pitt ao olhar para Beau. - Por acaso a organizao Nite cancelou sua entrevista? Ou voc foi atropelado pela equipe feminina de atletismo?
       - No estou precisando das suas piadinhas - murmurou Beau. - Acho que peguei uma gripe.
       - Acho que no est enganado - disse Pitt. - Venha, fique aqui num dos biombos da Emergncia. No creio que eles o queiram assim l no ambulatrio estudantil.
       Beau deixou-se conduzir at um cubculo. Pitt facilitou a consulta, trazendo uma das enfermeiras mais simpticas e ento saindo para buscar um dos mdicos 
mais experientes da Emergncia.
       Beau foi rapidamente examinado pelo mdico e a enfermeira. Uma amostra de sangue foi colhida e ele foi colocado no soro.
       - Isso  s para hidrat-lo - explicou o mdico, dando um tapinha no frasco do soro. - Acho que temos aqui uma gripe sria, mas seus pulmes esto limpos. 
Ainda assim, creio que  melhor voc ficar na enfermaria estudantil, pelo menos por algumas horas, para ver se conseguimos baixar essa febre e controlar a tosse. 
Enquanto isso, teremos tempo para dar uma olhada no exame de sangue, no caso de alguma coisa ter me escapado.
       - No quero ficar no hospital - queixou-se Beau.
       - Se o mdico diz que voc deve ficar, voc vai ficar - afirmou Cassy. - No quero ouvir nenhuma bobagem machista.
       Pitt pde mais uma vez agilizar as coisas e em meia hora Beau estava confortavelmente instalado num dos quartos reservados aos alunos. Parecia um tpico quarto 
de hospital,com piso de vinil, moblia de metal, um aparelho de TV e uma janela que dava para o gramado. Beau foi vestido com um pijama. Suas roupas foram penduradas 
no armrio e a carteira, o relgio e a mini escultura negra fora  guardada num armrio tipo cofre, preso ao topo da cmoda. Cassy programou a combinao do cadeado 
com os quatro ltimos dgitos do telefone de seu apartamento.
       Pitt despediu-se, voltando  recepo da Emergncia.
       - Confortvel? - perguntou Cassy. Beau estava deitado de costas, de olhos fechados. Fora-lhe administrado um inibidor da tosse, que j estava fazendo efeito. 
Ele estava exausto.
       - Tanto quanto se pode esperar - murmurou ele.
       - O mdico disse que eu voltasse daqui a algumas horas - informou Cassy. - Os exames j estaro prontos e o mais provvel  que eu possa lev-lo para casa.
       -Vou estar aqui - disse Beau. Agradava-lhe a estranha e lnguida sensao de sono que ia se apossando dele, como um bem-vindo cobertor. Nem mesmo ouviu Cassy 
fechar a porta ao sair.
       Nunca antes Beau dormira to profundamente. No chegou nem mesmo a sonhar. Depois de vrias horas nessa espcie de coma, seu corpo adquiriu uma leve fosforescncia. 
Dentro do armrio tipo cofre, o mesmo ocorreu com o objeto disciforme preto, particularmente com uma das oito pequenas excrescncias abobadadas que se enfileiravam 
ao longo da borda do objeto. De repente, o minsculo disco destacou-se e comeou a flutuar. Seu brilho intensificou-se at tornar-se um ponto de luz, como uma estrela 
distante.
       Movendo-se lateralmente, o ponto de luz entrou em contato com a lateral do cofre, mas no desacelerou com um silvo abafado e algumas fascas, ele atravessou 
o metal, deixando um buraco pequenino, perfeitamente simtrico, atrs dele.
       Uma vez livre do confinamento do cofre, o ponto de luz seguiu diretamente para Beau, fazendo com que a luminosidade deste se intensificasse. Aproximou-se 
do olho direito de Beau, pairando a alguns milmetros sobre ele. Lentamente, a intensidade do ponto de luz diminuiu at readquirir sua cor preta opaca normal.
       Alguns impulsos visveis de luz desprenderam-se do pequeno objeto e chocaram-se com a plpebra de Beau. Instantaneamente, o olho se abriu, enquanto o outro 
permanecia fechado. A pupila exposta foi dilatada ao mximo, restando apenas uma estreita faixa de ris.
       Impulsos de radiao eletromagntica foram ento despachados para o interior do olho aberto de Beau, basicamente no comprimento de onda da luz visvel. Era 
um computador fazendo um download para outro, e a operao durou quase uma hora.
       - Como est nosso paciente predileto? - Cassy perguntou a Pitt quando atravessou a porta da Emergncia. Pitt s a viu depois que ela falou. A Emergncia estava 
movimentada e o mantinha muito ocupado.
       - Bem, pelo que sei - respondeu Pitt. - Dei uma olhada nele algumas vezes, e a enfermeira tambm. O tempo todo ele dormiu como um beb. No creio nem que 
tenha se mexido. Devia estar exausto.
       - O exame de sangue ficou pronto? - quis saber Cassy.
       - Ficou, e est tudo normal. A contagem de leuccitos estava ligeiramente alta, mas apenas os linfcitos mononucleares.
       - Ei, lembre-se de que est falando com uma leiga - disse Cassy.
       - Desculpe - pediu Pitt. - Em outras palavras: ele pode ir para casa. E ento, o procedimento normal: muito lquido, aspirina, descanso, amor e carinho.
       - O que preciso fazer para que seja liberado? - indagou Cassy.
       - Nada - respondeu Pitt. - J cuidei de toda a burocracia. S precisamos lev-lo para o carro. Vamos,vou dar uma ajuda.
       Pitt pediu licena  enfermeira-chefe para se ausentar por alguns minutos. Ele apanhou uma cadeira de rodas e comeou a atravessar o corredor, a caminho da 
enfermaria estudantil.
       - Acha que a cadeira de rodas  necessria? - perguntou Cassy, preocupada.
       -  melhor lev-la, para o caso de haver algum problema - disse Pitt. - Beau tinha as pernas bastante trmulas quando veio para c.
       Chegaram ao quarto e Pitt bateu levemente. No obtendo resposta, ele entreabriu a porta e olhou l para dentro.
       - Exatamente como pensei - disse ele. Ento, abriu bem a porta, empurrando a cadeira de rodas. - A Bela Adormecida ainda no se mexeu.
       Pitt parou a cadeira e seguiu Cassy at a cama. Cada um dirigiu-se a um lado diferente da cama.
       - O que foi que eu lhe disse? A prpria imagem da tranqilidade. Por que no o beija e v se ele no vira um sapo?
       - Devemos acord-lo? - perguntou Cassy, ignorando a tentativa de Pitt de fazer graa.
       - Vai ser difcil lev-lo para casa se no o acordarmos.
       - Ele parece to calmo - observou Cassy. - Tambm parece infinitamente melhor do que antes. Na verdade, sua cor est normal.
       - Acho que sim - concordou Pitt.
       Cassy estendeu a mo e delicadamente sacudiu o brao de Beau, ao mesmo tempo em que chamava seu nome baixinho. Como este no respondesse, ela sacudiu com 
um pouco mais de fora.
       Os olhos de Beau piscaram, se abrindo. Ele olhou os dois amigos, indo de um ao outro.
       - Ei, como  que vocs esto? - perguntou.
       - Creio que ns  que devemos fazer esta pergunta - replicou Cassy.
       - Eu? Estou bem - respondeu Beau. Ento seus olhos percorreram rapidamente o quarto. - Onde estou?
       - No centro mdico - esclareceu Cassy.
       - O que estou fazendo aqui? - quis saber Beau.
       - No se lembra? - Cassy estava preocupada.
       Beau abanou a cabea. Em seguida, atirou os lenis para um lado e passou os ps sobre a borda da cama.
       - No se lembra de ter se sentido mal na aula? - insistiu Cassy. - No se recorda de que eu o trouxe para c?
       - Ah, sim - disse Beau. - Est voltando. , lembro, sim. Eu estava me sentindo pssimo. - Ento olhou para Pitt. - Nossa, o que foi que vocs me deram? Me 
sinto um outro homem.
       - Parece que voc s precisava de um bom sono. Exceto por um pouco de soro para hidratar, na verdade no lhe demos nada.
       Beau se levantou e espreguiou-se.
       - Talvez fosse bom eu vir aqui me hidratar mais vezes - disse ele. - Que diferena! - Lanou um olhar  cadeira de rodas. - Para que essa coisa?
       - Para voc, no caso de precisar - explicou Pitt. - Cassy veio lev-lo para casa.
       - Eu certamente no preciso de uma cadeira de rodas - afirmou Beau. Em seguida, tossiu e fez uma careta. - Bem, minha garganta ainda est um pouco dolorida, 
e eu ainda estou com um pouco de tosse, mas vamos embora daqui. - Dirigiu-se ao armrio e apanhou suas roupas. Retirou-se para o banheiro e empurrou a porta, quase 
fechando-a. - Cassy, pode apanhar minha carteira e meu relgio nesse cofre? - pediu ele, pela porta entre aberta.
       Cassy caminhou at a cmoda e ajustou a combinao.
       - Se vocs no precisam mais de mim, vou voltar  recepo - anunciou Pitt.
       Cassy voltou-se, enquanto enfiava a mo no cofre.
       - Voc foi um amor - disse ela, sua mo agarrando a carteira e o relgio de Beau. Ento os tirou e fechou a porta. Indo at Pitt, ela o abraou. - Obrigada 
pela sua ajuda.
       - Ora, sempre que precisar - disse Pitt, constrangido. Ele olhou para os prprios ps e em seguida para a janela. Cassy sempre conseguia deix-lo perturbado.
       Beau saiu do banheiro ainda ajeitando a camisa.
       - , obrigado, meu amigo - disse. Deu um soco de leve no brao de Pitt. - Eu agradeo de verdade.
       - Fico feliz que esteja melhor - replicou Pitt. - At mais. - Pitt agarrou a cadeira de rodas e saiu do quarto, empurrando-a.
       -  um grande sujeito - afirmou Beau. Cassy assentiu.
       - Vai dar um timo mdico. Ele  muito atencioso.
       
       
       4
       22:45
       
       Charlie Arnold trabalhava no Centro Mdico da Universidade havia 37 anos, desde seu dcimo stimo aniversrio, quando decidira abandonar a escola. Comeara 
no Departamento de Manuteno, aparando a grama, podando as rvores e limpando os canteiros de flores. Infelizmente, uma alergia a grama o tirara daquela rea. No 
entanto, como fosse um funcionrio muito estimado no hospital, a administrao lhe ofereceu uma posio na faxina. Charlie aceitara e gostava do trabalho. Principalmente 
nos dias quentes, gostava mais do que trabalhar ao ar livre.
       Charlie gostava de trabalhar sozinho. O supervisor lhe dava uma lista dos quartos a serem limpos e l ia ele. Nessa noite, tinha mais um quarto para visitar: 
um dos reservados aos alunos da universidade. Estes eram sempre mais fceis do que os quartos comuns do hospital, nos quais ele nunca sabia o que iria encontrar. 
Dependia da doena do ltimo ocupante. As vezes as condies eram bastante ruins.
       Assoviando baixinho, Charlie abriu a porta, empurrou o balde com o esfrego e puxou o carrinho de limpeza.com as mos nos quadris, ele examinou o quarto. 
Como esperara, s precisava passar levemente o pano com desinfetante e tirar a poeira. Foi at o banheiro e deu uma olhada. No parecia nem mesmo ter sido usado.
       Charlie sempre comeava pelo banheiro. Depois de vestir as grossas luvas de proteo, ele esfregou o chuveiro e a pia e desinfetou o vaso sanitrio. Em seguida, 
limpou o cho.
       Passando para o quarto, retirou os lenis da cama e esfregou o colcho com um pano. Tirou o p de todas as outras superfcies horizontais, incluindo o peitoril 
da janela. Estava prestes a comear a passar o pano no cho, quando uma claridade lhe chamou a ateno. Ficando de frente para o armrio, ele fitou o cofre. Embora 
sua mente lhe dissesse que era absurdo, a caixa de metal parecia estar brilhando, como se houvesse uma luz imensamente poderosa ali dentro.  claro que aquilo no 
fazia sentido: o cofre era feito de metal e portanto no importava quo forte fosse uma luz, ainda que houvesse uma no interior do cofre, pois seu brilho no transpareceria.
       Charlie apoiou o esfrego na borda superior do balde e deu alguns passos na direo do armrio, na inteno de abrir a porta do cofre. Entretanto, parou a 
cerca de trs passos dali. O brilho que cercava a caixa ficara mais forte. Charlie chegou a imaginar sentir um calor queimar-lhe o rosto!
       O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi sair correndo do quarto, mas ele hesitou. Aquele era um espetculo confuso e ligeiramente assustador, mas ao mesmo 
tempo curioso.
       Ento, para perplexidade de Charlie, uma chuva de fascas jorrou da lateral do cofre, acompanhada por um silvo semelhante a uma solda eltrica. As mos de 
Charlie instintivamente ergueram-se a fim de proteger o rosto das fascas, mas o movimento se deteve quase no mesmo momento em que comeou. Do ponto de onde eram 
expedidas as fascas, um disco luminoso e giratrio de cor vermelha, do tamanho de uma moeda de um dlar, surgiu. O objeto rasgou o metal, deixando uma fenda fumegante.
       Completamente atnito diante do fenmeno, Charlie no conseguia se mexer. O disco giratrio movia-se lentamente no sentido lateral, em direo  janela, passando 
a um passo de seu brao.  janela, o objeto pairou, como se apreciasse a vista do cu noturno. Ento sua cor mudou do vermelho para o branco. Uma coroa surgiu, como 
um estreito halo.
       A curiosidade de Charlie impeliu-o a aproximar-se daquele misterioso objeto. Ele sabia que ningum iria acreditar quando o descrevesse. Estendendo a mo, 
a palma voltada para baixo, ele a deslizou de um lado para o outro acima do objeto, certificando-se de que no havia ali um arame ou cordo. No conseguia entender 
como aquela coisa podia pairar no ar.
       Sentindo o calor que emanava do pequeno disco, Charlie fechou as mos em concha e, lentamente, foi aproximando-as cada vez mais do objeto. Era um calor estranho, 
que fazia formigar sua pele. Quando suas mos alcanaram a coroa, o formigamento aumentou.
       O objeto ignorou Charlie at que este, inadvertidamente, bloqueou a viso que aquele tinha do cu noturno. No momento em que o fez, o disco moveu-se numa 
linha lateral e, antes que Charlie pudesse reagir, instantaneamente e sem qualquer esforo abriu um buraco no centro da palma de sua mo! Pele, ossos, ligamentos, 
nervos e vasos sangneos foram todos volatilizados.
       Charlie deixou escapar um grito mais de surpresa do que de dor. Fora tudo to rpido! Ele cambaleou para trs, olhando boquiaberto a mo perfurada, em total 
incredulidade, e sentindo o inequvoco cheiro de carne queimada. No instante seguinte, a coroa em torno do objeto luminoso se expandiu at alcanar uns trinta centmetros 
de dimetro.
       Antes que Charlie pudesse esboar uma reao, uma espcie de silvo comeou a soar e rapidamente aumentou de volume at tornar-se ensurdecedor. Ao mesmo tempo, 
Charlie sentiu uma fora pux-lo em direo  janela. Freneticamente, estendeu a mo intacta e agarrou a cama no momento em que sentia os ps despregarem-se do cho 
abaixo dele. Rangendo os dentes, ele conseguiu segurar-se, embora a prpria cama se movesse. A violncia do som e do movimento durou apenas alguns segundos antes 
que fosse sobrepujada por um barulho que fazia lembrar vagamente um compartimento a vcuo se fechando.
       Charlie soltou a cama e tentou pr-se de p, mas no conseguiu. Os msculos de suas pernas pareciam borracha. Ele sabia que alguma coisa horrvel e errada 
estava acontecendo, e tentou gritar, pedindo ajuda, mas sua voz estava fraca e ele salivava to copiosamente que a fala se tornava quase impossvel. Reunindo o pouco 
de fora que lhe restava, tentou arrastar-se em direo  porta, mas o esforo foi em vo. Depois de dar apenas alguns passos, comeou a ter nsias de vmito. Momentos 
depois, a escurido absoluta caa sobre o corpo de Charlie, violentamente sacudido por uma srie rpida e fatal de convulses epilpticas.
       
       
       5
       2:10
       
       Para os padres dos apartamentos estudantis, aquele era relativamente luxuoso e espaoso, e, como fosse localizado no segundo andar, tinha at mesmo uma vista. 
Tanto os pais de Cassy quanto os de Beau queriam que os filhos morassem em um ambiente decente e assim mostraram-se dispostos a aumentar a mesada dos filhos quando 
estes decidiram mudar-se dos respectivos dormitrios. Parte da razo para essa generosidade era que ambos tinham currculos acadmicos estelares.
       Cassy e Beau haviam encontrado o apartamento oito meses antes e juntos eles o pintaram e mobiliaram com aquisies de segunda mo, que foram por sua vez lixadas 
e repintadas. As cortinas eram lenis de cama disfarados.
       A janela do quarto dava para o leste, o que s vezes era um incmodo devido  intensidade do sol matinal. No era um quarto propcio a que se dormisse at 
tarde. No entanto, pouco depois das duas da manh, a escurido o dominava, exceto por um feixe de luz que entrava diagonalmente pela janela, vinda de um Poste eltrico 
no estacionamento.
       Cassy e Beau dormiam profundamente: Cassy de lado e Beau de costas. Como sempre acontecia, Cassy se movia a intervalos regulares, virando-se primeiro para 
um lado, depois para o outro. Beau, por sua vez, no se mexera em absoluto. Ele dormia de costas, imvel, da mesma forma como naquela tarde, na enfermaria estudantil.
       Exatamente s duas e dez, os olhos fechados de Beau comearam a brilhar, assim como os nmeros de rdio no mostrador de um velho despertador de corda que 
Cassy herdara da av. Depois de alguns minutos, durante os quais foram gradualmente aumentando de intensidade, as plpebras de Beau se abriram repentinamente. Ambos 
os olhos estavam dilatados, da mesma forma que ocorreracom seu olho direito naquela tarde, e brilhavam como se fossem fontes de luz.
       Depois de alcanarem um pico de luminosidade, comearam a perder a cor at as pupilas readquirirem a sua colorao negra. Ento as ris se contraram at 
reassumirem um tamanho mais normal. Aps piscar algumas vezes, Beau deu-se conta de que estava acordado.
       Lentamente, ele se sentou na cama. Assim como quando despertara no hospital, sentiu-se momentaneamente desorientado. Correndo os olhos pelo quarto, no demorou 
para que identificasse onde estava. Em seguida, ergueu as mos e estudou-as flexionando os dedos. Suas mos pareciam diferentes, mas no sabia dizer como. Na verdade, 
todo seu corpo parecia diferente de uma forma inexplicvel.
       Estendendo a mo para Cassy, sacudiu-lhe delicadamente o ombro. Ela reagiu virando-se de costas. Os olhos pesados de sono fitaram-no. Quando viu que ele estava 
sentado, imediatamente imitou-o.
       - O que houve? - perguntou, a voz rouca. -Voc est bem?
       - timo - respondeu Beau. - Perfeito.
       - Sem tosse?
       - Por enquanto, no. A garganta tambm est boa.
       - Por que me acordou? Quer que eu apanhe alguma coisa para voc?
       - No, obrigado - disse Beau. - Pensei que voc gostaria de ver uma coisa. Venha comigo!
       Beau saiu da cama e deu a volta, parando ao lado de Cassy. Segurou-lhe a mo e a ajudou a levantar-se.
       - Quer me mostrar uma coisa agora? - indagou Cassy, lanando um olhar ao relgio.
       - Agora mesmo - confirmou Beau, conduzindo-a ento a sala de estar e at a porta de correr que levava  sacada. Quando fez sinal para que sasse, Cassy resistiu.
       - No posso sair - disse ela. - Estou nua.
       - Ora, venha. Ningum vai nos ver. S vai levar um momento e, se no sairmos agora, perderemos.
       Cassy debatia-se consigo mesma.  meia-luz, ela no conseguia ver a expresso de Beau, mas ele parecia sincero. A idia de que isso fosse alguma brincadeira 
passou por sua cabea.
       -  melhor que seja algo interessante - advertiu Cassy, finalmente passando sobre o trilho da porta de correr.
       O ar da noite tinha o frescor habitual e Cassy abraou a si prpria. Ainda assim, todos os pontos erteis na superfcie de seu corpo arrepiaram-se. Ela sentiu 
toda a pele eriar-se.
       Beau parou atrs dela e envolveu-a nos braos para ajudar a controlar o tremor que ela sentia. Os dois estavam de p junto  grade, que tinha vista livre 
para um grande retalho do cu. A noite estava sem nuvens, sem lua, porm clara.
       - OK, o que voc espera que eu veja? - perguntou ela. Beau apontou para o cu, na direo norte.
       - Olhe para l, na direo das Pliades, na constelao de Taurus.
       - O que  isso, afinal? Uma aula de astronomia? - indagou Cassy. - So duas e dez da manh. Desde quando voc sabe alguma coisa sobre as constelaes?
       - Olhe! - ordenou Beau.
       - Estou olhando. Mas o que devo ver?
       Naquele momento, ocorreu uma chuva de meteoros de caudas extraordinariamente longas, todos surgindo velozmente do mesmo ponto do cu, como uma gigantesca 
exibio de fogos de artifcio.
       - Meu Deus! - exclamou Cassy, prendendo a respirao at que a chuva de estrelas cadentes cessasse. O espetculo era to impressionante que, momentaneamente, 
ela se esqueceu do frio. - Nunca vi uma coisa assim. Foi lindo.  isso que eles chamam de chuva de meteoro?
       - Acho que sim - disse Beau, vagamente.
       - Ser que vai ter mais? - indagou Cassy, os olhos ainda grudados no ponto de origem.
       - No, isso  tudo - respondeu Beau. Ento soltou Cassy e seguiu-a de volta ao interior do apartamento, fechando a porta de correr.
       Cassy correu de volta para a cama, mergulhando sob os lenis. Quando Beau apareceu, ela segurava as cobertas com firmeza em torno do pescoo e estava tremendo. 
Mandou que ele entrasse sob o cobertor para aquec-la.
       - Com todo prazer - disse ele.
       Eles se aconchegaram por um momento e os tremores de Cassy abrandaram. Afastando o rosto da curva do pescoo de Beau, onde se aninhara, ela tentou fitar os 
olhos do namorado, mas estes estavam perdidos na penumbra.
       - Obrigada por me levar at l para ver a chuva de meteoros - disse ela. - A princpio, pensei que voc estivesse tentando me pregar uma pea. Mas eu tenho 
uma pergunta para fazer: Como sabia que isso ia acontecer?
       - No me lembro - respondeu Beau. -Acho que ouvi e algum lugar.
       - Ser que leu no jornal? - sugeriu Cassy.
       - No creio. - Beau coou a cabea. - No consigo me lembrar.
       Cassy deu de ombros.
       -Bem, no importa. O que conta  que conseguimos ver, como foi que voc acordou?
       - No sei.
       Cassy afastou-se e acendeu a luz de cabeceira. Ela examinou o rosto de Beau, que sorriu sob seu escrutnio.
       - Tem certeza de que est tudo bem? - indagou ela. Beau sorriu.
       - Claro, tenho certeza - disse ele. - Sinto-me timo.
       6
       6:45
       
       Era uma daquelas manhs cristalinas, sem nuvens, em que o ar estava to fresco que quase se podia sentir-lhe o sabor. As montanhas mais distantes sobressaam 
com uma nitidez impressionante. O cho, normalmente seco, estava coberto por uma leve camada de orvalho que cintilava como uma poro de diamantes.
       Beau ficou ali parado por um momento, absorvendo o cenrio. Era como se o estivesse vendo pela primeira vez. Achou inacreditvel a variedade de cores das 
colinas distantes e perguntou-se por que no percebera isso antes.
       Estava vestido de maneira casual,com uma camisa de algodo, jeans e sapatos tipo mocassim sem meias. Pigarreou, limpando a garganta. A tosse se fora e a garganta 
j no doa quando ele engolia.
       Passando pela entrada de seu edifcio, ele percorreu o caminho que levava  rea de estacionamento nos fundos. Na areia que margeava o lado extremo, encontrou 
o que estava procurando. Trs miniesculturas negras, idnticas quela que encontrara no estacionamento do Costas Diner na manh anterior. Terminou de desenterr-las, 
livrou-as do p e as guardou em bolsos Separados.
       Com a misso realizada, deu meia-volta e refez os passos at o edifcio.
       Dentro do apartamento, o despertador tocou prximo  cabea de Cassy. O relgio ficava do seu lado da cama porque Beau tinha o mau hbito de desativ-lo to 
rapidamente que nenhum dos dois chegava de fato a despertar.
       A mo de Cassy surgiu de sob as cobertas e pressionou a base que o desativava. O despertador silenciou-se por dez deliciosos minutos. Virando-se de costas, 
Cassy estendeu a mo na direo de Beau, a fim de sacudi-lo, a primeira de muitas vezes. Beau no era uma pessoa matinal.
       A mo de Cassy, em sua explorao, encontrou apenas lenis vazios e frios. O mbito da busca foi ampliado. Ainda nada. Cassy abriu os olhos e olhou para 
Beau, mas ele no estava ali. Surpresa pela inesperada mudana na rotina matinal, Cassi sentou-se e ficou atenta a algum rudo revelador vindo do banheiro. A casa 
estava em silncio. Beau nunca se levantava antes dela. De repente, ela temeu que seu mal-estar houvesse retornado.
       Depois de vestir rapidamente o roupo, Cassy foi at a sala de estar. Estava prestes a cham-lo pelo nome quando o viu perto do aqurio. Ele estava inclinado, 
examinando os peixes. Estava to absorto que no a ouviu. Enquanto ela observava, Beau colocou o dedo indicador da mo direita de encontro ao vidro do aqurio. De 
alguma maneira, o dedo concentrou a luz fluorescente do aqurio de tal forma que sua ponta se tornou luminosa.
       Hipnotizada pela cena, Cassy simplesmente deixou-se ficar ali, continuando a observar. Logo todos os peixes se dirigiram para o ponto em que o dedo de Beau 
tocava o vidro. Quando ele deslizou o dedo num movimento lateral, os peixes seguiram-no obedientemente.
       - Como consegue fazer isso? - perguntou Cassy.
       Surpreso com a presena dela, Beau empertigou-se, deixando a mo cair ao lado do corpo. No mesmo instante, os peixes se dispersaram para os cantos opostos 
do aqurio.
       - No ouvi voc entrar na sala - disse Beau com um sorriso agradvel.
       - Isso eu percebi - retrucou Cassy. - O que voc estava fazendo para atrair os peixes daquela maneira?
       Sei l - respondeu Beau. - Talvez tenham pensado queu ia lhes dar comida. - Ele aproximou-se de Cassy e apoiou os braos sobre seus ombros. Seu sorriso estava 
radiante. - Voc est linda hoje.
       Ah, sim, com certeza - disse Cassy, em tom de brincadeira.
       Ela despenteou os cabelos espessos e ento fingiu ajeit-los.
       - Perfeito, agora estou pronta para o concurso de Miss Amrica. - Ela fitou os olhos de Beau. Tinham um tom especialmente fulgurante de azul e as esclerticas 
apresentavam o branco mais puro. - Voc  quem est maravilhoso - afirmou Cassy.
       - Eu me sinto maravilhoso - disse Beau, inclinando-se para beij-la nos lbios, mas Cassy escapou por debaixo de seus braos.
       - Espere - disse ela. - Esta candidata a miss ainda tem de escovar os dentes. No quero ser desqualificada por causa do hlito matinal.
       - No h a menor chance de que isso ocorra - replicou Beau, com um sorriso malicioso.
       Cassy inclinou a cabea para um lado.
       - Voc est muito animadinho hoje - observou ela.
       - Como j disse, me sinto timo.
       - Essa gripe com certeza foi muito rpida - afirmou Cassy. - Eu diria que a sua recuperao foi surpreendente.
       - Acho que tenho de agradecer a voc por me arrastar para o centro mdico - replicou Beau. - Foi l que as coisas comearam a melhorar.
       - Mas o mdico e a enfermeira no fizeram nada - lembrou Cassy. - Eles mesmos admitiram.
       Beau deu de ombros.
       - Ento trata-se de uma nova cepa de vrus que causa uma gripe rpida. Mas certamente no sou eu que vou reclamar de sua pouca durao.
       - Nem eu - disse Cassy, dirigindo-se ao banheiro. - Por que voc no faz um caf enquanto eu tomo banho?
       - O caf j est pronto - informou Beau. -Vou trazer uma xcara para voc.
       - Nossa, mas que eficincia! - gritou Cassy, atravessando o quarto.
       - Neste hotel o servio  nada menos do que cinco estrelas - brincou Beau.
       Cassy continuava a se admirar da rpida recuperao de Beau. Lembrando-se da aparncia que ele tinha quando ela entrou no carro em frente  escola Anna C. 
Scott, ela nunca teria suspeitado de uma coisa dessas. Cassy abriu o chuveiro e ajustou a temperatura. Quando estava ao seu gosto, entrou. A primeira providncia 
era lavar os cabelos, o que fazia todos os dias.
       Assim que se viu com o cabelo cheio de xampu, ouviu uma batida na porta do boxe. Sem abrir os olhos, disse a Beau que deixasse a caneca de caf em cima da 
pia.
       Enfiando a cabea sob o jato d'gua, ela comeou a enxaguar. A prxima coisa que viu era que Beau estava debaixo do chuveiro com ela.
       Cassy abriu os olhos, incrdula. Beau estava bem diante dela sob o jato d'gua, completamente vestido. Inclusive de sapatos.!
       - O que voc est fazendo? - perguntou Cassy, confusa. Ela teve de rir. Era uma coisa to inesperada, to absurda, para ele fazer.
       Beau nada disse. Em vez disso, estendeu as mos e avidamente puxou o corpo nu e molhado de Cassy para si, enquanto seus lbios buscavam os dela. Foi um beijo 
profundo, sensual, carnal!
       Cassy conseguiu uma chance para respirar, rindo do absurdo que estavam fazendo. Beau tambm riu, enquanto Cassi colava os cabelos  sua testa.
       - Voc  louco! - murmurou Cassy. Seus cabelos ainda estavam cheios de espuma de xampu.
       - Louco por voc, para ser mais preciso - completeu Beau, tentando abrir o cinto.
       Cassy ajudou-o, abrindo os botes de sua camisa ensopada, desnudando-lhe os ombros musculosos. A situao podia at ser pouco convencional, principalmente 
para Beau, em geral metdico e compulsivo, mas para Cassy era excitante. Era de uma espontaneidade to maravilhosa, e a avidez de Beau acrescentava um tempero extra.
       Mais tarde, em meio  sua paixo, Cassy comeou a apreciar mais uma coisa. No s estavam fazendo amor numa circunstncia singular, como tambm de uma forma 
atpica. Beau a estava tocando de uma maneira diferente. No conseguia explicar exatamente, mas era maravilhoso, e ela estava adorando. Tinha algo a ver com uma 
gentileza e sensibilidade maiores do que de costume por parte de Beau, mesmo em meio ao seu ardor irresistvel.
       Erguendo as mos acima da cabea, Pitt espreguiou-se e olhou para o relgio sobre o balco da Emergncia. Eram quase sete e meia e logo a maratona de seu 
turno de 24 horas estaria encerrada. Ele j fantasiava quo deliciosa estaria sua cama quando deslizasse o corpo cansado entre os lenis. O objetivo do exerccio 
era lhe dar uma idia do que seria sua vida de residente, quando turnos de 36 horas seriam comuns.
       - Voc devia ir at o quarto onde eles encontraram aquele pobre sujeito da faxina - disse Cheryl Watkins, uma das enfermeiras diurnas que acabava de iniciar 
seu turno.
       - Por qu? - perguntou Pitt. Lembrava-se muito bem do paciente que fora trazido correndo para a Emergncia um pouco depois da meia-noite por algum da equipe 
de limpeza. Os mdicos iniciaram os procedimentos de ressuscitao, mas pararam logo em seguida ao perceber que a temperatura do corpo do paciente era quase a mesma 
ambiente.
       Concluir que o homem estava morto fora fcil. O difcil era saber o que o matara alm das evidentes convulses que sofrera. Havia um curioso buraco exangue 
em sua mo que um dos mdicos pensava ter sido causado pela eletricidade. No entanto, o registro na ficha dizia que ele fora encontrado num quarto sem qualquer acesso 
a correntes de alta voltagem.
       Outro mdico percebeu que o paciente apresentava cataratas particularmente densas, o que era estranho, pois no exame fsico anual dos funcionrios no haviam 
sido observadas cataratas no homem, e seus colegas de trabalho negaram que ele tivesse alguma deficincia visual. Isso sugeria que o homem sfrera um caso sbito 
de cataratas, idia esta rejeitada pelos mdicos. Nunca tinham ouvido falar de algo assim, mesmo numa vtima de uma forte descarga de eletricidade.
       A confuso acerca da provvel causa da morte levou a grande especulao e at mesmo a algumas apostas. A nica coisa certa era que ningum tinha qualquer 
certeza, e o corpo foi levado para a sala do mdico-legista, que daria a palavra final.
       - No vou lhe dizer por que voc deveria ver o quarto afirmou Cheryl. - Pois, se o fizesse, voc diria que eu estou zombando de voc. S digo que  muito 
esquisito.
       - Me d uma dica - pediu Pitt. Estava to cansado que a idia de percorrer todo o caminho at as dependncias do hospital no gerava muito entusiasmo, a menos 
que fosse por alguma coisa muito especial.
       - Voc tem de ver por si mesmo - insistiu Cheryl, saindo para uma reunio.
       Pitt batia um lpis na testa, enquanto ponderava. A idia que as circunstncias pudessem ser assim to esquisitas o intrigava. Chamando Cheryl, ele perguntou 
onde era o quarto.
       - Na enfermaria estudantil - gritou ela de volta, por sobre o ombro. - No tem como errar, pois tem uma multido de pessoas l tentando entender o que aconteceu.
       A curiosidade venceu a fadiga de Pitt. Se tantas pessoas assim estavam interessadas, talvez valesse o esforo de ir at l. Ele se ps de p e arrastou o 
corpo cansado pelo corredor. Pelo menos a enfermaria estudantil era perto dali. Enquanto caminhava, ocorreu-lhe vagamente que, se se tratasse mesmo de uma coisa 
estranha, talvez Cassy e Beau gostassem de saber a respeito, pois haviam estado ali na tarde anterior.
       Quando dobrou a ltima esquina que levava  enfermaria estudantil, Pitt pde ver uma pequena multido rondando por ali. Ao se aproximar do quarto, sua curiosidade 
aumentou, pois fosse l o que tivesse acontecido, fora no mesmo quarto que Beau ocupara.
       - O que est acontecendo? - sussurrou Pitt para uma de suas colegas, que tambm tinha uma bolsa de trabalho no hospital. Seu nome era Carol Grossman.
       - Se voc souber me dizer... - respondeu Carol. - Quando consegui ver, sugeri que talvez Salvador Dali tivesse passado por aqui, mas ningum achou graa.
       Pitt dirigiu-lhe um olhar confuso, mas ela no prosseguiu. Ento ele literalmente abriu caminho  fora. Havia tanta gente ali Que precisou avanar aos empurres. 
Infelizmente, foi um pouquinho agressivo demais ao faz-lo e conseguiu esbarrar numa das mdicas com fora suficiente para faz-la entornar o caf da xcara que 
tinha nas mos. Quando a mdica, zangada, virou-se para trs a fim de fuzilar Pittcom o olhar, este prendeu a respirao com tanta gente ali, tinha de ser justo 
a Dra. Sheila Miller!
       - Droga! - esbravejou ela, sacudindo o caf quente das costas da mo. Estava vestida com o jaleco branco comprido. Vrias manchas de caf apareceram em seu 
punho direito.
       - Eu sinto muitssimo - Pitt conseguiu dizer.
       Sheila ergueu os olhos verdes para os de Pitt. Ela parecia especialmente severa com os cabelos louros puxados para trs, bem apertados num coque compacto. 
Seu rosto estava afogueado pela irritao.
       - Sr. Henderson! - gritou ela. - Eu peo a Deus para que o senhor no tenha a pretenso de uma especialidade que requeira coordenao, como cirurgia ptica, 
por exemplo.
       - Foi um acidente - defendeu-se Pitt.
       - Claro, foi isso que as pessoas disseram sobre a Primeira Guerra Mundial - replicou Sheila. - E pense nas conseqncias! O senhor  o recepcionista da Emergncia. 
O que ist fazendo, em nome de Deus, entrando aqui dessa maneira?
       Pitt vasculhou com frenesi sua mente em busca de uma explicao razovel, alm da mera curiosidade. Simultaneamente, seus olhos varreram o quarto, na esperana 
de ver algo que lhe oferecesse uma sugesto. Em vez disso, o que viu o deixou Perplexo.
       A primeira coisa que lhe chamou a ateno foi que a cabeceira da cama tinha o formato distorcido, como se houvesse sido aquecida at o ponto de liquefao 
e ento puxada na direo da Janela, com a mesinha-de-cabeceira parecia ter acontecido o mesmo. Na verdade,  medida que seus olhos completavam o circuito do quarto, 
ele percebeu que a maior parte da moblia dos acessrios do cmodo havia sido deformada, como se fosser feitos de puxa-puxa. J as vidraas das janelas pareciam 
ter derretido, com o vidro formando estalactites que pendiam dos si portes.
       - O que foi que aconteceu aqui? - perguntou Pitt. Sheila falou entre dentes:
       - Para responder a essa pergunta  que esses profissionais esto aqui conversando. Agora volte para a recepo da Emergncia!
       - J estou indo - replicou Pitt, rapidamente. Depois de mais uma rpida olhada na estranha transformao do quarto, ele bateu em retirada em meio  multido. 
No pde deixar de se perguntar qual a extenso do dano que causara  sua carreira ao aborrecer a Senhora Drago.
       - Peo desculpas pela interrupo - disse Sheila, que conversavacom o tenente detetive Jesse Kemper e seu parceiro, Vince Garbon.
       - No tem problema - assegurou Jesse. - Eu no estava entendendo muita coisa mesmo. Quero dizer, estamos diante de uma situao bastante estranha, mas no 
acredito" que se trate da cena de um crime. Meus instintos me dizem que esse no  um caso de homicdio. Talvez vocs devessem chamar alguns cientistas aqui para 
nos dizer se um raio poderia ter entrado por essa janela.
       - Mas no tivemos uma tempestade ontem - insistiu Sheila.
       - Eu sei - disse Jesse, filosoficamente, estendendo as mos como um splice. - Mas a senhora disse que os engenheiros excluram a possibilidade de uma descarga 
eltrica do edifcio. O certo  que parece que o sujeito foi eletrocutado e, se foi msmo, talvez tenha sido um raio.
       - Eu no consigo acreditar nisso - afirmou Sheila. - No sou mdica-legista, mas sei que, quando um raio atinge uma pessoa, logo abre um buraco. Ele a prende 
ao cho, geralmente unindo pelos ps, algumas vezes at mesmo estourando os sapatos. No h evidncias de um aterramento aqui. Parece mais coisa de um poderoso raio 
laser.
       -  Ei,  uma hiptese - concordou Jesse. - No tinha pensado nisso. Vocs no tm raios laser aqui no hospital? Talvez algum tenha disparado pela janela.
       -  claro que temos raios laser no hospital - admitiu Sheila. - Mas nada que pudesse fazer o tipo de buraco que vimos na mo do Sr. Arnold. Alm disso, no 
consigo imaginar que um laser possa ser responsvel por essas estranhas distores que vemos na moblia.
       - Bem, estou completamente por fora aqui - afirmou Jesse. - Se a autpsia sugerir que temos um corpo de delito e um homicdio, nos envolveremos. Caso contrrio, 
acho que tero de chamar os cientistas e no a polcia.
       - J ligamos para o departamento de fsica da universidade - informou Sheila.
       - Acho que  o melhor que se tem a fazer - disse Jesse. - Enquanto isso, aqui est meu carto. - Ele se adiantou na direo de Sheila e lhe entregou o carto 
de visita. Tambm deu um a Richard Halprin, diretor do Centro Mdico Universitrio, e a Wayne Martinez, chefe da segurana do hospital. - Podem me chamar a qualquer 
momento. Estou muito interessado, de fato. Essas duas ltimas noites foram muito estranhas. Mais coisas esquisitas do que em todos os trinta anos na polcia. Ser 
que estamos na lua cheia?
       Ao fim do espetculo, a msica atingiu um crescendo e, com a ltima percusso dos pratos, o domo do planetrio escureceu. Em seguida, todas as luzes se acenderam. 
Instantaneamente, o auditrio irrompeu num ligeiro aplauso, alguns assovios e um balbucio de vozes excitadas. A maioria das cadeiras estava ocupada por crianas 
da escola elementar, numa excurso. Exceto Pelos professores e acompanhantes, Cassy e Beau eram os nicos adultos presentes.
       - Foi muito divertido - disse Cassy. - Eu tinha esquecido o que era um espetculo num planetrio. A ltima vez que vi um foi na quarta srie,com a turma da 
Srta. Korth.
       - Eu tambm gostei - afirmou Beau com entusiasmo. -  fascinante ver como  a galxia do ponto de vista da Terra.
       Cassy piscou e fitou Beau. Durante toda a manh ele parecia propenso a sair-se com uma curiosa e inusitada declarao.
       - Vamos - chamou Beau, alheio  ligeira perplexidade de Cassy. Ele se levantou. - Vamos tentar sair daqui antes dessas crianas barulhentas.
       De mos dadas, eles saram do auditrio e ficaram peram bulando pelo extenso gramado que separava o planetrio do museu de histria natural. Compraram cachorros-quentes 
com 1 molho de pimenta chili e cebola numa carrocinha. Num banco  sombra de uma rvore frondosa, sentaram-se para saborear seu almoo.
       - Eu tambm tinha esquecido de como matar aula pode ser divertido - disse Cassy entre mordidas no cachorro-quente. - Foi uma sorte eu no ter estgio hoje. 
Isto , matar aula  uma coisa, mas faltar ao estgio  algo inteiramente diferente. Eu no teria podido vir.
       - Fico feliz que tudo tenha dado certo - observou Beau.
       - Fiquei surpresa quando voc fez essa sugesto.  a primeira vez que voc mata aula, no ?
       -  - respondeu Beau. Cassy deu uma risada.
       - O que  isso? Um novo Beau? Primeiro voc age como um animal amoroso e entra no chuveiro com roupa e tudo, e agora, por vontade prpria, mata trs aulas. 
Mas no me entenda mal, no estou me queixando.
       -  tudo culpa sua - disse Beau. Deixou de lado o cachorro-quente e puxou Cassy para si, envolvendo-a num abrao provocante e sensual. -Voc  irresistvel. 
- Ele tentou beij-la, mas Cassy ergueu a mo e evitou o gesto.
       - Espere um segundo - riu ela. - Estou com pimenta pelo rosto todo.
       - Quanto mais tempero melhor - brincou Beau.
       Cassy limpou o rosto com o guardanapo.
       - O que foi que deu em voc?
       Beau no respondeu. Em vez disso, deu-lhe um beijo longo e delicioso. Assim como no chuveiro, a impulsividade do gesto foi positivamente outro fator a deix-la 
excitada.
       - Uau, voc est se transformando num Casanova de primeira! - disse Cassy, endireitando-se no banco e recuperando o flego, enquanto tentava se recompor. 
O fato de que podia ficar excitada com tanta facilidade, em pblico e em plena luz do dia, surpreendeu-a.
       Beau voltou, feliz, ao cachorro-quente. Enquanto mastigava, levantou a mo para proteger os olhos, enquanto olhava na direo do sol.
       - A que distncia dizem que a Terra fica do Sol? - perguntou.
       - Nossa, eu no sei - replicou Cassy. Tendo tido o desejo estimulado, era difcil mudar de assunto, principalmente para algo to especfico quanto distncias 
astronmicas. - Cento e quarenta e poucos milhes de quilmetros.
       - , isso. Cento e quarenta e nove. Isso significa que seriam necessrios pouco mais de oito minutos para que o efeito de uma erupo na cromosfera solar 
chegasse aqui.
       - Como? - espantou-se Cassy. Mais uma de suas declaraes inusitadas. Ela nem mesmo sabia o que era uma erupo na cromosfera solar.
       - Olhe - disse Beau, animado, apontando para o cu, a oeste. - Pode-se ver a lua, mesmo  luz do sol.
       Cassy protegeu os olhos e seguiu a linha indicada pelo dedo de Beau. Como era de se esperar, ela mal conseguiu divisar uma imagem difana da Lua. Voltou a 
ateno para Beau. Ele estava se divertindo imensamente, de uma forma cativante, quase infantil. Seu entusiasmo era contagiante e ela no podia deixar de se divertir 
tambm.
       - O que fez voc querer vir ao planetrio hoje? - indagou Cassy.
       Beau deu de ombros.
       - S interesse - disse ele. - Uma oportunidade para aprender um pouco mais sobre este belo planeta. Agora vamos para o museu. Est disposta?
       - Por que no? - replicou Cassy.
       Jonathan levou o almoo para fora. Num dia como aquele, detestava ficar na lanchonete lotada, principalmente porque no vira Candee ali. Contornando a bandeirola 
do losango central, seguiu para as arquibancadas descobertas que ladeavam o campo de beisebol. Sabia que aquele era um dos lugares preferidos de Candee quando queria 
fugir da multido.  medida que se aproximava, pde ver que seus esforos seriam recompensados. Candee estava sentada na arquibancada superior.
       Eles acenaram um para o outro e Jonathan comeou a subir. Uma leve brisa soprou, levantando a barra da saia de Candee e permitindo tentadores vislumbres de 
suas coxas. Jonathan tentou disfarar o olhar.
       - Oi - saudou Candee.
       - Oi - respondeu Jonathan, sentando-se ao lado dela e apanhando um de seus sanduches de banana com pasta de amendoim.
       - Eca! - disse Candee. - No acredito que voc consiga comer essa coisa.
       Jonathan examinou o sanduche antes de dar uma mordida.
       - Eu gosto - afirmou ele.
       - O que foi que Tim disse sobre o rdio? - perguntou! Candee.
       - Ainda est uma fera. Mas pelo menos no acha mais que foi nossa culpa. A mesma coisa aconteceu com um amigo do irmo dele.
       - Ainda podemos pedir o carro emprestado? - indagou Candee.
       - Receio que no.
       - O que vamos fazer?
       - No sei - disse Jonathan. - Queria tanto que meus pais no fossem to rgidos em relao ao carro. Eles me tratam como se eu tivesse doze anos. S me deixam 
dirigir aquela coisa quando esto junto.
       - Pelo menos seus pais deixaram voc tirar a carteira - queixou-se Candee. - Os meus vo me fazer esperar at eu ter dezoito anos.
       - Isso  criminoso - afirmou Jonathan. - Se tentassem isso comigo, acho que fugiria de casa; Mas tambm para o que serve minha carteira sem um carro?  to 
frustrante meus pais no confiarem em mim. Afinal, eu tenho um crebro. Alm disso, tiro notas boas e no uso drogas.
       Candee revirou os olhos.
       - No considero aquela maconha que a gente experimentou como droga - objetou Jonathan. - E quantas vezes ns usamos? Duas!
       - Ei, olhe l - disse Candee, apontando para a plataforma de carga e descarga, local em que os caminhes faziam entregas, pouco mais de vinte metros do local 
onde estavam. A plataforma ficava no nvel do subsolo e chegava-se a ela por uma rampa feita no cho bem atrs da barreira do campo de beisebol. - Aquele no  o 
Sr. Partridge com a enfermeira da escola? - perguntou Candee.
       - Com toda a certeza - confirmou Jonathan. - E ele no parece muito bem. Olhe como a Srta. Golden est amparando o velhote. E oua como ele est tossindo.
       Naquele momento, um antigo Lincoln Town Car surgiu pela lateral do edifcio e desceu a rampa. Ao volante, Candee e Jonathan reconheceram a Sra. Partridge, 
a quem os garotos da escola chamavam Miss Piggy. A Sra. Partridge parecia estar tossindo tanto quanto o marido.
       - Que dupla! - comentou Jonathan.
       Enquanto ele e Candee observavam, a Srta. Golden conseguiu fazer com que o encurvado Sr. Partridge descesse meio lance de degraus de cimento e entrasse no 
carro. A Sra. Partridge no saltou do veculo.
       - Ele parece estar muito mal - observou Candee.
       - Miss Piggy parece pior - replicou Jonathan.
       O carro deu marcha  r, fez a volta e acelerou, subindo a rampa. Na metade desta, esbarrou levemente na parede de concreto. O rudo spero e desagradvel 
fez Jonathan estremecer.
       - Adeus, pintura! - disse ele.
       - O que, em nome de Deus, voc est fazendo de volta aqui! - perguntou Cheryl Watkins. Ela estava sentada na recepo da Emergncia, quando Pitt Henderson 
passou, arrastando-se, pela porta giratria. Ele parecia exausto,com crculos escuros sob os olhos.
       - No consegui dormir - disse ele. - Ento pensei que deveria voltar e tentar salvar o que pudesse de minha carreira mdica.
       - Do que voc est falando? - indagou Cheryl.
       - Hoje de manh, quando fui olhar o quarto de que voc falou, cometi uma gafe desastrosa.
       - O que foi? - quis saber Cheryl. Vendo que estava perturbado, ela ficou preocupada. Pitt era muito querido na unidade.
       - Sem querer, eu esbarrei na Senhora Drago e ela derramou caf em si mesma e no jaleco - contou Pitt. - E eu vou lhe dizer uma coisa: ela ficou uma fera 
de verdade. Disse que queria saber o que eu estava fazendo l e eu, estpido que sou, no consegui pensar em nenhum motivo.
       - Oh-oh! - compadeceu-se Cheryl. - A Dra. Miller no gosta de sujar o jaleco, principalmente de manh cedo.
       - Como todos ns sabemos! - disse Pitt. - Ela foi bastante rude. Seja como for, pensei que, talvez, voltando para trabalhar, pudesse ao menos impression-la 
com minha dedicao.
       - Mal no vai fazer, embora esteja muito alm de sua obrigao - afirmou Cheryl. - Por outro lado, a ajuda  sempre til e eu vou providenciar para que nossa 
intrpida lder tome conhecimento do fato. Enquanto isso, por que voc no faz o registro de alguns dos casos mais rotineiros? Tivemos um acidente de trnsito grave 
h uma hora; por isso estamos bastante atrasados e os enfermeiros esto todos ocupados.
       Feliz em ter uma tarefa, principalmente uma de que gostava,  Pitt apanhou a ficha de cima da pilha e seguiu para a rea de espera dos pacientes. O nome da 
paciente era Sandra Evans, quatro anos.
       Pitt chamou o nome em voz alta. Da multido de pessoas, pacientemente aguardando nas duras cadeiras de plstico da sala apinhada, uma me com a filha se puseram 
de p. A mulher tinha trinta e poucos anos e estava bastante enlameada. A criana era encantadora, com cabelos louros cacheados, mas parecia doente e suja. Vestia 
um pijama manchado e um pequeno roupo.
       Tomando-lhes a frente, Pitt levou-as at um reservado para exame, onde ergueu a menina e a colocou sobre a mesa. Seus olhos azuis estavam embaciados e a pele 
plida e mida. Ela estava mal o bastante para no prestar muita ateno ao ambiente da Emergncia.
       - Voc  o mdico? - perguntou a me. Pitt parecia muito jovem.
       - O atendente - informou Pitt. Trabalhando na Emergncia j h algum tempo e tendo encaminhado um nmero suficiente de pacientes j identificados numa pr-seleo, 
Pitt no se sentia constrangido com sua posio.
       - Qual  o problema, anjinho? - perguntou Pitt, enquanto envolvia o brao de Sandra com o medidor de presso sangnea, fazendo este inflar.
       - Peguei uma grupe - disse Sandra.
       - Ela quer dizer gripe - interveio a me. - Ela no sabe explicar direito. Acho que  uma gripe. Comeou essa manh,com tosse e espirros.vou lhe dizer uma 
coisa: as crianas esto sempre tendo alguma coisa.
       A presso sangnea estava boa. Quando Pitt soltava o aparelho do brao de Sandra, percebeu um Band-Aid colorido na palma da mo direita da garotinha.
       - Parece que voc tem um dodi tambm - observou ele, apanhando o termmetro e preparando-se para tirar-lhe a temperatura.
       - Uma pedra me mordeu no jardim - informou Sandra.
       - Sandra, j te falei para no contar mentiras - repreendeu a Sra. Evans. Era bvio que a me estava no limite de sua pacincia.
       - No estou contando mentira - replicou Sandra, indignada.
       A Sra. Evans fez uma careta, como se dissesse: "O que foi fazer?"
       - Voc j foi mordida por muitas pedras? - brincou Pitt, enquanto lia o termmetro. A menina estava com 39,5C. E anotou a temperatura e a presso sangnea 
na ficha.
       - S uma - respondeu Sandra. - Uma preta.
       - Acho que precisamos tomar cuidado com as pedras pretas - disse Pitt. Em seguida, instruiu a me para observar a filha com ateno at a chegada do mdico.
       Pitt voltou para a recepo e ps a ficha no porta-fichas, onde seria apanhada pelo prximo mdico disponvel. Estava prestes a acomodar-se atrs do balco 
quando a porta de vaivm que levava  parte externa do hospital se abriu bruscamente.
       - Me ajudem - gritou um homem, que carregava nos braos uma mulher com convulses. Ele cambaleou alguns passos na Emergncia e ameaou desabar.
       Pitt foi o primeiro a alcanar o homem. Sem hesitar por um s segundo, aliviou o homem de seu fardo, tomando a mulher em seus prprios braos. Era difcil 
segur-la, pois ela se encontrava no auge de um acesso convulsivo.
       A essa altura, Cheryl Watkins j havia sado por detrs do balco da recepo, junto com vrios dos residentes da Emergncia. At a Dra. Sheila Miller viera 
correndo de sua sala com os gritos de socorro.
       - Para a sala de trauma - ordenou a Dra. Miller. Sem esperar pela maca, Pitt carregou a mulher que se contorcia para os fundos da Emergncia com a ajuda de 
Sheila, que se postara do outro lado da mesa de exame, Pitt deitou a paciente. Ao faz-lo, seus olhos encontraram-se com os de Sheila pela segunda vez naquele dia. 
Nenhuma palavra foi trocada, mas dessa vez uma mensagem completamente diferente foi transmitida.
       Pitt recuou, dando lugar aos enfermeiros e mdicos. Ele ficou ali parado, observando, desejando estar num estgio de seu treinamento em que j pudesse participar.
       A equipe mdica comandada por Sheila rapidamente fez cessar as convulses. Mas, quando comeavam a avaliar o que as provocara, a paciente teve outro acesso, 
dessa vez ainda mais violento.
       - Por que ela est assim? - gemeu o marido. Todos haviam se esquecido de que ele seguira o grupo. Uma das enfermeiras foi at ele e fez sinal para que sasse. 
- Ela tem diabetes, mas nunca teve um acesso desses. Isso no devia estar acontecendo. Isto , tudo que ela tinha era tosse.  uma mulher jovem. Alguma coisa est 
errada, eu sei disso.
       Alguns minutos depois de o marido ser levado para a sala de espera, Sheila ergueu a cabea rapidamente para olhar o monitor cardaco. Uma sbita mudana no 
som das batidas chamara sua ateno.
       - Oh-oh - disse ela. - Tem alguma coisa acontecendo aqui e eu no estou gostando nem um pouquinho.
       O batimento cardaco tornara-se irregular. Antes que algum pudesse reagir, o alarme do monitor disparou. A paciente estava fibrilando.
       - Emergncia cdigo vermelho! - soou uma voz estridente pelo sistema de som. Outros mdicos da Emergncia correram para o cubculo em resposta ao aviso de 
parada cardaca. Pitt recuou ainda mais, a fim de no atrapalhar. Para ele, o episdio era ao mesmo tempo estimulante e assustador. Perguntou-se se algum dia aprenderia 
o suficiente para participar com competncia de uma situao semelhante.
       A equipe trabalhou incansavelmente, mas sem nenhum resultado. Por fim, Sheila endireitou o corpo e passou o antebrao pela testa suada.
       - OK, acabou - disse,com relutncia. - Ns a perdemos. - Durante os ltimos trinta minutos o monitor havia exibido uma linha reta e montona.
       Toda a equipe estava cabisbaixa, abatida.
       A velha balana chiou quando o Dr. Curtis Lapree deixou o fgado de Charlie Arnold cair sobre a bacia. A agulha saltou no mostrador.
       - Bem, est normal - disse Curtis.
       - O senhor esperava que no estivesse? - perguntou Jesse Kemper. Ele e o detetive Vince Garbon estavam assistindo  autpsia do funcionrio da faxina do Centro 
Mdico da Universidade. Ambos os policiais estavam vestidos com trajes de proteo descartveis.
       Nem Jesse nem Vince sentiam-se intimidados ou nauseados pela autpsia. J haviam assistido a uma centena delas no decorrer dos anos, principalmente Jesse, 
onze anos mais velho do que Vinnce.
       - No - disse Curtis. - O fgado tinha um aspecto normal, uma consistncia normal, ento eu esperava que o peso tambm fosse normal.
       - Tem alguma idia do que matou esse pobre sujeito? - indagou Jesse.
       - No - respondeu Curtis. - Parece que vai ser mais um daqueles mistrios.
       - No me diga isso - pediu Jesse,com irritao. - Estou contando com o senhor para me dizer se se trata de um homicdio ou de um acidente.
       - Tenha calma, tenente - disse Curtis,com uma risada.
       - S estou brincando com voc. A essa altura j deveria saber que a parte do dissecamento na autpsia  apenas o comeo. Neste caso, espero que a fase do 
microscpio seja mais importante. Isto , simplesmente no sei o que pensar desse buraco na mo. Olhe para isso!
       Curtis ergueu a mo de Charlie Arnold.
       - A droga do buraco  um crculo perfeito.
       - Poderia ser um ferimento a bala? - perguntou Jesse.
       - Pode responder a sua prpria pergunta - replicou Curtis. - Depois de tantos ferimentos a bala que j viu.
       -  verdade. Isso no parece causado por uma bala - afirmou Jesse.
       - E com toda a certeza no  - garantiu Curtis. - Teria de ser uma bala  velocidade da luz e mais quente do que o interior do sol. Olhe como tudo ficou cauterizado 
em volta. E o que aconteceu com o tecido e os ossos ausentes? Voc disse que no havia sinais de sangue ou tecido humano no local.
       - Nada - confirmou Jesse. - Nem sangue seco. Havia vidro e mveis derretidos, mas nada de sangue ou tecidos.
       - O que quer dizer com mveis derretidos? - indagou Curtis, limpando as mos no avental, aps retirar o fgado da balana.
       Jesse descreveu o quarto, para absoluto fascnio de Curtis.
       - Minha me! - exclamou Curtis.
       - Tem alguma idia a respeito? - perguntou o policial.
       - Pode-se dizer que sim - admitiu Curtis. - Mas voc no vai gostar nada. Eu tambm no gosto.  uma maluquice.
       - Experimente me dizer - pediu Jesse.
       - Primeiro, deixe-me mostrar-lhe uma coisa. - Curtis dirigiu-se a uma mesa lateral e trouxe um par de retratores. Encaixando-o na parte interna dos lbios 
superior e inferior do cadver, ele exps-lhe os dentes. A expresso do homem morto transformou-se numa careta horrenda.
       - Ah, que horror! - disse Vinnce. - O senhor vai me fazer ter pesadelos.
       - OK, doutor - disse Jesse. - O que espera que eu veja alm de um trabalho odontolgico porco? Parece que o sujeito nunca escovou os dentes.
       - Olhe o esmalte dos dentes frontais - pediu Curtis.
       - Estou olhando. Parece um pouco estragado.
       - Isso mesmo. - Curtis retirou os retratores e voltou a deix-los sobre a mesa prxima.
       - J chega de rodeios - disse Jesse. - O que o senhor est querendo dizer?
       - A nica coisa que me ocorre que pode fazer isso com o esmalte dos dentes  um envenenamento agudo por radiao - afirmou Curtis.
       Jesse mostrou-se consternado.
       - Eu disse que voc no iria gostar nada - observou Curtis.
       - Jesse est muito perto da aposentadoria - informou. - No se deve fazer esse tipo de brincadeira com ele.
       - Estou falando srio - disse Curtis. -  a nica coisa que liga todos os indcios, como o buraco na mo e a mudana ocorrida no esmalte dentrio. At mesmo 
as cataratas que no foram detectadas em seu ltimo exame anual.
       - O que aconteceu afinal com este pobre coitado? - perguntou Jesse.
       - Sei que vai parecer loucura - advertiu Curtis. - Mas a nica maneira por que posso relacionar todas essas evidncias at agora  pela hiptese de que algum 
tenha pingado em sua mo uma pelota de plutnio aquecida ao rubro, que abriu este buraco e tambm o submeteu a uma enorme dose de radiao. Refiro-me a uma dose 
colossal.
       - Isso  absurdo - afirmou Jesse.
       - Eu disse que voc no ia gostar - admitiu Curtis.
       - No havia indcios de plutnio no local - informou Jess. - O senhor verificou se o corpo est radioativo?
       - Verifiquei, sim. Por questo de segurana pessoal.
       - E ento?
       - No est - disse Curtis. - Caso contrrio, eu no estaria mergulhado nele.
       Jesse sacudiu a cabea.
       - Isso est piorando, ao invs de melhorar - disse ele. - Plutnio, que merda! Teramos uma espcie de emergncia nacional. Acho melhor eu mandar algum at 
o hospital para se certificar de que no haja pontos de radiao ali. Posso usar o telefone?
       -  vontade - disse Curtis, aprazivelmente.
       Um sbito acesso de tosse chamou a ateno de todos. Era Mitnael Schonhoff, um tcnico legista, que se encontrava na pia, lavando as vsceras. O acesso durou 
vrios minutos.
       - Nossa, Mike! - exclamou Curtis. - Acho que voc est piorando. E, perdoe-me a expresso, mas est parecendo um cadver.
       - Me desculpe, Dr. Lapree - disse Mike. - Acho que peguei uma gripe. Eu estava tentando ignor-la, mas agora estou comeando a sentir calafrios.
       - V embora mais cedo - sugeriu Curtis. - V para casa e enfie-se na cama, tome uma aspirina e beba um ch.
 - Quero terminar aqui primeiro - disse Mike. - Em seguida,vou etiquetar os frascos com as amostras.
       - Esquea isso - ordenou Curtis. - Pedirei a outra pessoa que termine o trabalho.
       - Est bem - concordou Mike. Apesar de seus protestos, estava feliz em ser dispensado.
       
       
       7
       20:15
       
       - Eu fico me perguntando por que a gente nunca vem aqui - disse Beau. -  um lugar muito bonito. - Ele, Cassy e Pitt perambulavam por uma rua s para pedestres 
no centro da cidade, tomando sorvete, aps jantarem comida italiana acompanhada por vinho branco.
       Cinco anos antes, o centro comercial assemelhava-se a uma cidade fantasma, pois a maioria das pessoas e dos restaurantes fugiu para os subrbios. Porm, como 
muitas outras cidades norte-americanas, esta tivera um redespertar. Algumas reformas de bom gosto haviam dado incio ao progresso inevitvel. Agora, todo o centro 
era um banquete tanto para os olhos quanto para o paladar. Multides perambulavam por ali, desfrutando o espetcul
       - Vocs faltaram mesmo s aulas hoje? - perguntou Pit. Estava impressionado e incrdulo.
       - Por que no? - replicou Beau. - Fomos ao planetrio, ao museu de histria natural, ao museu de arte e ao zoolgico. Aprendemos muito, mais do que se tivssemos 
ido s aulas.
       -  um raciocnio interessante - observou Pitt. -Espero que caiam vrias perguntas sobre o zo nas prximas provas de 
       - Ah, voc est com inveja - disse Beau, dando um tapinha no alto da cabea de Pitt.
       - Talvez - admitiu Pitt, pondo-se fora do alcance de Beau.
       - Trabalhei trinta horas na Emergncia desde ontem de manh.
       - Trinta horas? - espantou-se Cassy. -  mesmo?
       - Verdade - disse Pitt. Ento contou-lhes a histria do quarto onde Beau passara a tarde e sobre como derramara caf na Dra. Sheila Miller, a mulher que dirigia 
todo o departamento de emergncia.
       Tanto Beau quanto Cassy ficaram impressionados, principalmente pelo estado do quarto e a morte do faxineiro. Foi Beau quem fez a maior parte das perguntas, 
mas Pitt tinha poucas respostas.
       - Esto aguardando os resultados da autpsia - acrescentou ele. - Todos esperam que ento surja alguma explicao. Neste momento, ningum tem idia do que 
aconteceu.
       - Parece horrvel - comentou Cassy, fazendo uma careta de repulsa. - Um buraco aberto na mo do homem. Meu Deus, eu nunca poderia ser mdica com toda a certeza.
       - Tenho uma pergunta para voc, Beau - disse Pitt, depois de caminharem alguns momentos em silncio. - Como foi que Cassy conseguiu convenc-lo a dedicar 
o dia de hoje  cultura?
       - Ei, espere um pouco! - interrompeu Cassy. - Isso no foi idia minha. Foi de Beau.
       - Ah, corta essa - disse Pitt, com ceticismo. - Voc quer que eu acredite que... o Sr. Certinho, que nunca perde um dia de aula...
       - Pergunte a ele! - ordenou Cassy. Beau apenas riu.
       Cassy, decidida a deixar claro que no era ela a culpada por aquele dia frvolo e, apesar da calada estar muito movimentada, girara o corpo e estava andando 
de costas de modo a ficar de frente para Pitt.
       - Ande, vamos, pergunte a ele - insistiu ela.
       De repente, ela colidiu com um pedestre que vinha na direo oposta e que tambm no estava muito atento. Ambos levaram um ligeiro susto, mas ningum se machucou.
       Cassy imediatamente pediu desculpas, assim como tambm o transeunte com quem colidira. Ao olh-lo, porm, Cassy as sustou-se. Aquele era o Sr. Partridge, 
o severo diretor da escola Anna C. Scott.
       Ed tambm assustou-se.
       - Espere um pouco - disse ele, um sorriso abrindo-se em seu rosto. - Eu conheo voc.  a Srta. Winthrope, a encantadora estagiria designada para a Sra. 
Edelman.
       Cassy sentiu-se enrubescer, experimentando uma sbita conscincia da possibilidade de ter topado com uma pequena catstrofe. O Sr. Partridge, porm, era a 
gentileza em pessoa.
       - Que surpresa agradvel - dizia ele. - Oua, gostaria de lhe apresentar minha esposa, Clara Partridge.
       Cassy, obsequiosamente, apertou a mo da esposa do SE Partridge, reprimindo um sorriso. Estava bem consciente de como os alunos chamavam a mulher.
       - E este aqui  nosso novo amigo - anunciou o Sr. Partridge, passando o brao em torno do rapaz. - Gostaria de lhes apresentar Michael Schonhoff.  um daqueles 
dedicados funcionrios pblicos que labutam no centro legista.
       Todos apertaram-se as mos com as apresentaes. Beau estava particularmente interessado em Michael Schonhoff e os dois entabularam uma conversa particular, 
enquanto Ed Partridge voltava sua ateno para Cassy.
       - Tenho tido boas informaes sobre seu estgio - afirmou ele. - E fiquei impressionado com sua desenvoltura na aula de ontem, quando a Sra. Edelman se atrasou.
       Cassy no sabia responder a esses cumprimentos inesperados. Tambm no sabia como reagir  inspeo espalhafatosamente lbrica do Sr. Partridge. Vrias vezes 
os olhos do homem percorreram seu corpo de alto a baixo com o primeiro olhar, ela pensou que poderia estar exagerando, mas depois da terceira vez, soube que o comportamento 
dele era deliberado.
       Por fim os dois grupos se despediram e seguiram caminhos separados.
       - Quem diabos  esse Ed Partridge? - perguntou Pitt assim que no podiam mais ser ouvidos.
       -  o diretor da escola secundria onde estou fazendo estgio - informou Cassy, meneando a cabea.
       - Ele est nitidamente impressionado com voc - observou Pitt.
       - Voc percebeu a forma como ele estava me olhando? - indagou Cassy.
       - Como poderia deixar de ver? - replicou Pitt. - Sentime constrangido por ele, principalmente com aquele barril que tem como mulher bem ao seu lado. O que 
achou disso, Beau?
       - No percebi - respondeu Beau. - Estava conversando com Michael.
       - Ele nunca agiu assim antes - disse Cassy. - Na verdade, costuma ser severo e conservador.
       - Ei, pessoal, tem outra sorveteria do outro lado da rua - disse Beau, com entusiasmo. -Vou tomar outro. Algum mais quer?
       Tanto Cassy quanto Pitt abanaram a cabea negativamente.
       - Eu j volto - disse Beau, atravessando a rua correndo para esperar na fila da sorveteria.
       - Voc acredita em mim quando digo que foi idia de Beau matar aula hoje? - indagou Cassy.
       - Se voc est dizendo... Mas tenho certeza que voc compreende minha reao.  um pouco inusitado para Beau.
       - Voc est sendo eufmico - replicou Cassy.
       Ficaram observando enquanto Beau flertava com duas estudantes atraentes. Mesmo de onde estavam, podiam ouvir a risada caracterstica de Beau.
       - Ele est feliz como um pinto no lixo - comentou Pitt.
       -  uma maneira de ver a situao. O dia de hoje foi bastante divertido, no resta dvida. Mas esse comportamento de Beau est comeando a me deixar um pouco 
preocupada.
       - Como assim?
       Cassy deixou escapar uma risada breve e sombria.
       - Ele est bonzinho demais. Sei que isso parece loucura e talvez um pouco de cinismo, mas ele no est agindo de maneira normal. No est se comportando da 
maneira como Beau costuma se comportar. Faltar  aula  s uma entre outras coisas.
       - Que outras coisas? - perguntou Pitt.
       - Bem,  algo um pouco pessoal - respondeu Cassy.
       - Ei, eu sou seu amigo - disse Pitt, encorajando-a, mas ao mesmo tempo, sentiu a boca ressecar-se. No estava bem certo de que quisesse ouvir alguma coisa 
muito pessoal. Por mais que tentasse negar, seus sentimentos por Cassy no eram inteiramente platnicos.
       - Ele est diferente sexualmente - afirmou Cassy, hesitante. - Hoje de manh ele...
       Ela interrompeu-se no meio da frase.
       - Ele o qu? - insistiu Pitt.
       - No acredito que eu esteja lhe contando isso - disse Cassy, envergonhada. - Vamos dizer apenas que tem alguma coisa diferente nele.
       - Ele est assim s hoje?
       - Ontem  noite e hoje. - Cassy pensou em contar sobre Beau arrast-la nua at a sacada, no meio da noite, para ver chuva de meteoros, mas mudou de idia.
       - Todos ns temos dias em que nos sentimos mais vivos - conjeturou Pitt. - Voc sabe, quando a comida fica mais saborosa e o sexo... parece melhor. - Ele 
deu de ombros. Agora era ele quem estava constrangido.
       - Pode ser - disse Cassy, sem convico. - O que pergunto, porm,  se seu comportamento poderia ter alguma relao com a gripe passageira que ele teve. Nunca 
o vi to mal embora tenha se recuperado com tanta rapidez. Talvez tenha ficado assustado. Sabe, como se tivesse pensado que ia morrer ou algo assim. Isso lhe parece 
razovel?
       Pitt abanou a cabea.
       - No pensei que ele estivesse to doente.
       - Voc tem alguma outra idia? - perguntou Cassy.
       - Para ser franco, estou um pouco cansado demais para pensar criativamente.
       - Se voc... - comeou a dizer Cassy, detendo-se, porm - Olha o que Beau est fazendo agora!
       Pitt olhou na direo do amigo. Beau voltara a se encontrar com Ed Partridge, a mulher e o amigo, Michael. Os quatro estavam absortos numa conversa.
       - Sobre o que eles poderiam estar conversando? - indagou Cassy.
       - Bem, seja sobre o que for, parecem estar todos de acordo. - observou Pitt. - Esto todos assentindo com a cabea.
       Beau olhou o relgio no painel de seu 4x4. Eram duas e meia da manh. Ele estava em companhia de Michael Schonhoff e haviam estacionado na plataforma de carga 
do centro legista, ao lado de um dos carros funerrios.
       - Ento voc acha que esta  a melhor hora? - indagou Beau.
       - Definitivamente - respondeu Michael. - O pessoal da limpeza a essa hora est no segundo andar. - Ele abriu a porta do passageiro e comeou a saltar do carro.
       - No precisa de mim? - perguntou Beau.
       - Vou ficar bem - disse Michael. - Por que no espera aqui? Novou precisar de tantas explicaes se der de cara com a segurana.
       - Quais so as chances de encontrar algum segurana?
       - Pequenas - admitiu Michael.
       - Ento vou com voc - decidiu Beau, descendo do carro.
       - Como quiser - concordou Michael, afvel.
       Juntos, dirigiram-se para a porta. Michael usou as suas chaves e, segundos depois, estavam no interior do prdio.
       Sem uma nica palavra, Michael fez sinal para que Beau o seguisse.  distncia, podia-se ouvir um rdio. Estava sintonizado num programa de variedades que 
ia ao ar durante toda a noite.
       A rota que seguiram os levou a uma antecmara a que chegavam descendo uma pequena rampa e  sala onde eram mantidos os corpos. As paredes eram cobertas por 
compartimentos refrigerados.
       Michael sabia exatamente qual compartimento abrir. O estado do mecanismo da porta pareceu ressoar em meio ao silencio. O corpo, sobre uma bandeja de ao inoxidvel, 
deslizou Para fora sem dificuldade.
       Os restos de Charlie Arnold estavam num saco plstico transparente, prprio para embalar cadveres. Seu rosto exibia uma palidez fantasmagrica.
       Intimamente familiarizado com o ambiente, Michael apareceu com uma maca com a ajuda de Beau, ps o corpo sobre ela e fechou o compartimento refrigerado.
       Aps uma rpida olhada para verificar que a antecmara ainda estava vazia, eles deslizaram a maca com o corpo rampa acima e atravessaram a porta. Foi preciso 
apenas mais um minuto para transferir o corpo para a traseira do 4x4.
       Enquanto Beau voltava a entrar no carro, Michael foi devolver a maca. Logo ele estava de volta e partiram.
       - Isso foi fcil - disse Beau.
       - Eu lhe disse que no haveria problemas - afirmou Michael.
       Seguiram para o leste, entrando no deserto. Saindo da estrada principal, tomaram uma trilha de terra at se encontrarem num local incontestavelmente ermo.
       - Parece bom para mim - disse Beau.
       - Eu diria que  perfeito - anuiu Michael.
       Beau parou o carro. Juntos, tiraram o corpo do veculo e carregaram-no cerca de trinta metros adiante, onde o pousaram sobre uma proeminncia de arenito. 
Acima deles, estendia-se a abbada sem lua do cu noturno, com seus milhes de estrelas.
       - Pronto? - perguntou Beau. Michael recuou alguns passos.
       - Pronto - afirmou.
       Beau apanhou um dos discos negros que recolhera naquela manh eps sobre o corpo. Quase de imediato, o objeto comeou a brilhar e a intensidade da luz foi 
aumentando rapidamente.
       -  melhor voltarmos - disse Beau.
       Afastaram-se cerca de quinze metros. A essa altura, o brilho do disco negro chegara ao ponto em que uma coroa comeava a se formar e, com isso, o corpo de 
Charlie Arnold tambm comeou a brilhar. O claro vermelho do disco transformou-se numa resplandecncia branca e a coroa se expandiu, envolvendo tambm o corpo.
       O silvo fez-se ouvir e, com ele, comeou um vento que primeiro arrastou as folhas, depois pedras pequenas e, por fim, pedras maiores na direo do corpo. 
O som instantaneamente tornou-se ensurdecedor, como o rudo de um enorme motor a jato. Beau e Michael agarraram-se um ao outro para no serem arrancados do cho.
       O som cessou de maneira to sbita que provocou uma onda de choque que sobressaltou os dois homens. O disco negro, o corpo e vrias pedras, folhas, gravetos 
e outros entulhos haviam desaparecido. A pedra onde o corpo fora colocado estava quente, sua superfcie contorcida numa espiral.
       - Isso vai causar um certo alvoroo - afirmou Beau.
       - Com certeza - concordou Michael. - E os manter ocupados por algum tempo.
       
       
       8
       8:15
       
       - Voc no vai me dizer aonde foi  noite passada? - perguntou Cassy, com irritao. Ela estava com a mo pousada na maaneta, prestes a saltar do carro. 
Beau parara no caminho em forma de ferradura em frente  escola Anna C. Scott.
       - Eu j disse: fui s dar uma volta de carro - afirmou Beau. - O que tem demais nisso?
       - Voc nunca saiu para dar uma volta no meio da noite disse Cassy. - Por que no me acordou e avisou que estava saindo?
       - Voc estava dormindo profundamente - explicou Beau. - Eu no quis incomod-la.
       - No pensou que eu poderia acordar e ficar preocupada com voc? - perguntou Cassy.
       - Me desculpe - disse Beau, estendendo a mo e dando tapinhas no brao de Cassy. - Acho que eu devia mesmo ter acordado voc. Mas na hora me pareceu melhor 
deix-la dormir.
       - Voc vai me acordar se isso acontecer de novo? - indagou Cassy.
       - Prometo. Nossa, voc est fazendo uma tempestade num copo d'gua.
       - Eu fiquei assustada - disse Cassy. - Cheguei a ligar para o hospital para me certificar de que no estava l. E para a polcia tambm, s para ter certeza 
de que no havia acontecido um acidente.
       - OK, est bem - afirmou Beau. - Voc j me convenceu. Cassy saltou do veculo, ento debruou-se na janela.
       - Mas por que sair de carro s duas da manh? Por que no dar uma volta a p, se no conseguia dormir, ou assistir a um pouco de TV? Ou, ainda melhor, por 
que no ler?
       - No vamos recomear - disse Beau,com convico, porm sem raiva. - OK?
       - OK - concordou Cassy, relutante. Ao menos recebera um pedido de desculpas e Beau parecia razoavelmente arrependido.
       - Vejo voc s trs - despediu-se Beau.
       Ambos acenaram quando Beau se afastava do meio-fio. Ao chegar  esquina, ele no olhou para trs. Se tivesse olhado, teria visto que Cassy no se mexera do 
ponto onde a deixara. Ela o viu dobrar a esquina, tomando a direo contrria  da universidade. Cassy abanou a cabea. O estranho comportamento do companheiro no 
havia passado.
       Beau assoviava baixinho para si mesmo, alegremente, alheio s preocupaes de Cassy, enquanto guiava para o centro da cidade. Tinha uma misso e estava concentrado, 
mas no tanto que no percebesse o nmero de pedestres e outros motoristas que tossiam e espirravam, principalmente quando parou num sinal. No centro da cidade, 
era como se quase metade das pessoas apresentasse sintomas de uma infeco nas vias respiratrias. Alm disso, muitos estavam plidos e transpirando.
       Alcanando os subrbios da cidade, no lado oposto quele em que ficava a universidade, Beau deixou a Main Street, tomando a Goodwin Place.  sua direita ficava 
o abrigo de animais e ele atravessou o porto de corrente que estava aberto, estacionando perto do edifcio da administrao. Este era construdo com blocos de cimento 
pintado e janelas de alumnio com persianas.
       Vindo por trs do edifcio, Beau podia ouvir latidos contnuos. No interior do prdio, encontrou uma secretria, disse o que desejava e esta pediu-lhe que 
se sentasse numa pequena sala de espera. Beau podia ter lido enquanto esperava, mas, em vez disso, ficou ouvindo atentamente os latidos, at mesmo o miado intermitente 
de alguns gatos. Ocorreu-lhe que aquela era uma estranha maneira de se comunicar.
       - Meu nome  Tad Secolow - apresentou-se um homem, interrompendo os pensamentos de Beau. - Soube que est procurando um co.
       - Isso mesmo - disse Beau, pondo-se de p.
       - Veio ao lugar certo - afirmou Tad. - Temos praticamente qualquer raa que voc possa querer. O fato de estar disposto a dar um lar para um co j adulto 
lhe oferece uma possibilidade de escolha maior do que se tivesse decidido levar um filhote. Tem alguma idia sobre a raa?
       - No - respondeu Beau. - Mas saberei o que quero quando o vir.
       - Como? - Tad no o compreendera.
       - Eu disse que reconhecerei o animal que quero quando o avistar - repetiu Beau.
       - Quer olhar as fotos primeiro? - sugeriu Tad. - Temos fotografias de todos os ces disponveis.
       - Preferiria ver os prprios animais - afirmou Beau.
       - OK - concordou Tad,com afabilidade. Ele acompanhou Beau, passando pela sala da secretria e pelos fundos do edifcio, repleto de gaiolas de animais. Havia 
no ar um leve cheiro de estbulo, que concorria com um aroma enjoativo de desinfetante. Tad explicou que os ces abrigados no interior do prdio estavam sendo tratados 
pelo veterinrio, que vinha dia sim, dia no. A maioria dos ces no estava latindo. Alguns pareciam doentes.
       O ptio nos fundos do abrigo tinha fileiras de jaulas. Ao longo de todo o centro, viam-se duas longas sries fechadas com grads. O cho de todo o complexo 
era de concreto. Rolos de mangueiras empilhavam-se, encostados  parede do edifcio.
       Tad conduziu Beau pelo primeiro corredor. Os ces latiram selvagemente ao virem os dois. Tad fazia comentrios constantes sobre as qualidades de cada raa 
por que passavam. Fez uma pausa maior diante de uma jaula que abrigava um poodle de tamanho mdio. O co tinha o plo cinza-prateado e olhos escuros e suplicantes. 
Parecia compreender a urgncia de sua situao.
       Beau abanou a cabea e seguiram adiante.
       Enquanto Tad discorria sobre as boas qualidades de um Labrador negro, Beau parou e olhou fixamente para um co grande e forte, de plo castanho-claro, que 
devolveu seu olhar com uma leve curiosidade.
       - Que tal este? - perguntou Beau.
       Tad ergueu as sobrancelhas quando viu a que cachorro Beau estava se referindo.
       -  um belo animal - disse ele. - Mas  grande e muito forte. Est interessado num co desse tamanho?
       - Que raa  essa? - quis saber Beau.
       - Bullmastiff- respondeu Tad. - As pessoas geralmente tm medo deles por causa do tamanho, e esse garoto a poderia arrancar o seu brao, se quisesse. Mas 
ele parece ter uma boa ndole. A palavra mastiffna na realidade vem de um termo latino que significa "manso".
       - Como  que ele veio parar aqui? - indagou Beau.
       - Vou ser franco com voc. Os antigos donos tiveram um beb inesperado. Ficaram com medo da reao do co e no quiseram arriscar. O co adora perseguir caas 
de pequeno porte.
       - Abra a porta - sugeriu Beau. -Vamos ver se nos damos bem.
       - Vou buscar um enforcador - disse Tad. Ele voltou-se, desaparecendo no interior do edifcio.
       Beau abaixou-se e abriu uma portinhola por onde se introduzia a comida do animal. O co levantou-se de onde estava sentado, no fundo da jaula, e aproximou-se 
para cheirar a mo de Beau, abanando a cauda hesitantemente.
       Levando a mo ao bolso, Beau tirou mais um de seus discos Pretos. Segurando-o entre o polegar e o indicador, com este ltimo apoiado no alto do domo, pressionou-o 
contra o ombro do co. Quase imediatamente o animal deixou escapar um ganido abafado e recuou um passo, inclinando a cabea, intrigado.
       Beau tornou a guardar o disco no bolso no momento em que Tad retornava com a coleira com enforcador.
       - Ele ganiu? - perguntou Tad, alcanando Beau.
       - Acho que eu o cocei com fora demais.
       Tad abriu a porta da jaula. Durante um momento, o co hesitou, olhando de um homem para o outro.
       - Vamos l, garoto - incitou Tad. - com esse tamanho todo, voc no devia ser to hesitante.
       - Qual o nome dele? - perguntou Beau.
       - King. Na verdade,  King Arthur. Mas a j  um pouquinho demais. J imaginou voc gritando "King Arthur" no seu quintal?
       - King  um bom nome - aprovou Beau.
       Tad ps a coleira em King e conduziu-o para fora da jaula. Beau estendeu a mo para acarici-lo, mas King se retraiu.
       - Vamos l, King! - queixou-se Tad. - Essa  a sua grande chance. No a desperdice.
       - Est tudo bem - disse Beau. - Gosto dele. Acho mesmo que  perfeito.
       - Quer dizer que vai lev-lo? - indagou Tad.
       - Com certeza. - Beau tomou a coleira, em seguida abaixou-se e deu alguns tapinhas na cabea de King. O co lentamente ergueu a cauda e ento comeou a aban-la.
       - No disponho de muito tempo - disse Cassy para Pitt. Eles percorriam o corredor, indo da Emergncia para a enfermaria estudantil. - Tenho s uma hora de 
intervalo entre as aulas.
       - S vai levar um minuto - garantiu Pitt. - S espero que no cheguemos tarde demais.
       Por fim, chegaram ao quarto que Beau ocupara. Infelizmente, naquele momento, no podiam entrar. Dois homens carregavam a cama retorcida e desmontada.
       - Olhe a cabeceira - disse Pitt.
       - Que esquisito - comentou Cassy. - Parece mesmo que derreteu.
       Assim que puderam, entraram. Outros homens se encontravam ali, retirando outras peas deformadas, inclusive os suportes de metal do forro do teto. Um deles 
estava substituindo as vidraas da janela.
       - Algum j tem alguma idia do que aconteceu? - indagou Cassy.
       - Nem uma pista - afirmou Pitt. - Depois da autpsia houve um breve alarme de que pudesse se tratar de radiao, mas o quarto e a rea em torno foram testados 
exaustivamente e no havia qualquer sinal de radioatividade.
       - Voc acha que tem alguma conexo entre tudo isso e a forma como Beau est agindo? - indagou Cassy.
       -  por isso que eu queria que voc visse isso. No consigo imaginar como, mas depois que voc me disse que ele estava diferente, comecei a pensar a respeito. 
Afinal, ele ocupou este quarto na tarde do dia em que isso aconteceu.
       -  estranho. - Cassy foi examinar o brao de metal retorcido que antes segurava a TV, to bizarro quanto a cabeceira da cama. Quando estava prestes a voltar 
para junto de Pitt, seus olhos por acaso encontraram-se com os do homem que substitua as vidraas.
       O trabalhador fitou Cassy por um instante, ento seus olhos percorreram o corpo da jovem lascivamente, de modo muito semelhante ao que o Sr. Partridge a olhara 
na noite anterior.
       Cassy aproximou-se de Pitt e puxou-o pela manga. Ele examinava o relgio na parede do quarto. Notara que os ponteiros haviam cado.
       - Vamos embora daqui-chamou ela, indo direto para a porta. J no corredor, Pitt a alcanou.
       - Ei, devagar - pediu ele. Cassy reduziu o passo.
       - Voc viu o modo como aquele homem na janela me olhou? - perguntou ela.
       - No, no vi. O que foi que ele fez?
       - Foi como o Sr. Partridge ontem  noite - explicou Cassy.
       - O que est havendo com esses homens?  como se estivessem voltando ao comportamento de adolescentes.
       - Os operrios de obra no so famosos por agirem assim? - indagou Pitt.
 - Foi mais do que o assovio e o "que gracinha" de costume. - afirmou Cassy. - Aquilo foi como um estupro visual. Talvez eu no seja capaz de explicar isso a voc. 
Mas uma mulher saberia do que estou falando.  desagradvel, at mesmo assustador.
       - Quer que eu v l dentro e tome satisfaes? - ofereceu-se Pitt.
       Cassy dirigiu-lhe um olhar do tipo "est louco?".
       - No seja bobo - retrucou ela. Chegaram novamente  Emergncia.
       - Bem, preciso voltar para a universidade - disse Cassi.
       - Obrigada por me convidar para vir at aqui, embora ao ver aquele quarto eu no tenha me sentido melhor em absoluto. No sei o que pensar de tudo isso.
       - Sabe de uma coisa? Hoje  o dia em que eu e Beau temos nosso jogo de basquete trs por trs. Vai ser uma boa oportunidade para eu perguntar a ele o que 
est havendo. - No diga que fiz referncia a sexo - pediu Cassy.
       - Claro que no.vou usar o fato de ele ter matado aula para comear o assunto. Ento vou dizer abertamente que ontem  noite durante o jantar e depois, quando 
dvamos uma volta, no era o Beau que conheo. A diferena  sutil, mas real.
       - Vai me contar o que ele disser? - perguntou Cassy.
       - Com certeza - garantiu Pitt.
       A sala dos policiais no departamento de polcia estava sempre agitada, principalmente em torno do meio-dia. Jesse Kemper porm, estava acostumado quela agitao 
e podia facilmente ignor-la. Sua mesa ficava nos fundos da sala, encostada  parede de vidro que separava a sala do capito.
       Jesse estava lendo o relatrio preliminar da autpsia que o Dr Curtis Lapree enviara. E no estava gostando nem um pouco.
       - O doutor ainda insiste na idia de envenenamento por radiao - gritou Jesse para Vince, que estava junto  cafeteira. Vince bebia uma mdia de quinze xcaras 
de caf por dia.
       - Voc o informou de que no havia nenhum indcio de radiao no local? - indagou Vince.
       -  claro que sim - respondeu Jesse, irritado. Jogou a folha nica do relatrio sobre a mesa e apanhou a fotografia de Charlie Arnold que mostrava o buraco 
em sua mo. Jesse coava o alto da cabea, onde o cabelo comeava a escassear, enquanto estudava a foto. Era uma das coisas mais estranhas que j vira.
       Vince aproximou-se da mesa de Jesse. A colherzinha tilintava de encontro  lateral da xcara, enquanto ele mexia.
       - Esse  o caso mais estranho com que j me deparei - queixou-se Jesse. - Fico lembrando do aspecto daquele quarto e me perguntando o que pode ter acontecido.
       - Alguma notcia de parte daquela doutora sobre os cientistas que iriam examinar o local? - perguntou Vince.
       - Ah, sim. Ela ligou e disse que ningum teve qualquer idia brilhante. Chegou a dizer que um dos fsicos descobriu que o metal do quarto estava magnetizado.
       - E o que isso significa?
       - No muito para mim - admitiu Jesse. - Liguei para o Dr. Lapree e contei a ele, que disse que um raio pode fazer isso.
       - Mas todos concordam que no houve raios naquela noite - afirmou Vince.
       - Exatamente. Assim, voltamos  estaca zero.
       O telefone na mesa de Jesse tocou. Ele o ignorou e ento Vince atendeu.
       Jesse rodou na cadeira giratria, atirando a foto da mo de Charlie por sobre o ombro. A fotografia pousou sobre a mesa, em meio  desordem de papis. Jesse 
estava exasperado. Ainda no sabia se estava lidando com um crime ou um ato da natureza. Alheio, ouviu Vince, ao telefone, dizer "certo" repetidamente. Por fim, 
seu parceiro concluiu, dizendo:
       - Certo, eu digo a ele. Obrigado por ligar, doutor.
       Antes que Jesse pudesse tornar a girar a cadeira, seus olhos avistaram dois policiais uniformizados saindo da sala do capito. O que atrara sua ateno era 
que ambos tinham uma aparncia horrvel, quase to plidos quanto Charlie Arnold na fotografia que ele acabara de atirar por sobre o ombro. Os policiais tossiam 
e espirravam, como se assolados pela peste.
       Jesse era um tanto hipocondraco e irritava-o o fato de que as pessoas fossem irresponsveis o bastante para sair por a es palhando germes por toda parte. 
Na opinio de Jesse, aqueles homens deveriam ter ficado em casa.
       Um "ai!" abafado veio da sala do capito e Jesse desviou a ateno dos dois policiais doentes. Atravs do vidro, Jesse pde ver o capito chupando um dos 
dedos. Na outra mo, segurava com cuidado um pequeno disco preto.
       - Jesse, voc est ouvindo ou no? - insistiu Vince. Jesse deu meia-volta.
       - Me desculpe, o que voc estava mesmo dizendo?
       - Disse que era o Dr. Lapree no telefone - repetiu Vince. - Houve mais uma complicao no caso de Charlie Arnold. O corpo desapareceu.
       - Voc est brincando!
       - No. O doutor contou que decidiu retirar uma amostra da medula ssea e, quando abriu a geladeira onde fora colocado o corpo, este havia desaparecido.
       - Que merda! - praguejou Jesse, pondo-se de p. -  melhor irmos at l. Isso est ficando muito esquisito.
       Pitt vestiu o uniforme de basquete e foi do dormitrio para a quadra de bicicleta. Ele e Beau jogavam regularmente na liga de trs por trs da universidade. 
A competio era sempre boa. Muitos dos jogadores poderiam ter participado de torneios intercolegiais, se tivesse existido a motivao.
       Como era de hbito, Pitt chegou cedo, a fim de praticar os arremessos. Sentia que levava mais tempo do que os outros para aquecer. Para sua surpresa, Beau 
j estava l.
       Beau tambm estava de uniforme, porm encontrava-se na lateral da quadra, atrs de uma grade, conversando absortamente com dois homens e uma mulher. O que 
era surpreendente era que as trs pessoas pareciam profissionais, j quase chegando aos quarenta. Todos os trs vestiam-se de modo formal, como executivos. Um dos 
homens carregava uma elegante valise de couro.
       Pitt apanhou uma bola e comeou a arremessar. Se Beau percebeu sua presena, no deu qualquer sinal disso. Aps alguns minutos, mais uma coisa naquela situao 
pareceu surpreender Pitt. Era somente Beau quem falava! Os outros apenas ouviam, ocasionalmente demonstrando concordnciacom gestos de cabea.
       Os outros jogadores comearam a chegar, inclusive Tony Ciccone, o terceiro membro do time de Pitt e Beau. Foi s depois de todos terem chegado, inclusive 
o time adversrio, e se aquecido, que Beau concluiu sua conversa com os trs executivos e se aproximou de Pitt, que agora fazia alguns exerccios de alongamento.
       - Ei, homem, que bom v-lo! - cumprimentou Beau. - Fiquei com medo de que, depois daquela maratona na Emergncia, voc no conseguisse vir hoje.
       Pitt aprumou-se e fez um arremesso.
       - Da forma como voc estava se sentindo anteontem, deveria estar surpreso de voc estar aqui - disse ele.
       Beau deu uma risada.
       - Parece que faz sculos que isso aconteceu. Agora me sinto timo. Para dizer a verdade, nunca me senti melhor, e vamos arrasar com esses maricas.
       Os outros trs jogadores continuavam a fazer o aquecimento na outra cesta. Tony amarrava os cadaros de seus tnis de cano longo.
       - Se eu fosse voc, no seria to pretensioso assim - disse Pitt, apertando os olhos  luz do sol. - Est vendo aquele sujeito musculoso de calo roxo? Acredite 
ou no, o nome dele  Rocko e ele  um valento e, ainda por cima, um bom arremessador.
       - Isso no  problema - rebateu Beau, tomando a bola de Pitt e lanando-a na direo da cesta. A bola entrou com um rudo brusco, sem tocar em nada, a no 
ser na rede.
       Pitt ficou impressionado. Eles estavam a uns bons nove metros da cesta.
       - E o melhor de tudo: temos uma torcida - afirmou Beau. Juntando a ponta dos dedos polegar e indicador e levando-os aos lbios franzidos, ele soltou um assovio 
estridente. A cerca de trinta metros dali, um enorme co castanho-claro ergueu-se da sombra onde estivera deitado e dirigiu-se  quadra, parando na lateral desta. 
Abaixou o corpo e apoiou a cabea nas patas dianteiras.
       Beau acocorou-se e lhe deu uma srie de tapinhas no alto da cabea. O co abanou a cauda rapidamente e ento baixou-a.
       - De quem  esse cachorro? - perguntou Pitt. - Se  que se pode chamar isso de cachorro. Parece mais um pequeno pnei.
       -  meu - respondeu Beau. - O nome dele  King.
       - Voc arranjou um cachorro? - Pitt estava incrdulo.
       - Sim - assentiu Beau. - Senti falta de uma companhia canina, ento fui ao abrigo de animais hoje de manh e l estava ele, esperando por mim.
       - Faz uma semana que voc disse que no achava justo ter cachorros numa cidade grande - afirmou Pitt.
       - Mudei de idia. Assim que o vi, soube que era o cachorro dos meus sonhos.
       - Cassy j sabe?
       - Ainda no - disse Beau, coando King vigorosamente atrs das orelhas. - No vai ser uma surpresa para ela?
       - Isso  um eufemismo - replicou Pitt, revirando os olhos - Principalmente em se tratando de um cachorro desse tamanho. Mas o que h de errado com ele? Est 
doente? Parece catrgico e est com os olhos vermelhos.
       - Ah, ele s est tendo dificuldades para se ajustar - disse Beau. -Acabou de ser solto. S est comigo h algumas horas
       - Ele est salivando - observou Pitt. - No acha que esteja com raiva, acha?
       - No h a menor possibilidade - afirmou Beau. - Disso eu tenho certeza. - Beau segurou a enorme cabea do co entre suas mos. - Vamos l, King. A essa altura 
j devia estar se sentindo melhor. Precisamos de voc para torcer por ns.
       Beau se levantou, ainda olhando para seu novo companheiro.
       - Ele pode estar letrgico, mas  um co bonito, no concorda?
       - Creio que sim - respondeu Pitt. - Mas oua, Beau, arrumar um co, principalmente enorme como esse,  um ato extremamente impulsivo e, conhecendo voc como 
conheo, sou obrigado a dizer que  tambm muito inesperado. Para dizer a verdade, creio que voc vem fazendo vrias coisas inesperadas ultimamente. Estou preocupado 
e acho que devamos ter uma conversa.
       - Sobre o qu?
       - Sobre voc. O modo como est agindo, faltando s aulas, por exemplo. Parece que desde que voc teve aquela gripe...
       Antes que Pitt conclusse, Rocko, que se aproximara dele por trs, lhe deu um tapa amigvel no ombro que o mandou cambaleando vrios passos  frente.
       - Vocs babacas vo jogar ou vo desistir? - zombou Rocko. - Faz meia hora que eu, Pauli e Duff estamos prontos para liquidar com vocs.
       - Acho melhor conversarmos mais tarde. - Beau sussurrou para Pitt. - Os aborgenes esto ficando indceis.
       O jogo comeou. Como Pitt adivinhara, Rocko dominava as jogadas com suas tticas intimidadoras. Para consternao de Pitt, o fardo de marc-lo cara sobre 
seus ombros, pois Rocko escolhera fazer sua marcao. Todas as vezes que Rocko recebia a bola, fazia questo de dar uma trombada em Pitt antes de recuar para encaixar 
um arremesso.
       Na metade do jogo, com Rocko e companhia na frente, Pitt pediu falta depois que Rocko, propositadamente, lhe aplicara uma cotovelada no estmago a fim de 
pegar um rebote.
       - O qu? - perguntou Rocko, irritado, jogando a bola com violncia no cho, o que fez com que ela subisse uns trs metros no ar. - Esse cago est pedindo 
uma falta de ataque? De jeito nenhum. A bola  nossa! No vou mesmo aceitar isso.
       -  meu direito - insistiu Pitt. - Eu afirmo que voc cometeu a falta em mim. Na verdade, j  a segunda vez que aplica o mesmo truquezinho barato.
       Rocko deu um passo na direo de Pitt e propositadamente empurrou-o com o peito, fazendo com que o outro recuasse um passo.
       - Truquezinho barato, ? - rosnou Rocko. - Muito bem, valento, chega de conversa. Vamos ver como o beb choro se sai no brao. Vamos l! Estou esperando.
       - Com licena - disse Beau,com afabilidade, interpondo-se entre Pitt e Rocko. - No creio que essa questo valha uma briga. Vou propor uma coisa: Ns cedemos 
a bola, mas vamos trocar a marcao. Acho que vou ser seu marcador dessa vez, Rocko, e voc pode ser o meu.
       Rocko deu uma risada breve, enquanto olhava Beau de cima a baixo. Embora ambos tivessem cerca de 1,80m, Rocko tinha uns dez quilos a mais do que Beau.
       - Voc no se importa, no ? - perguntou Beau a Pitt.
       - De modo algum - respondeu Pitt.
       Assim combinados, o jogo recomeou. O rosto duro e de lbios finos de Rocko exibia um leve sorriso de antecipao. Da prxima vez em que pegou a bola, ele 
partiu diretamente para cima de Beau,com o movimento rpido das pesadas coxas.
       Com excepcional coordenao, Beau conseguiu desviar-se no instante em que Rocko esperava o contato. O resultado foi quase cmico. Esperando a coliso, Rocko 
tinha o tronco bem  frente de seu centro de gravidade. Como o contato no ocorreu, ele esparramou-se no cho da quadra de asfalto.
       Todos, inclusive Pitt, encolheram-se, enquanto Rocko deslizava sobre o asfalto, sofrendo vrias escoriaes extensas, que foram generosamente salpicadas com 
fragmentos de cascalho.
       Num instante Beau estava ao lado do homem cado com a mo estendida.
       - Lamento, Rocko - disse Beau. - Deixe-me ajud-lo. Rocko fuzilou Beau com o olhar, ignorando seu gesto de ajuda, e levantou-se sozinho.
       - Ah! - exclamou Beau com uma careta de simpatia. - Voc conseguiu alguns arranhes feios. Acho que  melhor terminarmos o jogo para que possa ir para a enfermaria 
limpar isso a.
       - V para o inferno! - replicou Rocko. - Me d essa bola. Vamos terminar o jogo.
       - Voc  quem sabe - disse Beau. - Mas a bola  nossa. Voc a perdeu com seu tombinho.
       Pitt estivera observando essa troca de palavras com preocupao crescente. Beau no parecia perceber o valento que Rocko era e o estava provocando. Pitt 
temia que a tarde terminasse em confuso.
       Quando o jogo reiniciou, Rocko continuou a tentar usar suas tticas violentas, mas, em todas as vezes, Beau conseguiu evitar o contato. Rocko caiu vrias 
outras vezes, o que obviamente o irritou; e quanto mais raiva ele sentia, mais facilidade Beau tinha em lidar com ele.
       No ataque, Beau se transformara num dnamo. Quando recebia a bola, marcava livremente, apesar dos esforos de Rocko para det-lo. Em diversos momentos, Beau 
dera uma volta em torno de Rocko com tamanha arrancada de velocidade que o outro se viu deixado para trs, a confuso estampada em seu rosto. No momento em que Beau 
enfiou a bola, fazendo a ltima cesta e ganhando o jogo, o rosto de Rocko estava vermelho de raiva.
       - Ei, obrigado por nos deixar vencer - gritou Beau para Rocko. Ele estendeu a mo, mas Rocko ignorou, retirando-se com os companheiros para a lateral, a fim 
de se secaremcom as toalhas.
       Beau, Pitt e Tony dirigiram-se para onde King se encontrava deitado na grama. O co parecia ainda mais letrgico do que antes do jogo.
       - Eu lhe disse que o King ia ajudar - disse Beau.
       Tony abriu alguns refrigerantes. Pitt ficou particularmente feliz em ingerir algum lquido e, apesar da respirao ofegante, bebeu uma latinha em tempo recorde. 
Tony entregou-lhe mais uma.
       Pitt estava prestes a comear a segunda lata quando percebeu que Beau fitava casualmente duas estudantes atraentes que vinham pela pista de corrida. As garotas 
usavam uma minscula roupa de corrida.
       - Belas pernas - comentou Beau.
       Foi nesse momento que Pitt notou que o amigo no estava sem flego como ele e Tony. Na verdade, Beau no estava nem mesmo suando e ainda no tomara um s 
gole.
       Do canto do olho, Beau viu que Pitt o fitava.
       - Algum problema? - perguntou Beau.
       - Voc no est sem ar como ns - respondeu Pitt.
       - Acho que fiquei fazendo cera na quadra, enquanto vocs faziam todo o trabalho.
       - Oh, no. L vem o brutamontes - avisou Tony. Tanto Beau quanto Pitt se voltaram para ver Rocko atravessando a quadra, vindo em sua direo.
       - No o provoque - sussurrou Pitt, energicamente.
       - Quem, eu? - perguntou Beau, inocentemente.
       - Queremos uma revanche - grunhiu Rocko quando alcanou o grupo.
       - Para mim basta por hoje - disse Pitt. - Estou fora.
       - Eu tambm - acrescentou Tony.
       - Ento, acho que  isso - concluiu Beau,com um sorriso. - No seria muito justo se eu jogasse contra vocs trs.
       Rocko fitou Beau por um instante.
       - Voc  muito arrogante para um almofadinha.
       - Eu no disse que ganharia - observou Beau. - Embora tenha certeza de que no seria muito difcil, a julgar pela maneira como vocs estavam jogando no final.
       - Cara, voc est procurando - rosnou Rocko.
       -  melhor voc no levantar a voz - replicou Beau. - Meu cachorro est dormindo bem ao seu lado e est um tanto indisposto.
       Rocko baixou os olhos para King, dirigindo-os ento novamente para Beau.
       - No dou a mnima para esse saco de merda que  o seu cachorro
       - Espere um pouco - disse Beau, pondo-se de p. - No estou entendendo muito bem. Voc est chamando o meu cachorro de "saco de merda"?
       - Pior do que isso - respondeu Rocko. - Acho que ele  uma p...
       Com uma velocidade que espantou a todos, Beau estendeu a mo e agarrou Rocko pela garganta. Este tambm reagiu com rapidez, fechando a mo esquerda e disparando 
um poderoso gancho.
       Beau viu o golpe se aproximando, mas o ignorou. Este o atingiu no lado do rosto, bem  frente da orelha direita,com um rudo seco e firme que fez Pitt estremecer.
       Rocko sentiu uma pontada de dor subir pelos ns de seus dedos depois de bater contra o malar de Beau. O soco fora forte e atingira o alvo, e no entanto a 
expresso facial de Beau no se alterou. Era como se ele no tivesse sentido o golpe.
       Rocko estava perplexo com a aparente ineficcia do que at aqui fora sua melhor arma. As pessoas nunca esperavam que um gancho de esquerda poderoso fosse 
o primeiro golpe numa luta. Aquilo sempre funcionara e, na maioria das vezes, punha fim  luta com Beau, porm, era diferente. A nica mudana na aparncia dele 
foi que, depois do soco, suas pupilas se dilataram. Rocko chegou a pensar t-las visto brilhar.
       O outro problema que Rocko estava enfrentando era a falta de oxignio. Seu rosto foi ficando mais vermelho e os olhos comearam a se esbugalhar. Ele tentou 
livrar-se do aperto de Beau, contorcendo-se, mas no conseguiu. Era como se estivesse preso por um par de tenazes de ferro.
       - Queira me perdoar - disse Beau, com calma -, mas acho que voc deve um pedido de desculpas ao meu cachorro.
       Rocko agarrou o brao de Beau com ambas as mos, mas ainda assim no conseguiu livrar seu pescoo do aperto de Beau. Tudo que conseguia fazer era gorgolejar.
       - No estou ouvindo voc - disse Beau.
       Pitt, que momentos antes se preocupava com Beau, agora estava preocupado com Rocko. O rosto do rapaz estava ficando azulado.
       - Ele no est conseguindo respirar - disse Pitt.
       - Tem razo - concordou Beau, soltando o pescoo de Rocko e ento agarrando um punhado de cabelo do rapaz. Exercendo fora para cima, obrigou Rocko a ficar 
na ponta dos ps. Rocko ainda se agarrava ao brao de Beau com ambas as mos, mas era incapaz de se libertar.
       - Estou esperando o pedido de desculpas - afirmou Beau, aumentando a tenso aplicada ao cabelo de Rocko.
       - Sinto muito sobre seu cachorro.-Rocko conseguiu dizer.
       - No diga isso a mim - replicou Beau, calmamente. - Diga ao cachorro.
       Pitt estava mudo. Por um segundo, quase pareceu que Beau estivesse suspendendo Rocko no ar.
       - Me desculpe, cachorro - gemeu Rocko.
       - O nome dele  King - disse Beau.
       - Me desculpe, King - repetiu Rocko.
       Beau soltou-o. As mos de Rocko voaram para o alto de sua cabea. O couro cabeludo queimava com um olhar onde se combinavam raiva, dor e humilhao, Rocko 
foi se juntar aos seus perplexos amigos.
       Beau limpou as mos.
       - Argh! - disse ele. - Me pergunto que tipo de grude ele usa no cabelo.
       Pitt e Tony estavam to perplexos quanto os companheiros de Rocko e fitavam Beau, boquiabertos. Este percebeu suas expresses ao se abaixar para pegar a ponta 
da coleira de King.
       - O que h com vocs? - perguntou ele.
       - Como foi que voc fez aquilo? - indagou Pitt.
       - Do que voc est falando? - devolveu Beau.
       - Como voc conseguiu dominar Rocko com tanta facilidade? - insistiu Pitt.
       Beau deu um tapinha na lateral da cabea.
       - Com inteligncia - explicou. - O pobrezinho do Rocko usa apenas os msculos. Estes podem ser teis, mas sua fora empalidece comparada  inteligncia.  
por isso que os humanos dobraram este planeta. Em termos de seleo natural, no h nada que se assemelhe.
       De repente, Beau olhou do outro lado do gramado, na direo da biblioteca.
       - Oh-oh. Parece que vou ter de deix-los - disse.
       Pitt seguiu o seu olhar. A cerca de cem metros dali, vindo em sua direo, via-se outro grupo de executivos. Dessa vez, eram seis: quatro homens e duas mulheres. 
Todos carregavam valises.
       Beau voltou-se para seus companheiros de time.
       - Um excelente jogo, caras - disse, cumprimentando a ambos com uma batida da mo erguida espalmada. Em seguida, dirigiu-se a Pitt: - Vamos ter de deixar a 
conversa que voc sugeriu para uma outra hora.
       Em resposta a um puxo, King levantou-se com relutncia e seguiu seu dono, atravessando o gramado, para a conferncia improvisada.
       Pitt olhou para Tony. Este deu de ombros.
       - Nunca soube que Beau fosse to forte - comentou.
       - Como um corpo pode desaparecer, diabos? - perguntou Jesse ao Dr. Curtis Lapree. - Isso j aconteceu antes? -Jesse e Vince haviam ido para o necrotrio e 
ladeavam o compartimento refrigerado vazio, onde antes estivera o corpo de Charlie Arnold.
       - Infelizmente, sim - admitiu o Dr. Lapree. - No com freqncia, graas a Deus, mas j aconteceu. A ltima vez foi h pouco mais de um ano. Foi o corpo de 
uma jovem, um caso de suicdio.
       - O corpo foi encontrado depois? - indagou Jesse.
       - No - respondeu o Dr. Lapree.
       - Isso foi registrado na polcia? - quis saber Jesse.
       - Para falar a verdade, no sei. Quem cuidou do caso foi o diretor do departamento de sade, que tratou diretamente com o delegado. Foi um constrangimento 
geral e portanto procuraram manter o maior sigilo possvel.
       - O que vocs fizeram desta vez? - perguntou Jesse.
       - A mesma coisa - afirmou o Dr. Lapree. - Passei o caso ao legista-chefe, que, por sua vez, o passou ao diretor do departamento de sade. Antes de fazer qualquer 
coisa,  melhor vocs consultarem seus chefes.  provvel que eu nem devesse ter-lhes contado.
       - Entendo - disse Jesse. - E vou respeitar sua confiana. Mas o senhor tem alguma suspeita de por que algum roubaria o corpo?
       - Como mdico-legista, sei melhor do que a maioria das pessoas que o mundo est cheio de gente estranha - afirmou o Dr. Lapree. - Existe gente por a que 
gosta de cadveres.
       - O senhor acha que neste caso foi esse o motivo? - indagou Jesse.
       - No tenho a menor idia - admitiu o Dr. Lapree.
       - Receamos que o desaparecimento do corpo reforce a idia de que a morte do homem foi homicdio - disse Jesse.
       - Como se o autor do crime no quisesse deixar uma pista - acrescentou Vince.
       - Compreendo - afirmou o mdico. - Mas o problema com essa linha de raciocnio  que a autpsia j foi feita.
       - Sim, mas o senhor ia recolher mais tecido - lembrou Jesse.
       -  verdade. Esqueci de recolher uma amostra da medula ssea. Mas isso era s para reforar minha teoria de um caso agudo de radiao intensa.
       - Se o motivo por que o corpo foi levado era para evitar que o senhor obtivesse essa ltima amostra, ento parece tratar-se de um trabalho interno - observou 
Jesse.
       - Estamos cientes disso - concordou o Dr. Lapree. - E revendo todos que tiveram acesso ao corpo.
       Jesse suspirou.
       - Que caso! - gemeu ele. - A idia de me aposentar me parece cada vez melhor.
       - O senhor nos informe se souber de alguma coisa - pediu Vince.
       - Com toda a certeza - garantiu o Dr. Lapree.
       Jonathan trancou seu armrio no ginsio de esportes. Naquele semestre, ele optara pela educao fsica como a ltima aula do dia, e odiara a escolha. Preferia 
muitssimo exercitar-se no meio do dia, como um osis entre as disciplinas acadmicas.
       Deixando a ala do ginsio pela porta lateral, comeou a atravessar o ptio.  distncia, podia ver um grupo de alunos reunidos em torno do mastro da bandeira. 
 medida que se aproximava, pde ouvi-los dando vivas e gritando. E, quando chegou  base do mastro, percebeu o que estava se passando. Um aluno do primeiro ano 
da escola secundria, a quem Jonathan conhecia superficialmente, estava subindo pela haste. Seu nome era jason Holbrook. Jonathan o conhecia porque fizera parte 
do time de basquete do primeiro ano.
       - O que est acontecendo? - perguntou Jonathan a um de seus colegas de turma, cujo nome era Jeff e que estava parado ali, olhando.
       - Ricky Javetz e sua turma encontraram um novo calouro para atormentar - disse Jeff. - O garoto tem de tocar a guia l em cima ou no vai ser aceito na gangue.
       Jonathan protegeu os olhos contra o sol brilhante da tarde.
       - Esse mastro  muito alto - observou. - Deve ter uns quinze, dezoito metros, ou mais.
       - E  bem fininho na parte mais alta - comentou Jeff. - Fico feliz de no estar l em cima.
       Jonathan olhou  sua volta. Estava surpreso por nenhum professor ter-se materializado para pr um ponto final naquela situao absurda. Nesse momento, viu 
Cassy Winthrope surgir da ala direita do prdio da escola. Jonathan cutucou Jeff.
       - L vem aquela estagiria sexy.
       Jeff virou-se para olhar. Cassy estava vestida, como de hbito,com um vestido simples de algodo bem soltinho. Quando o sol o atravessava, os garotos podiam 
ver a silhueta de seu corpo, inclusive o ntido contorno da calcinha cavada.
       - Uau! - exclamou Jeff. - Que avio! Hipnotizados, os garotos observaram Cassy misturar-se  multido e ento reaparecer na base do mastro. Ela jogou no cho 
alguns livros que carregava, juntou as mos, levando-as  boca, e gritou para que Jason descesse.
       A multido vaiou a interferncia de Cassy.
       A quase trs quartos do caminho at a guia, Jason hesitou. O mastro estava comeando a oscilar. Parecia mais alto do que ele esperara.
       Cassy olhou ao redor. A aglomerao de alunos se fechara em torno dela. A maior parte deles estava no ltimo ano e era significativamente maior do que ela. 
Passou por sua mente o fato de que, em todos os Estados Unidos, professores eram diariamente atacados nas escolas.
       Cassy tornou a olhar para o alto do mastro da bandeira. De sua base, a oscilao era visvel.
       - Voc me ouviu? - gritou Cassy novamente, ignorando a multido, as mos apoiadas nos quadris. - Desa j da!
       Cassy sentiu que algum lhe agarrava o brao e deu um pulo. Surpresa, ela se viu fitando o rosto sorridente e malicioso do Sr. Ed Partridge.
       - Srta. Winthrope, a senhorita est adorvel hoje. Cassy soltou os dedos de Ed de seu brao.
       - Tem um aluno a trs quartos de altura do mastro - disse ela.
       - Eu percebi - replicou Ed, dando uma risadinha enquanto inclinava a cabea para trs e olhava o aluno agora assustado. - Aposto como ele consegue.
       - No creio que esse tipo de atividade deva ser tolerado - Cassy no conseguiu impedir-se de dizer.
       - Ah, por que no? - perguntou Ed. Em seguida, tambm unindo as mos e levando-as  boca, gritou para Jason: - Vamos l, garoto, no desista agora. Voc est 
quase l.
       Jason olhou para cima. Tinha ainda uns seis metros pela frente. Ouvindo a multido incentiv-lo, recomeou a subir. O problema era que suas mos transpiravam 
e estavam midas. A cada avano, ele descia metade da distncia avanada.
       - Sr. Partridge - comeou Cassy. - Isso no ...
       - Fique calma, Srta. Winthrope - disse Ed. - Precisamos deixar nossos alunos se expressarem. Alm disso,  divertido ver que um garoto pr-pubescente como 
Jason  capaz de realizar esse tipo de feito.
       Cassy ergueu os olhos. A oscilao era agora mais acentuada. Ela estremeceu ao pensar o que aconteceria se o menino casse.
       Jason, porm, no caiu. Beneficiado pelo apoio da multido, ele conseguiu chegar ao topo, tocou a guia e comeou a descida.
       Quando chegou ao solo, o Sr. Partridge foi o primeiro a parabeniz-lo.
       - Muito bem, rapaz - disse ele, dando um tapinha nas costas de Jason. - No achei que fosse conseguir. - Em seguida, o Sr. Partridge olhou para a multido. 
- OK, pessoal, hora de se dispersar.
       Cassy no foi embora de imediato. Ficou observando o Sr. Partridge acompanhar vrios alunos em direo  ala central do prdio, mantendo uma animada conversa 
com eles. Cassy estava confusa. Encorajar um ato daquele tipo parecia irresponsvel e certamente despropositado para o carter do Sr. Partridge.
       - Acho que estes livros so seus - disse uma voz. Cassy voltou-se e deparou-se com Jonathan Sellers estendendo-lhe os livros. Apanhou-os e agradeceu.
       - No h de qu - disse o garoto, olhando na direo do Sr. Partridge, que ia aos poucos desaparecendo. - De repente, ele se transformou num outro homem - 
afirmou Jonathan, espelhando os pensamentos de Cassy.
       - Exatamente como os meus pais - disse uma outra voz.
       Jonathan virou-se e viu Candee. Ele no sabia que ela se encontrava no meio do grupo de alunos desde o incio. Tropeando nas palavras, ele a apresentou a 
Cassy e, ao faz-lo, observou que os olhos da namorada estavam avermelhados, com um aspecto insone.
       - Voc est bem? - perguntou ele. Candee assentiu.
       - Estou bem, mas no dormi muito essa noite. - Ela lanou um olhar constrangido a Cassy, inibida em falar diante de uma estranha. Ao mesmo tempo, tinha uma 
grande urgncia em desabafar. Como filha nica, no pudera falar com ningum, e estava preocupada.
       - Por que no conseguiu dormir? - indagou Jonathan.
       - Porque meus pais esto agindo de maneira muito estranha - respondeu Candee. -  como se eu no os conhecesse. Eles esto mudados.
       - O que voc quer dizer com "mudados"? - perguntou Cassy, pensando imediatamente em Beau.
       - Eles esto diferentes - afirmou Candee. - No sei como explicar, mas esto diferentes. Como o velho Sr. Partridge.
       - H quanto tempo percebeu isso? - quis saber Cassy. Estava atnita; o que estaria acontecendo com as pessoas?
       - Foi s ontem, acho - disse Candee.
       
       
       9
       16:15
       
       - Quer fenitona? - gritou para a Dra. Sheila Miller o Dr. Draper, um dos residentes mais antigos no programa de medicina de emergncia do Centro Mdico da 
Universidade.
       - No! - respondeu imediatamente Sheila. - No quero me arriscar a provocar uma arritmia. Me d dez miligramas de Valium intravenoso, agora que a cnula est 
no lugar.
       A ambulncia municipal telefonara antes avisando que estava trazendo um diabtico de 42 anos, no auge de uma crise convulsiva grave. Considerando o que acontecera 
com a mulher diabtica, tambm com convulses, no dia anterior, toda a equipe da Emergncia, incluindo a Dra. Sheila Miller, estava preparada.
       Assim que chegou, o homem foi levado diretamente para um dos reservados, onde a desobstruo de suas vias respiratrias recebera prioridade. Em seguida, uma 
amostra de sangue foi retirada de imediato. Simultaneamente, os monitores foram acoplados, seguidos por um bolo intravenoso de glicose.
       Como as convulses prosseguissem, outros medicamentos foram necessrios. Foi quando Sheila se decidiu pelo Valium.
       - Valium administrado - informou Ron Severide, um dos enfermeiros da tarde.
       Sheila estava observando o monitor, lembrando-se do que acontecera com a mulher no dia anterior; no queria que aquele paciente tivesse uma parada cardaca.
       - Qual o nome dele? - indagou Sheila, referindo-se ao paciente. A essa altura, o homem j estava na Emergncia fazia dez minutos.
       - Louis Devereau - informou Ron.
       - Outros registros mdicos alm do diabetes? - perguntou Sheila. - Algum histrico cardaco?
       - Nada que saibamos - afirmou o Dr. Draper.
       - timo. - Sheila comeou a acalmar-se. O mesmo se deu com o paciente. Aps mais alguns espasmos, as convulses cessaram.
       - Parece bom - observou Ron.
       Assim que essa avaliao positiva escapou dos lbios de Ron, os espasmos do paciente recomearam.
       -  impressionante - disse o Dr. Draper. - Ele continua com as convulses mesmo com o Valium e a glicose. O que est havendo aqui?
       Sheila no respondeu. Estava por demais ocupada observando o monitor cardaco. Houve uns dois batimentos ectpicos. Ela estava prestes a pedir um pouco de 
lidocana quando o paciente sofreu a parada.
       - No faa isso! - gritou Sheila, enquanto se juntava aos outros num esforo para ressuscit-lo.
       De uma maneira estranhamente semelhante  experincia com a mulher um dia antes, Louis Devereau passou da fibrilao  parada cardaca, a despeito de tudo 
que a equipe da Emergncia fez. Para grande mortificao de todos, foram obrigados a admitir a derrota mais uma vez, e o paciente foi declarado morto.
       Sentindo raiva diante da ineficcia de seus esforos, Sheila arrancou as luvas das mos e atirou-as com violncia no recipiente prprio. O Dr. Draper fez 
o mesmo. Juntos, voltaram para a recepo.
       - Ligue para o mdico-legista - ordenou Sheila. - Deixe claro para ele a necessidade de tentarmos descobrir o que provocou essa morte. Isso no pode continuar. 
Esses dois pacientes eram relativamente jovens.
       - Ambos eram dependentes de insulina - observou o Dr. Draper. - E ambos tinham diabetes de longa data.
       Chegaram ao amplo balco da recepo. Via-se muita atividade por ali.
       - E desde quando o diabetes se tornou uma doena fatal em pessoas de meia-idade? - indagou Sheila.
       - Boa pergunta - replicou o Dr. Draper.
       Sheila percorreu a sala de espera com os olhos e suas sobrancelhas se ergueram. Havia tanta gente ali que agora as pessoas precisavam esperar em p. Dez minutos 
antes, o movimento era normal para aquela hora do dia. Ela virou-se para perguntar a um dos atendentes sentados atrs do balco se havia alguma explicao para aquela 
sbita multido e viu-se frente a frente com Pitt Henderson.
       - Voc nunca vai para casa? - perguntou ela. - Cheryl Watkins me contou que voc voltou poucas horas depois de um planto de vinte e quatro horas.
       - Estou aqui para aprender - disse Pitt. Era uma resposta pensada. Ele a vira aproximar-se do balco.
       - Bem, pelo amor de Deus, no v ter uma estafa - aconselhou Sheila. - Voc ainda nem mesmo comeou a faculdade de medicina.
       - Acabei de saber que o diabtico que deu entrada h pouco faleceu - disse Pitt. - Deve ser muito difcil para vocs lidarem com isso.
       Sheila olhou para aquele estudante. Ele a estava surpreendendo. Na manh anterior, o rapaz a deixara irritada quando derramara caf em seu brao num quarto 
onde ele no tinha nada a fazer. Agora demonstrava uma sensibilidade incomum para algum de sua idade. Ele tambm era atraente, com os cabelos negros como carvo 
e olhos escuros e lmpidos. Num fugaz instante, ela se perguntou como reagiria se ele fosse vinte anos mais velho.
       - Tenho uma coisa aqui que a senhora vai querer ver - disse Pitt, entregando-lhe uma folha impressa no laboratrio.
       Sheila apanhou o papel e o olhou.
       - O que  isto? - perguntou.
       -  o resultado do exame de sangue da paciente diabtica que morreu ontem - explicou Pitt. - Pensei que a senhora pudesse se interessar porque todos os nmeros 
esto inteiramente normais. Inclusive a taxa de acar.
       Sheila examinou a lista. Pitt estava certo.
       - Vai ser interessante ver os nmeros do paciente de hoje - afirmou Pitt. - Pelo que vi, no me ocorre nenhum motivo por que a primeira paciente devesse ter 
tido uma crise convulsiva.
       Sheila agora estava impressionada. Nenhum dos outros alunos que haviam passado pelo programa de trabalho administrativo no hospital demonstrara aquele grau 
de interesse.
       - Conto com voc para me trazer os resultados do exame de sangue do paciente de hoje - disse ela.
       - Ser um prazer - replicou Pitt.
       - Agora me diga uma coisa - comeou Sheila -, voc tem alguma idia do porqu de tantas pessoas assim na sala de espera?
       - Acho que sim. Provavelmente porque a maioria delas deixou para vir depois do trabalho. Esto todas se queixando de gripe. Se verificarmos os registros de 
ontem e hoje, veremos que estamos recebendo um nmero cada vez maior de pessoas com os mesmos sintomas. Acho que  alguma coisa que a senhora deveria investigar.
       - Mas estamos mesmo na poca da gripe. - Sheila estava ainda mais impressionada. Pitt estava de fato pensando.
       - Pode ser poca da gripe, mas esse surto parece diferente - afirmou Pitt. - Verifiquei com o laboratrio e eles ainda no tiveram resultado positivo para 
gripe em nenhum dos testes realizados.
       - s vezes eles precisam cultivar o vrus da gripe numa cultura tecidual antes de obterem um resultado positivo. Isso pode levar alguns dias.
       - , li sobre isso - concordou Pitt. - Mas, neste caso, acho que h alguma coisa estranha porque todos esses pacientes esto apresentando sintomas respiratrios, 
e portanto o vrus deveria estar presente em alto ttulo. Pelo menos, era isso o que dizia no texto que li.
       - Sou obrigada a dizer que estou impressionada com sua iniciativa - observou Sheila.
       - Bem, a situao me preocupa - disse Pitt. - E se for uma cepa nova de vrus? Quem sabe uma doena nova? Meu melhor amigo teve isso h dois dias e ficou 
muito mal, mas apenas por algumas horas. Isso no me parece a velha gripe com que estamos acostumados. Alm disso, depois que se recuperou, ele no  mais o mesmo. 
Isto , est saudvel, mas vem agindo de maneira estranha.
       - O que voc quer dizer com estranha? - indagou Sheila, comeando a considerar a possibilidade de uma encefalite virtica, uma rara complicao da gripe.
       - Como uma pessoa diferente - explicou Pitt. - Bem, no totalmente diferente, s um pouco. O mesmo parece ter acontecido com o diretor da escola secundria.
       - Voc se refere a uma leve alterao na personalidade? - perguntou Sheila.
       - , acho que se pode dizer isso.
       Pitt receava falar-lhe sobre o notvel aumento da fora e velocidade de Beau e sobre o fato de que este ocupara o quarto que ficara retorcido, temendo perder 
toda a credibilidade. J estava nervoso s com aquela conversa com a Dra. Miller; ele no a teria abordado por sua prpria iniciativa.
       - E mais uma coisa - disse ele afinal, concluindo que, se chegara at ali, era melhor contar tudo. - Consultei a ficha da mulher diabtica que morreu ontem. 
Ela teve sintomas de gripe antes de sofrer as convulses.
       Sheila fitou os olhos escuros de Pitt, enquanto refletia sobre o que ele dissera. De repente, ela ergueu a cabea e chamou o Dr. Draper, perguntando-lhe se 
Louis Devereau apresentara sintomas de gripe antes de ter o ataque convulsivo.
       - Teve, sim - confirmou o Dr. Draper. - Por que est perguntando isso?
       Sheila ignorou a pergunta do Dr. Draper. Em vez disso, tornou a baixar os olhos para Pitt.
       - Quantos pacientes j atendemos com essa gripe e quantos esto aguardando?
       -  Cinqenta e trs - respondeu Pitt, levantando uma folha de Papel onde mantinha um registro.
       Santo Deus! - exclamou Sheila. Durante um momento, ela fitou sem ver o saguo, mordendo a parte interna da bochecha, enquanto considerava as opes. Tornando 
a voltar-se para Pitt ela ordenou: - Venha comigo e traga essa folha!
       Pitt correu para alcanar Sheila, que estava quase correndo.
       - Aonde estamos indo? - perguntou ele, quando entravam nas dependncias do hospital
       - Para a sala do diretor - disse Sheila, sem mais explicaes.
       Pitt espremeu-se no elevador com a Dra. Miller. Ele tentou ler em seu rosto, mas no conseguiu. No tinha a menor idia de porque estava sendo levado para 
a administrao. Temia que fosse Por motivos disciplinares.
       Gostaria de falar com o Dr. Halprin imediatamente - disse Sheila a secretria administrativa chefe, cujo nome era Sra. Kapland.
       O Dr. Halprin est ocupado no momento - informou a Sra. Kapland com um sorriso simptico. - Mas vou avis-lo de que a senhora est aqui. Enquanto isso, aceitam 
um caf ou um refrigerante?
       - Diga a ele que  urgente - pediu Sheila.
       Depois de vinte minutos de espera, a secretria acompanhouos at a sala do diretor do hospital. Tanto Sheila quanto Pitt puderam perceber que o homem no 
estava se sentindo bem. Estava plido e tossia quase sem parar.
       Aps Sheila e Pitt se sentarem, a primeira narrou concisamente o que Pitt lhe contara e sugeriu que o hospital tomasse medidas apropriadas.
       - Espere a - disse o Dr. Halprin entre dois acessos de tosse. - Cinqenta casos de gripe durante um surto no  razo para a assustar a comunidade. Ora, 
eu mesmo contra o vrus, e no estou to ruim assim, embora, se tivesse escolha, acho que estaria em casa na cama.
       - So mais de cinqenta casos s neste hospital - afirmou a Dra. Sheila.
       - Sim, mas somos o maior hospital da comunidade - lembrou Halprin, - Sempre recebemos a maioria dos casos.
       - Tive duas mortes de diabticos previamente controlados e que provavelmente morreram devido a essa doena - insistiu Sheila.
       - Uma gripe pode fazer isso - observou o Dr. Halprin. - Infelizmente, todos ns sabemos que ela pode ser uma doena sria no caso de idosos e enfermos.
       - O Sr. Henderson sabe de duas pessoas que tiveram a doena e que depois passaram a apresentar alteraes de personalidade. Uma delas  o melhor amigo dele.
       - A alterao de personalidade  acentuada? - indagou Halprin.
       - Acentuada, no - admitiu Pitt. - Porm visvel.
       - Me d um exemplo - pediu o Dr. Halprin, enquanto assoava o nariz ruidosamente.
       Pitt relatou a sbita atitude despreocupada de Beau e o fato de que faltara s aulas de um dia inteiro para ir a museus e ao zoolgico.
       O Dr. Halprin abaixou o leno de papel e olhou para Pitt, sendo levado a sorrir.
       - Me desculpe, mas isso no parece extraordinrio, em absoluto.
       - O senhor precisaria conhecer Beau para perceber o quanto  espantoso - declarou Pitt.
       - Bem, temos alguma experincia com essa doena aqui mesmo, neste departamento - afirmou o Dr. Halprin. - No s eu a peguei hoje, como tambm minhas duas 
secretrias ficaram doentes ontem. - Ele inclinou-se e pressionou o boto do intercomunicador, pedindo a ambas que comparecessem  sua sala.
       A Sra. Kapland apareceu imediatamente, sendo seguida por uma mulher mais jovem, chamada Nancy Casado.
       - A Dra. Miller est preocupada com o vrus dessa gripe que est por a - explicou o Dr. Halprin. - Talvez vocs duas possam tranqiliz-la.
       As duas mulheres se entreolharam, incertas de quem deveria falar. Como funcionria hierarquicamente superior, a Sra. Kapland comeou.
       - A gripe veio de repente e eu me senti pssima - disse ela. - Mas quatro ou cinco horas depois, j estava melhorando. Agora me sinto tima. H meses que 
no me sinto to bem assim.
       - Comigo foi muito parecido - afirmou Nancy Casado. - Comecei com tosse e dor de garganta. Tenho certeza de que tive febre tambm, embora no tenha tirado 
a temperatura e portanto no saiba se a febre foi alta.
       - Alguma de vocs acha que a personalidade da outra mudou depois da recuperao? - indagou o Dr. Halprin.
       Ambas deram uma risadinha, cobrindo a boca com a mo. Elas se entreolharam, conspiradoramente.
       - O que h de to engraado? - perguntou o Dr. Halprin.
       -  s uma piadinha particular - explicou a Sra. Kapland.
       - Mas, respondendo  sua pergunta, nenhuma de ns acha que nossas personalidades mudaram. O senhor acha isso, Dr. Halprin?
       - Eu? - replicou o diretor. - No creio que eu tenha tempo para prestar ateno a essas coisas, mas no, no creio que alguma de vocs tenha mudado.
       - Conhecem outras pessoas que tenham ficado doentes? -  Indagou Sheila s mulheres.
       - Muitas - responderam, em unssono.
       - Perceberam alteraes na personalidade de alguma delas? - insistiu Sheila.
       - Eu no - replicou a Sra. Kapland.
       - Nem eu - acrescentou Nancy Casado.
       O Dr.Alprin estendeu as duas mos, as palmas voltadas para cima.
       - No creio que tenhamos um problema aqui - disse ele. - Mas obrigado por virem me procurar. - Ele sorriu.
       - Bem,  direito seu - retrucou Sheila, levantando-se. Pitt fez o mesmo, cumprimentando com um gesto da cabea o diretor e as secretrias. Quando seus olhos 
encontraram os de Nancy Casado, ele percebeu que ela o olhava de uma forma curiosamente provocante. Os lbios da mulher estavam ligeiramente abertos e a ponta de 
sua lngua brincava nas sombras. Assim que percebeu que ele a olhava, deixou os olhos percorrerem o corpo dele de alto a baixo.
       Pitt rapidamente se virou e seguiu a Dra. Miller, deixando a sala do diretor. Sentia-se constrangido. De repente, ele soube o que Cassy estivera tentando 
lhe dizer naquela manh, depois que visitaram o quarto que Beau ocupara na enfermaria estudantil.
       Equilibrando os livros, a bolsa e a comida chinesa embalada para viagem, Cassy conseguiu enfiar a chave na fechadura e abrir a porta. Depois de entrar, fechou 
a porta com o p.
       - Beau, j est em casa? - gritou ela, enquanto aliviava sua carga sobre o pequeno aparador perto da porta.
       Um rosnado grave e ameaador fez eriarem-se os plos da nuca de Cassy. O som viera de muito perto. Na verdade, era como se estivesse bem atrs dela. Lentamente, 
ela levantou os olhos para o espelho decorativo acima do aparador. Um pouco  esquerda de sua imagem, via-se um imenso buli mastiff castanho claro, mostrando as 
presas enormes.
       Sempre muito lentamente, para no assustar o animal j perturbado, Cassy fez meia-volta a fim de ficar de frente para ele. Seus olhos eram como bolas de gude 
negras. Tratava-se de uma criatura assustadora, que lhe batia acima da cintura.
       Beau, mastigando uma ma, surgiu na porta da cozinha.
       - Ei, King! Est tudo bem. Esta  a Cassy.
       O co parou de rosnar e virou-se na direo de Beau, inclinando a cabea para o lado.
       - Esta  Cassy - repetiu Beau. - Ela mora aqui tambm.
       Beau afastou-se da porta, fez um carinho em King e lhe disse "bom menino" antes de beijar Cassy apaixonadamente nos lbios.
       - Seja bem-vinda, amor - cumprimentou ele, com animao. - Sentimos sua falta. Onde voc estava?
       Beau andou at o sof e sentou-se sobre o brao deste.
       Cassy no movera um s msculo. Tampouco o co, exceto pelo breve olhar que lanou a Beau. No estava mais rosnando, nas continuava a fit-la com seu olhar 
malfico.
       - Como assim? Onde eu estava? - replicou Cassy. -Voc deveria ter ido me apanhar. Esperei meia hora.
       - Ah,  mesmo. Me desculpe. Tive um compromisso importante e no havia como avis-la. Voc mesma me disse que podia conseguir uma carona com facilidade.
       - , mas quando est programado - afirmou Cassy. - Quando percebi que voc no iria mais, todos que eu conhecia j tinham ido embora. Tive de chamar um txi.
       - Puxa! Me desculpe. De verdade.  que de repente est acontecendo tanta coisa. Que tal eu te levar para jantar no Bistr, seu restaurante favorito, esta 
noite?
       - Mas ns samos na noite passada - disse Cassy. - Voc no tem trabalho da faculdade para fazer? Comprei comida chinesa.
       - Bem, como preferir, meu bem - replicou Beau. - Me sinto mal por ter deixado voc l esperando, e ento gostaria de me retratar.
       - O simples fato de estar disposto a se desculpar j  uma grande coisa - afirmou Cassy, baixando ento os olhos para o co imvel.
       - E por que esta fera est aqui? - perguntou ela. - Est tomando conta dela para algum?
       - No - respondeu Beau. -  meu cachorro. O nome dele  King.
       - Voc est brincando.
       - Claro que no - disse Beau, erguendo-se do brao do sof, indo at King e afagando-lhe com fora as orelhas. King respondeu abanando a cauda e lambendo 
a mo de Beau com sua lngua enorme. - Pensei que seria bom contarmos com essa proteo.
       - Proteo contra o qu? - retrucou Cassy. Ela estava atnita.
       - Contra tudo, em geral - respondeu Beau, vagamente. - Um cachorro como este tem o olfato e a audio muito melhores do que os nossos.
       - No acha que deveramos ter discutido essa deciso? - Perguntou Cassy, o medo j se transformando em raiva.
       - Podemos discuti-la agora - afirmou Beau, inocentemente.
       - Pelo amor de Deus! - exclamou Cassy, zangada. Apanhou a comida que trouxera e foi para a cozinha. Tirou as embalagens da sacola e apanhou os pratos no armrio, 
cuidando de bater a porta ao fech-la. Da gaveta ao lado do lava-louas, tirou os talheres e arrumou a mesa ruidosamente.
       Beau apareceu na porta.
       - No precisa ficar aborrecida - disse ele.
       - Ah, no? - replicou Cassy, enquanto lgrimas involuntrias assomavam-lhe aos olhos. -  fcil para voc dizer isso. No sou eu que estou agindo de maneira 
estranha, como, por exemplo, saindo no meio da noite e trazendo para casa um cachorro do tamanho de um bfalo.
       Beau entrou na cozinha e tentou abra-la, mas Cassy o repeliu e correu para o quarto. Agora ela estava soluando.
       Ele aproximou-se por trs e passou os braos em torno dela. Dessa vez, ela no resistiu. Durante um momento, ele nada disse, deixando-a chorar. Por fim, virou-a 
de frente para ele e os dois fitaram-se nos olhos.
       - OK - disse ele. - Peo desculpas tambm pelo cachorro. Eu deveria ter falado com voc sobre essa idia, mas minha cabea tem estado to assoberbada. Tantas 
coisas esto me acontecendo ao mesmo tempo. Recebi a resposta do pessoal do Nite. Estou indo at l para uma entrevista com eles.
       - Quando foi que entraram em contato com voc? - perguntou Cassy, enxugando os olhos. Ela sabia o quanto Beau estava contando em conseguir um emprego na Cipher 
Software. Talvez houvesse uma explicao para seu comportamento esquisito.
       - Hoje - informou Beau. -  tudo to promissor!
       - Quando vai at l?
       - Amanh.
       - Amanh! - repetiu Cassy. As coisas estavam acontecendo rpido demais. Estava passando por uma sobrecarga emocional. - Voc no ia me contar?
       -  claro que eu ia contar a voc - afirmou ele.
       - E voc quer mesmo um cachorro? - insistiu Cassy. - O que vai fazer com ele quando for para a entrevista com o pessoal do Nite?
       - Ele vai comigo - respondeu Beau, sem hesitao.
       - Voc vai lev-lo numa viagem profissional?
       - Por que no?  um animal maravilhoso.
       Cassy digeriu aquela informao surpreendente. De seu ponto de vista, aquilo parecia, no mnimo, imprprio. Ter um co parecia incompatvel com o estilo de 
vida dos dois.
       - Quem vai sair com ele quando voc estiver em aula? E aliment-lo? Ter um cachorro implica muita responsabilidade.
       - Eu sei, eu sei - disse Beau, erguendo as mos, como se se rendesse. - Prometo tomar conta dele vou lev-lo para andar, aliment-lo, limpar a sujeira dele 
e puni-lo se ele roer algum sapato seu.
       Cassy sorriu, apesar de tudo. Beau falava como o clich do garotinho implorando  me que lhe desse um cachorro, a me sabendo muito bem que acabaria assumindo 
o fardo de tomar conta do animalzinho.
       - Eu o apanhei no abrigo - contou Beau. - Tenho certeza de que vai gostar dele, mas, se no gostar, ns o devolvemos. Vamos ver tudo isso como uma experincia. 
Daqui a uma semana, decidiremos.
       - De verdade? - perguntou Cassy.
       - Claro - garantiu Beau. - Vou busc-lo para que voc o conhea apropriadamente.  um excelente cachorro.
       Cassy assentiu e Beau saiu do quarto. Ela respirou fundo. Tantas coisas pareciam estar acontecendo ao mesmo tempo. Quando se dirigia ao banheiro para lavar 
o rosto, Cassy percebeu que o computador de Beau estava executando algum programa estranho e muito rpido. Ela hesitou e olhou para o monitor. Dados sob a forma 
de textos e grficos apareciam e desapareciam na tela numa velocidade atordoante. Ento uma outra coisa lhe chamou a ateno. Diante do drive do computador, encontrava-se 
o curioso objeto negro que Beau encontrara alguns dias antes no estacionamento do Costa's Diner. Cassy j o havia esquecido e, lembrando-se que Beau e Pitt haviam 
comentado que o objeto era pesado, ela estendeu a mo para ele.
       - Aqui est o monstro - anunciou Beau, desviando a ateno de Cassy. Obedecendo s ordens de Beau, King mostrou-se feliz em ir pulando at Cassy e lamber-lhe 
a mo.
       - Que lngua spera - observou Cassy.
       -  um timo co - disse Beau, radiante. Cassy deu palmadinhas no flanco de King.
       -  forte - comentou ela. - Quanto ele pesa? - Ela se perguntava quantas latas de comida canina ele precisaria por dia.
       - Eu diria que uns cinqenta e poucos - disse Beau. Cassy coou atrs da orelha de King, em seguida fez um sinal com a cabea na direo do computador de 
Beau.
       - O que est acontecendo com seu micro? Parece que est descontrolado.
       - S estou fazendo o download de alguns dados pela Internet - respondeu Beau, indo at o aparelho. - Acho que posso desligar o monitor.
       - Voc vai imprimir tudo isso? - indagou Cassy. - Vai precisar de muito mais papel do que temos.
       Beau desligou o monitor, mas certificou-se de que as luzes do disco rgido continuassem a piscar velozmente.
       - Ento, o que vai ser? - perguntou Beau, aprumando-se.
       - A comida chinesa ou o Bistr? A escolha  sua.
       Os olhos de Beau abriram-se de sbito, no mesmo instante dos de King. Apoiando-se em um dos cotovelos, Beau olhou o relgio por sobre o corpo adormecido de 
Cassy, a fim de ver as horas. Eram 2:30.
       Tomando cuidado para que as molas da cama no rangessem, Beau escorregou as pernas para fora da cama e se levantou. Fez um carinho na cabea de King antes 
de vestir suas roupas. Em seguida, dirigiu-se ao computador. Um momento antes, a luz vermelha do disco rgido finalmente parar de piscar.
       Ele apanhou o disco negro e guardou-o no bolso. Num bloco de anotaes ao lado do computador, rabiscou: "Fui andar um pouco. Volto logo. Beau."
       Depois de colocar o bilhete sobre o seu travesseiro, ele e King deixaram silenciosamente o apartamento.
       Beau saiu do edifcio e deu a volta at o estacionamento. King permanecia ao seu lado, sem coleira. Fazia mais uma noite deslumbrante, com a ampla faixa da 
Via Lctea descrevendo uma curva acima de suas cabeas. No havia lua e, como resultado, as estrelas pareciam mais encantadoras.
       Mais para o fundo do estacionamento, Beau encontrou uma rea onde no havia carros. Tirando o disco negro do bolso, ele o colocou sobre o asfalto. Quase no 
mesmo instante em que deixou sua mo, o objeto comeou a brilhar. Quando Beau e King estavam a quinze metros de distncia, ele j comeara a formar a coroa e a passar 
do vermelho para o branco incandescente.
       A noite toda Cassy tivera um sono agitado, com muitos sonhos cheios de ansiedade. Ela no tinha a menor idia do que a acordara, mas de repente se vira fitando 
o teto, que aos poucos ia sendo iluminado por uma luz incomum.
       Cassy sentou-se na cama. O quarto todo tinha um brilho peculiar, crescente, e estava claro que este entrava pela janela. Quando comeou a deixar a cama a 
fim de investigar, percebeu que Beau no estava ali, da mesma forma que na noite anterior. Dessa vez, porm, ela viu que havia um bilhete.
       Apanhando o bilhete, Cassy foi at a janela e olhou para fora. Imediatamente viu a fonte do brilho. Tratava-se de uma bola branca de luz que ia aumentando 
com rapidez sua intensidade, de modo que os carros ao redor iam lanando sombras escuras.
       No instante seguinte, a luz desapareceu, como se tivesse sido apagada de repente, dando a Cassy a impresso de que implodira. Em seguida, ela ouviu um som 
alto e sibilante, que terminou da mesma maneira abrupta.
       Sem ter a menor idia do que vira, Cassy perguntou-se se no deveria chamar a polcia. Enquanto debatia consigo mesma, comeou a se voltar para o quarto, 
quando um movimento no estacionamento chamou sua ateno. Tornando a focalizar os olhos naquela direo, ela viu um homem e um cachorro. Quase imediatamente reconheceu 
Beau e King.
       Certa de que ele devia ter visto a bola de luz, estava prestes a cham-lo, quando viu outras figuras emergirem das sombras, para sua surpresa, trinta ou quarenta 
pessoas apareceram misteriosamente.
       Havia alguns postes de iluminao limitando a rea do estacionamento e assim Cassy podia distinguir alguns dos rostos. A princpio, no reconheceu ningum. 
Mas ento viu duas pessoas que achou que conhecia. Ela pensou ter visto o Sr. e a Sra. Partridge!
       Cassy obrigou-se a piscar vrias vezes. Estaria mesmo acordada ou aquilo seria um sonho? Um estremecimento percorreu seu corpo. Era aterrorizante sentir-se 
confusa sobre seu senso de realidade. Aquilo lhe dava uma compreenso imediata do horror de uma doena psiquitrica.
       Tornando a olhar para o grupo, Cassy viu que as pessoas haviam todas se reunido no centro do estacionamento. Era como se estivessem realizando uma reunio 
clandestina. Ela cogitou brevemente de se vestir e ir at l ver do que se tratava, mas teve de admitir para si mesma que estava com medo. A situao toda era surreal.
       Ento, de repente, teve a impresso de que King a vira na janela. A cabea do co voltou-se em sua direo e seus olhos brilhavam como os olhos de um gato 
quando refletem a luz. Um latido de King fez com que todas as pessoas levantassem os olhos, inclusive Beau.
       Cassy recuou, afastando-se da janela, assustada. Os olhos de todas as pessoas brilhavam como os de King. Ela sentiu um arrepio e mais uma vez se perguntou 
se no estaria sonhando.
       Cambaleou at a cama em meio  escurido e ento acendeu a luz. Leu o bilhete, esperando que pudesse haver ali alguma explicao, mas a mensagem era totalmente 
genrica. Ela ps o bilhete sobre a mesinha-de-cabeceira e imaginou o que deveria fazer. Chamar a polcia? Mas ento, o que diria? Ser que eles ririam dela? Ou, 
se viessem at ali, tudo acabaria sendo um grande constrangimento se houvesse uma explicao razovel?
       De repente ela pensou em Pitt. Agarrando o telefone, comeou a discar. Mas no terminou. Lembrou-se de que eram trs horas da manh. O que ele poderia fazer 
ou dizer? Cassy recolocou o fone no gancho e suspirou.
       Decidiu que teria de esperar que Beau retornasse. Ela no fazia a menor idia do que estava acontecendo, mas iria descobrir. Confrontaria Beau e exigiria 
que ele lhe contasse.
       Tendo tomado uma deciso, ainda que passiva, Cassy sentiu-se um pouquinho menos ansiosa. Reclinou-se de encontro ao travesseiro e enfiou as mos sob a cabea. 
Tentou no pensar no que acabara de ver. Em vez disso, esforou-se para relaxar, concentrando-se na respirao.
       Cassy ouviu a porta de entrada do apartamento ranger e sentou-se ereta na cama. Ela adormecera, o que fez com que se perguntasse se estivera sonhando afinal. 
Contudo, um olhar lanado  mesinha-de-cabeceira revelou o bilhete de Beau, e o fato de a luz estar acesa mostrou a ela que no fora um sonho.
       Beau e King apareceram no vo da porta, Beau carregando os sapatos na mo. Estava tentando no fazer barulho.
       - Voc ainda est acordada - constatou Beau. Parecia desapontado.
       - Esperando voc - afirmou Cassy.
       - Encontrou meu bilhete, no encontrou? - perguntou ele, jogando os sapatos no closet e comeando a despir as roupas.
       - Encontrei. Agradeo a considerao. - Cassy lutava consigo mesma. Queria fazer perguntas, mas sentia uma certa relutncia. A situao toda parecia um pesadelo.
       - timo - disse Beau, desaparecendo no banheiro.
       - O que estava acontecendo l fora? - perguntou Cassy, reunindo sua coragem.
       - Samos para dar uma volta, como diz o bilhete - gritou Beau de volta.
       - Quem eram todas aquelas pessoas?
       Beau apareceu na porta enxugando o rosto na toalha.
       - Apenas um grupo de pessoas dando uma caminhada, como eu - respondeu Beau.
       - Os Partridges tambm? - perguntou Cassy, com sarcasmo.
       - , eles estavam l - disse Beau. - So pessoas agradveis. Muito animadas.
       - Sobre o que estavam falando? - quis saber Cassy. - Vi vocs da janela. Parecia uma reunio.
       - Sei que voc nos viu. No estvamos nos escondendo ou coisa parecida. Estvamos apenas conversando, basicamente sobre o meio ambiente.
       Cassy deixou escapar uma risada sardnica. Naquelas circunstncias, no podia acreditar que Beau fizesse uma afirmao to ridcula.
       - Ah, certo - disse ela. - Um encontro de vizinhos para debater o meio ambiente s trs da manh.
       Beau veio at a cama e sentou-se na borda. Sua expresso era de profunda preocupao.
       - Cassy, qual  o problema? - perguntou ele. - Voc est aborrecida outra vez.
       -  claro que estou aborrecida - gritou Cassy.
       - Fique calma, querida, por favor.
       - Ah, pelo amor de Deus, Beau! O que voc acha que eu sou? O que est acontecendo com voc?
       - Nada - afirmou Beau. - Eu me sinto timo. As coisas esto indo as mil maravilhas.
       - Voc no percebe o quanto seu comportamento tem sido estranho?
       - No sei do que voc est falando. Talvez meu sistema de valores esteja mudando, mas, que diabos, eu sou jovem, estou na universidade;  de se esperar que 
eu esteja aprendendo coisas.
       - Voc no  mais o mesmo - insistiu Cassy.
       -  claro que sou. Continuo a ser Beau Eric Stark, o mesmo sujeito que eu era na semana passada e na anterior. Nasci em Brookline, Massachusetts, filho de 
Tmi e Ralph Stark. Tenho uma irm chamada Jeanine e...
       - Pare com isso, Beau! - berrou Cassy. - Sei que sua histria no mudou; o problema  o seu comportamento. No percebe isso?
       Beau deu de ombros.
       - No lamento, mas sou o mesmo que sempre fui. - Cassy deu um suspiro de exasperao.
       - No  no, e eu no sou a nica pessoa que percebeu isso. Seu amigo Pitt tambm.
       - Pitt? - indagou Beau. - Bem, agora que voc disse isso, ele de fato mencionou algo sobre eu estar fazendo coisas inesperadas.
       - Exatamente - confirmou Cassy. -  sobre isso que estou falando. Oua! Quero que voc consulte um profissional. Ou melhor, iremos ns dois. Que tal? - Cassy 
deixou escapar outra risadinha sarcstica. - Afinal, talvez o problema seja comigo.
       - OK - disse Beau, afavelmente.
       - Voc ir consultar algum? - surpreendeu-se Cassy. Ela esperara uma discusso.
       - Se isso fizer com que voc se sinta melhor, irei sim - concordou Beau. - Mas, naturalmente, ter de esperar at eu voltar da entrevista com o pessoal do 
Nite, e eu no sei com preciso quando isso ser.
       - Pensei que voc s ficaria fora um dia - disse Cassy.
       - Vai ser mais do que isso - afirmou Beau. - Mas exatamente quanto tempo s vou saber quando chegar l.
       
       
       10
       9:50
       
       Nancy Sellers trabalhava o mximo possvel em casa. Com seu computador ligado em rede  central da Serotec Pharmaceuticals e com um grupo de excelentes tcnicos 
em seu laboratrio, ela conseguia render mais em casa do que no escritrio. A principal razo era que a separao fsica a protegia da mirade de dores de cabea 
administrativas implcitas no gerenciamento de um grande laboratrio de pesquisas. A segunda razo era que a tranqilidade da casa silenciosa favorecia sua criatividade.
       Acostumada ao silncio absoluto, o som da porta da frente sendo fechada bruscamente, s dez para as nove, chamou a ateno de Nancy de imediato. com o pensamento 
pessimista de que s podia ser alguma notcia ruim, ela saiu do programa no qual estava trabalhando e deixou o escritrio domstico.
       Parou na balaustrada, no alto da escada, e olhou para o hall de entrada, no primeiro andar. Jonathan apareceu em seu campo de viso.
       - Por que voc no est na escola? - perguntou Nancy, j tendo feito uma avaliao mental da sade do filho. Ele parecia bem ao andar e sua cor tambm estava 
boa.
       Jonathan parou na base da escada e olhou para cima.
       - Ns precisamos conversar com voc.
       - Ns, quem? - indagou Nancy. Contudo, assim que a pergunta deixou seus lbios, ela viu a jovem surgir atrs do filt e inclinar a cabea para trs.
       - Esta  Candee Taylor, me - apresentou Jonathan. Nancy sentiu a boca ressecar. O que ela viu foi um rosto de fada no alto de um corpo de mulher j bem desenvolvido. 
Seu primeiro pensamento foi o de que a garota estava grvida. Ser me de um adolescente era como andar na corda bamba: o desastre estava sempre  espreita.
       - J estou descendo - disse Nancy. - Me esperem na cozinha.
       Nancy deu uma rpida passada no banheiro, mais para acalmar suas emoes do que para cuidar da aparncia. Nesse ltimo ano vinha se preocupando com a possibilidade 
de Jonatha envolver-se nesse tipo de problema,  medida que o interesse do filho por garotas disparava e ele se tornava reservado e fechado.
       Quando Nancy pensou que estivesse preparada, encontrou os dois na cozinha, j tendo se servido do caf que ela mantinha sobre o fogo. Nancy tambm serviu-se 
de uma xcara e sentou-se num dos bancos que circundavam a bancada central. Os outros j estavam sentados.
       - Muito bem - disse Nancy, preparada para o pior. - Podem comear.
       Foi Jonathan quem falou primeiro, pois Candee estava visivelmente nervosa. Ele descreveu como os pais de Candee estavam agindo de maneira estranha. Disse 
que fora at a casa dela na tarde anterior e vira com seus prprios olhos.
       -  sobre isso que queriam falar comigo? - indagou Nancy - Sobre os pais de Candee?
       -  - disse Jonathan. - Olhe, a me de Candee trabalha na Serotec Pharmaceuticals, no departamento de contabilidade.
       - Ah, deve ser Joy Taylor - afirmou Nancy. Estava tentando no deixar transparecer na voz o alvio que sentia. - Conversei com ela muitas vezes.
       - Foi o que pensamos - continuou Jonathan. - Pensamos que talvez voc estivesse disposta a falar com ela, pois Cande est preocupada de verdade.
       - O que h de to estranho no comportamento da Sra. Taylor? - perguntou Nancy.
       -  tanto meu pai quanto minha me - disse Candee.
       - Eu posso contar do meu ponto de vista - interveio jonathan. - At ontem, eles no me queriam por l. No havia jeito. Mas, de repente, ficaram to simpticos 
que eu no pude acreditar. Chegaram a me convidar para passar a noite l.
       - Por que eles pensariam que voc passaria a noite l? - quis saber Nancy.
       Jonathan e Candee trocaram olhares. Ambos enrubesceram.
       - Quer dizer que eles sugeriram que vocs dois dormissem juntos? - perguntou ela.
       - Bem, eles no disseram isso exatamente - afirmou Jonathan. - Mas foi o que entendemos.
       -  claro que posso conversar com ela - disse Nancy, com sinceridade. Estava estarrecida.
       - No  s o modo como esto agindo - acrescentou Candee. -  como se fossem outras pessoas. H alguns dias eles praticamente no tinham amigos. Agora, de 
repente, esto recebendo visitas... a qualquer hora do dia e da noite, para falar sobre as florestas tropicais e a poluio, e coisas desse tipo. Gente que eu posso 
jurar que eles nunca encontraram antes e que agora anda pela casa. Sou obrigada a trancar a porta do meu quarto.
       Nancy pousou a xcara de caf. Sentia-se envergonhada de suas suspeitas iniciais. Olhou para Candee e, em vez de uma mulher sedutora, viu uma menina assustada. 
A imagem tangeu as cordas de seu instinto maternal.
       - Vou conversar, sim, com sua me - repetiu Nancy. - E voc  bem-vinda aqui, se quiser ficar em nosso quarto de hspedes. Mas vou ser clara com vocs dois: 
Nada de brincadeiras, e acho que vocs sabem a que me refiro.
       - O que vo querer? - perguntou Marjorie Stephanopolis. Tanto Cassy quanto Pitt perceberam seu sorriso radiante. - Que dia lindo, no acham?
       Cassy e Pitt trocaram olhares perplexos. Essa era a primeira vez que Marjorie tentava conversar com eles. Os dois se encontravam num dos reservados do Costa's 
Diner, na hora do almoo.
       - Para mim, um hambrguer, batata frita e uma Coca - pediu Cassy.
       - Para mim tambm - disse Pitt. Marjorie recolheu os cardpios.
       - Trarei seus pedidos o mais rpido que puder - afirmou a garonete. - Espero que apreciem o almoo.
       - Pelo menos algum est contente hoje - comentou Pitt, enquanto observava Marjorie desaparecer de volta  cozinha.
       - Nos trs anos e meio em que venho aqui, isso  o mximo que j a ouvi dizer.
       - Voc nunca come hambrgueres e batata frita - observou Cassy.
       - Nem voc - lembrou-lhe Pitt.
       - Foi a primeira coisa que me veio  cabea - disse Cassy. -  que estou to apavorada. E estou lhe dizendo a verdade sobre ontem  noite. Eu no estava tendo 
alucinaes.
       - Mas voc mesma me disse que se perguntou se estava acordada ou sonhando - lembrou Pitt.
       - Me convenci de que estava acordada - replicou Cassy, zangada.
       - Est bem, fique calma. - Pitt correu os olhos pelo restaurante. Vrias pessoas ali perto estavam olhando para eles.
       Cassy debruou-se sobre a mesa e sussurrou:
       - Quando todos olharam para mim, inclusive o cachorro, os olhos deles estavam brilhando.
       - Cassy, por favor...
       - Estou dizendo a verdade! - exclamou ela.
       Pitt arriscou outro olhar pelo salo. Um nmero de pessoas ainda maior os fitava agora. Estava claro que a voz de Cassy as estava incomodando.
       - Mantenha a voz baixa! - sussurrou Pitt, energicamente.
       - OK.
       Cassy tambm podia perceber os olhares que estavam atraindo.
       - Quando perguntei a Beau sobre o que estavam falando l fora s trs da manh, ele me respondeu: "O meio ambiente" - Contou Cassy.
       - No sei se rio ou se choro. Acha que ele estava brincando?
       - No, absolutamente - afirmou Cassy, com convico.
       - Mas a idia de uma reunio no estacionamento, no meio da noite, para falar sobre o meio ambiente  absurda.
       - Assim como tambm o fato de que seus olhos cintilavam - acrescentou Cassy. - Mas voc ainda no me contou o que Beau disse na conversa que teve com ele 
ontem.
       - No tive oportunidade. - Pitt, ento, contou a Cassy tudo que acontecera durante o jogo e depois dele. Cassy ouviu com grande interesse, principalmente 
a parte sobre o encontro de Beau com os executivos bem-vestidos, na quadra de esportes.
       - Tem alguma idia do que eles estavam falando? - indagou Cassy.
       - Nem uma pista - disse Pitt.
       - Poderiam ser funcionrios da Cipher Software? - perguntou Cassy. Ela continuava esperando que surgisse uma explicao razovel para tudo aquilo que estava 
acontecendo.
       - No sei - respondeu Pitt. - Por que est perguntando isso? - Antes que Cassy pudesse responder, Pitt percebeu que Marjorie estava parada a alguma distncia, 
segurando duas Cocas. No instante em que a viu, ela se aproximou e ps os refrigerantes sobre a mesa.
       - Os sanduches j vo sair - disse ela, alegremente. Depois que Marjorie tornou a desaparecer, Pitt observou:
       - Devo estar ficando paranico. Eu poderia jurar que ela estava ali parada escutando nossa conversa.
       - E por que ela faria isso? - replicou Cassy.
       -  a pergunta que me fao - disse Pitt. - Me diga uma coisa: Beau foi  aula hoje?
       - No, ele foi para a Cipher Software - informou Cassy. - Foi por isso que perguntei sobre eles. Beau me disse que entraram em contato com ele ontem. Calculei 
que tivessem telefonado, mas talvez tenham vindo pessoalmente. Seja como for, ele foi at l para uma entrevista.
       - E quando volta?
       - Ele no sabia.
       - Bem, talvez isso seja bom - disse Pitt. - Quem sabe quando ele vier j no tenha voltado ao normal?
       Marjorie reapareceu trazendo os sanduches. Com um floreio, ela os colocou diante dos dois fregueses e at mesmo girou o prato ligeiramente, para posicion-los 
com perfeio, como se o Costa's Diner fosse um restaurante fino.
       - Tenham um bom apetite! - desejou Marjorie, alegremente, antes de desaparecer outra vez na cozinha.
       - No  s Beau quem est se comportando de maneira diferente - observou Cassy. - Ed Partridge e a mulher tambm, e j ouvi sobre outros. Acho que o que quer 
que esteja acontecendo, est se espalhando. Acho at que tem alguma coisa ver com essa gripe que anda por a.
       - Amm! - exclamou Pitt. - Tenho a mesma sensao. Na verdade, foi o que eu disse ontem  chefe da Emergncia.
       - E qual foi a reao dela? - quis saber Cassy.
       - Melhor do que eu imaginava. A chefe da Emergncia uma mulher inflexvel e objetiva, chamada Dra. Sheila Miller. No entanto, mostrou-se disposta a me ouvir 
e at mesmo me levou para falar com o diretor do hospital.
       - Qual foi a reao dele?
       - No ficou impressionado - respondeu Pitt. - Mas ele prprio apresentava os sintomas da gripe, enquanto falvamos com ele.
       - Tem alguma coisa errada com a comida? - perguntou Marjorie, reaparecendo ao lado da mesa.
       - No, est tudo bem - disse Cassy, exasperada com a interrupo.
       - Mas nem tocaram nos sanduches - observou Marjorie - Se houver algum problema, posso trazer outra coisa para vocs.
       - Estamos bem! - replicou Pitt, bruscamente.
       - Bem, me chamem, se precisarem. - E saiu apressada
       - Ela est me deixando maluca - disse Cassy. -Acho que preferia quando ela era emburrada.
       De repente, a mesma idia ocorreu a Cassy e a Pitt.
       - Ah, meu Deus! - exclamou Cassy. - Acha que ela teve a gripe?
        -  o que me pergunto! - disse Pitt, igualmente preocupado. -  bvio que o comportamento dela mudou.
       - Precisamos fazer alguma coisa - decidiu Cassy. - Quem deveramos procurar? Tem alguma idia?
       - Para falar a verdade, no. Bem, quem sabe devssemos voltar  Dra. Miller? Pelo menos ela foi receptiva. Queria dizer que h outras pessoas com mudanas 
de personalidade. S mencionei Beau.
       - Voc se importa que eu v tambm? - perguntou Cassy.
       - Em absoluto. Na verdade, at prefiro. Mas vamos agora mesmo.
       - Estou pronta.
       Pitt correu os olhos em vo pelo restaurante para pedir a conta a Marjorie. No a encontrando, suspirou com exasperao. Era frustrante que, depois de importun-los 
por toda a refeio, na hora em que precisavam, ela no estava em lugar algum.
       - Marjorie est atrs de voc - disse Cassy, apontando por sobre o ombro de Pitt. - Est na caixa registradora, num papo animado com Costa.
       Pitt girou o corpo na cadeira. Nesse momento, Marjorie e Costa voltaram a cabea em sua direo, fixando os olhos nos dele. Havia uma intensidade em seu olhar 
que fez Pitt estremecer.
       Pitt tornou a virar-se, ficando de frente para Cassy.
       - Vamos dar o fora daqui - disse ele. - Devo estar mesmo ficando paranico. No sei por qu, mas tenho certeza de que Marjorie e Costa estavam falando da 
gente.
       Beau nunca estivera em Santa F, mas ouvira muitas coisas boas sobre a cidade e estava ansioso para v-las. E no ficou desapontado: gostou imediatamente 
do lugar.
       Ele chegara na hora prevista no pequeno aeroporto e fora apanhado por um jipe Cherokee, espaoso como uma limusine! Nunca vira um veculo daqueles antes e, 
a princpio, achou cmico. Depois de andar nele, porm, estava pronto a acreditar que poderia ser superior a uma limusine normal devido  sua altura. Naturalmente, 
tinha de admitir para si mesmo que no tinha muita experincia com limusines de qualquer espcie.
       Por mais atraente que Beau tenha achado Santa F como um todo, a cidade era apenas um arauto da beleza da propriedade na qual estava situada a Cipher Software. 
Depois de passarem por um porto de segurana, Beau pensou que o lugar mais parecia um balnerio de luxo do que um estabelecimento comercial. Campos verdes, ondulados 
e exuberantes, estendiam-se entre edifcios modernos, bem-proporcionados e distribudos espaadamente. Densas florestas de conferas e lagos espelhados completavam 
a paisagem.
       Beau foi deixado no edifcio central, que, como todos os outros, era uma construo de granito e vidro tingido de dourado. Vrias pessoas que Beau j havia 
conhecido receberam-no e disseram-lhe que o Sr. Randy Nite estava  sua espera no escritrio.
       Quando Beau e seus acompanhantes subiam por um elevador de vidro acima de um trio repleto de plantas, perguntaram-lhe se estava com fome ou sede. Beau respondeu 
que estava bem.
       O escritrio de Randy Nite era imenso, ocupando a maior parte da ala oeste do terceiro e ltimo andar do edifcio. Era um quadrado com cerca de quinze metros 
de lado, trs dos quais delimitados por vidraas que iam do cho ao teto. No centro desse extenso espao, via-se a mesa de Randy, uma laje de dez centmetros de 
espessura de mrmore negro e dourado.
       Randy estava ao telefone quando Beau foi introduzido na sala, mas imediatamente se levantou e gesticulou para que Beau se acomodasse numa cadeira de couro 
preto de design modernssimo, sinalizando que demoraria s mais alguns minutos ao telefone. Tendo cumprido sua funo, os acompanhantes retiraram-se silenciosamente.
       Beau vira Randy em fotografias inmeras vezes, assim como tambm na TV. Pessoalmente, parecia to jovem quanto nas fotos, com a massa de cabelos ruivos e 
um punhado de simptica sardas salpicadas pelo rosto amplo e de aspecto saudvel. Os olhos cinza-esverdeados mostravam um brilho de divertimento. Tinha a altura 
aproximada de Beau, mas no era to musculoso, embora aparentasse estar em boa forma.
       - O novo software estar chegando s lojas no ms que vem - Ia dizendo Randy - E a campanha publicitria est pronta para comear na prxima semana. Vai ser 
uma campanha soberba. As coisas no poderiam ser melhores. O mundo vai ser tomado de assalto. Acredite em mim!
       Randy desligou e exibiu um sorriso largo. Vestia-se casualmente com um blazer azul, jeans desbotado e tnis. No era por acaso que Beau estava vestido num 
estilo semelhante.
       - Bem-vindo - cumprimentou Randy, estendendo a mo, que Beau apertou. - Devo dizer que minha equipe nunca recomendou algum antes tanto quanto voc. Durante 
as ltimas quarenta e oito horas, ouvi elogios sem parar. E isso me intriga. Como um acadmico do ltimo ano conseguiu ser um relaes pblicas to bem-sucedido?
       - Suponho que se trate de uma combinao de sorte, interesse e trabalho rduo,  moda antiga - respondeu Beau.
       Randy sorriu.
       - Muito bem colocado - Disse ele. - Tambm me disseram que voc gostaria de comear, no no marketing direto, mas como meu assistente pessoal.
       - Todo mundo tem de comear de algum lugar - afirmou Beau.
       Randy riu com entusiasmo.
       - Gosto disso. Autoconfiana e senso de humor. Faz com que me lembre de mim mesmo quando comecei. Vamos! Deixe eu lhe mostrar a empresa.
       - A Emergncia parece lotada - comentou Cassy.
       - Nunca vi isso aqui assim antes - disse Pitt.
       Estavam atravessando o estacionamento, em direo  entrada da Emergncia. Vrias ambulncias estavam l com suas luzes piscando. Viam-se carros estacionados 
de uma maneira aleatria e a segurana do hospital tentava organizar as coisas.
       A prpria entrada estava repleta com as pessoas que transbordavam da sala de espera.
       Subindo os degraus, Pitt e Cassy tiveram literalmente de abrir caminho at o balco de recepo. Pitt viu Cheryl Watkins e gritou para ela:
       - Que diabos est acontecendo aqui?
       - Fomos inundados pela gripe - explicou Cheryl. Ela prpria espirrou e em seguida tossiu. - Infelizmente, os funcionrios no so imunes.
       - A Dra. Miller est aqui? - perguntou Pitt.
       - Ela tambm est trabalhando com os outros - afirmou Cheryl.
       - Espere aqui - disse Pitt a Cassy. - Vou ver se consigo encontr-la.
       - Tente ser rpido - pediu Cassy. - Nunca gostei de hospitais.
       Pitt apanhou um jaleco branco, vestiu-o e pendurou o crach no bolso do peito. Em seguida, comeou a procurar pelos biombos. Encontrou a Dra. Miller com uma 
mulher idosa que desejava ser internada. A mulher se encontrava numa cadeira de rodas, pronta para ir para casa.
       - Sinto muito - dizia a Dra. Miller, terminando de preencher a ficha da Emergncia e prendendo-a com a prancheta num compartimento na parte posterior da cadeira 
de rodas. - Os sintomas de gripe que a senhora apresenta no so suficientes para que a internemos. Tudo de que a senhora precisa  descanso, um analgsico e lquidos. 
Seu marido estar aqui num instante para lev-la.
       - Mas eu no quero voltar para casa! - queixou-se a mulher. - Quero ficar no hospital. Meu marido me d medo. Ele no  mais o mesmo.  uma outra pessoa.
       Naquele momento o marido apareceu, trazido por um dos enfermeiros para apanhar a mulher. Embora to idoso quanto ela, parecia bem mais gil e mentalmente 
alerta.
       - No, no, por favor! - gemeu a mulher ao v-lo. Ela tentou agarrar a manga da Dra. Miller quando o marido comeou a empurrar sua cadeira rapidamente para 
fora do reservado, em direo  sada.
       - Acalme-se, querida - dizia o homem num tom tranqilizador. -Voc no vai querer incomodar esses bons mdicos.
       Quando tirava as luvas de ltex usadas durante o exame dos pacientes, Sheila avistou Pitt.
       - Bem, voc estava mesmo certo sobre esse surto de gripe estar aumentando. Por acaso ouviu a conversinha que acabei de ouvir?
       Pitt fez que sim com a cabea.
       - Receio que possa ter havido uma mudana de personalidade por parte do marido.
       - Foi o que pensei tambm - disse Sheila, enquanto jogava fora as luvas. - Mas, naturalmente, as pessoas idosas tm uma tendncia  desorientao.
       - Sei que a senhora est ocupada - comeou Pitt -, mas poderia me dar um minuto do seu tempo? Eu e uma amiga gostaramos de lhe falar. No sabemos a quem 
mais recorrer.
       Sheila concordou imediatamente, a despeito do caos na Emergncia. As opinies de Pitt no dia anterior comeavam a parecer profticas. Ela agora estava convencida 
de que essa gripe era diferente; no mnimo porque um vrus de gripe ainda precisava ser isolado.
       Ela levou Pitt e Cassy para a sua sala. Assim que a porta foi fechada, o lugar pareceu uma ilha de tranqilidade no meio de uma tempestade. Sheila sentou-se. 
Estava exausta.
       Cassy contou toda a histria da transformao de Beau depois da doena. Embora se sentisse constrangida em relao a certas partes, no omitiu nada. Relatou 
at mesmo o que acontecera na noite anterior, inclusive a estranha bola de luz, o encontro clandestino e o fato de que os olhos de todos brilhavam.
       Quando Cassy terminou, Sheila nada disse de imediato. Estivera o tempo todo rabiscando distraidamente com um lpis. Por fim, ela levantou os olhos.
       - Em circunstncias normais, com uma histria dessas, eu a mandaria direto para a psiquiatria e deixaria que cuidassem de voc. Mas essas no so condies 
normais. No sei o que Pensar a cerca disso tudo, mas devemos estabelecer os fatos que pudermos. Ento Beau foi acometido por essa enfermidade h trs dias...
       Cassy e Pitt assentiram em unssono.
       - Eu gostaria de v-lo - disse Sheila. - Acha que ele estaria disposto a vir aqui e ser examinado?
       - Ele disse que sim - afirmou Cassy. - Cheguei a lhe pedir que consultasse um profissional.
       - Pode traz-lo aqui hoje? - perguntou Sheila. Cassy abanou a cabea.
       - Ele est em Santa F.
       - Quando  que volta?
       Cassy foi tomada por uma onda de emoo.
       - Eu no sei - conseguiu falar, por fim. - Ele no quis me dizer.
       - Este  um dos meus locais preferidos no complexo, ou Zona, como gostamos de cham-lo - disse Randy, fazendo o carrinho eltrico de golfe parar e saltando. 
Beau saiu pelo outro lado e seguiu o magnata do software, subindo uma pequena colina gramada. Quando chegaram ao topo, a vista era espetacular.
       Diante deles estendia-se um lago cristalino, habitado por patos selvagens. A tela de fundo era a floresta virgem desenhada contra as Montanhas Rochosas.
       - O que acha? - perguntou Randy, orgulhoso.
       -  formidvel - respondeu Beau. - Mostra o que a ateno com o meio ambiente pode fazer e nos oferece um raio de esperana.  trgico e inacreditvel que 
uma espcie inteligente como os seres humanos tenha causado todo esse dano a um planeta to maravilhoso. Poluio, lutas polticas, diviso racial, superpopulao, 
m administrao do potencial gentico...
       Randy estivera balanando a cabea, em concordncia, at o ltimo item, quando ento lanou um rpido olhar na direo de Beau. Este, porm, fitava, sonhador, 
as montanhas distantes. Randy perguntou-se o que Beau quereria dizer com "m administrao do potencial gentico". Entretanto, antes que pudesse perguntar, Beau 
prosseguiu:
       - Essas foras negativas precisam ser controladas, e podem ser. Eu acredito firmemente que existem recursos adequados para reverter o dano causado ao planeta. 
Basta apenas um grande visionrio para carregar a tocha, algum que conhea os problemas, que tenha o poder e que no tema ir  frente.
       Um sorriso de agradecimento abriu-se involuntariamente no rosto de Randy. Beau captou-o pelo canto do olho. O sorriso por si s fez com que Beau soubesse 
que tinha Randy exatamente onde queria.
       - Com toda a certeza essas idias so muito visionrias para um universitrio - afirmou Randy. - Mas voc acredita de fato que a natureza humana, tal como 
ela , pode ser controlada o suficiente para fazer com que isso acontea?
       - Compreendi que a natureza humana  um empecilho - admitiu Beau. - Entretanto, com os recursos financeiros e as conexes mundiais que voc reuniu com a Cipher 
Software, creio que os obstculos podem ser contornados.
       -  bom ter viso - disse Randy. Embora em sua opinio Beau fosse excessivamente idealista, estava ainda assim impressionado. Mas no o bastante para permitir 
que Beau comeasse como seu assistente pessoal. Ele comearia no marketing direto e subiria por seus prprios esforos, como todos os seus assistentes.
       - O que  aquilo ali naquele monte de cascalho? - indagou Beau.
       - Onde?
       Beau foi at o ponto que indicara e abaixou-se, fingindo apanhar um de seus discos negros, que ele na verdade havia tirado do bolso. Aninhando-o na palma 
de sua mo, voltou-se para Randy e estendeu o objeto.
       - No sei o que  - disse Randy. - Mas, nesses ltimos dias, vi alguns de meus assistentes com outros iguais a esse. Do que  feito?
       - No sei dizer - respondeu Beau. - Mas  pesado, ento talvez seja metal. Mas segure-o. Talvez voc possa dizer.
       Randy apanhou o objeto e sopesou-o.
       - Uma coisinha bastante densa - observou ele. - E que superfcie lisa. E olhe essas protuberncias simetricamente dispostas  borda dele... Am! - gritou Randy, 
deixando cair o disco a fim de apertar o dedo, onde uma gota de sangue rapidamente se formou.
       - Essa maldita coisa me furou!
       - Que estranho - disse Beau. - Deixe eu dar uma olhada.
       - E tem outras pessoas que tambm esto apresentando mudanas de personalidade - disse Cassy a Sheila. - Por exemplo, o diretor da escola onde fao estgio 
vem agindo completamente diferente desde que teve a gripe. Tambm j ouvi falar de outros, mas no os vi pessoalmente.
       - Com honestidade,  essa mudana do estado mental que mais me preocupa - Afirmou Sheila.
       Cassy, Pitt e a doutora estavam a caminho da sala do Dr. Halprin. Munida de novas informaes, Sheila estava confiante em que o diretor do centro mdico teria 
uma reao diferente daquela do dia anterior. Quando chegaram, porm, uma decepo os aguardava.
       - Lamento, mas o Dr. Halprin telefonou hoje de manh dizendo que ia tirar uma licena - informou a Sra. Kapland.
       - Nunca soube que o Dr. Halprin houvesse faltado a um nico dia de trabalho no hospital - observou Sheila. - Ele disse o motivo?
       - Disse que ele e a mulher precisavam passar mais tempo juntos - respondeu a Sra. Kapland. - Mas ele vai ligar. Quer deixar um recado?
       - Voltaremos depois.
       Sheila girou sobre os calcanhares, e Cassy e Pitt apressaram-se em acompanh-la. Alcanaram-na no elevador.
       - E agora? - indagou Pitt.
       -  hora de dar um telefonema para quem deveria estar cuidando desse problema - replicou ela. - O Dr. Halprin tirar o dia de licena por motivos pessoais 
 estranho demais.
       - Detesto suicdios - disse Vince, ao virar  direita na Main Street. Mais adiante, via-se uma aglomerao de carros da polcia, dos bombeiros e ambulncias. 
Uma multido de espectadores era contida por uma fita delimitando a cena do crime. A tarde ia chegando ao fim e a noite comeava a cair.
       - Mais do que homicdios? - perguntou Jesse.
       - . Nos homicdios, a vtima no tem escolha. com os suicidas, acontece justamente o contrrio. No consigo imaginar o que seja matar a si mesmo. S de pensar 
me d calafrios.
       - Voc  estranho -  Observou Jesse. Com ele, ocorria o oposto. Era a inocncia da vtima de um homicdio que o perturbava. No conseguia sentir a mesma simpatia 
por um suicida. Achava que, se uma pessoa quisesse se matar, isso era problema dela. A dificuldade era determinar se o suicdio era mesmo suicdio e no um homicdio 
disfarado.
       Vince estacionou o mais perto da cena possvel. Sobre a calada, um pedao de lona amarela cobria o cadver. O nico sangue visvel era uma trilha que escorria 
para o meio-fio.
       Os dois detetives saltaram do carro e olharam para cima. Na salincia de uma janela, seis andares acima, eles viram vrios dos rapazes da percia examinando 
o local.
       Vince espirrou violentamente duas vezes seguidas.
       - Sade! - disse Jesse, de modo automtico.
       Jesse aproximou-se de um policial uniformizado parado ao lado da barreira cercada pela multido.
       - Quem est no comando aqui? - perguntou ele.
       - Bem,  o capito - respondeu o policial.
       - O capito Hernandez est aqui? - replicou Jesse, surpreso.
       - , l em cima - disse o outro.
       Jesse e Vince trocaram olhares confusos, enquanto seguiam na direo da entrada. O capito raramente se aventurava ao local de um crime.
       O edifcio pertencia  Serotec Pharmaceuticals. Era a sede dos escritrios administrativos e de pesquisa. A diviso manufatureira ficava fora da cidade.
       No elevador, Vince comeou a tossir. Jesse afastou-se o mximo que permitia o pequeno recinto.
       - Puxa - queixou-se ele. - O que h de errado com voc?
       - No sei - respondeu Vince. - Talvez eu esteja tendo uma reao alrgica ou coisa parecida.
       - Bem, cubra a boca quando tossir - disse Jesse. Chegaram ao sexto andar. A frente do edifcio era ocupada por um laboratrio de pesquisa. Havia vrios policiais 
uniformizados perto de uma janela aberta. Jesse perguntou onde estava o capito e os homens apontaram na direo de um escritrio que se via de um lado.
       - No creio que a presena de vocs seja necessria - Disse o capito Hernandez ao ver Jesse e Vince entrando. - A cena est toda gravada.
       O capito Hernandez apresentou Jesse e Vince  meia dzia de funcionrios da Serotec que se encontrava na sala, assim como ao investigador que encontrara 
a fita. Seu nome era tom Stockman.
       - Rode a fita mais uma vez, Tom- Pediu o capito Hernandez. Tratava-se de um filme em preto-e-branco feito por uma cmera de segurana com uma objetiva grande-angular. 
O som parecia ecoar. Via-se um homem de baixa estatura, num jaleco branco do laboratrio, encarando a cmera. Ele apoiara-se na janela, parecendo ansioso. Diante 
dele, havia vrios funcionrios da Serotec, todos com jalecos brancos semelhantes. Eram vistos de costas, pois estavam de frente para o homem baixinho. Jesse calculou 
que fossem as mesmas pessoas que agora se encontravam no escritrio.
       - O nome dele era Sergei Kalinov - Informou o capito Hernandez. - De repente, ele comeou a gritar para que todos o deixassem em paz. Isso est na parte 
inicial da fita. Pode-se ver claramente que ningum o est tocando e nem mesmo ameaando.
       - Ele simplesmente saltou pela janela - Disse um dos funcionrios da Serotec. - No sabamos o que fazer.
       Sergei ento comeou a soluar, dizendo que sabia que estava infectado e que no poderia suportar aquilo.
       Um dos funcionrios era visto ento adiantando-se na direo de Sergei.
       - Aquele  o chefe dos tcnicos, Mario Palumbo - Indicou o capito. - Est tentando acalmar Sergei.  difcil ouvir a sua voz porque ele est falando muito 
baixinho.
       - Eu s estava dizendo a ele que queramos ajudar - Disse Mario, na defensiva.
       De repente, Sergei virou e correu em direo  janela, lutando para abri-la. A pressa frentica sugeria que ele temia que interferissem. No entanto, nenhum 
dos presentes, inclusive Mario, tentou det-lo.
       Assim que conseguiu abrir a janela, Sergei subiu ao parapeito. Olhando a cmera pela ltima vez, ele saltou no espao.
       - Ai, cara... - gemeu Vince, desviando o olhar.
       At mesmo Jesse experimentou uma desagradvel sensao de queda em seu estmago ao ver aquele homenzinho aterrorizado matar-se. Na continuao da fita, viu 
quando vrios dos funcionrios da Serotec, entre os quais Mario, foram at a janela e olharam l para baixo. S que aquelas pessoas no estavam agindo como se estivessem 
horrorizadas. Era mais como se estivessem curiosas.
       Em seguida, para surpresa de Jesse, fecharam a janela e voltaram ao trabalho.
       Tom interrompeu a fita. Jesse olhou para os funcionrios da Serotec. Como haviam acabado de assistir  angustiante seqncia outra vez, ele teria esperado 
alguma reao. No entanto, no houve nenhuma. Estavam todos estranhamente alheios ao caso.
       Tom recolheu a fita e estava prestes a guard-la na sacola das provas com uma etiqueta de custdia anexa, quando o capito Hernandez a apanhou.
       - Eu cuido disso - Declarou o capito.
       - Mas esse no ...
       - Eu cuido disso - Repetiu o capito, de maneira autoritria.
       - Est bem - Concordou tom, embora soubesse que aquele procedimento no era aceitvel.
       Jesse observou o capito sair da sala com a fita na mo. Em Seguida, olhou para tom.
       - Ele  o capito - Disse tom, na defensiva.
       Vince tossiu violentamente bem s costas de Jesse, que se voltou e lanou-lhe um olhar furioso.
       - Santo Deus! Voc vai contaminar a todos ns se no cobrir a boca.
       - Me desculpe - Disse Vince. - De repente, comecei a me sentir pssimo. Est fazendo frio aqui?
       - No, no est frio - Afirmou Jesse.
       - Merda, devo estar com febre - Queixou-se Vince.
       Quem sabe no seria melhor sairmos e irmos comer num restaurante mexicano? - Sugeriu Pitt.
       - No, estou com vontade de cozinhar - Afirmou Cassy.
       - Isso sempre me acalma.
       Caminhavam sob as lmpadas simples das gambiarras que cobriam a feira ao ar livre, em estilo europeu. As principais mercadorias  venda eram produtos e frutas 
frescas comprados diretamente das fazendas nos arredores. Mas havia tambm outras barracas que vendiam de tudo, de peixe a antigidades e objetos de arte. Era um 
local popular, colorido e festivo. Naquele momento, quando a noite comeava a cair, havia muitas pessoas fazendo compras.
       - Bem, o que voc quer fazer? - perguntou Pitt.
       - Uma salada de macarro - respondeu Cassy. - Salada primavera.
       Pitt segurava a bolsa, enquanto Cassy escolhia os produtos. Era particularmente meticulosa ao selecionar os tomates.
       - No sei o que vou fazer quando ele voltar - disse Cassy.
       - Da forma como estou me sentindo agora, no quero nem mesmo v-lo. Pelo menos no at eu ter certeza de que voltou ao normal. Essa histria toda est me 
deixando cada vez mais assustada.
       - Tenho um apartamento  disposio - disse Pitt.
       - Verdade?
       - Fica perto do Costa's Diner. O proprietrio  meu primo em segundo grau, ou coisa parecida. Ele  professor no departamento de qumica, mas est de licena 
este semestre na Frana, vou at l alimentar os peixes e molhar as plantas. Ele convidou para ficar l, mas era muito trabalhoso me mudar na ocasio.
       - Acha que ele no se incomodaria se eu me hospedasse l? perguntou Cassy.
       - No - disse Pitt. - O apartamento  grande. So trs quartos. Se voc quiser, posso ficar l tambm.
       - Acha que eu estou exagerando? - indagou Cassy.
       - Em absoluto - afirmou Pitt. - Depois daquela demonstrao no jogo de basquete, eu mesmo estou um pouco cauteloso com ele.
       - Meu Deus! No posso acreditar que estejamos falando assim sobre Beau - disse Cassy, com emoo.
       Instintivamente, Pitt aproximou-se e abraou Cassy, que, tambm instintivamente, fez o mesmo. Ficaram assim abraados, por um momento alheios s outras pessoas 
que enxameavam  volta deles fazendo suas compras. Depois de alguns instantes, Cassy fitou os olhos escuros de Pitt. Ambos experimentaram uma fugaz sensao do que 
poderia ter sido. Ento, de sbito constrangidos, eles se soltaram e rapidamente voltaram  tarefa de escolher tomates.
       Com as compras feitas, entre as quais se inclua uma garrafa de vinho seco italiano, encaminharam-se para o carro. A rota para o estacionamento levou-os atravs 
da seo do mercado de pulgas. De repente, Pitt parou diante de uma das barracas.
       - Meu Deus! - exclamou ele.
       - O que foi? - perguntou Cassy, pronta para sair correndo. Nervosa como estava, esperava o pior.
       - Olhe! - disse Pitt, apontando na direo do mostrurio da barraca.
       Os olhos de Cassy vasculharam uma impressionante coleo de trastes que uma placa anunciava como antigidades. Em sua maioria, eram objetos pequenos, como 
cinzeiros e animais de cermica, mas havia alguns maiores, como esttuas de gesso para jardim e abajures. Viam-se tambm vrias caixas de vidro de bijuterias velhas 
e baratas.
       - O que voc quer que eu veja? - indagou Cassy, impaciente.
       - Na prateleira de cima - indicou Pitt. - Entre a caneca de cerveja e o par de suportes de livros.
       Eles se aproximaram da barraca. Cassy agora viu o que chamou a ateno de Pitt.
       - Mas que interessante - comentou ela. Enfileirados com preciso, estavam seis objetos disciformes pretos, semelhantes ao que Beau encontrara no estacionamento 
do Costa's Diner.
       Cassy fez meno de apanhar um, mas Pitt agarrou-lhe a mo.
       - No toque nisso! - disse ele.
       - Eu no ia quebr-lo - defendeu-se Cassy. - S queria sentir seu peso.
       - Eu no quero  que isso machuque voc! - afirmou Pitt. - E no o contrrio. De alguma forma, Beau foi ferido pelo dele. Ou pelo menos foi o que Beau pensou. 
Que coincidncia ver essas coisas aqui! Havia esquecido completamente que Beau encontrou um. - Ele inclinou-se e examinou um dos discos mais de perto. Lembrava-se 
de que ele e Beau no haviam conseguido chegar a uma concluso sobre o material de que era feito.
       - Ontem  noite vi o que Beau achou - disse Cassy. - Estava na frente do computador quando Beau fazia o download de um mundo de coisas pela Internet.
       Pitt tentou atrair a ateno do proprietrio para perguntar sobre os discos, mas o homem estava ocupado com outro fregus.
       Enquanto os dois examinavam os discos e esperavam que o dono da barraca ficasse livre, um homem atarracado e sua mulher passaram a frente deles.
       - Olhe aqui mais algumas daquelas pedras pretas sobre as quais Gertrude estava falando ontem  noite - disse a mulher.
       O homem deu um resmungo.
       - Gertrude disse que encontrou quatro dessas no quintal de sua casa - continuou a mulher, acrescentando ento com uma risada: - Pensou que pudessem ser valiosas 
at descobrir que as pessoas estavam encontrando essas pedras por toda parte.
       A mulher segurou um dos discos.
       - Uau!  pesada - disse ela, fechando os dedos em torno dele. - E o material  frio.
       Estava prestes a entreg-lo ao homem, quando gritou:
       - Ai! - E o atirou, irritada, de volta  prateleira. Infelizmente, o disco deslizou e caiu alguns centmetros abaixo, dentro de um cinzeiro, que se espatifou 
em milhes de pedacinhos.
       O som do vidro se quebrando chamou a ateno do proprietrio. Vendo o que acontecera, ele exigiu o pagamento pelo cinzeiro perdido.
       - Eu no vou pagar coisa alguma - disse a mulher, com indignao. - Essa coisinha preta cortou meu dedo. - Em desafio, ela ergueu o dedo mdio ferido. O gesto 
enfureceu o proprietrio, que o interpretou erroneamente como obsceno.
       Enquanto a mulher e o proprietrio discutiam, Pitt e Cassy entreolharam-se, em busca de confirmao do que haviam visto na escurido que se avolumava. Quando 
a mulher ergueu o dedo, este lhes parecera tomado de uma leve iridescncia azul!
       - O que poderia ter causado isso? - sussurrou Cassy.
       - Voc pergunta a mim? - replicou Pitt. - No tenho nem certeza de que aconteceu mesmo. Foi s por um segundo.
       - Mas ns dois vimos - insistiu Cassy.
       Foram necessrios mais vinte minutos para que o proprietrio e a mulher chegassem a um acordo. Depois que ela e o homem se foram, Pitt perguntou ao dono da 
barraca sobre os discos negros.
       - O que voc quer saber? - indagou o homem, mal-humorado. Fora ressarcido em apenas a metade do valor do cinzeiro.
       - Sabe o que eles so? - inquiriu Cassy.
       - No tenho a menor idia.
       - Por quanto so vendidos?
       - No comeo, conseguia at dez dlares - disse o homem. - Mas isso foi h um ou dois dias. Agora eles esto surgindo do nada, a feira est cheia deles. Mas 
vou fazer uma coisa para vocs: estes aqui so de uma qualidade excepcional. Fao todos os seis Por dez dlares.
       - Algum mais foi ferido por um desses discos ?-perguntou Pit.
       - Bem, um deles me espetou tambm - confessou o homem, dando de ombros. - Mas no foi nada: s uma espetadinha. S que eu no consegui descobrir como ele 
me furou. - Apanhou um dos discos. - So to lisinhos quanto um bumbum de beb...
       Pitt segurou o brao de Cassy e comeou a pux-la para longe dali. O homem ainda gritou:
       - Ei, o que me dizem de oito dlares?
       Pitt ignorou-o. Ento contou a Cassy sobre a garotinha na Emergncia, que fora repreendida pela me por dizer que uma pedra preta a mordera.
       - Acha que foi um daqueles discos? - interrogou Cassy.
       -  o que estou me perguntando. Porque ela tambm estava com gripe. Por isso estava na Emergncia.
       - Est insinuando que o disco negro teve alguma coisa a ver com o fato de ela pegar a gripe?
       - Sei que parece loucura - respondeu Pitt. - Mas essa tambm foi a seqncia com Beau: ele foi espetado e ento, algumas horas depois, ficou doente.
       
       
       11
       9:15
       
       - Quando foi que voc ouviu sobre essa entrevista coletiva de Randy Nite? - perguntou Cassy.
       - Hoje de manh, quando assistia ao jornal Today - disse Pitt. - O ncora disse que a NBC estaria transmitindo ao vivo.
       - E mencionaram mesmo o nome de Beau?
       - Isso foi o que me deixou estupefato - replicou Pitt. - Veja, ele foi l apenas para fazer uma entrevista de emprego e agora vai participar de uma coletiva 
na TV. Isso  muitssimo esquisito.
       Cassy e Pitt estavam na sala dos mdicos, na Emergncia, assistindo a uma TV de treze polegadas. Sheila Miller ligara para Pitt cedo e lhe dissera que fosse 
at l e levasse Cassy. O lugar era chamado de sala dos mdicos, mas era usado por todos os funcionrios da Emergncia para relaxar por alguns momentos e para quando 
traziam comida de casa ou da rua.
       - Para que viemos aqui? - perguntou Cassy. - Detesto faltar s aulas.
       - Ela no disse... - respondeu Pitt - Mas tenho o palpite de que ela, de algum modo, passou por cima do Dr. Halprin e quer que falemos com a pessoa que ela 
contactou, seja l quem for.
       - Vamos mencionar o que aconteceu ontem no incio da noite? - inquiriu Cassy.
       Pit ergueu a mo para silenciar Cassy. O ncora do programa anunciava que Randy Nite havia chegado. No momento seguinte, o conhecido rosto de menino de Randy 
encheu a tela.
       Antes de comear a falar, ele virou-se para o lado e tossiu. Voltando aos microfones, desculpou-se antecipadamente por sua voz e disse:
       - Ainda estou me recuperando de uma gripe, portanto sejam pacientes comigo.
       - Oh-oh. Ele tambm - comentou Pitt.
       - Pois bem - comeou Randy. - Bom dia para todos. Para aqueles que no me conhecem, meu nome  Randy Nite, e sou um vendedor de software.
       Risadas discretas podiam ser ouvidas vindas da platia presente. Enquanto Randy fazia uma pausa, o ncora elogiava a modstia bem-humorada de Randy; aquele 
era um dos homens mais ricos do mundo e havia poucas pessoas nos pases industrializados que no conheciam Randy Nite.
       - Convoquei uma entrevista coletiva hoje para anunciar que estou comeando um novo projeto... De fato o empreendimento mais excitante e mais importante da 
minha vida.
       A platia deixou escapar um murmrio de excitao. Haviam esperado grandes notcias, e parecia que no ficariam desapontados.
       - Esse novo projeto - continuou Randy - Se chamar Instituto para um Novo Comeo e ser patrocinado por todos os recursos reunidos da Cipher Software. Para 
descrever esse projeto novo e audacioso, gostaria de lhes apresentar um jovem de uma tremenda viso. Senhoras e senhores, por favor recebam meu novo assistente, 
o Sr. Beau Stark.
       Cassy e Pitt entreolharam-se boquiabertos.
       - No posso acreditar - disse Cassy.
       Beau dirigiu-se para a plataforma do orador em meio a aplausos. Vestia um terno bem-cortado e tinha os cabelos escuros penteados para trs com gel. Transpirava 
a confiana de um poltico.
       - Obrigado a todos vocs por comparecerem - cumprimentou Beau com um sorriso encantador. Seus olhos azuis brilhavam como safiras engastadas no rosto bronzeado. 
- O Instituto para um Novo Comeo  muito apropriadamente denominado. Estaremos procurando os melhores e mais brilhantes nos campos da cincia, medicina, engenharia 
e arquitetura. Nosso objetivo ser reverter as tendncias negativas a que vem sendo submetido nosso planeta. Podemos acabar com a poluio! Podemos pr um fim aos 
conflitos sociais e polticos! Podemos criar um mundo condizente com uma nova humanidade! Ns podemos e o faremos!
       Os reprteres presentes  coletiva irromperam num frenesi de perguntas. Beau ergueu as mos para silenci-los.
       - No estaremos respondendo perguntas hoje. O propsito desta reunio foi simplesmente fazer o anncio. Daqui a uma semana convocaremos outra coletiva na 
qual nosso programa ser apresentado com detalhes. Obrigado a todos pela presena.
       A despeito das perguntas gritadas pelos reprteres, Beau desceu da plataforma, abraou Randy Nite e, ento, os dois, de braos dados, desapareceram da tela.
       O comentarista tentou preencher a lacuna deixada pelo trmino precipitado da entrevista. Comeou a especular sobre quais seriam exatamente os objetivos especficos 
do novo instituto e o que Randy Nite teria querido dizer quando afirmou que o projeto seria financiado por todos os recursos da Cipher Software reunidos. Ele ressaltou 
que tais recursos eram substanciais, mais do que o produto nacional bruto de muitos pases.
       - Meu Deus! - exclamou Cassy. - Pitt, o que est acontecendo com Beau?
       - Acho que ele foi bem na entrevista para o emprego - disse Pitt, tentando fazer graa.
       - Isso no  motivo de riso - repreendeu-o Cassy. - Estou ficando cada vez mais apavorada. O que vamos dizer  Dra. Miller?
       - Por ora acho que j dissemos o bastante - afirmou Pitt.
       - Ora, Pitt! - queixou-se Cassy. - Precisamos contar a ela sobre o que vimos ontem  noite e sobre os disquinhos pretos. Temos de...
       - Cassy, espere a - disse Pitt, segurando-a pelos ombros.
       - Pense por um segundo como essa histria vai lhe soar. Ela  a nossa nica chance de fazer com que algum importante perceba o que est acontecendo. No 
creio que devamos abusar.
       - Mas tudo que ela sabe neste momento  da existncia dessa estranha gripe.
       -  exatamente o que estou querendo dizer. J conseguimos chamar a ateno dela para a gripe e para o fato de que esta parece causar mudanas na personalidade. 
Receio que, se comearmos a falar sobre coisas malucas, como, por exemplo, que a gripe  disseminada por discos pretos minsculos ou, ainda pior, que vimos uma luz 
azul fugaz no dedo de uma pessoa depois de ela ser picada por um disco negro, ningum nos dar ouvidos. A Dra. Miller j ameaou nos mandar para a psiquiatria.
       - Mas ns vimos aquela luz azul - insistiu Cassy.
       - Achamos que vimos - replicou Pitt. - Oua, primeiro precisamos fazer com que as pessoas se interessem pelo problema. Assim que tiverem investigado essa 
gripe e souberem que alguma coisa estranha est acontecendo, ento contamos tudo a elas.
       A porta se abriu e Sheila meteu a cabea na sala.
       - O homem com quem quero que vocs falem acaba de chegar - informou ela. - Mas ele estava com fome e eu o mandei para a cantina. Vamos para a minha sala e 
nos aprontaremos para quando ele voltar.
       Cassy e Pitt levantaram-se e seguiram Sheila.
       - Muito bem, vocs dois - disse Nancy Sellers a Jonathan e Candee. - Quero que vocs esperem aqui no carro, enquanto entro e converso com a me de Candee. 
Parece razovel? Os dois assentiram.
       - Eu lhe agradeo muito por isso, Sra. Sellers - disse Candee.
       - Voc no tem de me agradecer - afirmou Nancy. - O simples fato de que seus pais estavam ocupados demais para falar ontem  noite quando telefonei e de terem 
preferido no retornar a ligao me diz que alguma coisa est muito errada. Eles nem mesmo sabiam que voc passaria a noite l em casa.
       Nancy desceu da van, acenou para os dois e comeou a caminhar na direo da entrada principal da Serotec Pharmaceuticals. Ainda dava para ver a mancha na 
calada, onde o pobre Sr. Kalinov havia se chocado contra o concreto. Ela no conhecia o homem bem, pois era um funcionrio relativamente novo do departamento de 
bioqumica, mas a notcia a entristecera. Sabia que ele tinha famlia e duas filhas adolescentes.
       Entrando no edifcio, Nancy perguntou-se o que deveria esperar. Aps a morte ocorrida no dia anterior, ela no tinha certeza sobre como toda a empresa estaria 
funcionando. A cerimnia fnebre estava marcada para aquela tarde. Imediatamente, porm, ela pressentiu que tudo j havia voltado  rotina.
       O departamento de contabilidade ficava no quarto andar e, quando subia no elevador lotado, ela percebeu que as conversas estavam normais. Podia-se ouvir at 
mesmo risadas. A princpio, Nancy sentiu-se aliviada com o fato de as pessoas no se deixarem perturbar pelo episdio. Mas quando todos no elevador explodiram numa 
gargalhada devido a um comentrio que Nancy no ouvira suficientemente bem para compreender, ela comeou a sentir-se pouco  vontade. Aquela alegria parecia desrespeitosa.
       Nancy encontrou Joy Taylor com facilidade. Sendo uma das mais antigas no setor, tinha sua prpria sala. Quando Nancy transps a porta aberta, Joy estava ocupada 
em seu terminal de computador. Como Nancy lembrava, tratava-se de uma pessoa reservada, aproximadamente do tamanho de Nancy, s que muito mais magra. Nancy calculou 
que Candee houvesse puxado ao pai.
       - Com licena - disse Nancy.
       Joy levantou os olhos. Suas feies midas registraram uma irritao momentnea com o fato de ser interrompida. Em seguida, sua expresso suavizou-se e ela 
sorriu.
       - Ol. Como vai?
       - Bem - respondeu Nancy. - No tinha muita certeza de que iria lembrar-se de mim. Sou Nancy Sellers. Meu filho Jonathan e sua filha Candee so colegas de 
turma.
       -  claro que me lembro de voc - afirmou Joy.
       - Que tragdia terrvel a de ontem - comentou Nancy, enquanto pensava em como trazer  baila as questes que queria discutir.
       - Sim e no. Para a famlia, com certeza. Mas, por acaso, sei que o Sr. Kalinov tinha uma doena renal sria.
       - ? - surpreendeu-se Nancy. O comentrio a deixou confusa.
       - , sim - reafirmou Joy. - H anos ele fazia hemodilise semanalmente. Falava-se at em transplante. Tinha genes ruins. O irmo sofria do mesmo problema.
       - Eu no sabia desses problemas de sade.
       - Posso ajud-la em alguma coisa? - perguntou Joy.
       - , pode sim - respondeu Nancy, sentando-se. - Bem, na verdade, eu gostaria de conversar com voc. Tenho certeza de que no  nada srio, mas achei que deveria 
pelo menos mencionar o fato a voc. Gostaria que fizesse o mesmo por mim se Jonathan a procurasse.
       - Candee foi procurar voc? - indagou Joy. - Para falar sobre o qu?
       - Ela est preocupada. E, para falar a verdade, eu tambm. Nancy percebeu um leve endurecimento nas feies de Joy.
       - Com o que Candee disse estar preocupada?
       - Ela acha que as coisas mudaram em casa. Por exemplo: disse que, de repente, voc e seu marido esto recebendo muitas visitas. Isso a deixou insegura. Aparentemente 
algumas pessoas chegaram a entrar em seu quarto.
       - Temos tido visitas, sim - afirmou Joy. - Tanto eu quanto meu marido comeamos a participar ativamente em causas ambientais. E isso requer trabalho e sacrifcio, 
mas ns estamos dispostos a ambos. No gostaria de vir  nossa reunio desta noite?
       - Obrigada, mas fica para outra hora - recusou Nancy.
       - Basta me dizer quando. Mas agora preciso voltar ao trabalho.
       - S mais um instante - disse Nancy. A conversa no estava indo bem. Joy no estava sendo receptiva, a despeito dos esforos diplomticos de Nancy. Era hora 
de usar um pouco mais de franqueza. - Meu filho e sua filha tambm tiveram a impresso de que vocs os estavam estimulando a dormirem juntos. Gostaria que soubesse 
que no concordo com isso, em absoluto. Na verdade, sou totalmente contra.
       - Mas eles so saudveis e seus genes combinam-se bem - objetou Joy.
       Nancy lutou para manter a calma. Nunca ouvira uma declarao to ridcula. No conseguia entender a atitude casual de Joy em relao quela questo, principalmente 
com o crescente problema da gravidez em adolescentes. Igualmente exasperante era a serenidade da mulher diante da bvia agitao de Nancy.
       - Jonathan e Candee de fato formam um belo casal - Nancy forou-se a dizer. - Mas eles s tm dezessete anos e certamente no esto prontos para as responsabilidades 
da vida adulta.
       - Se  isso o que voc pensa, respeitarei sua opinio - disse Joy. - Mas eu e meu marido achamos que existem muitas questes mais importantes, como a destruio 
das florestas tropicais, por exemplo.
       Nancy j ouvira o bastante. Estava claro para ela que no iria ter uma conversa racional com Joy Taylor. Ento se levantou.
       - Obrigada pela ateno - agradeceu, formalmente. - Minha nica recomendao  que talvez voc devesse ficar um pouco mais atenta ao estado de esprito de 
sua filha. Ela est preocupada.
       Nancy virou-se para sair.
       - S um momento - pediu Joy. Nancy hesitou.
       - Voc parece muito ansiosa - disse Joy. - Acho que posso ajud-la. - Ela abriu a gaveta superior de sua mesa e cuidadosamente tirou dali um disco preto. 
Colocando-o na palma da mo, estendeu-o na direo de Nancy. - Eis aqui um presentinho para voc.
       Nancy j estava convencida de que Joy Taylor era mais do que um pouquinho excntrica, e esse oferecimento no-solicitado de um talism s veio a reforar 
aquela impresso. Nancy inclinou-se para a frente, a fim de olhar mais de perto. No tinha a menor idia do que era aquele estranho objeto.
       - Pegue-o - encorajou Joy.
       Por curiosidade, Nancy estendeu a mo para o objeto. Ento, pensou melhor e retirou a mo.
       - Obrigada... - disse ela - Mas acho melhor eu ir embora.
       - Pegue - insistiu Joy. - Ele ir mudar a sua vida.
       - Gosto da minha vida como ela  - replicou Nancy. Em seguida, fez meia-volta e deixou a sala. Enquanto descia no elevador, assombrava-se com a conversa que 
acabara de ter e que no correra como esperara. E agora tinha de pensar no que iria dizer a Candee. com Jonathan, naturalmente, a histria era bem diferente. Diria 
a ele que ficasse bem longe da residncia dos Taylor.
       A porta da sala da Dra. Miller se abriu e tanto Pitt quanto Cassy se puseram de p. Um homem careca, porm relativamente jovem, entrou na sala, seguido pela 
Dra. Miller. O homem estava vestido com um terno cinza amarrotado e comum. culos sem aros empoleiravam-se na ponta do nariz largo.
       - Este  o Dr. Clyde Horn - apresentou Sheila a Cassy e Pitt. -  um agente de investigao epidemiolgica dos Centros de Controle de Doena, em Atlanta. 
Trabalha especificamente na unidade de gripe.
       Por sua vez, Cassy e Pitt foram apresentados a Clyde.
       - Creio que vocs dois so os residentes mais jovens que j vi - observou Clyde.
       - No sou residente - afirmou Pitt. - Na verdade, s comeo a faculdade de medicina no outono.
       - E eu fao o curso de formao de professores - disse Cassy.
       - Ah, entendo - replicou Clyde, obviamente confuso, no entanto.
       - Pitt e Cassy esto aqui para apresentar o problema numa perspectiva pessoal - esclareceu Sheila, enquanto fazia sinal a Clyde para que se sentasse.
       Todos se acomodaram.
       Sheila ento fez uma apresentao dos casos de gripe que estavam recebendo na Emergncia. Estava de posse de alguns grficos e tabelas, os quais mostrou a 
Clyde. O que mais impressionava era o que mostrava o rpido aumento no nmero de casos nos ltimos trs dias. O segundo mais curioso tratava do nmero de mortes 
de pessoas com os mesmos sintomas, associados a vrias doenas crnicas, tais como diabetes, cncer, problemas renais, artrite reumatide e enfermidades do fgado.
       - Vocs conseguiram determinar a cepa do vrus? - indagou Clyde. - Quando falou comigo no telefone, isso ainda no tinha sido feito.
       - E ainda no foi - respondeu Sheila. - Na verdade, ainda nem mesmo isolamos o vrus.
       - Isso  curioso - observou Clyde.
       - A nica coisa que observamos consistentemente  uma acentuada elevao de linfocinas no sangue - disse Sheila, entregando outro grfico a Clyde.
       - Puxa vida, esses nmeros so altos - comentou Clyde.
       - E voc disse que os sintomas so todos tpicos de gripe?
       - So - confirmou Sheila. - Apenas mais intensos do que o habitual e geralmente localizados no trato respiratrio superior. No tivemos nenhum caso de pneumonia.
       - O vrus certamente estimulou o sistema imunolgico - afirmou Clyde, continuando a estudar o grfico das linfocinas.
       - O curso da doena  bastante curto - informou Sheila.
       - Ao contrrio da gripe normal, ela alcana um pico em questo apenas de horas, cinco ou seis. Doze horas depois, os pacientes aparentemente esto bem.
       - Melhores do que antes da doena - acrescentou Pitt. Clyde franziu a testa.
       - Melhores? - interrogou. Sheila assentiu.
       -  verdade - disse ela. - Assim que se recuperam, os pacientes exibem uma espcie de euforia com nveis de energia aumentados. O estranho  que muitos tambm 
se comportam como se tivessem sofrido uma mudana de personalidade. E  por isso que Pitt e Cassy esto aqui. Eles tm um amigo comum que, segundo insistem, est 
agindo como uma pessoa diferente depois de sua recuperao. Seu caso talvez tenha uma importncia especial porque ele pode ter sido a primeira pessoa a ser contaminada 
com esse vrus especfico.
       - Foi realizado algum exame neurolgico? - indagou Clyde.
       - Certamente - respondeu Sheila. - Em alguns pacientes. Mas estava tudo normal, inclusive o fluido cerebrospinal.
       - E quanto ao seu amigo, seja l qual for o nome dele? - perguntou Clyde.
       - Seu nome  Beau - disse Cassy.
       - Ele no fez nenhum exame neurolgico - informou Sheila. - Pensamos nisso, mas no momento ele no est  disposio.
       - Em que aspectos a personalidade de Beau est diferente? - quis saber Clyde.
       - Praticamente em todos - disse Cassy. - Antes da gripe, ele nunca faltava s aulas. Depois que ficou bom, no voltou mais  universidade. E acorda no meio 
da noite e sai para encontrar-se com pessoas estranhas. Quando perguntei sobre o que estava conversando com aquelas pessoas, ele disse que era sobre o meio ambiente.
       - Ele tem noo de tempo, lugar e pessoas? - indagou Clyde.
       - com toda a certeza - afirmou Pitt. - Sua mente parece especialmente aguada. Ele tambm parece bem mais forte.
       - Fisicamente? - perguntou Clyde. Pitt assentiu.
       - Mudana de personalidade em seguida a uma gripe no  comum - disse Clyde, enquanto distraidamente coava o alto da cabea calva. - Essa gripe  nica em 
outros aspectos tambm. Nunca ouvi falar de um ciclo to curto. Que coisa estranha! Vocs sabem se os outros hospitais na rea esto recebendo o mesmo tipo de problema?
       - No sabemos - disse Sheila. - Mas  muito mais fcil para os Centros de Controle de Doena descobrirem isso.
       Uma batida forte na porta fez com que Sheila se levantasse. Tendo deixado instrues especficas para que no fossem incomodados, ela receou que houvesse 
chegado alguma emergncia mdica. No entanto, quem entrou na sala foi o Dr. Halprin. Atrs dele estava Richard Wainwright, o tcnico de laboratrio chefe, que ajudara 
a elaborar os grficos que Sheila estava apresentando. Richard tinha o rosto vermelho e, nervosamente, mudava o peso do corpo de um p para o outro.
       - Ol, Dra. Miller - disse o Dr. Halprin alegremente. Ele havia se recuperado por completo de sua enfermidade e agora era a prpria imagem da sade. - Richard 
acabou de me informar que temos um visitante oficial.
       O Dr. Halprin atravessou a sala e apresentou-se a Clyde como diretor do hospital. Richard, constrangido, permanecia parado junto  porta.
       - Receio que o senhor tenha sido chamado aqui sob pretextos menos do que lcitos - disse o Dr. Halprin a Clyde, sorrindo afavelmente. - Como diretor da instituio, 
qualquer pedido de ajuda aos CCDs tem de passar por mim. Isso est expresso em nosso estatuto. A menos, naturalmente, que se trate de uma doena grave. Mas esse 
no  o caso da gripe.
       - Lamento muitssimo - desculpou-se Clyde, pondo-se de p. - Minha impresso foi de que havamos recebido uma solicitao legtima e que estava tudo em ordem. 
No era minha inteno intrometer-me.
       - Sem problemas - disse o Dr. Halprin. - Foi apenas um mal-entendido sem importncia. A verdade  que no precisamos dos servios dos CCDs. Mas venha  minha 
sala e poderemos esclarecer tudo. - Ele passou o brao pelos ombros de Clyde e conduziu-o em direo  porta.
       Sheila girou os olhos, frustrada. Cassy, j perturbada e pressentindo que estavam prestes a perder uma oportunidade importante, parou diante da porta, bloqueando 
a sada.
       - Por favor, Dr. Clyde - disse ela. - O senhor precisa nos ouvir. Alguma coisa est acontecendo nesta cidade. As pessoas esto mudando com essa doena. E 
isso est se espalhando.
       - Cassy! - chamou Sheila, bruscamente.
       -  verdade - insistiu Cassy. - No d ouvidos ao Dr. alprim. Ele tambm teve a gripe.  um deles!
       - Cassy, j chega! - exclamou Sheila, agarrando Cassy e arrastando-a para um lado.
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       - Lamento por isso, Clyde - disse o Dr. Halprin, tranqilizador. - Posso cham-lo de Clyde?
       - Claro - respondeu Clyde, olhando nervosamente por sobre o ombro, como se esperasse ser atacado.
       - Como pode ver, esse pequeno problema est causando um significativo abalo emocional - continuou o Dr. Halprin, enquanto indicava que Clyde o precedesse, 
passando para o corredor. - Infelizmente, isso est perturbando a objetividade. Mas discutiremos isso em minha sala, e poderemos cuidar dos preparativos para lev-lo 
de volta ao aeroporto. Inclusive, tenho uma coisa que gostaria que levasse para Atlanta para mim. Algo que acredito v interessar aos CCDs.
       Sheila fechou a porta depois que os dois saram, apoiando-se nela.
       - Cassy, no creio que isso tenha sido inteligente.
       - Me desculpe - disse Cassy. - No pude evitar.
       -  por causa de Beau - Pitt explicou a Sheila. - Ele e Cassy esto noivos.
       - Voc no precisa se desculpar - afirmou Sheila. - Fiquei igualmente frustrada. O problema  que agora estamos de volta  estaca zero.
       A propriedade era magnfica. Embora houvesse sido gradualmente reduzida a menos de cinco acres no decorrer dos anos, a casa principal ainda se encontrava 
em bom estado. Fora construda no incio do sculo, no estilo dos castelos franceses. A pedra usada era granito local.
       - Eu gosto - disse Beau, girando no meio do grandioso salo de baile com os braos abertos. King encontrava-se sentado perto da porta, como se temesse ser 
deixado sozinho na manso. Randy e uma corretora chamada Helen Bryer estavam parados a um lado.
       - So quatro acres e seiscentos - disse a Sra. Bryer a Randy. - No  um terreno grande para o tamanho da casa, mas  adjacente  propriedade onde se encontra 
a Cipher e portanto a extenso efetiva de terra seria muito maior.
       Beau caminhou at as imensas janelas e deixou que a luz do sol cascateasse sobre ele. A viso era estupenda. com um lago espelhado no primeiro plano, lembrava-lhe 
da vista que se tinha da colina nas terras da Cipher.
       - Ouvi seu anncio hoje de manh - disse a Sra. Bryer. - Devo lhe dizer, Sr. Nite, que acho que seu Instituto para um Novo Comeo parece maravilhoso. A humanidade 
ficar agradecida.
       - Uma nova humanidade - acrescentou Randy.
       - Sim, certo - concordou a Sra. Bryer. - Uma nova humanidade despertada para as necessidades do meio ambiente. Acho que estvamos precisando de alguma coisa 
nesse gnero h muito, muito tempo.
       - No imagina quanto - disse Beau de onde estava, parado ao lado da janela. Em seguida, dirigiu-se at onde se encon- travam Randy e a Sra. Bryer. - Esta 
casa  perfeita para o instituto. Ficaremos com ela!
       - Como? - perguntou a Sra. Bryer, embora houvesse ceguramente ouvido Beau. Ela pigarreou e olhou para Randy em busca de confirmao. Este assentiu. Beau sorriu 
e deixou o salo, sendo seguido por King.
       - Bem, isso  maravilhoso! - exclamou a Sra. Bryer, excitadamente, ao recuperar a voz. -  uma propriedade fabulosa. Mas os senhores no desejam saber quanto 
o proprietrio est pedindo?
       - Telefone aos meus advogados - respondeu Randy, entregando um carto  Sra. Bryer. - Eles iro preparar os papis. - Em seguida, saiu do salo,  procura 
de Beau.
       -  claro, Sr. Nite - replicou a Sra. Bryer, piscando. Sua voz ecoou no salo agora vazio. Ela sorriu para si mesma. Era a venda mais estranha que j fizera, 
mas que comisso!
       A chuva soava como gros de areia batendo na janela  direita da mesa de Jesse. Estrondos de troves contribuam para a atmosfera. Jesse gostava de tempestades 
de relmpagos. Lembravam-lhe dos veres de sua infncia, em Detroit.
       J era final de tarde e, em circunstncias normais, Jesse estaria pronto para ir embora. Infelizmente, porm, Vince Garbon telefonara naquela manh, doente, 
e Jesse precisava fazer o trabalho de dois. Tendo mais uma hora de trabalho burocrtico pela frente, ele apanhou a caneca vazia e afastou-se de sua mesa. Aps anos 
de experincia, sabia que mais uma xcara no o impediria de dormir aquela noite e o ajudaria a suportar o restante do dia.
       A caminho da cafeteira comum, Jesse ficou surpreso com a quantidade de policiais, seus companheiros, que estavam tossindo, espirrando ou fungando. E ainda 
havia os ausentes por estarem doentes, como Vince. Havia alguma coisa por a e Jesse considerava uma bno no ter sido contaminado.
       Voltando para sua mesa, por acaso olhou para a sala do capito atravs da divisria de vidro. Para sua surpresa, o capito estava de p  janela, voltado 
para a sala dos policiais, com as mos para trs e um sorriso de contentamento grudado no rosto. Quando percebeu o olhar de Jesse, ele acenou e lhe dirigiu um sorriso 
dentuo.
       Jesse respondeu ao aceno. Mas, enquanto se sentava, perguntou-se o que estaria acontecendo com o capito. Em primeiro lugar, o chefe raramente ficava at 
tarde, a menos que houvesse alguma operao especial e, em segundo, ele estava sempre de mau humor  tarde. Jesse nunca o vira sorrir depois do meio-dia.
       Depois de acomodar-se novamente e com a caneta na mo pairando sobre um dos inmeros formulrios, Jesse arriscou outro olhar para a sala do capito. Outra 
vez, para sua surpresa, o capito continuava no mesmo lugar, exibindo o mesmo sorriso. Como um voyeur,, Jesse ficou observando o capito por algum tempo, tentando 
adivinhar o motivo por que estaria sorrindo. Aquele no era um sorriso divertido. Era, sim, de satisfao.
       Balanando a cabea, perplexo, Jesse tornou a concentrar a ateno na pilha de formulrios que tinha diante de si. Detestava trabalho burocrtico, mas este 
precisava ser feito.
       Meia hora mais tarde, com vrios dos papis j preenchidos, Jesse tornou a levantar-se de sua mesa. Dessa vez era devido a um chamado da natureza. Como sempre, 
o caf j atravessara seu corpo.
       Dirigindo-se ao banheiro masculino no fim do corredor, lanou um olhar  sala do capito e ficou aliviado ao v-la vazia. Jesse no se demorou no interior 
do lavatrio. Fez o que tinha de fazer e saiu o mais rpido possvel pois havia ali uma meia dzia de sujeitos tossindo, espirrando e assoando o nariz.
       No caminho de volta  mesa, Jesse seguiu at o bebedouro para molhar a garganta. Isso o levou a passar diante da mesa de registro de pertences, onde foi avistado 
pelo sargento Alfred Kinsella atravs da tela de arame de seu cubculo.
       - Ei, Jesse! - chamou Alfred. - O que h de novo?
       - No muita coisa. Como vai indo aquele seu problema no sangue?
       - Nenhuma mudana - disse Alfred, pigarreando. - Ainda preciso fazer transfuses de vez em quando.
       Jesse assentiu. Assim como a maioria dos homens do departamento, ele doara sangue para Alfred. Lamentava pelo colega. No podia imaginar o que seria ter uma 
doena grave que os mdicos no conseguiam nem mesmo diagnosticar.
       - Quer ver uma coisa estranha? - indagou Alfred. Ele tornou a pigarrear e ento tossiu violentamente vrias vezes, levando a mo ao peito.
       - Voc est bem? - perguntou Jesse.
       - Sim, acho que sim - disse Alfred. - Faz uma hora mais ou menos que comecei a me sentir mal.
       - Voc e todo mundo - afirmou Jesse. - O que queria me mostrar de to estranho?
       - Essas coisinhas aqui.
       Jesse aproximou-se do balco alto do cofre de pertences. Viu que Alfred tinha uma srie de discos negros  sua frente, cada um deles com cerca de 3,5cm de 
dimetro.
       - O que  isso? - indagou Jesse.
       - No tenho a menor idia - replicou Alfred. - Na verdade, esperava que voc pudesse me dizer.
       - De onde eles vieram?
       - Sabe a onda de infratores primrios que foram trazidos nessas duas ltimas noites e fichados por coisas malucas como atentado ao pudor ou por conduzirem 
reunies em massa em lugares pblicos sem permisso?
 Jesse assentiu. Todos estavam falando sobre isso e o prprio Jesse presenciara alguns comportamentos estranhos ultimamente.
       - Cada uma dessas pessoas trazia uma dessas miniaturas pretas.
       Jesse aproximou o rosto da tela metlica para olhar melhor. Os disquinhos pretos pareciam tampas de garrafas. Havia cerca de vinte deles.
       - So feitos de qu? - indagou ele.
       - Quisera eu saber, mas so pesados para o tamanho que tm - respondeu Alfred. Ento, espirrou vrias vezes e assoou o nariz.
       - Deixe-me ver um deles - pediu Jesse, estendendo a mo por entre a tela com a inteno de apanhar um deles. Alfred agarrou-lhe o brao.
       - Cuidado! - advertiu. - Eles parecem perfeitamente lisos, mas podem espetar.  meio estranho, pois no consegui encontrar nenhuma ponta neles. No entanto, 
j fui furado vrias vezes. Parece uma picada de abelha.
       Seguindo o conselho de Alfred, Jesse apanhou uma caneta esferogrfica no bolso e usou-a para puxar um dos discos. Para sua surpresa, no foi fcil. Eram de 
fato pesados e era especialmente difcil virar um deles de cabea para baixo. Jesse desistiu.
       - Bem,  com voc - disse ele. - No tenho a menor idia do que sejam essas coisas.
       - Obrigado pelo menos por olhar - agradeceu Alfred, em meio a um acesso de tosse.
       - Parece que voc piorou s nesse pouco tempo em que estou aqui - observou Jesse. - Talvez fosse melhor ir para casa.
       - Vou tentar agentar. Comecei meu turno s cinco. Jesse seguiu para sua mesa, planejando ficar mais meia hora, no mximo, mas no foi muito longe. s suas 
costas, ouviu outro acesso de tosse e o rudo de uma queda.
       Fazendo meia-volta, viu que Alfred desaparecera do campo de viso. Correndo de volta ao balco, ouviu algumas pancadas, como se algum estivesse chutando 
os armrios. Esticando-se sobre o balco, Jesse olhou para baixo. Ali estava Alfred, no cho, com as costas arqueadas e o corpo estremecendo. Estava tendo uma convulso.
       - Ei, pessoal! - gritou Jesse. - Temos um homem cado no registro de pertences.
       Jesse mergulhou de cabea sobre o balco de registros, derrubando a maior parte dos objetos que ali se encontravam, inclusive os aproximadamente vinte discos 
pretos. Atento  figura convulsionria de Alfred, ele no percebeu que todos os discos pousaram levemente no cho, na posio correta.
       A primeira coisa que Jesse fez foi apanhar as chaves de Alfred e atir-las sobre o balco para que outros pudessem destrancar a porta do cubculo. Embora 
Jesse tivesse uma chave, a maioria no tinha. Em seguida, ele forou um bloco de papel entre os maxilares fortemente cerrados de Alfred. Estava prestes a desabotoar 
o colarinho da camisa quando viu algo que o deixou estupefato. Os olhos de Alfred exsudavam uma espcie de espuma!
       Atnito diante daquele espetculo, Jesse se empertigou. Nunca vira nada parecido. Era como espuma de banho.
       Dentro de segundos, outros policiais juntaram-se a Jesse. Todos estavam igualmente perplexos com a espuma que aumentava.
       - Que diabo de espuma  essa? - perguntou um dos homens.
       - O que importa? - replicou Jesse, rompendo o transe. - Vamos chamar uma ambulncia. Agora!
       Ouviu-se um estrondo de troves simultneo ao rudo da maca atravessando velozmente a entrada principal da Emergncia do Centro Mdico da Universidade, empurrada 
por dois paramdicos corpulentos. Alguns passos atrs, seguia Jesse Kemper. Sobre a maca, Alfred Kinsella ainda era dominado pelas convulses. Seu rosto estava azulado 
e a espuma ainda saa de seus olhos, como se estes fossem duas garrafas de champanhe que houvessem sido sacudidas.
       Sheila, Pitt e Cassy apareceram, sados da sala de Sheila, onde haviam passado a maior parte do dia confrontando todos os casos de gripe, inclusive os registrados 
nesse dia. Sheila ouvira a comoo e reagira imediatamente. Ela fora prevenida pela enfermeira-chefe que um estranho caso estava a caminho. Os paramdicos haviam 
avisado com antecedncia, quando deixavam o departamento de polcia.
       Interceptando a maca, Sheila olhou para Alfred. Vendo a espuma, ela orientou os paramdicos para que levassem o paciente para o biombo reservado a casos de 
contaminao. Ela nunca vira nada parecido e no estava disposta a correr riscos. Enquanto a maca era rapidamente conduzida ao local indicado, Sheila chamou a ateno 
da enfermeira-chefe e lhe disse que convocasse um neurologista imediatamente.
       Jesse agarrou o brao de Sheila.
       - Lembra-se de mim? Sou o tenente detetive Jesse Kemper. O que h de errado com o policial Kinsella?
       Sheila soltou-se.
       -  isso que gostaramos de descobrir. Pitt, venha comigo; esse vai ser um teste de fogo. Cassy, leve o tenente Kemper para a minha sala. A sala de espera 
est cheia demais.
       Cassy e Jesse observaram Sheila e Pitt correndo pelo corredor atrs da maa.
       - Fico feliz por no ser mdico - afirmou Jesse.
       - Somos dois ento - replicou Cassy. Em seguida, apontou na direo da sala de Sheila. - Venha! Vou lhe mostrar onde o senhor pode esperar.
       A espera no foi muito longa. Dentro de meia hora Sheila e Pitt apareceram  porta. Suas expresses eram fnebres. No era difcil adivinhar o que acontecera.
       - No tiveram sorte? - indagou Cassy.
       Pitt sacudiu a cabea.
       - Ele no chegou a recuperar a conscincia - contou Sheila.
       - Era a mesma gripe? - perguntou Cassy.
       - Provavelmente; suas linfocinas estavam muito altas - disse Pitt.
       - Que diabos so linfocinas? - quis saber Jesse. - Foi isso que o matou?
       - As linfocinas so parte da defesa do corpo contra a invaso - respondeu Sheila. - So uma resposta, no a causa da doena. Mas me diga uma coisa: o Sr. 
Kinsella sofria de alguma doena crnica, como o diabetes, por exemplo?
       - Ele no sofria de diabetes - afirmou Jesse. - Mas tinha um problema grave no sangue. Precisava fazer transfuses de quando em quando.
       - Tenho uma pergunta - disse Cassy, de repente. - O senhor sabe se o sargento Kinsella alguma vez mencionou algo sobre um disco preto desse tamanho mais ou 
menos? - Cassy fez um crculo de cerca de 3,5cm de dimetro com o polegar e o indicador.
       - Cassy! - gemeu Pitt.
       - Quieto! - disse Cassy a Pitt. - A essa altura, no temos muito a perder, mas sim a ganhar.
       - Que histria  essa de disco preto? - indagou Sheila. Pitt revirou os olhos.
       - L vamos ns - disse ele, para ningum em particular.
       - Vocs se referem a um disco preto plano na base, com um domo no alto e protuberncias pequeninas em redor da borda?
       - Exatamente - confirmou Cassy.
       - , ele me mostrou vrios deles pouco antes de comearem as convulses.
       Cassy lanou um olhar de triunfo a Pitt, cuja expresso, em questo de segundos, passara da exasperao a um intenso interesse.
       - Ele falou alguma coisa sobre ter sido espetado por um desses discos? - perguntou Pitt.
       - Falou sim, algumas vezes - afirmou Jesse. - Disse que era uma coisa meio estranha, pois ele no conseguiu encontrar nenhuma aresta ou ponta. E, sabem de 
uma coisa, agora que estou pensando nisso, lembro que vi o chefe de polcia, o capito Hernandez, ser espetado por um deles tambm.
       -  melhor algum me explicar essa histria de discos pretos - disse Sheila.
       - Encontramos um h quatro dias - informou Cassy. - Bem, na verdade, foi Beau quem o encontrou em meio ao cascalho, num estacionamento.
       - Eu estava com ele quando o encontrou - disse Pitt. - No tnhamos idia do que era aquilo. Pensei que pudesse ter cado debaixo do carro de Beau.
       - Aps alguns minutos, Beau disse que aquilo o tinha espetado - contou Cassy. - Ento, algumas horas depois, ele caiu doente com essa gripe.
       - Tnhamos esquecido completamente do disco, para ser sincero - continuou Pitt. - Mas, ento, aqui na Emergncia, eu estava fazendo a ficha de uma garotinha 
com gripe, que disse que uma pedra preta a picara.
       - Mas foi s um episdio ocorrido na noite passada que nos fez realmente pensar no assunto - afirmou Cassy, passando a descrever o incidente no mercado. Chegou 
mesmo a mencionar o leve brilho azul que ela e Pitt pensaram ter visto.
       Quando Cassy acabou, o silncio tomou conta da sala. Sheila finalmente deixou sair o ar dos pulmes atravs dos lbios franzidos.
       - Bem, isso tudo parece loucura e, como eu disse antes, em circunstncias normais, pediria uma consulta psiquitrica para vocs dois. Mas a essa altura, estou 
disposta a investigar qualquer coisa.
       - Me digam uma coisa - pronunciou-se Jesse. - Beau reconhece que est agindo de modo diferente?
       - Ele diz que no - respondeu Cassy. - Mas acho difcil acreditar. Est fazendo coisas que nunca fez antes.
       - Concordo - disse Pitt. - H uma semana ele era absolutamente contra se ter ces de grande porte numa cidade. De repente, arranja um.
       - , e sem discutir o assunto comigo - afirmou Cassy. - E ns moramos juntos. Mas por que o senhor perguntou?
       - Seria um ponto importante se as pessoas contaminadas estivessem dissimulando propositadamente - observou Sheila. - Teremos de ser discretos. Mas vamos primeiro 
conseguir um desses discos pretos.
       - Podemos voltar ao mercado - lembrou Pitt.
       - Talvez eu consiga um deles no registro de pertences - afirmou Jesse.
       - Bem, vamos tentar as duas opes - concluiu Sheila. Ela apanhou dois cartes de visita e escreveu o telefone de sua casa no verso de ambos. Em seguida, 
entregou um a Jesse e o outro a pitt e Cassy. - Quem conseguir um desses discos primeiro, ligue para mim. Mas, como eu disse, vamos ser discretos. Parece que esse 
 o tipo de coisa que poderia causar pnico se houver a alguma verdade.
       Pouco antes de se separarem, Pitt deu a Sheila e a Jesse o nmero do telefone do apartamento de seu primo. Disse que ele e Cassy estariam l. Cassy lanou-lhe 
um olhar interrogativo, mas no o contradisse.
       - Para que lado voc acha que fica a barraca que vendia os discos? - perguntou Pitt. Eles haviam entrado na feira livre aproximadamente na mesma hora em que 
o fizeram na tarde anterior. Tratava-se de uma rea grande, mais ou menos do mesmo tamanho de duas quadras de uma cidade, e, com todas as minsculas barracas, parecia 
um labirinto.
       - Lembro-me de onde compramos os legumes - disse Cassy. - Por que no vamos at l primeiro e ento refazemos o trajeto?
       - Boa idia - concordou Pitt.
       Encontraram a barraca onde haviam comprado os tomates com relativa facilidade.
       - O que fizemos depois dos tomates? - indagou Pitt.
       - Compramos as frutas. Foi naquela direo. - Cassy apontou por sobre o ombro de Pitt.
       Depois de encontrarem a barraca das frutas, ambos lembraram-se do trajeto at o mercado das pulgas. Alguns minutos mais tarde, encontravam-se diante da tenda 
que procuravam. Infelizmente, ela estava vazia.
       - Com licena - Cassy dirigiu-se ao proprietrio da barraca ao lado. - Saberia me informar onde se encontra o dono desta barraca vazia?
       - Ele est doente - disse o homem. - Falei com ele hoje de manh. Pegou a gripe, como a maioria de ns.
       - Obrigada - disse Cassy. Em seguida, sussurrou para Pitt; - O que fazemos agora?
       - Toramos para que o tenente Kemper tenha mais sorte.
       Jesse seguira diretamente do hospital para o departamento de polcia, mas hesitara antes de entrar. A notcia da morte de Kinsella sem dvida alguma j chegara 
ao departamento, e as pessoas estariam abaladas. Aquela no parecia uma boa hora para bisbilhotar no cubculo de Kinsella, principalmente se o capito ainda estivesse 
por l. Depois de ouvir Cassy e Pitt, ele lembrara quo estranho vinha sendo o comportamento do capito ultimamente.
       Assim sendo, Jesse foi para casa. Morava a menos de dois quilmetros do departamento, numa casa pequena, mas que era grande o bastante para uma pessoa. Vivia 
sozinho desde que a mulher morrera de cncer de mama oito anos antes. Tinha dois filhos, mas ambos preferiram a agitao de Detroit.
       Jesse preparou um jantar simples. Passadas algumas horas, ele comeou a pensar na idia de voltar ao departamento, mas sabia que essa atitude despertaria 
curiosidade, pois no era seu hbito fazer isso, a menos que algo fora do comum estivesse acontecendo. Enquanto tentava elaborar alguma explicao, perguntou-se 
se Cassy e Pitt j teriam conseguido um daqueles discos. Em caso positivo, no havia necessidade de ele fazer o esforo.
       Vasculhando os pedacinhos de papel em seu bolso, localizou o nmero do telefone do garoto e fez a ligao. Foi Pitt quem atendeu.
       - Fracassamos - disse Pitt. - O sujeito que tinha os discos est doente. Perguntamos em outras barracas e nos disseram que eles haviam inundado a feira de 
tal forma que no podiam mais vend-los. Assim, ningum mais os tinha.
       - Droga! - lamentou-se Jesse.
       - O senhor tambm no conseguiu? - perguntou Pitt.
       - Ainda no tentei - admitiu Jesse. De repente, ocorreulhe uma idia. - Ei, haveria alguma chance de vocs dois virem comigo at o departamento de polcia? 
Talvez parea engraado, mas se eu entrar l sozinho, todos vo se perguntar o que estou fazendo. Se chegar agindo como se estivesse investigando alguma coisa, no 
haver problema.
       - Est tudo bem para mim - concordou Pitt. - Espere um minuto,vou perguntar a Cassy.
       Jesse ficou brincando com o fio do telefone. Pitt voltou rapidamente.
       - Ela est disposta a fazer qualquer coisa para ajudar - disse ele. - Onde vamos nos encontrar?
       -  Vou at a e apanho vocs - disse Jesse. - Mas s depois da meia-noite. Quero que o pessoal do segundo turno j tenha ido para casa. Vai ser mais fcil 
no turno da madrugada. Tem muito menos gente por l. - Quanto mais Jesse pensava na idia, melhor ela lhe parecia.
       Era uma e quinze quando Jesse entrou no estacionamento do departamento de polcia, parou na vaga que lhe era reservada e desligou o motor.
       - OK, meninos - disse ele. - Vamos fazer o seguinte: entramos pela porta da frente. Vocs tero de passar pelo detector de metais. Ento seguiremos diretamente 
para minha mesa. Se algum perguntar o que vocs esto fazendo, digam apenas que esto comigo. OK?
       - Devo ter medo de entrar a? - perguntou Cassy. Nunca pensou que ficaria preocupada em entrar num departamento de polcia.
       - No, nem um pouco - assegurou-lhe Jesse. Saltaram do carro e entraram no prdio. Enquanto Pitt e Cassy passavam pelo detector de metais, ouviram o policial 
uniformizado na recepo ao telefone:
       - Certo, senhora. Iremos para a assim que pudermos. Sabemos que os guaxinins podem perturbar. Infelizmente estamos com poucos homens hoje, com a gripe que 
anda por a...
       Alguns minutos mais tarde, estavam sentados  mesa de Jesse. A sala estava deserta.
       - Est melhor do que pensei - disse Jesse. - No h praticamente ningum por aqui.
       - A hora certa de roubar um banco - comentou Pitt.
       - Isso no  engraado - repreendeu-o Cassy.
       - OK, vamos nos levantar e ir at o registro de pertences - disse Jesse. - Eis aqui a minha caneta. Se for preciso, fingiremos que a estamos registrando, 
como se pertencessem a vocs.
       Pitt apanhou a caneta. Os trs se levantaram.
       O cubculo do registro de pertences estava trancado. Apenas a luz do corredor brilhava atravs da tela metlica, iluminando o interior.
       - Muito bem, vocs esperam aqui - ordenou Jesse, abrindo a porta com sua chave. Uma rpida olhada pelo cho revelou-lhe que algum recolhera os discos e os 
outros objetos que ele derrubara do balco quando pulara para ajudar Alfred.
       - Droga! - praguejou ele.
       - Algum problema? - perguntou Pitt.
       - Algum fez uma arrumao aqui - disse Jesse. - Os discos devem ter sido guardados em envelopes, e aqui h uma pilha imensa deles.
       - O que vai fazer?
       - Abrir todos - respondeu Jesse. - No tem um jeito mais rpido.
       Jesse comeou. Levou mais tempo do que esperara. Ele precisava torcer os fechos, abrir os envelopes e olhar o interior destes.
       - Podemos ajudar? - ofereceu Pitt.
       - Claro, por que no? - replicou Jesse. - Ficaremos aqui a noite inteira.
       Os garotos entraram no cubculo e, seguindo a orientao de Jesse, comearam a abrir os envelopes.
       - Eles tm de estar aqui, em algum lugar - disse Jesse, com irritao.
       Os trs trabalhavam em silncio. Cerca de cinco minutos depois, Jesse inclinou-se para a frente e sussurrou:
       - Agentem a!
       Lentamente, ele ergueu-se, de modo a poder ver sobre o tampo do balco. Pensara ter ouvido rudo de passos. O que viu fez seu corao falhar uma batida. Precisou 
piscar para ter certeza de que no se tratava de uma apario. E no era mesmo. Era o capito e vinha em sua direo. Jesse tornou a abaixar-se.
       - Meu Deus - sussurrou ele. - O capito est vindo. Escondam-se debaixo do balco e no se mexam.
       Assim que os garotos estavam em posio, Jesse ergueu-se. Como ainda havia tempo, saiu do cubculo do registro de pertences. Caminhando rapidamente, ele interceptou 
o capito no corredor.
       - O policial encarregado disse que voc estava aqui, Kemper - afirmou o capito. - Que diabos est fazendo? So quase duas da manh.
       Jesse ficou tentado a devolver a pergunta, visto que era muito mais estranho que o capito estivesse ali do que ele. Mas Jesse refreou a lngua. Em vez disso, 
respondeu:
       - S tratando de um problema com dois garotos.
       - No registro de pertences? - indagou o capito, olhando por sobre o ombro de Jesse.
       - , estou procurando uma prova - disse Jesse. Em seguida, para mudar de assunto, acrescentou: - Que tragdia o que aconteceu com Kinsella.
       - Nem tanto - replicou o capito. - Ele tinha aquela doena crnica no sangue. Oua, Kemper, como est se sentindo?
       - Eu? - questionou Jesse, atnito com a resposta do capito a respeito de Kinsella.
       -  claro que  voc. - respondeu o capito. - Com quem mais eu estou falando?
       - Eu estou bem - afirmou Jesse. - Graas a Deus.
       - Ora, que estranho - disse o capito. - Oua, d uma passada na minha sala antes de ir embora. Tenho uma coisa para voc.
       - Certo, capito - anuiu Jesse.
       O capito deu outra olhada por sobre o ombro de Jesse antes de voltar para sua sala. Jesse observou-o afastar-se, perplexo com o que estava se passando em 
sua mente.
       Quando o capito j havia desaparecido de vista, Jesse voltou apressadamente para dentro do cubculo do registro de pertences.
       - Vamos encontrar um daqueles discos e dar o fora daqui - disse ele.
       Cassy e Pitt saram de seu esconderijo no espao sob o balco. Os trs recomearam a abrir envelopes.
       - Ah-ha! - disse Jesse, olhando o interior de um particularmente pesado. - Finalmente! - Ele levou a mo para tirar o objeto do envelope.
       - No toque nele! - gritou Cassy.
       - Eu ia tomar cuidado - disse Jesse.
       - Acontece muito rpido - argumentou Pitt.
       - Muito bem, ento no vou toc-lo. Vamos deix-lo no envelope. Deixe-me s assinar esse formulrio de custdia e ento a gente d o fora daqui.
       Alguns minutos mais tarde, estavam de volta  mesa de Jesse, na sala praticamente vazia. Jesse olhou para a sala do capito. A luz estava acesa, mas o capito 
no se encontrava  vista.
       - Vamos dar uma olhada nisso - disse Jesse.
       Ele abriu o fecho do envelope e deixou o disco escorregar para o mata-borro.
       - Parece inofensivo - comentou Jesse. Como fizera antes, usou uma caneta para mov-lo. - E tambm no h nenhuma abertura. Como poderia espetar algum?
       - Nas duas vezes em que presenciei um deles furando algum, a pessoa havia envolvido o disco todo com os dedos ou a palma da mo - afirmou Pitt.
       - Mas se no existe uma abertura, isso no pode acontecer - insistiu Jesse. - Talvez no sejam todos iguais. Talvez alguns espetem e outros no. - Ele apanhou 
os culos de leitura, que detestava por motivos de vaidade, colocou-os e ento inclinou-se sobre o objeto para ter uma viso mais de perto, ampliada. - Parece nix 
polido, s que no to brilhante. - com a ponta do dedo, tocou o topo da cpula.
       - Eu no faria isso - advertiu Pitt.
       - O material  frio - disse Jesse, ignorando Pitt. - E tambm muito liso. - Cuidadosamente, ele deslizou a ponta do dedo, descendo do pice do domo em direo 
 periferia, com a inteno de sentir as pequenas protuberncias que se alinhavam na borda do objeto. O som de uma gaveta sendo fechada com fora na mesa do oficial 
de servio fez com que ele recolhesse a mo, assustado.
       - Acho que estou um pouquinho tenso - explicou Jesse.
       - E com razo - acrescentou Pitt.
       Pronto para retirar a mo diante do menor pretexto, Jesse tocou uma das pequenas salincias. Nada aconteceu. Ainda tomando o mesmo cuidado, ele comeou a 
correr a ponta do dedo em torno da periferia do disco. J havia percorrido mais ou menos um quarto da circunferncia, quando algo de extraordinrio aconteceu. Uma 
fenda de cerca de um milmetro se formou na superfcie sem emendas da borda do disco.
       Jesse afastou a mo com um arranco, a tempo de ver uma agulha metlica sair pela fenda, estendendo-se a uma distncia de vrios milmetros. De sua ponta, 
brotou uma nica gota de um fluido amarelado. No instante seguinte, a agulha tornou a retrair-se e a fenda desapareceu. Toda a seqncia durara apenas um segundo.
       Trs pares de olhos atnitos ergueram-se e se entreolharam.
       - Vocs viram isso? - perguntou Jesse. - Ou eu estou ficando maluco?
       - Eu vi - afirmou Cassy. - E temos uma prova. Tem um ponto molhado no mata-borro.
       Com nervosismo, Jesse curvou a cabea para a frente e, com suas lentes de aumento, que era como ele chamava os culos, examinou o ponto onde a fenda havia 
se formado.
       - No tem nada aqui, nem mesmo uma linha.
       - Espere um segundo - disse Pitt. - No chegue muito perto. Esse fluido deve ser infeccioso.
       Sendo hipocondraco, Jesse no precisava de outras advertncias. Ele levantou-se da cadeira e afastou-se vrios passos.
       - O que devemos fazer?
       - Precisamos de uma tesoura e um recipiente, de preferncia de vidro - afirmou Pitt. - E um pouco de desinfetante  base de cloro.
       - Que tal um pote de creme para caf? - sugeriu Jesse.
       - No sei sobre o desinfetante, mas vou checar no armrio do zelador. Tem uma tesoura na gaveta de cima.
       - Um pote de creme para caf serviria - disse Pitt. - E o que me diz de luvas de ltex?
       - Temos tambm - respondeu Jesse. - Eu j volto. Jesse conseguiu encontrar tudo de que Pitt precisava. com a tesoura, o jovem cuidadosamente cortou um crculo 
no mataborro, incluindo o ponto molhado expelido pelo disco, e guardou-o no pote. A parte inferior do mata-borro no parecia molhada, mas ainda assim ele desinfetou 
aquela rea na mesa com o produto  base de cloro. As luvas e a tesoura foram colocadas num saco plstico.
       - Acho que devamos telefonar para a Dra. Miller - disse Pitt, depois de tudo pronto.
       - Agora? - interrogou Jesse. -J passa das duas da manh.
       - Ela vai querer saber disso j - argumentou Pitt. - Acho que vai querer comear imediatamente a fazer a cultura do que quer que haja nessa amostra.
       - OK, voc liga para ela - concordou Jesse. - Preciso ir ver o capito. Quando eu voltar, vocs me dizem se os levo para o centro mdico ou para casa.
       Enquanto Jesse se dirigia para a sala do capito, a sua mente era um emaranhado de pensamentos desconexos. Tantas coisas estranhas haviam acontecido num perodo 
de tempo to curto.
       - Principalmente aquela abertura aparecendo, como num passe de mgica, no disco preto - Que ele se sentia meio tonto. Tambm estava exausto, pois j se passara 
havia muito a sua hora de dormir. Nada parecia real. At mesmo o fato de estar indo ver o capito depois das duas da manh.
       A porta da sala do capito estava aberta. Jesse parou na soleira. O capito encontrava-se sentado  sua mesa, ocupado, escrevendo, como se estivessem no meio 
do dia. Jesse teve de admitir que o capito parecia mais bem disposto do que jamais o vira, apesar da hora.
       - Com licena, capito - disse Jesse. - O senhor queria falar comigo?
       - Entre - chamou o capito, acenando para que Jesse se aproximasse da mesa. Ele sorria. - Obrigado por vir. Diga-me, como se sente agora?
       - Bastante cansado, senhor - respondeu Jesse.
       - No est doente?
       - No, graas a Deus.
       - Resolveu o problema com os dois garotos?
       - Ainda estou trabalhando nele - afirmou Jesse.
       - Bem, eu queria recompens-lo por sua dedicao ao trabalho - disse o capito. Ento abriu a gaveta do meio de sua mesa, enfiou a mo ali e tirou um dos 
discos negros!
       Os olhos de Jesse se arregalaram com o susto.
       - Quero que voc guarde este smbolo de um novo comeo - prosseguiu o capito. Ele tinha o disco na palma da mo e o estendeu para Jesse.
       O tenente experimentou uma sensao de pnico.
       - Obrigado, senhor, mas no posso aceitar.
       -  claro que pode - insistiu o capito. - No parece grande coisa, mas ir transformar sua vida. Acredite em mim.
       - Ah, eu acredito, senhor - replicou Jesse. - Eu simplesmente no mereo.
       - Bobagem. Pegue, meu rapaz.
       - No, obrigado. Estou mesmo cansado. Preciso dormir um pouco.
       - Estou ordenando que pegue - disse o capito, um tom rspido surgindo nitidamente em sua voz.
       - Sim, senhor. - Jesse estendeu a mo trmula. Em sua mente, ele via a reluzente agulha metlica. Ao mesmo tempo, lembrou-se de que para acionar o mecanismo, 
ele tocara a borda do disco. Tambm percebeu que o capito no estava tocando a borda, mas que oferecia o disco sobre a palma da mo aberta.
       - Pegue, meu amigo - instou o capito.
       Jesse abriu a mo, com a palma voltada para cima, e a colocou ao lado da do capito. Este fitou-o nos olhos. Jesse devolveu o olhar e notou que as pupilas 
de seu superior estavam muito dilatadas.
       Durante alguns momentos viram-se diante de um impasse.
       Por fim, o capito cuidadosamente inseriu o polegar sob o disco e o ergueu, apoiando o dedo indicador sobre o alto da cpula. Era bvio que ele estava evitando 
a borda. Em seguida, colocou-o sobre a palma de Jesse.
       - Obrigado, chefe - disse Jesse, evitando olhar para aquela coisa amaldioada. Em seguida, bateu em rpida retirada.
       - Voc ir me agradecer - o capito ainda gritou s suas costas.
       Jesse disparou em direo  sua mesa, aterrorizado pelo medo de ser espetado a qualquer momento. Mas isso no aconteceu e ele conseguiu fazer o pequeno disco 
deslizar de sua mo sem qualquer incidente, indo bater no outro disco com um som como o de duas bolas de bilhar de marfim colidindo.
       - Que diabos... - comeou Pitt.
       - Nem pergunte! - interrompeu-o Jesse. - Mas vou lhe dizer uma coisa: o capito no est do nosso lado.
       Erguendo o pote de creme para caf  altura da luz, Sheila examinou por sob o rtulo o pedao de mata-borro contido ali dentro.
       - Essa pode ser a oportunidade de que precisvamos - disse ela. - Mas me contem outra vez exatamente o que aconteceu.
       Cassy, Pitt e Jesse comearam a falar todos ao mesmo tempo.
       - Ei! - exclamou Sheila. - Um de cada vez.
       Cassy e Pitt cederam a vez a Jesse, que recontou o episdio, enquanto os outros dois contribuam com alguns detalhes. Quando Jesse comeou a descrever a parte 
em que a fenda aparecera no disco, arregalou os olhos e puxou a mo bruscamente, imitando o gesto que havia feito ento.
       Sheila pousou o pote sobre sua mesa e olhou atravs das lentes de um microscpio dissecador binocular. Um dos discos pretos estava posicionado sobre a bandeja.
       - Essa situao est se tornando cada vez mais absurda - observou ela. - Sou obrigada a lhes dizer que a superfcie no apresenta qualquer ponto. Eu juraria 
que se trata de um pedao slido de matria, qualquer que seja esta.
       - Pode parecer isso, mas no  assim - afirmou Cassy.
       - Esse objeto  definitivamente mecnico. Ns todos vimos a fenda.
       - E a agulha - acrescentou Pitt.
       - Quem fabricaria uma coisa assim? - perguntou Jesse.
       - Quem poderia fazer isso? - ecoou Cassy.
       Os quatro entreolharam-se. Durante alguns minutos, ningum falou. A pergunta retrica de Cassy era inquietante.
       - Bem, no poderemos responder a qualquer pergunta antes de descobrirmos o que se encontra no fluido que molhou o mata-borro - disse Sheila. - O problema 
 que tenho de fazer isso por minha prpria conta. Foi Richard, o chefe dos tcnicos do laboratrio do hospital, que tagarelou para o diretor sobre nosso visitante 
dos CCDs. No posso confiar nas pessoas do laboratrio.
       - Precisamos conseguir a ajuda de outras pessoas - observou Cassy.
       - , como a de um virologista, por exemplo - concordou Pitt.
       - Tendo em vista o que aconteceu com o homem dos CCDs, isso no vai ser fcil - afirmou Sheila. -  difcil saber quem j teve essa gripe e quem no a teve.
       - Exceto quando se trata de pessoas que conhecemos bem - comentou Jesse. - Eu sabia que o capito estava agindo de maneira estranha, s no sabia por qu.
       - Mas no podemos usar o medo de no saber quem esteve doente como uma desculpa para ficarmos aqui parados, sem fazer nada - argumentou Cassy. - Precisamos 
advertir as pessoas que ainda no foram contaminadas. Conheo um casal que poderia ser de grande ajuda. Ela  virologista e ele, fsico.
       - Parece perfeito, desde que no tenham sido espetados - disse Sheila.
       - Creio que posso descobrir - replicou Cassy. - O filho deles estuda numa das turmas em que estou fazendo estgio. Ele tambm suspeita de que alguma coisa 
de estranho est acontecendo porque os pais da namorada foram evidentemente contaminados.
       - Esse pode ser um ponto preocupante - afirmou Sheila.
       - Pelo que Jesse nos contou sobre o capito, tenho a ntida e incmoda impresso de que as pessoas contaminadas tm uma viso evangelizadora de sua condio.
       - Exato - concordou Jesse. - Ele no estava disposto a ser contestado. Estava decidido a me dar aquele disco negro, dissesse eu o que dissesse. Queria que 
eu ficasse doente, no h dvida.
       - Vou tomar cuidado - tranqilizou-os Cassy - e, como voc j disse, serei discreta.
       - OK, vamos tentar - assentiu Sheila. - Enquanto isso, vou fazer alguns testes preliminares nesse fluido.
       - O que vamos fazer com os discos? - indagou Jesse.
       - Acho que a pergunta : o que eles vo fazer conosco? - replicou Pitt, observando aquele que se encontrava posicionado sob o microscpio.
       
       
       12
       9:00
       
       Fazia uma manh gloriosa, com o cu de um azul cristalino e sem nuvens.  distncia as montanhas prpuras e serrilhadas pareciam cristais de ametista banhados 
numa luz dourada.
       Diante do porto da propriedade, reunira-se uma multido em expectativa. Havia pessoas de todas as idades e com as mais diversas ocupaes, de mecnicos a 
cientistas espaciais, de donas-de-casa a diretores de empresas, de alunos da escola secundria a professores universitrios. Todos mostravam-se vidos, felizes e 
transpirando sade. A atmosfera era festiva.
       Beau saiu da casa acompanhado por King, desceu os degraus, caminhou quinze metros e ento fez meia-volta. O que viu o agradou imensamente. Durante a noite 
fora confeccionada uma grande faixa, que ia de um lado ao outro da fachada do prdio, e dizia: "O Instituto para um Novo Comeo... Seja bem vindo!"
       Os olhos de Beau percorreram toda a rea. Ele conseguira realizar uma quantidade extraordinria de coisas em apenas 24 horas. Estava feliz por no ter mais 
necessidade de dormir, exceto por curtos perodos. De outra forma no teria sido possvel.
       A sombra das rvores ou andando pelo gramado salpicado de sol, Beau via dzias de ces de vrias raas. A maioria era de animais grandes e nenhum deles usava 
coleira. Beau podia perceber que estavam bastante alertas, como sentinelas, e isso o deixava contente.
       Com passos lpidos, retornou  varanda, juntando-se a Randy.
        - Ento,  isso - disse Beau. - Estamos prontos para comear.
       - Que dia importante para a Terra! - exclamou Randy.
       - Faa entrar o primeiro grupo - decidiu Beau. - Vamos inici-los no salo de baile.
       Randy apanhou o telefone celular, discou e pediu a um de seus funcionrios que abrisse o porto. Alguns momentos depois, Randy e Beau puderam ouvir gritos 
de viva erguendo-se no ar fresco da manh. De onde se encontravam, no dava para ver o porto da frente, mas certamente eles podiam ouvir as pessoas gritando enquanto 
entravam.
       Com um zunido de excitao, a multido seguiu como um enxame na direo da casa, formando espontaneamente um semicrculo diante da varanda.
       Beau estendeu a mo para a frente, como um general romano, e instantaneamente a multido calou-se por completo.
       - Bem-vindos! - gritou Beau. - Este  o novo comeo! Vocs todos so testemunhas de que partilhamos os mesmos pensamentos e vises. Todos sabemos o que precisamos 
fazer. Portanto, vamos faz-lo!
       Um viva e uma salva de palmas brotaram da multido. Beau voltou-se para Randy, que estava radiante. Ele tambm aplaudia. Beau fez um sinal a Randy para que 
entrasse na casa e ento o seguiu.
       - Que momento eletrizante - comentou Randy, quando seguiam na direo do salo de baile decorado.
       -  como se fssemos um imenso organismo - afirmou Beau, assentindo com a cabea, num gesto de compreenso.
       Os dois homens entraram na ampla sala banhada de sol e ficaram parados a um lado. A multido seguiu-os imediatamente, enchendo a sala. Ento, respondendo 
a uma ordem invisvel e muda, puseram-se a desmantelar o salo.
       Cassy deixou escapar um silencioso suspiro de alvio ao se ver diante de Jonathan, quando a porta da casa dos Sellers se abriu. Esperando o pior, ela antecipara 
ter de enfrentar Nancy Sellers de imediato.
       - Srta. Winthrope! - exclamou Jonathan, num misto de surpresa e prazer.
       - Voc me reconheceu fora da escola - observou Cassy. - Estou impressionada.
       -  claro que a reconheci - retrucou Jonathan, sem pensar. Precisou esforar-se para resistir ao mpeto de descer os olhos abaixo do pescoo de Cassy. - Entre, 
por favor.
       - Seus pais esto em casa? - indagou Cassy.
       - Mame est.
       Cassy estudou o rosto do rapaz. com os cabelos claros caindo sobre a testa e os olhos tmidos e inquietos, parecia ser o mesmo de sempre. Sua maneira de vestir-se 
tambm a tranqilizou. Usava um suter de malha muito grande e um calo bem largo que mal se segurava em sua cintura.
       - Como est Candee? - perguntou Cassy.
       - No a vejo desde ontem.
       - E os pais dela? - interrogou Cassy. Jonathan deixou escapar uma risadinha sardnica.
       - Esto pirados. Minha me teve uma conversa com a de Candee, e ficou na mesma.
       - E quanto  sua me? - Cassy tentou estudar os olhos de Jonathan, mas era o mesmo que tentar examinar uma bola durante uma partida de pingue-pongue.
       - Minha me est bem. Por qu?
       - Muitas pessoas esto agindo de forma estranha ultimamente. Sabe, como os pais de Candee e o Sr. Partridge.
       - , eu sei - disse Jonathan. - Mas minha me no.
       - E seu pai?
       - Ele tambm est bem.
       - timo. Agora eu gostaria de aceitar seu convite para entrar. Vim aqui conversar com sua me.
       Jonathan fechou a porta depois de Cassy entrar e ento gritou, com a capacidade mxima de seus pulmes, anunciando que tinham visita. O grito ecoou pela casa 
e Cassy deu um pulo. Apesar de tentar agir com calma, estava to tensa quanto uma corda de violo.
       - Voc aceita um copo d'gua ou algo assim? - ofereceu Jonathan.
       Antes que Cassy pudesse responder, Nancy Sellers apareceu no alto da escada, junto  balaustrada no segundo andar. Estava vestida de modo casual, comjeans 
desbotados e uma blusa solta.
       - Quem , Jonathan? - perguntou Nancy. Ela podia ver Cassy, mas graas ao ngulo em que o sol entrava pela janela do hall, o rosto da jovem estava perdido 
entre as sombras.
       Jonathan gritou quem era e fez sinal para que Cassy o seguisse at a cozinha. Mal Cassy havia se acomodado numa banqueta, Nancy apareceu.
       - Mas que surpresa! - exclamou Nancy. - Aceita um caf?
       - Aceito, sim - replicou Cassy, observando a mulher que, enquanto se dirigia ao fogo para pegar o jarro de caf, gesticulou para que Jonathan apanhasse a 
xcara. Em seu dedo indicador via-se um Band-Aid recente e Cassy sentiu o prprio pulso acelerar. Um ferimento de qualquer espcie nas mos no era bem o que ela 
esperara ver.
       - A que devemos sua visita? - indagou Nancy, enquanto servia meia xcara de caf para si mesma.
       Cassy tropeou nas palavras.
       - O que aconteceu com seu dedo?
       Nancy lanou um olhar ao Band-Aid, como se ele tivesse acabado de aparecer ali.
       - Foi s um cortezinho - respondeu ela.
       - Com algum objeto de cozinha? - insistiu Cassy. Nancy examinou o rosto da moa.
       - Isso tem alguma importncia? - replicou ela.
       - Bem... - gaguejou Cassy. - , tem, sim. Tem muita importncia.
       - Mame, a Srta. Winthrope est preocupada com as pessoas que esto mudando de comportamento - interveio Jonathan, mais uma vez vindo em socorro de Cassy. 
- Voc sabe, como a me de Candee. Eu j contei a ela que vocs conversaram e que voc achou que a mulher estava fora de rbita.
       - Jonathan! - repreendeu-o Nancy. - Eu e seu pai concordamos em que no iramos comentar sobre os Taylor fora de casa. Pelo menos at...
       - No creio que possamos esperar - interrompeu Cassy. Aquela pequena exploso a encorajara a acreditar em que Nancy no fora contaminada. - As pessoas esto 
mudando rapidamente em toda a cidade; no so s os Taylor. Talvez o mesmo esteja acontecendo em outras cidades. No sabemos. Esse fenmeno est se fazendo acompanhar 
de uma doena que se assemelha  gripe e que, at onde podemos verificar, est sendo disseminada por pequenos discos pretos que tm a capacidade de espetar as mos 
das pessoas.
       Nancy olhou Cassy fixamente.
       - Voc est falando de um disquinho preto com uma espcie de corcova no meio, com cerca de quatro centmetros de dimetro?
       - Exatamente - confirmou Cassy. - A senhora viu algum? Muitas pessoas tm um deles.
       - A me de Candee tentou me dar um... - contou Nancy. - Foi por isso que voc perguntou sobre o meu BandAid?
       Cassy assentiu.
       - Foi uma faca - explicou Nancy. - Uma rosca dura e uma faca.
       - Peo desculpas por ter desconfiado da senhora - disse Cassy.
       - Creio que isso  compreensvel - tranqilizou-a Nancy. - Mas por que voc veio aqui?
       - Para pedir sua ajuda. Temos um grupo, um grupo pequeno, que est tentando descobrir o que est acontecendo. Mas precisamos de ajuda. Temos um pouco do fluido 
liberado por um dos discos e, sendo a senhora uma virologista, saberia o que fazer com ele. Estamos receosos de usar o laboratrio do hospital porque acreditamos 
que muitas pessoas por l foram contaminadas.
       - Vocs suspeitam de um vrus? - indagou Nancy. Cassy deu de ombros.
       - No sou mdica, mas a doena se parece com uma gripe. Tambm no sabemos nada sobre os discos pretos. Foi a que pensamos que seu marido poderia ajudar 
tambm. No sabemos como aquelas coisas funcionam ou mesmo do que so feitos.
       - Vou precisar conversar com meu marido - afirmou Nancy. - Como posso entrar em contato com voc?
       Cassy lhe deu o nmero do telefone do apartamento do primo de Pitt, onde ela passara a noite anterior. Tambm lhe deu o nmero direto da Dra. Sheila Miller.
       - OK - disse Nancy. - Eu lhe darei uma resposta ainda hoje.
       Cassy se levantou.
       - Obrigada e, como j disse, precisamos de vocs. O problema est se espalhando como uma praga.
       A rua estava escura, exceto pelos postes de iluminao pblica dispostos em grandes intervalos.  distncia, dois homens se aproximavam, caminhando, acompanhados 
por grandes pastores alemes. Tanto homens quanto ces agiam como se estivessem patrulhando a rua. Suas cabeas voltavam-se constantemente de um lado para o outro, 
como se procurassem alguma coisa, alertas a qualquer rudo.
       Um sed de cor escura surgiu e parou. A janela se abriu e o rosto plido de uma mulher apareceu. Os dois homens fitaram a mulher, mas ningum falou. Era como 
se estivessem conversando, sem a necessidade de palavras. Alguns minutos depois, o vidro do carro voltou a subir silenciosamente e o carro afastou-se.
       Os dois homens recomearam a andar e, quando os olhos de um deles passou pela linha de viso de Jonathan, este pensou ter visto um brilho, como se aqueles 
olhos estivessem refletindo uma fonte de luz oculta.
       Instintivamente, Jonathan afastou-se da janela e deixou a cortina voltar ao lugar. No sabia se o homem na rua o vira ou no.
       Aps um momento, Jonathan voltou a abrir, com todo o cuidado, uma minscula fenda no centro da cortina. Estando ele mesmo num ambiente escuro, no temia que 
a luz o denunciasse.
       Jonathan ps o olho na fresta. L embaixo, na rua, pde ver que os dois homens e seus ces continuavam a andar, exatamente como antes. O garoto deixou escapar 
um suspiro de alvio. Eles no o haviam visto.
       Soltando a cortina, Jonathan saiu do banheiro e voltou  sala de estar, juntando-se aos outros. Ele e os pais tinham vindo para o apartamento onde Cassy e 
seu amigo Pitt estavam se hospedando. Tratava-se de um apartamento grande, de trs quartos, num condomnio arborizado e de edifcios baixos. Jonathan achou o lugar 
bacana. Ali havia vrios aqurios e plantas tropicais espetaculares.
       Jonathan pensou em contar o que acabara de ver, mas estavam todos muito preocupados. Todos, com exceo de seu pai, que estava de p, afastado do grupo, o 
cotovelo apoiado no consolo da lareira. Jonathan reconheceu sua expresso. Era aquele ar de condescendncia que ele assumia todas as vezes que o filho lhe pedia 
ajuda em matemtica.
       Jonathan fora apresentado aos outros. J vira o policial negro antes e ficara impressionado. No ltimo outono, ele fora  escola participar de um programa 
de orientao vocacional. Jonathan nunca vira a Dra. Sheila Miller, mas manteve uma certa reserva em relao a ela. Apesar dos cabelos louros, a mulher o fazia lembrar 
da bruxa no vdeo da Branca de Neve a que os pais o tinham feito assistir quando era garoto. Nela nada havia de feminino, no como em Cassy. As unhas compridas em 
nada ajudavam, principalmente porque estavam pintadas com uma cor bem escura.
       O amigo de Cassy, Pitt, parecia um cara legal, exceto pelo fato de Jonathan sentir uma pontada de cime por causa de Cassy. No sabia se eram namorados, mas 
parecia que estavam morando juntos naquele apartamento. Jonathan desejou ter um fsico como o de Pitt e talvez at mesmo cabelos escuros, se era disso que Cassy 
gostava.
       Sheila pigarreou, limpando a garganta.
       - Ento, vamos resumir - disse ela. - Estamos lidando com um agente infeccioso que fez adoecerem as cobaias de imediato, mas os animais no produziram nenhum 
microorganismo perceptvel; para ser mais especfica, no produziram nenhum vrus. A doena no  transmitida pelo ar, caso contrrio, estaramos todos contaminados. 
Pelo menos eu com certeza estaria, pois estou praticamente morando na Emergncia, que, nesses ltimos dois dias, tem estado literalmente cheia de pessoas infectadas, 
que no param de tossir e espirrar.
       - Voc j inoculou culturas teciduais? - indagou Nancy.
       - No - respondeu Sheila. - No creio que eu tenha experincia suficiente para esse tipo de trabalho.
       - Ento, acredita que a doena seja transmitida apenas por via parenteral - observou Nancy.
       - Exatamente - concordou Sheila. - Por um desses discos pretos.
       Ambos os discos encontravam-se dentro de um recipiente Tapperware sem tampa colocado sobre a mesinha de centro. Nancy apanhou um garfo e comeou a empurr-los 
de um lado para o outro, a fim de examin-los. Em seguida, tentou virar um deles, mas, no podendo estabiliz-lo com o dedo, aquela parecia uma tarefa impossvel. 
Por fim, ela desistiu.
       - No consigo imaginar como uma dessas coisas pode espetar algum. So to uniformes.
       - Mas pode, com certeza - garantiu-lhe Cassy. - Ns vimos isso acontecer.
       - Uma fenda se abre na borda - contou Jesse, apanhando o garfo e apontando o local. - Em seguida, surge uma agulha metlica.
       - Mas eu no consigo ver onde possa haver uma fenda a - insistiu Nancy.
       Jesse deu de ombros.
       - Ns tambm ficamos perplexos.
       - Trata-se de uma doena nica - informou Sheila, trazendo a discusso outra vez ao ponto central. - Os sintomas basicamente assemelham-se aos da gripe, mas 
o perodo de incubao  de apenas algumas horas aps a contaminao. O curso da doena tambm  curto e autolimitado, de apenas algumas horas, exceto no caso de 
pessoas com doenas crnicas, como o diabetes. Infelizmente, para essas pessoas, ela  rapidamente letal.
       - E tambm para as pessoas com doenas no sangue - acrescentou Jesse, lembrando-se de Alfred Kinsella.
       -  verdade - concordou Sheila.
       - E at aqui no conseguimos isolar nenhum vrus de gripe nas vtimas - afirmou Pitt.
       - Correto tambm - disse Sheila. - E o aspecto mais excepcional e um dos mais perturbadores nessa doena  que, aps a recuperao, a personalidade das vtimas 
se modifica. Elas chegam mesmo a afirmar que sentem um bem-estar generalizado, que no sentiam antes. E comeam a falar sobre problemas ambientais. No  isso, Cassy?
       A jovem assentiu.
       - Flagrei meu noivo saindo no meio da noite para conversar com estranhos. Quando perguntei sobre o que falavam, ele me respondeu que era sobre o meio ambiente. 
A princpio, pensei que estivesse brincando, mas no estava.
       - Joy Taylor me disse que ela e o marido tinham reunies para discutir o meio ambiente todas as noites - lembrou Nancy. - E em nossa conversa ela tambm se 
referiu  questo da destruio das florestas tropicais.
       - Esperem um pouco! - disse Eugene. - Como cientista, devo dizer que tudo que estou ouvindo aqui so boatos e histrias. Vocs esto se adiantando em suas 
concluses.
       - Isso no  verdade - objetou Cassy. - Ns vimos o disco abrir-se e vimos a agulha. Vimos at mesmo pessoas sendo espetadas.
       - No  essa a questo - replicou Eugene. - Vocs no tm nenhuma prova cientfica de que essa espetada  que tenha causado a doena.
       - No temos muitas provas, mas as cobaias ficaram doentes - observou Sheila. - Isso  certo.
       -  preciso estabelecer causalidade numa situao controlada - disse Eugene. - Esse  o mtodo cientfico. De outra forma, no podem discutir o caso, exceto 
atravs de vagas generalidades. Vocs precisam de provas que possam ser reproduzidas.
       - Temos esses discos pretos - afirmou Pitt. - Eles no so inveno da imaginao de ningum.
       Eugene afastou-se da lareira e debruou-se para examinar os dois discos.
       - Deixe-me ver se estou entendendo vocs: esto tentando dizer que esses pequenos objetos slidos formaram uma fenda onde no existem linhas de juno ou 
mesmo evidncia microscpica de uma abertura ou salincia.
       - Sei que parece loucura - afirmou Jesse. - Eu tampouco teria acreditado se ns trs no tivssemos visto juntos. Foi como se abrisse por meio de um zper 
e ento tornasse a se fundir.
       - Acaba de me ocorrer uma outra coisa. - disse Sheila. - Tivemos um estranho episdio no hospital. Um funcionrio da limpeza morreu com um buraco circular 
na mo, para o qual no foi encontrada uma explicao. O quarto onde ele foi encontrado estava estranhamente deformado. Voc lembra, Jesse. Esteve l.
       -  claro que me lembro. Houve uma certa especulao sobre radiao, mas no encontramos nenhum sinal desta.
       - Foi esse o quarto em que meu noivo ficou internado - acrescentou Cassy.
       - Se esse episdio estiver associado a essa gripe e aos discos negros, temos um problema maior do que pensvamos - afirmou Sheila.
       Todos, exceto Eugene, que voltara a se recostar no consolo da lareira, fitavam os dois discos negros, cticos em relao ao que suas mentes lhes diziam. Finalmente, 
Cassy falou.
       - Percebo que estamos todos pensando a mesma coisa, mas estamos com medo de expressar nossos pensamentos. Portanto, euvou diz-lo: Talvez esses disquinhos 
no sejam daqui. Talvez no sejam deste planeta.
       Aps um suspiro inicial de impacincia por parte de Eugene, os comentrios de Cassy foram recebidos pelo silncio total. O som da respirao das pessoas ali 
presentes e o tique-taque de um relgio de parede eram os nicos rudos no interior do apartamento. L fora, a buzina de um carro soou  distncia.
       - Pensando bem - disse Pitt, por fim -, na noite anterior ao dia em que Beau encontrou um desses discos, minha TV explodiu. De fato, muitos estudantes perderam 
TVs, rdios, computadores, todo tipo de aparelho eletrnico que estava ligado naquela hora.
       - E que hora foi essa? - indagou Sheila.
       - Dez e quinze - respondeu Pitt.
       - Foi quando meu videocassete explodiu - observou Sheila.
       - E o meu rdio tambm - informou Jonathan.
       - Que rdio? - perguntou Nancy. Era a primeira vez que ela ouvia falar disso.
       - Estou me referindo ao rdio do carro de Tim - corrigiu-se Jonathan.
       - Voc acha que todos esses episdios poderiam estar relacionados a esses discos pretos? - interrogou Pitt.
       -  uma hiptese - afirmou Nancy. - Eugene, algum encontrou uma explicao para aquela sobrecarga de ondas de rdio poderosas?
       - No, ningum - admitiu Eugene. - Mas eu no usaria esse fato para fundamentar uma teoria to crua.
       - Eu no sei - confessou Nancy. - Eu diria que isso no mnimo levanta suspeitas.
       - Uau! - exclamou Jonathan. - Isso significaria que estamos falando sobre um vrus extraterrestre. Que legal!
       - Legal, nada! - replicou Nancy. - Seria aterrador.
       - Ei, pessoal, no vamos perder o controle sobre nossa imaginao - advertiu Sheila. - Se comearmos a tirar concluses precipitadas e falar sobre uma espcie 
de cepa de Andrmeda, vai ser muito mais difcil conseguir ajuda.
       -  exatamente isso que eu estou tentando dizer - corroborou Eugene. - Vocs esto todos comeando a falar como um grupo de fanticos paranormais.
       - Quer essa doena venha da Terra ou do espao csmico, ela est aqui - disse Jesse. - No creio que devamos ficar aqui Discutindo a respeito. Acho melhor 
comearmos a descobrir o que  isso e o que podemos fazer a respeito. Tambm acho que no devemos perder muito tempo, pois, se ela estiver se espalhando to rpido 
como acreditamos, j pode ser tarde demais.
       - Tem toda a razo - disse Sheila.
       - Vou isolar o vrus, se houver um na amostra - afirmou Nancy. - Posso usar meu prprio laboratrio. Ningum ir questionar o que estou fazendo. Assim que 
tivermos o vrus podemos apresentar nosso caso em Washington, ao ministro da Sade.
       - Isso se o ministro ainda no estiver infectado quando obtivermos as informaes - observou Cassy.
       - Esse  um pensamento derrotista - disse Nancy.
       - Bem, no temos alternativa - declarou Sheila. - Eugene est certo quando diz que, se comearmos agora a alardear o caso por a, sem nada mais do que hipteses 
e conjeturas, ningum ir nos dar crdito.
       - Vou comear o trabalho de isolamento pela manh - disse Nancy.
       - Existe alguma chance de eu poder ajudar? - ofereceu-se Pitt. - Sou formando de qumica, mas tambm estudei microbiologia e trabalhei no laboratrio do hospital.
       - Com certeza - aceitou Nancy. - Percebi que algumas pessoas esto agindo de maneira estranha na Serotec. No sei em quem confiar.
       - Gostaria de me oferecer para descobrir o que so esses discos pretos - disse Jesse. - Mas no saberia por onde comear.
       - Vou lev-los para o meu laboratrio - anunciou Eugene. - Mesmo que seja s para provar a vocs alarmistas que eles no vm de Andrmeda, vai valer o tempo 
perdido.
       - No toque nas bordas deles - preveniu Jesse.
       - No precisa se preocupar - tranqilizou-o Eugene. - Temos o recurso de manipul-los  distncia, como se fossem radioativos.
       -  uma pena no podermos falar diretamente com uma dessas pessoas infectadas - lamentou-se Jonathan. - Puxa, poderamos simplesmente perguntar o que est 
acontecendo Talvez elas saibam.
       - Isso seria perigoso - afirmou Sheila. - H motivos para acreditarmos que esto se empenhando ativamente em recrutar pessoas. Querem que o restante de ns 
tambm seja infectado. Quem sabe at mesmo nos vejam como inimigos...
       - Elas de fato esto fazendo um trabalho de recrutamento - confirmou Jesse. - Acredito que o chefe de polcia esteja ativamente procurando as pessoas no corpo 
da polcia que ainda no tenham contrado a doena.
       - Pode ser perigoso, mas tambm pode esclarecer muita coisa - afirmou Cassy. Ela tinha os olhos fixos num ponto, sem v-lo no entanto, enquanto sua mente 
se agitava.
       - Cassy! - exclamou Pitt. - O que voc est tramando? No gosto dessa expresso em seu rosto.
       
       
       13
       6:30
       
       - Os dois esto comigo - disse Nancy Sellers, que, ao lado de Sheila e Pitt, encontrava-se diante da mesa de segurana noturna da Serotec Pharmaceuticals. 
O guarda inspecionava a identidade que Nancy tambm j apresentara no porto, antes de entrar no estacionamento.
       - Vocs tm alguma identidade com foto? - perguntou o segurana a Sheila e Pitt. Ambos apresentaram suas carteiras de motorista, o que satisfez o homem. O 
trio ento marchou em direo ao elevador.
       - A segurana ainda est tensa depois do suicdio - explicou Nancy.
       A razo por que Nancy os levara at ali to cedo era para evitarem os outros funcionrios. E ela conseguiu o que queria. At aquele momento, ningum mais 
tinha chegado e o quarto andar estava inteiramente vazio. Aquele era o andar reservado  pesquisa biolgica. Havia at mesmo um local destinado a uma pequena coleo 
de animais usados em experincias.
       Nancy destrancou seu laboratrio particular e, depois que todos entraram, tornou a trancar a porta atrs deles. No queria interrupes ou perguntas.
       - OK! - disse Nancy. - Vamos usar macaces de proteo e tudo ser feito sob os procedimentos de segurana do nvel trs. Alguma dvida?
       Nem Sheila nem Pitt tinham perguntas.
       Nancy levou-os a uma sala lateral, onde havia cabines para trocar de roupa. Ela lhes deu trajes do tamanho apropriado e deixou-os vestirem-se, enquanto ela 
tambm punha o seu.
       - Agora vamos ver as amostras - disse Nancy, quando voltaram a se reunir na sala principal.
       Sheila apresentou o pote de creme para caf, contendo o fragmento de mata-borro. Tambm trouxera amostras mltiplas de sangue dos pacientes que contraram 
a gripe. As amostras tinham sido recolhidas em vrios estgios da doena.
       - Muito bem. - Nancy esfregava as mos protegidas por luvas, em expectativa. - Primeiro vou lhes mostrar como inocular uma cultura tecidual.
       - Onde foi que voc conseguiu essa coisa? - perguntou Carl Maben ao seu chefe, Eugene Sellers. Carl era um candidato a Ph.D. que tambm trabalhava para o 
departamento de fsica.
       Com as sobrancelhas erguidas, Eugene olhou para Jesse Kemper, a quem convidara para assistir  anlise de um dos discos pretos. Jesse respondeu que fora encontrado 
com um indivduo preso por comportamento obsceno.
       Tanto Eugene quanto Carl demonstraram interesse.
       - Eu no conheo os detalhes - admitiu Jesse. Eugene e Carl mostraram-se desapontados.
       - Bem, o que sei  que o homem foi preso por estar fazendo amor no parque - contou Jesse.
       - Meu Deus!  impressionante o risco que as pessoas correm - comentou Carl. - Andar  noite no parque j  perigoso, quanto mais fazer amor.
       - No foi  noite - replicou Jesse. - Era hora do almoo.
       - Eles devem ter ficado constrangidos - observou Eugene.
       - Muito pelo contrrio - afirmou Jesse. - Ficaram irritados ao serem perturbados. Disseram que a polcia deveria estar mais preocupada com os crescentes nveis 
de dixido de carbono na atmosfera e no conseqente efeito estufa.
       Tanto Eugene quanto Carl deram uma gargalhada.
       Quando contou a histria, Jesse lembrou-se da conversa na noite anterior sobre a preocupao das pessoas contaminadas com as questes ambientais. A possibilidade 
de que os amantes do meio-dia estivessem infectados nunca havia lhe ocorrido.
       Redirecionando sua ateno  tarefa que tinha diante de si, Carl disse a Eugene:
       - No creio que isso v funcionar.
       Naquele momento, atrs de uma proteo de vidro escuro, eles alvejavam um dos discos negros com um laser de alta potncia com o intuito de desprender algumas 
molculas. Um cromatgrafo estava posicionado para uma anlise do gs resultante. Infelizmente, o laser no estava conseguindo realizar o seu trabalho.
       - Muito bem, desligue - determinou Eugene.
       O brilhante feixe de luz extinguiu-se instantaneamente quando o aparelho foi desligado. Os dois cientistas olharam o pequeno disco.
       - Trata-se de um material muito duro, com certeza - observou Carl. - Do que voc acha que  composto?
       - No sei - admitiu Eugene. - Mas eu vou descobrir, ah, se vou.  melhor que quem o fez tenha registrado a patente, seno eu vou faz-lo.
       - O que devemos fazer agora? - indagou Carl.
       - Vamos usar uma broca a diamante - decidiu Eugene. - Em seguida, vaporizaremos os fragmentos e deixaremos o cromatgrafo fazer o trabalho.
       Pondo uma pastilha anticida na boca, Cassy deixou o terminal do aeroporto e ficou aguardando sua vez na fila do txi. Sentiase ansiosa desde o momento em 
que acordara naquela manh e, durante a viagem, quanto mais se aproximava de Santa F, pior ela fora ficando. E ainda havia agravado o problema tomando caf no avio. 
Agora havia um n em seu estmago.
       - Para onde vai, senhorita? - perguntou o motorista do txi.
       - Voc sabe alguma coisa sobre esse Instituto para um Novo Comeo? - indagou Cassy.
       - Mas  claro - replicou o motorista. - Acabou de ser criado e, no entanto,  o destino de metade dos meus passageiros.  para l que quer ir?
       - Por favor. - Cassy recostou-se no banco do automvel e, sem ver, ficou olhando a paisagem rolar pela janela. Pitt fora terminantemente contra a idia dessa 
sua visita a Beau, mas, assim que ela tomou corpo em sua mente, Cassy no pde desistir. Embora admitisse que podia ser um tanto perigoso, como previra Sheila, em 
seu corao no imaginava que Beau a prejudicasse de alguma forma.
       - Tenho de deix-la aqui no porto - informou o motorista, quando chegaram  entrada da propriedade onde ficava o instituto. - Eles no gostam de automveis 
com seus canos de descarga l perto da casa. Mas no  longe. Coisa de uns duzentos metros.
       Cassy pagou a corrida e saltou do carro. Aquele era um lugar de uma beleza incorrupta, delimitado por uma cerca branca,  semelhana de um haras. Via-se ainda 
um porto na entrada, mas estava aberto.
       Dois homens elegantemente vestidos, da idade aproximada de Cassy, estavam parados ao lado do porto. Tinham a aparncia bronzeada e saudvel. Ambos sorriam 
afavelmente, mas,  medida que Cassy se aproximava, seus sorrisos no mudavam. Era como se seus rostos houvessem sido congelados numa expresso de contentamento.
       No entanto, mesmo os sorrisos parecendo forados, os dois homens foram cordiais. Quando Cassy disse que queria ver Beau Stark, eles replicaram que compreendiam 
perfeitamente. E indicaram-lhe que caminhasse at a casa.
       Levemente enervada por aquela estranha conversa, Cassy Seguiu pelo caminho sinuoso em meio s rvores. De ambos os lados, sob a sombra da vegetao, ocasionalmente 
avistava um co de grande porte. Embora todos se voltassem para observ-la, nenhum deles a incomodou.
       Quando as sombras dos pinheiros deram lugar aos amplos gramados que cercavam a manso, Cassy ficou impressionada, a despeito de sua ansiedade. A nica coisa 
que maculava o cenrio espetacular era a imensa faixa presa  entrada da casa.
       No momento em que Cassy comeou a subir os degraus de entrada, surgiu uma mulher, que tinha tambm a idade aproximada de Cassy. Exibia o mesmo sorriso dos 
dois homens no porto. Do interior da casa, ouviam-se sons de construo.
       - Vim aqui falar com Beau Stark - informou Cassy.
       - , eu sei - replicou a mulher. - Por favor, me acompanhe.
       A mulher, seguida por Cassy, desceu os degraus e deu a volta em torno da casa enorme.
       -  uma casa linda - comentou Cassy, puxando conversa.
       - No ? E pensar que isso  s o comeo. Estamos todos muito entusiasmados.
       Os fundos da casa eram dominados por um grande deque, que tinha at prgulas envoltas em hera. Um pouco mais alm, via-se uma piscina. Na borda desta, havia 
um guarda-sol protegendo uma mesa,  qual sentavam-se oito pessoas. Beau estava  cabeceira. A cerca de cinco metros dele, ela viu King deitado.
       Enquanto se aproximava, Cassy observava Beau, vendo-se obrigada a admitir que ele tinha uma aparncia maravilhosa. Na verdade, poucas vezes ela o vira to 
bem. Os cabelos espessos estavam mais brilhantes do que o normal e a pele do rosto reluzia, como se ele tivesse acabado de sair de um refrescante mergulho. Vestia 
com esmero uma camisa branca esvoaante. As outras pessoas vestiam terno e gravata, inclusive as duas mulheres.
       Vrios cavaletes estavam armados, apoiando grandes blocos de papel. As pginas expostas estavam cobertas de misteriosos diagramas esquemticos e equaes 
incompreensveis. Sobre a mesa espalhavam-se papis com contedos semelhantes. Uma meia dzia de laptops estava aberta, zumbindo.
       Cassy nunca se sentira to insegura em sua vida. Sua ansiedade crescia ainda mais  medida que se aproximava de Beau. No tinha a menor idia do que iria 
lhe dizer. O fato de estar interrompendo uma reunio com pessoas que pareciam to importantes tornava a situao ainda pior. Eram todos mais velhos do que Beau e 
pareciam profissionais liberais, como advogados ou mdicos.
       Antes, porm, que Cassy alcanasse a mesa, Beau voltou-se em sua direo, deu um sorriso largo ao reconhec-la e ps-se imediatamente de p. Sem uma palavra 
s outras pessoas, ele correu para Cassy e segurou-lhe as mos. Seus olhos azuis cintilavam. Por um segundo, Cassy sentiu-se desmaiar. Teve a sensao de que poderia 
afundar naquelas imensas pupilas negras.
       - Estou to feliz que voc tenha vindo - disse Beau. - Estou ansioso para conversar com voc.
       As palavras de Beau tiraram Cassy de sua momentnea fraqueza.
       - Por que no telefonou? - Por fim ela verbalizou a pergunta que no ousara fazer a si mesma at aquele momento.
       -  tanta agitao por aqui - explicou Beau. - Tenho estado ocupado vinte e quatro horas por dia. Acredite.
       - Ento creio que tenho sorte por conseguir v-lo - replicou Cassy, lanando um olhar ao grupo sentado  mesa, pacientemente  espera. E tambm a King, que 
se erguera, adotando a postura sentada. - Voc agora se tornou um homem bastante importante.
       - , so muitas as responsabilidades - admitiu Beau, afastando-a alguns metros do grupo e em seguida apontando para a casa. Sua outra mo ainda segurando 
as dela.
       - O que acha? - perguntou, orgulhoso.
       - Estou um pouco confusa - respondeu Cassy. - No sei bem o que pensar.
       - O que voc est vendo aqui  s o comeo. Somente a ponta do iceberg.  tudo to excitante!
       -  s o comeo de qu? - indagou Cassy. - O que voc est fazendo aqui?
       - Vamos endireitar todas as coisas - disse Beau. - Lembra-se de eu lhe dizer nesses ltimos seis meses que eu teria um Papel importante no mundo se conseguisse 
um emprego com Randy Nite? Bem, est acontecendo de uma forma que eu nunca poderia ter previsto. Beau Stark, o garoto de Brookline, ir ajudar a conduzir o mundo 
a um novo comeo.
       Cassy fitou as profundezas dos olhos de Beau. Ela sabia que ele estava ali. Se ao menos conseguisse alcan-lo atrs daquela fachada megalomanaca. Baixando 
a voz e sem tirar os olhos dos dele, ela disse:
       - Sei que no  voc que est falando, Beau. No  voc que est fazendo isso. Alguma coisa... algum est controlando voc.
       Beau atirou a cabea para trs e riu com vontade.
       - Ah, Cassy. Sempre ctica! Acredite, ningum est me controlando. Sou apenas Beau Stark. Ainda sou o mesmo cara que voc ama e que te ama.
       - Beau, eu te amo,  verdade - declarou Cassy, com uma sbita veemncia. - E acho que voc me ama. Por esse amor, ento, volte para casa comigo. Vamos at 
o centro mdico. Tem uma mdica l que quer examin-lo, descobrir o que o fez mudar. Ela acha que tudo comeou com aquela gripe que voc teve. Por favor, lute contra 
isso, seja l o que for!
       Apesar de haver prometido a si mesma que conteria suas emoes, estas comearam a jorrar incontrolavelmente. As lgrimas apareceram, descendo em rios pelo 
seu rosto. Ela no queria chorar, mas no tinha fora para evitar.
       - Eu te amo - conseguiu repetir.
       Beau estendeu a mo e enxugou as lgrimas nos cantos dos olhos de Cassy. Olhando-a de uma forma verdadeiramente amorosa, ele a puxou e envolveu-a em seus 
braos, pressionando seu rosto contra o dela.
       A princpio Cassy hesitou. Mas, ao sentir Beau segurando-a, cedeu. Abraou-o tambm e, fechando os olhos, apertou com fora. Seu desejo era no o soltar, 
nunca mais.
       - Eu tambm te amo - sussurrou Beau, os lbios roando no ouvido dela. - E quero que voc se junte a ns. Quero que se torne um de ns, pois no poder nos 
deter. Ningum poder!
       Cassy enrijeceu. Ouvir aquelas palavras ditas por Beau foi como sentir uma faca sendo enfiada em seu corao. Seus olhos abriram-se de repente. com o rosto 
ainda encostado ao dele, ela podia ver o vulto embaciado da orelha de Beau. Mas o que fez seu sangue gelar nas veias foi uma pequena mancha na pele atrs da orelha, 
de uma colorao azul-acinzentada. Instintivamente, sua mo ergueu-se e os dedos tocaram aquela rea. A pele ali era spera, de textura quase escamosa, e fria. Beau 
estava sofrendo um processo de mutao!
       Sentindo uma onda de repulsa, Cassy tentou soltar-se de seu abrao, mas Beau continuava a segur-la com firmeza. Ele era mais forte do que ela se lembrava.
       - Logo, logo voc se juntar a ns, Cassy - sussurrou Beau, parecendo alheio a seus esforos para escapar. - Por que no faz-lo agora? Por favor!
       Mudando de ttica, Cassy desistiu de tentar empurr-lo. Em vez disso, passou rapidamente sob seus braos, rolando para o cho. No instante seguinte, porm, 
j estava de p. Seu amor e sua preocupao haviam se transformado em terror. Ela recuou vrios passos e a nica coisa que a impediu de sair em disparada foi o choque 
de ver lgrimas se formando nos olhos de Beau.
       - Por favor! - pediu Beau. - Junte-se a ns, minha querida.
       Cassy fugiu, apesar da inesperada demonstrao de emoo da parte dele, e comeou a correr em disparada, passando sob a prgula mais prxima e seguindo para 
a extremidade da casa.
       A mulher que recebera Cassy na entrada deu um passo  frente. Durante a conversa de Cassy e Beau, ela se mantivera discretamente afastada. Agora seus olhos 
encontraram-se com os de Beau e ela fez um sinal na direo da figura em fuga de Cassy.
       Beau compreendeu o significado do gesto. Ela estava perguntando se devia mandar algum atrs dela. Beau hesitou, lutando consigo mesmo. Por fim, abanou a 
cabea negativamente e retornou aos homens e s mulheres que o aguardavam.
       Tendo j encontrado a maior parte dos itens na lista de compras, Jonathan recompensou-se enchendo o carrinho com Coca-Cola e passeando ento por um corredor 
onde se viam todos os tipos de batata frita. Ele escolheu alguns de seus favoritos e estava se aproximando do departamento de carne, quando seu carrinho Praticamente 
colidiu com o de Candee.
       - Meu Deus, Candee! - exclamou Jonathan. - Onde voc se meteu? Eu liguei umas vinte vezes.
       - Jonathan - disse Candee alegremente. - Estou to feliz em v-lo. Senti sua falta.
       - Sentiu? -Jonathan no pde deixar de notar o quanto Candee estava sensacional, vestindo uma minissaia e uma blusinha justa. Todas as curvas de seu corpo 
firme e gracioso estavam ali, para serem vistas e apreciadas.
       - Senti, sim - respondeu Candee. - Tenho pensado muito em voc.
       - Por que no est indo  escola? Eu procurei por voc.
       - Tambm procurei por voc - afirmou Candee.
       Jonathan conseguiu forar os olhos a tomarem o sentido norte, indo parar no rosto de fada de Candee. Foi a que percebeu o sorriso dela. Havia algo de anormal 
naquele sorriso, embora ele no conseguisse definir o qu.
       - Eu queria lhe dizer que estava errada em relao aos meus pais - declarou Candee. - Totalmente errada.
       Antes que Jonathan pudesse reagir a essa surpreendente mudana, os pais de Candee surgiram no fim do corredor e se detiveram atrs dela. O pai, Stan, pousou 
as mos nos ombros da filha e sorriu, exultante.
       - Ela  uma gatinha, no acha? - perguntou Stan, orgulhoso. - E, como um atrativo a mais, h genes bons e saudveis nesses ovrios.
       Candee ergueu os olhos para o rosto do pai e lanou-lhe um olhar de adorao.
       Jonathan desviou os olhos. Pensou que fosse vomitar. Aquelas pessoas deveriam estar no zoolgico.
       - Sentimos sua falta l em casa - disse Joy, a me de Candee. - Por que no aparece por l hoje  noite? Ns adultos iremos fazer uma reunio, mas isso no 
significa que vocs jovens no possam desfrutar bons momentos juntos.
       - , bem, parece timo - replicou Jonathan, comeando a experimentar uma leve sensao de pnico, visto que Joy se aproximara, parando ao seu lado e encurralando-o 
contra as prateleiras. Candee e Stan bloqueavam o caminho  sua frente.
       - Podemos contar com voc? - insistiu Joy.
       Os olhos de Jonathan passaram pelo rosto de Candee, que ainda exibia o mesmo sorriso. Jonathan, ento, percebeu o que havia de anormal nele. Era falso. Aquele 
tipo de sorriso que as pessoas mostram quando se obrigam a sorrir. No era um reflexo de suas emoes interiores.
       - Tenho muito dever de casa para fazer hoje  noite - respondeu ele, comeando a recuar com seu carrinho de compras.
       Joy dirigiu um olhar ao carrinho.
       - Voc  com certeza um consumidor muito ocupado. Tambm vai haver uma reunio em sua casa? Quem sabe todos ns pudssemos ir para l...
       - No, no - disse Jonathan, nervoso. - No vai ningum l em casa. Nada disso. S estou comprando algumas coisinhas para o lanche. - Jonathan perguntou-se 
se eles, de alguma forma, no saberiam sobre seu pequeno grupo.
       Outro olhar dirigido queles sorrisos falsos provocou em Jonathan um arrepio de medo e o fez dar o fora dali. Abruptamente, ele puxou o carrinho para trs, 
fez meia-volta, manobrando-o, gritou que precisava ir embora e seguiu apressado na direo dos caixas. Enquanto caminhava, podia sentir os olhos da famlia Taylor 
em suas costas.
       - Esta  a rua - anunciou Pitt. Ele estava indicando a Nancy o caminho do apartamento de seu primo, onde todos haviam combinado se encontrar mais uma vez. 
Sheila estava no banco de trs da minivan, segurando um mao de papis.
       J era noite e as luzes dos postes estavam acesas.  medida que se aproximavam do condomnio propriamente dito, Nancy reduzia a velocidade.
       - Parece que muita gente saiu de casa hoje - comentou ela.
       - Tem razo - concordou Pitt. - Parece mais meio-dia no centro da cidade do que a noite num subrbio.
       - Posso imaginar o porqu das pessoas acompanhadas por cachorros estarem na rua - afirmou Sheila. - Mas o que essas outras esto fazendo? Esto simplesmente 
andando  toa?
       - Que coisa estranha - admitiu Pitt. - No vejo ningum conversando, mas esto todos sorrindo.
       - Esto mesmo - disse Sheila.
       - O que devo fazer? - indagou Nancy. Estavam quase chegando ao seu destino.
       - D uma volta no quarteiro - sugeriu Sheila. - Vamos ver se eles nos notam.
       Nancy aceitou a sugesto. Quando retornaram ao ponto de partida, nenhum dos pedestres pareceu olhar em sua direo.
       - Vamos entrar - decidiu Sheila.
       Nancy estacionou e todos saltaram rapidamente. Pitt deixou que as mulheres seguissem  frente. Quando chegou  porta de entrada, as mulheres j estavam subindo 
pela escada interna. Pitt tornou a olhar para a rua. Ao dirigir-se  porta, teve a ntida sensao de que estava sendo observado, mas ao correr a vista pela rea 
verificou que ningum estava olhando para ele.
       Cassy abriu a porta em resposta  batida de Pitt. O rosto dele se iluminou. Estava aliviado em v-la.
       - Como foi a viagem? - perguntou ele.
       - No muito boa - admitiu Cassy.
       - Esteve com Beau?
       - Sim, estive, mas preferia no falar sobre isso agora.
       - OK - disse Pitt, compreensivo, comeando a se preocupar. Podia ver que Cassy estava muito perturbada. Ele a acompanhou at a sala de estar.
       - Que bom que finalmente esto todos aqui - disse Eugene. A camisa de cambraia azul estava aberta no colarinho e o n da gravata de tric havia sido afrouxado. 
Seus olhos escuros corriam de um a outro entre os presentes. Ele estava eltrico: um grande contraste com a condescendncia entediada da noite anterior.
       Sentados em torno da mesinha de centro estavam Jesse, Nancy e Sheila. Sobre a mesa via-se o recipiente Tupperware com os dois discos negros, ao lado de uma 
variedade de batatas fritas da incurso de Jonathan ao mercado. Este estava junto  janela, espiando l fora de vez em quando. Pitt e Cassy se sentaram.
       - Perceberam que tem um monte de babacas andando  toa l fora? - perguntou Jonathan.
       - Jonathan, cuidado com a linguagem - repreendeu-o Nancy.
       - Ns os vimos - afirmou Sheila -, mas eles nos ignoraram.
       - Gostaria que me dessem sua ateno! - pediu Eugene. - Tive um dia bastante interessante, para dizer o mnimo. Eu e Carl tentamos tudo que havia  nossa 
disposio com esse disquinho. Ele  incrivelmente duro.
       - Quem  Carl? - perguntou Sheila.
       - Meu assistente Ph.D. - respondeu Eugene.
       - Pensei que houvssemos concordado em manter esse assunto entre ns - disse Sheila. - Pelo menos at sabermos com o que estamos lidando.
       - No h problema com Carl - tranqilizou-a Eugene. - Mas voc tem razo. Talvez eu devesse ter feito o trabalho sozinho. Tenho de admitir que a princpio 
estava ctico em relao a tudo isso, mas agora no estou mais.
       - O que foi que voc descobriu? - perguntou Sheila.
       - O disco no  feito de nenhum material natural - afirmou Eugene. - Trata-se de uma espcie de polmero. Na verdade, assemelha-se mais a uma cermica, mas 
no  uma cermica de fato, pois inclui um componente metlico.
       - Tem at diamante nele - acrescentou Jesse. Eugene assentiu.
       - Diamante, silcio e um tipo de metal que ainda precisamos identificar.
       - O que vocs esto querendo dizer? - indagou Cassy.
       - Estamos dizendo que esse objeto  feito de uma substncia que nossa presente capacidade tecnolgica no teria possibilidade de duplicar.
       - Ento, em linguagem clara - interveio Jonathan: -  extraterrestre,  isso.
       A realidade daquela confirmao deixou-os atnitos, embora fosse o que todos, exceto Eugene, esperassem.
       - Bem, ns tambm fizemos progressos hoje - informou Sheila, lanando um olhar a Nancy.
       - Localizamos experimentalmente um vrus - anunciou Nancy.
       - Um vrus aliengena? - indagou Eugene, empalidecendo.
       - Sim e no - respondeu Sheila.
       - Ora, vamos! - queixou-se Eugene. - Parem com brincadeiras. O que vocs esto insinuando?
       - Com base em minhas investigaes iniciais - comeou Nancy - , e devo enfatizar o termo "iniciais", existe o envolvimento de um vrus, mas este no veio 
com esses disquinhos pretos. Pelo menos, no agora. O vrus est aqui h muito tempo: faz muito, muito tempo que ele existe em todos os organismos que testei hoje. 
Meu palpite  que existe em todos os organismos da Terra que tm um genoma grande o bastante para abrig-lo.
       - Ento ele no veio nessas pequenas espaonaves? - perguntou Jonathan, parecendo desapontado.
       - Se no  um vrus, o que h naquele fluido infeccioso? - quis saber Eugene.
       - Trata-se de uma protena - respondeu Nancy. - Algo como um prinio. Voc sabe, como o que causa o mal da vaca louca. Mas no exatamente o mesmo, pois essa 
protena reage com o DNA virtico. Na verdade, foi por isso que encontrei o vrus com tanta facilidade. Usei a protena como uma sonda.
       - O que achamos  que a protena desmascara o vrus - acrescentou Sheila.
       - Ento a sndrome que se assemelha a uma gripe  o corpo reagindo com essa protena - concluiu Eugene.
       - Esse  o meu palpite - concordou Nancy. - A protena  antignica e provoca uma espcie de insulto imunolgico exagerado.  por isso que as linfocinas so 
produzidas com tanta abundncia, e so elas as verdadeiras responsveis pelos sintomas.
       - Uma vez desmascarado, o que esse vrus faz? - perguntou Eugene.
       - Essa  uma questo que vai nos dar algum trabalho - admitiu Nancy. - Mas temos a impresso de que, ao contrrio de um vrus normal, que s assume o controle 
de uma nica clula, esse vrus  capaz de apossar-se de um organismo inteiro, principalmente do crebro. Assim sendo, cham-lo simplesmente de vrus  subestim-lo. 
Pitt deu uma boa sugesto. Ele o chamou de megavrus. - Pitt enrubesceu.
       - O termo simplesmente me ocorreu - explicou ele.
       - Esse megavrus existe por aqui bem antes de os humanos evolurem - disse Sheila. - Nancy encontrou-o num segmento de DNA bem conservado.
       - Um segmento ignorado pelos pesquisadores - acrescentou Sheila. - Trata-se de um daqueles segmentos no-codificados, ou pelo menos assim se pensava. E  
grande. So centenas de milhares de pares de bases de extenso.
       - Ento esse megavrus estava s  espreita - observou Cassy.
       -  o que pensamos - concordou Nancy. - Talvez alguma raa de vrus aliengenas, ou quem sabe uma raa aliengena capaz de se acondicionar em forma de vrus 
para fazer viagens espaciais, tenha visitado a Terra muitas eras atrs, quando a vida comeava a se desenvolver por aqui. Plantaram-se no DNA, como sentinelas que 
esperassem para ver que tipo de vida poderia evoluir dali. Suponho que pudessem ser despertados intermitentemente com essas pequeninas espaonaves. Tudo de que precisariam 
 a protena ativadora.
       - E agora finalmente alcanamos um ponto de nossa evoluo em que nos tornamos aquilo que eles desejam habitar - disse Eugene. - Talvez aquela exploso de 
ondas de rdio que tivemos naquela noite fosse isso. Talvez esses discos possam comunicar-se com o lugar de onde vieram, seja l onde for.
       - Esperem um segundo - pediu Jonathan. - Vocs esto querendo dizer que esse vrus aliengena j est dentro de mim, como se estivesse hibernando?
       -  o que achamos - respondeu Sheila -, supondo-se que nossas impresses iniciais estejam corretas. O potencial do vrus de manifestar-se est em nossos genomas, 
um pouco como um oncogene tem o poder de manifestar-se como um cncer. Ns j sabemos que pequeninas partculas de vrus comuns encontram-se alojadas em nosso DNA. 
S que essa  uma partcula enorme.
       Durante alguns segundos, a sala foi dominada por um silncio de espanto. Pitt apanhou uma batata frita. Os sons de sua mastigao pareceram anormalmente altos. 
Ele olhou para os outros, quando se deu conta de que o fitavam.
       - Desculpem - pediu ele.
       - Tenho o pressentimento de que esses megavrus no vo se contentar simplesmente em assumir o controle - disse Cassy, de repente. - Receio que eles tenham 
o poder de provocar mutaes nos organismos.
       Todos os olhares se voltaram para ela.
       - Como  que voc sabe? - perguntou Sheila.
       - Porque hoje fui ver meu noivo, Beau Stark - admitiu Cassy.
       - No creio que essa tenha sido uma deciso sbia - disse Sheila, irritada.
       - Eu precisava - replicou Cassy. - Precisava falar com ele e faz-lo voltar para ser examinado.
       - Voc falou com ele a nosso respeito? - questionou Sheila. Cassy abanou a cabea. Lembrando da visita, teve de lutar contra as lgrimas.
       Pitt ergueu-se de sua cadeira e sentou-se no brao da poltrona de Cassy, passando o brao em torno dos ombros dela.
       - O que a fez pensar em mutao? - indagou Nancy. - Voc est se referindo a mutao somtica, ou seja, o corpo dele est mudando?
       - Isso - disse Cassy. Ela estendeu a mo e segurou a de Pitt. - A pele atrs da orelha dele mudou. No  mais pele humana.  uma coisa que eu nunca vi ou 
toquei antes. - Essa nova revelao provocou mais um perodo de silncio. Agora a ameaa parecia ainda maior. Havia um monstro  espreita em todas as pessoas.
       - Precisamos tentar fazer alguma coisa - disse Jesse. - E precisamos fazer isso j!
       - Concordo - assentiu Sheila. - No temos muitos dados, mas temos alguns.
       - Temos a protena - lembrou Nancy. - Mesmo que ainda no saibamos muito sobre ela.
       - E temos os discos com a anlise preliminar de sua composio -  acrescentou Eugene.
       - O nico problema  que no sabemos quem est contaminado e quem no est - afirmou Sheila.
       - Teremos de correr esse risco - disse Cassy. Nancy concordou.
       - No temos outra escolha. Vamos reunir todos os nossos dados num relatrio mais ou menos formal. Quero ter alguma coisa  mo. Um bom lugar para fazer isso 
 em meu escritrio na Serotec. L no seremos importunados e teremos acesso a computadores, impressoras e copiadoras. O que vocs acham?
       - Eu acho que o tempo est se esgotando - observou Jesse, levantando-se do sof.
       Eugene ps o recipiente Tupperware contendo os dois discos negros numa mochila que tambm guardava os resultados impressos de vrios testes que ele realizara. 
Passou-a pelo ombro e saiu do apartamento, seguindo os outros.
       Todos se espremeram na minivan dos Sellers. Nancy foi dirigindo. Quando se afastavam do meio-fio, Jonathan olhou pela janela traseira. Alguns dos muitos pedestres 
por ali observavam-nos, mas a maioria os ignorava.
       Uma hora depois, o grupo todo trabalhava energicamente. Dividiram as tarefas, segundo as habilidades de cada um. Cassy e Pitt digitavam nos terminais de computador, 
com a assistncia tcnica de Jonathan. Nancy e Eugene faziam cpias dos resultados de seus testes. Sheila fazia o confronto dos grficos dos pacientes de centenas 
de casos de gripe. Jesse estava ao telefone.
       - Creio que voc deva ser o porta-voz - Nancy disse a Sheila. - Voc  a mdica.
       - No h dvida quanto a isso - afirmou Eugene. - Voc ser muito mais convincente. Podemos apoi-la fornecendo os detalhes quando necessrios.
       -  um bocado de responsabilidade - observou Sheila. Jesse desligou o telefone.
       - Tem um vo noturno para Atlanta que parte daqui a uma hora e dez minutos. Reservei trs lugares, supondo que somente Sheila, Nancy e Eugene estejam indo.
   Nancy olhou para Jonathan.
       - Talvez eu ou Eugene devssemos ficar - disse ela.
       - Me! - gemeu Jonathan. - Eu vou ficar bem.
       - Acho que  importante que vocs dois venham - afirmou Sheila. - Foram vocs que realizaram os testes.
       - Jonathan pode ficar conosco - ofereceu Cassy. O rosto de Jonathan se iluminou.
       Vrios carros pararam diante do edifcio da Serotec. Os pedestres interromperam suas perambulaes e dirigiram-se para aquele ponto, ajudando a abrir as portas. 
Do primeiro carro, saiu o capito Hernandez. O motorista, que saiu pelo outro lado, era Vince Garbon. Do carro que vinha logo atrs saltaram policiais  paisana, 
bem como Candee e seus pais.
       Os pedestres postaram-se diante do capito e apontaram para as luzes nas janelas do quarto andar. Disseram ao capito que todos os "no-modificados" estavam 
l em cima. O capito assentiu e ento acenou para que os outros o seguissem. Juntos, entraram no edifcio.
       Cassy terminara de digitar sua parte e aguardava, ao lado da impressora, enquanto esta expelia as pginas. Jonathan se aproximara e estava de p ao seu lado.
       - Ainda no entendo por que Atlanta - disse ele. - Por que no procurar as autoridades sanitrias daqui?
       - Porque no sabemos de que lado as autoridades locais esto - explicou Cassy. - O problema  aqui, nesta cidade, e no podemos correr o risco de revelar 
tudo que sabemos para algum que pode ser um deles.
       - Mas como sabemos que isso tambm no est acontecendo em Atlanta? - insistiu Jonathan.
       - No sabemos - admitiu Cassy. - Nessa altura do campeonato, estamos s torcendo.
       - Alm disso - interveio Pitt, ouvindo a conversa -, os CCDs so a melhor opo para cuidar desse tipo de problema. Trata-se de uma organizao nacional. 
Se for preciso, eles podem determinar quarentena para esta cidade ou at mesmo para todo o estado. E talvez o mais importante de tudo  que eles podem divulgar a 
notcia. Toda esta histria aconteceu to rpido por aqui que a mdia no percebeu nada.
       - Ou isso ou as pessoas que controlam a mdia esto todas infectadas - afirmou Cassy.
       Ela reuniu seus papis e juntou-os aos de Pitt. Quando grampeava as folhas, as luzes piscaram.
       - Que diabos foi isso? - perguntou Jesse, que estava tenso, tanto quanto os outros.
       Durante um momento, ningum se mexeu. Em seguida as luzes se apagaram. A nica iluminao vinha das telas dos computadores que tinham baterias de reserva.
       - No  preciso entrar em pnico - disse Nancy. - O edifcio tem seus prprios geradores.
       Jonathan foi at a janela. Virando a maaneta, ele a abriu e ps a cabea para fora. L embaixo podia ver luzes vindo dos andares inferiores e passou essa 
perturbadora informao aos outros.
       - No estou gostando disso - comentou Jesse.
       O silvo abafado porm agudo do elevador subindo atravessou a sala.
       - Vamos dar o fora daqui! - gritou Jesse.
       Freneticamente, o grupo juntou todos os seus papis, enfiando-os numa valise de couro, antes de deixar a sala correndo. No corredor escuro, podiam ver pelo 
indicador do andar que o elevador estava quase l.
       Com Nancy apontando o caminho atravs de sinais silenciosos, eles correram por toda a extenso do corredor e abriram a porta com violncia, irrompendo na 
escada. Comearam a descer, mas quase imediatamente ouviram uma porta se abrindo trs andares abaixo, no trreo.
       Jesse, que agora seguia na frente, tomou uma deciso rpida e mudou de direo, saindo no corredor do terceiro andar. Todos o acompanharam.
       Em seguida, correram para a escada do lado oposto. Jesse esperou por Sheila, que era a ltima. Quando estava prestes a abrir a porta, percebeu pelo visor 
da porta que algum vinha subindo a escada. Rapidamente ele se abaixou e gesticulou, de maneira frentica, para que os outros fizessem o mesmo. Todos ouviram os 
passos pesados de vrias pessoas correndo degraus acima, rumando para o quarto andar.
       No momento em que Jesse pensou ter ouvido a porta da escada fechar-se no andar acima deles, abriu aquela atrs da qual se escondiam e olhou para cima. Satisfeito 
pela escada estar agora vazia, fez sinal para que os outros o seguissem, descendo at o trreo.
       Tornaram a se agrupar diante de uma porta com um aviso de que estava protegida por alarme e que era restrita apenas a casos de emergncia.
       - Est todo mundo aqui? - sussurrou Jesse.
       - Estamos todos aqui - afirmou Eugene.
       - Vamos entrar naquela van e dar o fora daqui - decidiu Jesse. - Eu dirijo. Deixe as chaves comigo.
       Nancy ficou mais do que feliz em entreg-las a ele.
       - OK, vamos! - ordenou Jesse. Abriu a porta intempestivamente, acionando o alarme. Os outros seguiam logo atrs dele, correndo meio abaixados. Dentro de poucos 
segundos estavam no interior do carro e Jesse havia ligado o motor. - Segurem-se - advertiu, acelerando bruscamente. Cantando os pneus, saram do estacionamento 
em disparada. Jesse no se deu ao trabalho de parar no porto de segurana. A van atingiu a barra de madeira preta e branca, atirando-a para fora do caminho.
       Jonathan virou-se e olhou pelo vidro traseiro. Erguendo os olhos para as janelas escuras do quarto andar, viu vrios pares de olhos brilhando. Pareciam olhos 
de gatos refletindo a luz de um farol.
       Jesse dirigia velozmente, mas, de modo deliberado, dentro do limite de velocidade. Passara por alguns carros da polcia e no queria atrair a ateno destes.
       Num sinal de trnsito, todos comearam a se acalmar o suficiente para discutir quem poderia ter tentado encurral-los no edifcio da Serotec. Ningum tinha 
a menor idia. Tampouco sabiam quem poderia ter passado a informao de que se encontravam ali. Nancy aventou a hiptese de o segurana ser um "deles".
       No sinal seguinte, Pitt olhou por acaso para o carro ao lado do deles. Quando o motorista se voltou na sua direo, seu rosto imediatamente refletiu reconhecimento. 
Pitt viu-o apanhar o telefone celular.
       - Isso parece loucura - disse ele. - Mas acho que esse sujeito a do lado nos reconheceu.
       Jesse respondeu ignorando o sinal vermelho. Seguiu ziguezagueando entre os carros, ento dobrou na rua principal e desceu aos solavancos por um beco escondido.
       - No estamos indo na direo oposta  do aeroporto? - indagou Sheila.
       - No se preocupe - tranqilizou-a Jesse. - Como se diz por a, conheo esta cidade como a palma da minha mo.
       Fizeram mais alguns desvios inesperados por ruas estreitas e desertas. Ento, para surpresa de todos, aceleraram numa sada para a auto-estrada que ningum 
no carro, alm de Jesse, conhecia.
       Seguiram o restante do caminho para o aeroporto em silncio. Estava ficando claro para todos a extenso da conspirao e o fato de que eles no podiam baixar 
a guarda.
       Jesse dirigiu-se ao setor de embarque do aeroporto e parou no terminal C. Todos saram alvoroadamente da van.
       - Podemos nos cuidar daqui em diante - disse Sheila, agarrando a valise que continha o relatrio organizado s pressas. - Por que vocs no voltam para casa, 
onde estaro seguros?
       - Vamos ver vocs trs partirem - afirmou Jesse. - Quero ter certeza de que no haver mais problemas.
       - E quanto ao carro? - perguntou Pitt. - Quer que eu espere aqui nele?
       - No - respondeu Jesse. - Vamos todos l para dentro.
       O interior do terminal quela hora estava praticamente deserto. Uma equipe de limpeza polia o extenso piso de mosaico. O balco da Delta era o nico ocupado. 
O quadro de informaes dizia que o vo para Atlanta estava previsto para a hora certa.
       - Vocs todos sigam para o porto - disse Jesse. - Eu compro as passagens. Tenham  mo suas identidades.
       O grupo atravessou correndo o terminal e aproximou-se do setor de segurana do aeroporto. Havia alguns poucos passageiros esperando a sua vez de passar a 
bagagem de mo pelo detector de metais.
       - Onde esto os discos pretos? - Cassy sussurrou para Pitt.
       - Esto na mochila de Eugene - respondeu Pitt. Naquele momento, Eugene ps a mochila na esteira rolante e ela desapareceu no interior da mquina, enquanto 
ele passava pelo detector de metais.
       - E se fizerem disparar o alarme? - indagou Cassy.
       - Estou mais preocupado com a possibilidade de que o pessoal da segurana possa ser "deles" e que reconhea a imagem nos raios X - retrucou Pitt.
       Tanto Pitt quanto Cassy prenderam a respirao quando a guarda de segurana parou a mquina. Os olhos dela estavam grudados na imagem do aparelho. Pareceu 
ter transcorrido um minuto inteiro antes da mulher reiniciar a esteira. Cassy suspirou de alvio. Ela e Pitt tambm atravessaram o detector de metais e alcanaram 
os outros.
       Todos evitavam fitar outros passageiros nos olhos, enquanto saam do saguo. Era enervante no saber quem estava infectado. Como se lesse o pensamento de 
todos, Jonathan disse:
       - Acho que se pode saber quem so eles pelo sorriso ou pelos olhos.
       - Como assim? - perguntou Nancy.
       - Ou o sorriso  falso ou os olhos tm um brilho fosforescente - explicou Jonathan. - Naturalmente, s se pode ver os olhos assim no escuro.
       - Acho que voc est certo, Jonathan - apoiou Cassy. Ela testemunhara ambos os casos.
       Chegaram ao porto. A maioria dos passageiros do avio j havia embarcado. Postaram-se a um lado  espera de Jesse.
       - Est vendo aquela mulher ali adiante? - perguntou Jonathan, enquanto apontava. - Olhe aquele sorriso estpido. Aposto cinco pratas como ela  um deles.
       - Jonathan! - sussurrou Nancy energicamente. - No seja to indiscreto assim.
       Vince Garbon parou o carro da polcia sem identificao junto ao meio-fio, exatamente atrs da minivan dos Sellers.
       -  bvio que esto aqui - disse o capito Hernandez, descendo do veculo. Um segundo carro parou atrs do primeiro. Candee, os pais e os outros oficiais 
 paisana saltaram.
       Como limalhas de ferro sendo atradas a um m, vrios funcionrios do aeroporto infectados reuniram-se imediatamente em torno do capito e de seu grupo.
       - Porto 5, terminal C - disse um deles ao capito. - Vo 91 para Atlanta.
       - Vamos - ordenou o capito Hernandez. Em seguida, passou pela porta automtica, entrando no terminal, e acenou para que os outros o seguissem.
       - E agora, onde est Jesse? - perguntou Sheila, percorrendo com os olhos todo o saguo at o terminal principal,  procura dele. - No quero perder esse vo.
       - Eugene -sussurrou Nancy para o marido. -, com tudo isso que est acontecendo, estou tendo dvidas em relao a deixar Jonathan aqui. Talvez um de ns dois 
devesse ficar.
       - Eu tomo conta dele - disse Jesse, que se aproximara por trs do grupo a tempo de ouvir o comentrio de Nancy. - Vocs fazem o seu trabalho em Atlanta. Ele 
ficar bem.
       - Como foi que voc chegou aqui? - indagou Sheila. Jesse apontou na direo de uma porta trancada, sem identificao, atrs deles.
       - Estive no aeroporto tantas vezes investigando vrios crimes que acabei conhecendo o lugar melhor do que o poro de minha prpria casa.
       Ele entregou as passagens a Nancy, Eugene e Sheila. Nancy deu um ltimo abrao no filho. Jonathan permaneceu rgido, com os braos cados ao longo do corpo.
       - Voc tenha cuidado, est me ouvindo? - disse Nancy, tentando em vo fitar os olhos de Jonathan.
       - Me! - queixou-se ele.
       - Vamos - convocou Sheila. -  a ltima chamada. Com Sheila  frente e Nancy seguindo por ltimo, a fim de dar um ltimo aceno para o filho, os trs fizeram 
a checagem no porto, mostrando a identidade, e ento desapareceram na ponte de embarque. Alguns minutos mais tarde, esta foi desacoplada e recolhida, e o avio 
ento comeou a taxiar noite adentro.
       Com um suspiro de alvio, Jesse virou-se no ponto onde observava pela janela.
       - L vo eles, graas a Deus. Mas agora ns...
       Jesse no chegou a terminar a frase, pois viu o capito Hernandez e Vince Garbon  frente de um grupo numeroso de pessoas. Eles andavam rapidamente pelo centro 
do saguo, seguindo direto para o porto 5.
       Cassy viu a nuvem descer sobre o rosto de Jesse e comeou a perguntar o que havia de errado. Mas Jesse no lhe deu chance. Bruscamente conduziu os trs na 
direo da porta sem identificao.
       - O que est acontecendo? - perguntou Pitt.
       Jesse o ignorou e rapidamente digitou a combinao no teclado numrico ao lado da maaneta. A porta se abriu.
       - Entrem! - ordenou ele.
       Cassy foi a primeira a passar pela porta, seguida por Jonathan e ento Pitt. Jesse fechou a porta, depois de cruz-la tambm.
       - Venham! - sussurrou ele, a expresso severa, descendo velozmente um lance de degraus de metal e correndo ao longo de um corredor at chegar a uma porta 
que dava para o exterior. Penduradas numa srie de ganchos perto da porta, viam-se capas de chuva amarelas com capuzes. Ele atirou uma para cada e disse-lhes que 
as vestissem, pondo inclusive os capuzes.
       Todos obedeceram. Cassy perguntou quem ele vira.
       - O chefe de polcia - respondeu ele. - E sei com certeza que  um deles.
       Depois de digitar mais uma vez a combinao num outro teclado numrico, Jesse abriu a porta que dava para a pista do aeroporto. O grupo saiu, encontrando-se 
diretamente abaixo da ponte de embarque do porto 5.
       - Esto vendo aquele carro de bagagem ali adiante? - perguntou Jesse, apontando. Tratava-se de um veculo semelhante a um trator, que puxava uma fileira de 
cinco vages de bagagem. Estava estacionado a cerca de quinze metros dali.
       - Vamos andar at l de maneira bem casual. O problema  que das janelas l de cima podero nos ver. Assim que chegarmos ao carro, vocs todos subiro num 
dos vages de bagagem e ento, se Deus quiser, vamos voltar para o terminal A e no para o C.
       - Mas nosso carro est no terminal C - disse Pitt.
       - Vamos deixar o carro a - afirmou Jesse.
       - Vamos? - perguntou Jonathan. Estava chocado. Era o carro dos pais dele.
       - Ah, vamos, sim - respondeu Jesse. - Andem! Chegaram ao carro de bagagem sem incidentes. Todos se sentiram tentados a levantar os olhos para as janelas, 
mas ningum o fez.
       Jesse deu a partida no motor, enquanto os outros subiam no vago. Estavam todos gratos pela autoridade e deciso de Jesse. Respiraram aliviados quando o veculo 
fez meia-volta, serpenteando como uma cobra, e seguiu para o terminal A.
       Passaram por alguns funcionrios de companhias areas, mas ningum contestou o desempenho de Jesse. Chegaram sem problemas ao setor de entrega de bagagem 
do terminal A, onde mais uma vez se beneficiaram com o conhecimento que Jesse possua da planta e dos procedimentos do aeroporto. Poucos minutos depois estavam fora 
dali, no setor de chegada,  espera do nibus.
       - Vamos voltar para o centro da cidade de nibus - informou Jesse. - Ali posso pegar meu carro.
       - E quanto  van dos meus pais? - questionou Jonathan
       - Cuido dela amanh - afirmou Jesse.
       O som de um jato imenso ribombou acima de suas cabeas, impossibilitando momentaneamente qualquer conversa.
       - Deve ter sido eles - disse Jonathan, assim que pde ser ouvido acima do barulho.
       - Tomara que pelo menos encontrem pessoas receptivas nos CCDs - comentou Pitt.
       - Tm de encontrar - disse Cassy. - Essa pode ser a nossa nica chance.
       Beau ocupava a sute principal da manso. Uma porta dupla levava a uma sacada que dava para a varanda e a piscina. Essa porta estava aberta e uma suave brisa 
noturna fazia farfalharem os papis sobre a mesa. Randy Nite e alguns de seus funcionrios mais graduados encontravam-se ali, repassando o trabalho realizado naquele 
dia.
       - Estou muitssimo satisfeito - disse Randy.
       - Eu tambm - concordou Beau. - As coisas no podiam estar indo melhores. - Ele correu os dedos pelos cabelos e tocou a rea onde a pele fora alterada, atrs 
de sua orelha direita. Coou o local e experimentou uma sensao agradvel.
       O telefone tocou e um dos assistentes de Randy atendeu. Aps uma rpida conversa, ele passou o fone a Beau.
       - Capito Hernandez - disse Beau, contente. - Que bom o senhor ligar.
       Randy tentou ouvir o que o capito estava dizendo, mas no conseguiu.
       - Ento esto a caminho dos CCDs, em Atlanta - afirmou Beau. - Fico feliz que tenha ligado para nos informar, mas lhe asseguro que no haver problemas.
       Beau desligou, mas no reps o fone no gancho. Em vez disso, discou outro nmero, com o cdigo de rea 404. Quando atenderam a chamada, Beau falou:
       - Dr. Clyde Horn, aqui  Beau Stark. Aquele grupo de pessoas de quem lhe falei hoje est a caminho de Atlanta, como prevramos. Acredito que estejam nos CCDs 
amanh, portanto cuide deles como combinamos.
       Beau devolveu o fone ao gancho.
       - Acredita que haver algum problema? - indagou Randy. Beau sorriu.
       -  claro que no. No seja bobo.
       - Tem certeza de que fez bem em deixar aquela tal Cassy Winthrope ir embora hoje? - perguntou Randy.
       - Meu Deus, esta noite voc est um poo de preocupaes - replicou Beau. - Mas tenho certeza, sim. Ela  bastante especial para mim e decidi que no desejo 
for-la. Quero que abrace a causa voluntariamente.
       - No compreendo por que voc se importa tanto - declarou Randy.
       - Tambm no tenho muita certeza por que estou fazendo isso - admitiu Beau. - Mas chega dessa conversa. Vamos l para fora! Est quase na hora.
       Beau e Randy saram para a sacada. Aps uma olhada rpida para o cu noturno, Beau meteu a cabea de volta no interior do quarto e pediu a um dos assistentes 
que descesse e desligasse as luzes subaquticas da piscina.
       Alguns minutos depois, as luzes da piscina se apagaram. O efeito foi dramtico. O brilho das estrelas tornou-se muito mais intenso, principalmente o daqueles 
no centro galctico da Via Lctea.
       - Quanto tempo ainda falta? - indagou Randy.
       - Dois segundos - disse Beau.
       Mal as palavras haviam deixado seus lbios o cu iluminou-se com uma profuso de estrelas cadentes. Literalmente milhares delas caam em grande quantidade, 
como uma gigantesca exibio de fogos de artifcio.
       - Lindo, no? - perguntou Beau.
       - Maravilhoso - concordou Randy.
       - Essa  a onda final - declarou Beau. - A onda final!
       
       
       14
       8:15
       
       - Eu nunca vi nada assim - declarou Jesse. - Vocs sabem do que estou falando. Quanto tempo trs jovens levam para se arrumar e sair para tomar caf?
       -  culpa de Cassy - defendeu-se Pitt. - Ela ficou um sculo no banheiro.
       - Isso no  verdade - replicou Cassy, imediatamente ressentindo-se. - No levei tanto tempo quanto o Jonathan. Alm do mais, eu tinha de lavar o cabelo.
       - Eu no demorei muito - disse Jonathan.
       -  claro que demorou - afirmou Cassy.
       - Est bem, j chega - gritou Jesse. Em seguida, num tom de voz mais moderado, acrescentou: -  que eu tinha esquecido como  conviver com a juventude.
       Eles haviam passado a noite no apartamento do primo de segundo grau de Pitt, achando que aquele era o lugar mais seguro. Tudo funcionara bem, com Pitt e Jonathan 
dividindo um dos quartos. O nico pequeno problema fora o banheiro nico.
       - Onde vamos comer? - perguntou Jesse.
       - Em geral tomamos caf no Costa's - respondeu Cassy.
       - Mas eu acho que a garonete de l est contaminada.
       - Haver pessoas contaminadas em todos os lugares a que formos - disse Jesse. - Vamos ao Costa's mesmo. No quero ir a um lugar onde possa encontrar algum 
colega meu da polcia.
       Fazia uma bela manh quando eles saram  luz do sol. Jesse mandou-os esperar na entrada do edifcio por alguns minutos, enquanto ia verificar se estava tudo 
certo com seu carro. Quando no viu qualquer evidncia de que algum houvesse mexido no carro, fez sinal para que se aproximassem. Os trs entraram rapidamente no 
automvel.
       - Preciso parar para abastecer - informou Jesse, conduzindo o carro para a rua.
       - Ainda tem muita gente andando por a - observou Jonathan. - Igual a ontem  noite. E todos tm esse mesmo sorriso babaca e estranho.
       - No  legal usar essa linguagem vulgar - repreendeu Cassy.
       - Nossa, parece minha me falando! - disse Jonathan. Pararam num posto de gasolina. Jesse desceu para bombear o combustvel e Pitt saltou para lhe fazer companhia.
       - Voc percebeu o mesmo que eu? - indagou Jesse, quando o tanque estava quase cheio. O posto estava muito movimentado quela hora da manh.
       - Est se referindo ao fato de que todos parecem estar gripados? - perguntou Pitt.
       - Exatamente. - Quase todos que viam estavam tossindo, espirrando ou tinham a pele plida.
       A algumas quadras do restaurante, Jesse parou junto ao meio fio, diante de uma banca de jornais, e pediu a Pitt que comprasse o jornal. Pitt desceu e esperou 
sua vez. Como o posto de gasolina, a banca tambm estava cheia. Quando Pitt se aproximou das pilhas de jornais, percebeu que cada uma estava sendo segura por um 
disco preto!
       Pitt perguntou ao proprietrio sobre aqueles pesos de papel.
       - So uma gracinha, no so? - replicou o homem.
       - Onde o senhor os conseguiu? - indagou Pitt.
       - Estavam espalhados por todo o meu quintal hoje de manh - explicou o homem.
       Pitt tornou a entrar no carro com o jornal e contou aos outros sobre os discos pretos.
       - Que maravilha! - exclamou Jesse com sarcasmo. Em seguida, passou os olhos pelas manchetes: Onda de Gripe Amena Se Espalha. - Como se j no soubssemos 
disso - acrescentou ele.
       Cassy, no banco de trs, apanhou o jornal e leu a matria, enquanto Jesse seguia para o Costa's.
       - Aqui diz que a doena  debilitante, mas breve... - contou Cassy. - Pelo menos para as pessoas saudveis. Quanto a quem tem doenas crnicas, aconselha-se 
que procurem o mdico ao primeiro sinal dos sintomas.
       - Vai adiantar muita coisa fazer isso - ironizou Pitt. Assim que entraram no restaurante, acomodaram-se num reservado na parte da frente. Pitt e Cassy estavam 
atentos,  procura de Marjorie, mas no a viram. Quando um garoto cuja idade regulava com a de Jonathan aproximou-se para anotar os pedidos, Cassy perguntou sobre 
a garonete.
       - Ela foi para Santa F - informou o garoto. - Muitos de nossos funcionrios foram para l.  por isso que estou trabalhando. Sou Stephanos, filho do Costa.
       Depois que Stephanos tornou a desaparecer na cozinha, Cassy contou aos outros sobre o que vira em Santa F.
       - Esto todos trabalhando naquela espcie de castelo - acrescentou ela.
       - O que esto fazendo l? - perguntou Jesse. Cassy deu de ombros.
       - Eu perguntei; era uma pergunta natural. Mas Beau s respondeu com lugares-comuns e generalidades, falando sobre um novo comeo e sobre endireitar as coisas, 
sei l que diabo ele quis dizer com isso.
       - Pensei que no fosse legal usar linguagem vulgar - observou Jonathan.
       - Tem razo - reconheceu Cassy. - Me desculpe.
       Pitt consultou o relgio pela dcima vez desde que haviam chegado ao restaurante.
       - Agora no deve faltar muito para chegarem aos CCDs.
       - J devem estar esperando o lugar abrir - disse Cassy. - A essa altura, j esto em Atlanta h vrias horas. Com a diferena de fuso horrio talvez os CCDs 
demorem mais uma hora aproximadamente para abrir.
       Uma famlia de quatro pessoas que ocupava o reservado ao lado comeou a tossir e espirrar quase simultaneamente. Os sintomas da gripe progrediam com rapidez. 
Pitt olhou naquela direo e reconheceu a aparncia plida e febril, principalmente do pai.
       - Gostaria de poder avisar a eles - disse ele.
       - O que voc lhes diria? - perguntou Cassy. - Que tem um monstro aliengena dentro deles que agora foi ativado e que amanh eles j no sero mais os mesmos?
       - Voc tem razo - reconheceu Pitt. - Nesse estgio, j no h muito para ser dito. A preveno  a chave.
       -  por isso que estamos indo direto aos CCDs - disse Cassy. - Preveno  algo de que entendem. S precisamos manter os dedos cruzados para que eles levem 
essa ameaa a srio, antes que seja tarde demais.
       O Dr. Wilton Marchand recostou-se em sua cadeira de espaldar alto e cruzou as mos sobre o abdmen distendido. Ele nunca seguira qualquer das recomendaes 
de sua organizao referentes a dieta e exerccios. Parecia mais o bem-sucedido proprietrio de uma cervejaria do sculo XIX do que o diretor dos Centros de Controle 
de Doenas.
       O Dr. Marchand reunira apressadamente alguns dos seus chefes de departamentos para uma reunio de improviso. Presentes estavam: a Dra. Isabel Sanchez, chefe 
do setor de Gripe; o Dr. Delbert Black, chefe dos Patgenos Especiais; o Dr. Patrick Delbanco, chefe da Virologia; e o Dr. Hamar Eggans, chefe da Epidemiologia. 
O Dr. Marchand gostaria de ter includo outros, mas estes se encontravam fora da cidade ou presos a outros compromissos.
       - Obrigado - disse o Dr. Marchand a Sheila, que acabara uma veemente apresentao do problema. O Dr. Marchand olhou Para seus chefes de setores, que olhavam 
por sobre o ombro um outro, ocupados em ler a cpia nica do relatrio que Sheila entregara antes da apresentao.
   Sheila olhou para Eugene e Nancy, sentados imediatamente  sua direita. A sala estava em silncio. Nancy fez um gesto afirmativo com a cabea, dizendo a Sheila 
que achava que ela fizera um excelente trabalho. Eugene deu de ombros e ergueu as sobrancelhas, em resposta ao silncio. Sem palavras, ele perguntava como esse grupo 
de altos funcionrios dos CCD podia estar recebendo aquela informao com tamanha serenidade.
       - Com licena - disse Eugene um ou dois minutos depois, incapaz de suportar o silncio prolongado. - Como fsico, preciso enfatizar que esses discos pretos 
so feitos de um material que no poderia ser fabricado na Terra.
       O Dr. Marchand apanhou o recipiente Tupperware em sua mesa e, com os olhos ocultos pelas plpebras, fitou atentamente os dois objetos.
       - E so definitivamente manufaturados - prosseguiu Eugene. - No so naturais. Em outras palavras, s podem ser de uma cultura avanada... uma cultura aliengena! 
- Era a primeira vez que o trio usava o termo "aliengena". Haviam sugerido exatamente isso, mas evitando ser to explcitos.
       O Dr. Marchand sorriu, indicando que entendia o que Eugene queria dizer. Em seguida, estendeu o recipiente Tupperware na direo do Dr. Black, que o apanhou 
e espiou seu contedo.
       -  bastante pesado - comentou o Dr. Black antes de passar o recipiente para o Dr. Delbanco.
       - E o senhor afirma que existem muitos outros objetos desses em sua cidade - disse o Dr. Marchand.
       Sheila ergueu as mos, exasperada, e ps-se de p. No podia ficar nem mais um instante sentada.
       - Pode haver milhares deles - disse ela. - Mas no  essa a questo. O que queremos ressaltar aqui  que estamos no comeo de uma epidemia oriunda de um provrus 
em nossos genomas. Na verdade, ele est presente em cada genoma dos animais superiores que testamos, sugerindo que esteja ali talvez h bilhes de anos. E o mais 
assustador  que s pode ser de origem extraterrestre.
       - Cada elemento, cada tomo e cada partcula de nossos corpos  "extraterrestre" - afirmou o Dr. Black, asperamente.
       - Toda a nossa criao foi forjada a partir do fenmeno das supernovas.
       - Pode ser - interveio Eugene. - Mas estamos falando de uma forma de vida. No de meros tomos.
       - Exatamente - ratificou Sheila. - Um organismo semelhante a um vrus que vive adormecido nos genomas das criaturas da Terra, inclusive nos dos seres humanos.
       - Que vocs querem dar a entender que tenha sido transportado para a Terra nessas miniaturas de espaonaves que vemos aqui neste recipiente - disse o Dr. 
Marchand, entediado.
       Sheila esfregou o rosto a fim de manter o controle. Ela sabia que estava exausta e emocionalmente esgotada. Como Nancy e Eugene, no pregara o olho naquela 
noite.
       - Sei que isso parece implausvel - disse ela, falando deliberadamente devagar. - Mas est acontecendo. Esses disquinhos tm a capacidade de injetar um fluido 
nos organismos vivos. Tivemos sorte em obter uma gota desse fluido, a partir da qual isolamos uma protena que, segundo acreditamos, funciona como um prinio.
       - Um prinio s transporta uma das encefalopatias espongiformes - afirmou o Dr. Delbanco com um amplo sorriso. - Duvido que sua protena seja um prinio.
       - Eu disse "como um prinio"! - replicou Sheila, com veemncia. - No afirmei que se tratava de um prinio.
       - A protena reage com o segmento especfico de DNA que anteriormente era considerado no-codificado - declarou Nancy, vendo que Sheila estava ficando irritada. 
- Talvez fosse melhor dizer que ela funciona mais como um fomentador.
       - Talvez pudssemos fazer uma pequena pausa - sugeriu Sheila. - Um pouco de caf me faria bem.
       - Naturalmente - concordou o Dr. Marchand. - Que descortesia de minha parte!
       Beau coou entusiasticamente a rea atrs das orelhas de King, enquanto observava os gramados que se estendiam diante do instituto. Do balco de ferro batido 
da biblioteca, ele e King Podiam ver uma longa extenso do caminho que levava do porto  casa, antes de ele desaparecer em meio s rvores. O trecho estava apinhado 
de novos convertidos cobrindo pacientemente o caminho at o castelo. Alguns acenaram para Beau e ele acenou de volta.
       Deixando os olhos percorrerem o restante da propriedade, Beau viu que seus amigos caninos cumpriam zelosamente seu dever. Sentiu-se satisfeito. No queria 
interrupes.
       Voltando-se e entrando na casa, Beau desceu para o primeiro andar e entrou no salo de baile, lotado de pessoas que trabalhavam dura e energicamente. Agora 
que o lugar estava desmantelado quase que por completo, tinha a aparncia muito diferente daquela do dia anterior.
       As pessoas que trabalhavam no salo formavam um grupo extraordinariamente diversificado, com representantes de todas as classes sociais e faixas etrias. 
No obstante, trabalhavam juntas como uma equipe de nado sincronizado. Da perspectiva de Beau, era uma viso a ser admirada - a prpria imagem da eficincia. Ningum 
precisava dar ordens. Como as clulas individuais de um organismo multicelular, cada pessoa tinha gravado na mente o esquema de todo o projeto.
       Beau avistou Randy Nite trabalhando alegremente numa bancada montada de improviso no centro do salo. A equipe de Randy era particularmente discrepante, incluindo 
desde um homem de oitenta e poucos anos a uma menina com menos de dez. Todos trabalhavam em bancas de equipamentos eletrnicos sofisticados. Cada um deles usava 
na cabea um apetrecho dispondo de luz e lente de aumento, que fazia lembrar o equipamento para uma cirurgia da retina.
       Beau caminhou at ele.
       - Ei, Beau! - exclamou Randy, contente, ao avist-lo. - Que dia maravilhoso, no?
       - Perfeito - respondeu Beau, com igual entusiasmo. - Lamento interromper, mas vou precisar de voc esta tarde. Seus advogados esto vindo para c com mais 
papis para voc assinar. Estou transferindo o restante de seus bens para o instituto.
       - No h problema - afirmou Randy, limpando um pouco de p de gesso de sua testa. - As vezes acho que deveramos tirar esse equipamento do meio de toda essa 
demolio.
       - Essa provavelmente teria sido uma boa idia - admitiu Beau. - Mas a fase de demolio agora est quase terminada.
       - O outro problema  que esses instrumentos no tm a sofisticao de que vamos precisar.
       - Simplesmente usaremos o que pudermos deles - afirmou Beau. - Sabamos que haveria problemas com seu grau de preciso. Mas o que no temos no momento teremos 
de desenvolver por nossa prpria conta.
       - Ento est bem - replicou Randy, embora no estivesse muito convencido.
       - Ora, vamos, Randy- disse Beau. - Relaxe! Vai dar tudo certo.
       - Bem, pelo menos esto fazendo um progresso fantstico com o lugar - observou Randy, seus olhos vagando pelo salo. - Est muito diferente agora, com toda 
a certeza. O corretor me disse que essa foi uma recriao do salo de baile de um famoso palcio francs.
       - Ele servir a um propsito muito mais nobre, quando o acabarmos - afirmou Beau, dando um tapinha amigvel nas costas de Randy. - No vou mais tomar seu 
tempo. Nos veremos mais tarde, quando os advogados chegarem.
       Stephanos recolheu a loua suja diante de Cassy, Pitt, Jonathan e Jesse. Este pediu outra "rodada" de caf. Stephanos dirigiu-se para trs do balco, em busca 
da cafeteira.
       - Vocs o ouviram tossir pouco antes de chegar  nossa mesa? - perguntou Cassy.
       Pitt assentiu.
       - Ele est contraindo a doena. No h dvida. Mas no estou surpreso com isso. A ltima vez em que estivemos aqui, Pensamos que seu pai estivesse infectado.
       - Para o inferno com esse caf! - exclamou Jesse. - Este lugar est comeando a me dar arrepios. Vamos embora.
       O grupo se levantou e Jesse atirou uma gorjeta sobre a mesa.
       - Essa sou eu que pago - disse ele, apanhando a conta e seguindo na direo do caixa, ao lado da porta.
       - O que voc acha que Beau est fazendo nesse momento? - indagou Pitt, enquanto o grupo seguia atrs de Jesse.
       - No quero nem pensar nisso - disse Cassy.
       - Eu simplesmente no consigo acreditar que meu melhor amigo  o lder de tudo isso - afirmou Pitt.
       - Ele no  o lder! - exclamou Cassy, bruscamente. - J no  o Beau. Est sendo controlado por esse vrus.
       - Tem razo - apressou-se em dizer Pitt. Sabia que estava tocando na ferida de Cassy.
       - Quando os CCDs estiverem cuidando do caso, voc acha que eles podem encontrar uma cura, como uma vacina, por exemplo? - perguntou Cassy.
       - As vacinas so usadas para prevenir as doenas - replicou Pitt. - No para cur-las.
       Cassy parou e, com olhos que refletiam uma ponta de desespero, levantou o rosto para Pitt.
       - Voc no acredita que eles possam encontrar uma cura?
       - Bem, existem drogas antivirais - afirmou Pitt, tentando parecer otimista. - Quero dizer,  possvel.
       - Ah, Pitt, espero que sim - disse Cassy, beirando as lgrimas.
       Pitt engoliu em seco. Havia um lado mau seu que festejava a sada de Beau de cena, devido a seus sentimentos por Cassy. Entretanto, ele podia ver o quanto 
ela estava sofrendo. Aproximando-se, tomou-a nos braos. Ela tambm o abraou.
       - Ei, garotos, dem s uma olhada nisso - chamou Jesse, enquanto batia no ombro de Pitt, sem v-lo. Os olhos de Jesse estavam grudados em um minsculo aparelho 
de TV atrs da caixa registradora.
       Pitt e Cassy se soltaram. Jonathan juntou-se a eles, ficando s suas costas. A TV estava ligada na CNN e um informe extraordinrio estava entrando no ar.
       - Acaba de chegar  CNN - comeou o locutor - a notcia de que uma chuva de meteoros sem precedentes pde ser vista ontem  noite na metade do mundo, do extremo 
oeste europeu at o Hava. Os astrnomos acreditam que o fenmeno tenha sido mundial, mas que no pde ser visto no restante do mundo devido  luz do sol. A causa 
 desconhecida, pois os especialistas foram apanhados totalmente de surpresa. Voltaremos com outras notcias sobre esse acontecimento assim que houver mais informaes 
disponveis.
       - Ser que isso tem alguma coisa a ver com vocs sabem o qu? - indagou Jonathan.
       - Mais discos negros, talvez? - sugeriu Jesse. - Deve ser isso.
       - Meu Deus! - exclamou Pitt. - Se for mesmo, ento agora o mundo todo est envolvido.
       - Ningum poder parar isso - disse Cassy, sacudindo a cabea.
       - Algum problema, meus amigos? - perguntou Costa, o proprietrio. Jesse estivera na fila atrs de vrios outros fregueses e agora era sua vez de pagar.
       - No - disse Pitt, rapidamente. - O caf da manh estava timo.
       Jesse pagou a conta e o grupo se encaminhou para a sada.
       - Vocs viram o sorriso dele? - perguntou Jonathan. - Viram como era falso? Ele  um dos contaminados. Aposto cinco pratas.
       - Vai ter de apostar com outra pessoa - replicou Pitt. - Ns j sabamos que ele era um deles.
       Aps um breve intervalo, durante o qual Sheila e Nancy aproveitaram para ir ao banheiro e lavar o rosto, o trio retornou  sala do Dr. Marchand. Sheila ainda 
estava exasperada, portanto foi Nancy quem falou.
       - Entendemos que o que estamos dizendo  amplamente anedtico e que nosso relatrio  falho em dados reais - declarou Nancy. - Mas o fato  que somos trs 
profissionais com credenciais impecveis e que vieram at aqui por estarem preocupados. Isso tudo est mesmo acontecendo.
       - Certamente no estamos questionando seus motivos - afirmou o Dr. Marchand. - Apenas suas concluses. Como j havamos enviado um funcionrio para uma investigao 
epidemiolgica ao local,  compreensvel que tenhamos dvidas. Temos aqui o relatrio dele. - O Dr. Marchand ergueu um memorando de uma nica pgina. - Ele teve 
a impresso de que vocs estavam vivenciando uma onda de uma forma branda de gripe. Descreveu uma extensa conversa com o diretor de seu hospital, o Dr. Halprin.
       - A visita dele ocorreu antes de nos darmos conta daquilo com que estvamos de fato lidando - explicou Sheila. - Alm disso, o Dr. Halprin j havia sido vtima 
da doena. Tentamos deixar isso bem claro para o seu funcionrio.
       - Seu relatrio  muito vago - disse o Dr. Eggans a Sheila, batendo-o sobre a borda da mesa do Dr. Marchand depois de l-lo do incio ao fim. - H muitas 
suposies e muito pouca substncia. No entanto...
       Sheila precisou se segurar para no se levantar e deixar a sala, furiosa. Ela no conseguia entender como aqueles intelectuaizinhos passivos haviam chegado 
a sua atual posio dentro do sistema burocrtico dos CCDs.
       - No entanto - repetiu o Dr. Eggans, correndo a mo pensativamente pela barba cerrada -, ao mesmo tempo  muito convincente e ento eu gostaria de fazer uma 
investigao in loco.
       Sheila virou-se para Nancy. No estava muito certa de ter ouvido corretamente. Nancy fez um rpido gesto com a mo, indicando que estava tudo bem.
       - Vocs circularam esse relatrio por outras agncias governamentais? - indagou o Dr. Marchand, apanhando-o em sua mesa e folheando-o casualmente.
       - No! - respondeu Sheila, enfaticamente. - Todos ns concordamos em que os CCDs eram o melhor lugar para comear.
       - No o enviaram ao Departamento de Estado ou ao ministro da Sade?
       - A ningum - afirmou Nancy.
       - Vocs tentaram determinar a seqncia de aminocidos da protena? - indagou o Dr. Delbanco.
       - Ainda no - disse Nancy. - Mas vai ser fcil fazer isso.
       - J determinaram se o vrus pode ser isolado nos pacientes aps a recuperao destes? - perguntou o Dr. Delbanco.
       - E quanto  natureza da reao entre a protena e o DNA?- quis saber o esguio Dr. Sanchez.
       Nancy sorriu e ergueu as mos. Estava encantada com o sbito interesse.
       - Devagar, por favor - pediu ela. - S posso responder uma pergunta de cada vez.
       As perguntas foram disparadas rpida e furiosamente. Nancy empenhou-se ao mximo em respond-las e Eugene a ajudava quando podia. De incio, Sheila estava 
to satisfeita quanto Nancy, mas depois que se passaram dez minutos e as perguntas foram se tornando mais e mais hipotticas, ela comeou a perceber que alguma coisa 
estava errada.
       Sheila respirou fundo. Talvez fosse apenas por estar muito cansada. Talvez aquelas perguntas fossem razoveis, vindas de profissionais com uma formao to 
voltada para a pesquisa. O problema era que ela esperara ao, no intelectualizao. Naquele momento, eles interrogavam Nancy sobre como lhe ocorrera a idia de 
usar a protena como uma sonda do DNA.
       Sheila deixou os olhos percorrerem a sala. As paredes eram decoradas com a costumeira profuso de diplomas, licenas e premiaes acadmicas. Havia fotografias 
do Dr. Marchand com o presidente da Repblica e com outros polticos. De repente, os olhos de Sheila pararam numa porta entreaberta cerca de trinta centmetros. 
Do outro lado, ela viu o rosto do Dr. Clyde Horn. Reconheceu-o instantaneamente, em parte devido  calva lustrosa.
       Quando os olhos de Sheila encontraram os do Dr. Horn, o rosto deste contorceu-se num amplo sorriso. Sheila piscou e, quando tornou a abrir os olhos, o Dr. 
Horn havia desaparecido. Sheila tornou a fechar os olhos. Estaria tendo alucinaes devido  exausto e  tenso? No tinha muita certeza do que vira, mas o rosto 
do Dr. Horn lhe trouxe de volta a lembrana de vlo saindo de sua sala acompanhado do Dr. Halprin. To claro como se a cena tivesse se passado h apenas uma hora, 
ela podia ouvir o Dr. Halprin dizendo: "Inclusive, tenho uma coisa que gostaria que levasse para Atlanta para mim. Algo que acredito v interessar aos CCDs."
       Os olhos de Sheila se abriram. com sbita clarividncia e absoluta certeza, ela soube a que o Dr. Halprin se referia ento: a um disco negro. Sheila olhou 
para o pessoal dos CCDs presente na sala e de repente, com igual certeza, comeou a compreender que estavam todos contaminados. Em vez de estarem interessados na 
epidemia a fim de cont-la, o que estavam fazendo era crivar Nancy e Eugene de perguntas com o intuito de saber como haviam descoberto o que sabiam.
       Sheila se levantou. Agarrou o brao de Nancy e puxou-a com fora.
       - Venha, Nancy.  hora de descansarmos um pouco. Nancy soltou o brao. Estava surpresa com a interrupo.
       - Finalmente estamos conseguindo algum progresso aqui - sussurrou ela, com veemncia.
       - Eugene, precisamos dormir algumas horas - afirmou Sheila. -Voc deve compreender, ainda que Nancy no entenda.
       - Algum problema, Dra. Miller? - perguntou o Dr. Marchand.
       - Em absoluto - respondeu Sheila. - S que percebi que estamos exaustos e que no deveramos estar tomando o tempo de vocs at termos descansado um pouco. 
O que dissermos far muito mais sentido depois que dormirmos por algumas horas. O Hotel Sheraton fica aqui perto. Vai ser melhor para todos.
       Sheila deu um passo at a mesa de Marchand e estendeu a mo para o relatrio que ela e os Sellers haviam trazido. O Dr. Marchand ps a mo sobre ele.
       - Se no se importa, gostaramos de examin-lo com mais ateno, enquanto vocs descansam.
       - Est bem - disse Sheila, cordialmente. Ento afastou-se e tornou a puxar o brao de Nancy.
       - Sheila, eu acho... - comeou Nancy, mas seus olhos encontraram os da mdica. Ela pde ver a intensidade e deciso da companheira e ento tambm se levantou. 
Compreendeu que Sheila sabia alguma coisa que ela desconhecia.
       - Por que no combinamos voltar depois do almoo? - sugeriu Sheila. - Digamos, entre uma e duas horas, est bem?
       - Acho que est bom para ns - concordou o Dr. Marchand. Ele olhou para seus chefes de departamento e todos assentiram.
       Eugene cruzou as pernas, no tendo percebido a comunicao muda entre sua mulher e Sheila.
       - Acho que eu posso ficar aqui - disse ele.
       - Voc vem conosco - disse Nancy a Eugene, puxando-o e forando-o a ficar de p. Em seguida, sorriu para seus anfitries, que corresponderam ao sorriso.
       Sheila deixou a sala do Dr. Marchand na frente. Passaram pela rea secretarial e atravessaram o corredor de um tom verde plido da instituio.
       Diante do elevador, Eugene comeou a queixar-se, mas Nancy lhe disse que ficasse quieto.
       - Pelo menos at chegarmos ao carro - sussurrou Sheila. Entraram no elevador e sorriram para os ocupantes. Todos sorriram de volta e comentaram o quanto o 
tempo estava bom. Quando chegaram ao carro alugado e entraram, Eugene estava um tanto irritado.
       - O que h de errado com vocs? - perguntou ele, introduzindo a chave na ignio. - Levamos uma hora para despertar o interesse deles e ento, puf!, precisamos 
ir descansar. Isso  loucura.
       - Esto todos infectados - declarou Sheila. - Cada um deles.
       - Tem certeza? - questionou Eugene. Estava estupefato.
       - Absoluta - retrucou Sheila. - No tenho a menor dvida.
       - Presumo que no estejamos indo para o Sheraton - disse Nancy.
       - Decerto que no! - exclamou Sheila. - Vamos para o aeroporto. Estamos de volta  estaca zero.
       Os reprteres haviam se reunido diante do porto do instituto. Embora no tivessem sido convidados, Beau havia previsto sua vinda. S no sabia quando viriam. 
Quando os jovens que guardavam o porto lhe informaram que eles estavam l, Beau disse aos porteiros que os segurassem por quinze minutos, para que ele tivesse tempo 
de chegar ao ponto em que a estradinha alcanava as rvores. Beau no queria reprteres no salo de baile, pelo menos por enquanto.
       Quando Beau se viu diante do grupo, ficou levemente surpreso pelo nmero. Esperara de dez a quinze deles, mas em vez disso contavam cerca de cinqenta. O 
grupo estava igualmente dividido entre reprteres de jornais, revistas e TV. Havia cerca de dez cmeras de TV. Todos empunhavam microfones.
       - Ento, aqui vocs vem o Instituto para um Novo Comeo - afirmou Beau, indicando a manso com um gesto amplo da mo.
       - Soubemos que voc est fazendo muitas reformas na casa - comentou um jornalista.
       - Eu no diria que so muitas - replicou Beau. - Mas,  verdade, estamos fazendo algumas mudanas para atender a nossas necessidades.
       - Podemos ver o interior? - perguntou outro reprter.
       - Hoje no - disse Beau. - Perturbaria muito o trabalho que est sendo realizado.
       - Ento viemos at aqui para nada - comentou um terceiro jornalista.
       - No creio que seja esse o caso - afirmou Beau. -Vocs certamente podem ver que o instituto  uma realidade e no uma mera inveno da imaginao.
       -  verdade que todos os ativos da Cipher Software agora esto sendo controlados pelo Instituto para um Novo Comeo?
       -A maioria - respondeu Beau, vagamente. - Talvez vocs devessem fazer essa pergunta ao Sr. Randy Nite.
       - At que gostaramos - respondeu um reprter. - Mas ele no pde ser encontrado. Estou tentando o tempo todo marcar uma entrevista com ele.
       - Sei que est mesmo ocupado - declarou Beau. - Ele est se dedicando entusiasticamente aos objetivos do instituto. Mas creio que posso convenc-lo a falar 
com vocs num futuro prximo.
       - O que  esse "novo comeo"? - indagou um jornalista particularmente ctico.
       - Exatamente isso - respondeu Beau. - Ele nasceu da necessidade de levar a srio a administrao deste planeta. Os seres humanos vm realizando um pssimo 
trabalho at aqui, como atestam a poluio, a destruio de ecossistemas, discrdias constantes e guerras. Essa situao necessita de uma mudana ou, se preferirem, 
de um novo comeo, e o instituto ser o agente dessa mudana.
       O reprter ctico sorriu ironicamente.
       - Que hbil retrica! - zombou ele. - Suas palavras soam muito pomposas, embora at certo ponto verdadeiras, pelo menos a parte sobre a baguna em que os 
homens transformaram o mundo. Entretanto, a idia de um instituto executar isso numa manso isolada  ridcula. Essa operao toda, com todas essas pessoas que com 
certeza sofreram uma lavagem cerebral, me parece mais um culto do que qualquer outra coisa.
       Beau fitou o reprter ctico e suas pupilas dilataram-se ao mximo. Ele caminhou na direo do homem, alheio s outras pessoas que lhe bloqueavam a passagem. 
A maioria saiu de seu caminho, mas alguns Beau empurrou. Ele no usou de fora, mas sim, aplicando uma leve presso, fez com que dessem um passo para o lado.
       Beau alcanou o reprter que, desafiador, fitava-o com a mesma intensidade. Todo o grupo de jornalistas calou-se, observando o confronto. Beau resistiu  
tentao de estender os braos, agarrar o sujeito e obrig-lo a demonstrar o devido respeito. Em vez disso, decidiu que levaria aquele indivduo insubordinado at 
o instituto e o infectaria.
       Mas ento ocorreu-lhe que seria mais fcil contamin-los todos. Ele daria um disco negro a cada um, como presente de despedida.
       - com licena, Beau! - chamou uma jovem atraente, que acabara de chegar ao local. Seu nome era Vernica Paterson. Ela viera correndo da manso e estava sem 
flego. Vestia um sedutor traje de uma s pea, confeccionado em fibra sinttica elstica, que parecia ter sido pintado em seu corpo flexvel e bem feito. Os reprteres 
do sexo masculino, em especial, ficaram intrigados.
       Ela puxou Beau para um lado, afastando-o do grupo, de modo que pudesse lhe falar, com privacidade, que um importante telefonema aguardava-o no instituto.
       - Acha que pode cuidar desses reprteres? - perguntou-lhe Beau.
       - com certeza - respondeu Vernica.
       - Eles no podem entrar - avisou Beau.
       -  claro que no - concordou Vernica.
       - E devem sair daqui com um presentinho. D um disco negro a todos eles. Diga-lhes que se trata de nosso emblema.
       Vernica sorriu.
       - Gosto da idia - disse ela.
       - Desculpe, pessoal! - gritou Beau para o grupo de reprteres. - Preciso ir devido a um imprevisto, mas estou certo de que tornarei a ver todos vocs. A Srta. 
Paterson estar  disposio para outras perguntas que queiram fazer. Ela tambm distribuir um pequeno brinde de despedida, que vocs levaro como souvenir de sua 
vinda ao instituto.
       Teve incio um burburinho de perguntas como resposta ao anncio de Beau. Este simplesmente sorriu e afastou-se. Bateu palmas e King veio correndo para o seu 
lado. Enquanto Beau falava com os reprteres, o co mantivera distncia.
       Um assovio agudo de Beau reuniu vrios dos outros ces que se espalhavam pela propriedade. Beau estalou os dedos e apontou na direo dos jornalistas. Os 
animais recm-reunidos mais que depressa tomaram posies em torno dos reprteres, sentando-se em uma espera paciente.
       Ao chegar  casa, Beau dirigiu-se de imediato  biblioteca. Ali, discou o nmero da linha direta para o Dr. Marchand e a ligao foi imediatamente respondida.
       - Eles se foram - avisou o Dr. Marchand. - Mas foi uma atitude inesperada. Disseram-nos que estavam indo para o Sheraton, mas no foram.
       - O senhor est com o relatrio? - indagou Beau.
       - Naturalmente.
       - Destrua-o.
       - O que quer que faamos a respeito deles? - perguntou o Dr. Marchand. - Devemos det-los?
       - com toda a certeza - respondeu Beau. - No deveria fazer uma pergunta para a qual j conhece a resposta.
       Marchand riu.
       - Tem razo - disse ele. -  s essa estranha mania dos humanos de tentar agir com diplomacia.
       O trnsito no meio da manh em Atlanta no era ruim, se comparado ao da hora do rush, mas era muito mais intenso do que aquele a que Eugene estava habituado.
       - Todos parecem to agressivos aqui - queixou-se Eugene.
       - Voc est se saindo bem, querido - incentivou-o Nancy, embora no tivesse gostado do quanto Eugene se aproximara de um outro carro no cruzamento anterior.
       Sheila estava atenta, olhando pela janela traseira.
       - Algum est nos seguindo? - indagou Eugene, olhando para Sheila pelo espelho retrovisor.
       - Creio que no - respondeu ela. - Acho que acreditaram na histria do descanso. Afinal, era um motivo razovel. Mas o que me preocupa  que agora eles sabem 
que ns sabemos! Talvez eu devesse dizer que "ele" sabe.
       - Falando assim, parece uma entidade nica - observou Eugene.
       - Todas as pessoas contaminadas trabalham juntas de uma certa forma - afirmou Sheila. -  muito esquisito.  como se fossem vrios vrus, trabalhando por 
um objetivo coletivo. Ou como um formigueiro, onde cada indivduo parece saber o que os outros esto fazendo e o que ele deve fazer em conseqncia.
       - Suas palavras sugerem que haja uma espcie de rede de comunicao entre as pessoas contaminadas - disse Eugene. - Talvez a forma aliengena seja uma combinao 
de vrios organismos diferentes. Se fosse esse caso, estaramos lidando com uma organizao de uma dimenso diferente daquelas a que estamos acostumados. Ei, talvez 
seja necessrio um nmero finito de organismos infectados para alcanar uma massa crtica.
       - Como fsico, voc est ficando terico demais para mim - afirmou Sheila. - E mantenha a ateno no trnsito! Chegamos perto demais desse carro vermelho 
ao nosso lado.
       - Uma coisa, porm,  certa - retomou Nancy. - Qualquer que seja o nvel de organizao, precisamos lembrar que estamos lidando com uma forma de vida. Isso 
significa que a autopreservao estar no topo de suas prioridades.
       - E a autopreservao depende de se reconhecer e destruir inimigos - observou Sheila. - Como ns!
       - Eis uma idia confortadora - ironizou Nancy, com um arrepio.
       - Para onde devemos ir quando chegarmos ao aeroporto? - indagou Eugene.
       - Estou aberta a sugestes - respondeu Sheila. - Ainda precisamos contactar algum ou alguma organizao que possa fazer alguma coisa.
       Os olhos de Sheila, que passaram pelo rosto do motorista do carro vermelho seguindo ao lado deles e que agora acelerava, retornaram imediatamente a ele.
       - Meu Deus! - exclamou ela. Nancy virou a cabea rapidamente.
       - O que aconteceu?
       - O motorista do carro vermelho - gritou Sheila. -  o sujeito de barba: o epidemiologista dos CCDs. Qual o nome dele?
       - Hamar Eggans - disse Nancy, virando-se para aquele lado a fim de olhar. - Tem razo.  ele. Acha que nos viu?
       Naquele momento, o carro vermelho deu uma guinada, entrando logo frente de Eugene, que praguejou. Os pra-choques deixaram de se chocar por questo de milmetros.
       - Tem um carro preto  nossa esquerda - gritou Nancy.
       - Acho que  Delbanco.
       - Ah, no! Esto  direita tambm - bradou Sheila. - O Dr. Black est no carro branco. Eles nos encurralaram.
       - O que eu fao? - perguntou Eugene, em pnico. - Tem algum atrs de ns?
       - Tem outros carros - disse Sheila, virando-se no banco.
       - Mas no reconheo ningum.
       No momento em que as palavras saram dos lbios de Sheila, Eugene freou bruscamente. O pequeno carro alugado de quatro cilindros estremeceu e girou, ficando 
cruzado no meio da pista. Os pneus chiaram sobre o calamento, em protesto, assim como aqueles dos carros que vinham atrs.
       Eugene no chegou a parar completamente, mas ainda assim o carro que vinha logo atrs bateu no deles. Mas ele conseguiu o que pretendera. Os trs carros dos 
CCDs haviam disparado na frente antes de pisarem no freio tardiamente, dando a Eugene a oportunidade de dobrar  esquerda, em meio ao trnsito. Nancy berrou ao ver 
os carros se aproximarem do seu lado do veculo.
       Eugene pisou fundo no acelerador para evitar uma coliso e entrou em disparada num beco estreito, repleto de lixo espalhado e vrios lates. A largura era 
suficiente apenas para o carro pequenino, de modo que este colidiu de frente com todo o lixo, as caixas de papelo e os lates, provocando uma rajada de destroos 
voadores.
       Nancy e Sheila seguraram-se com fora.
       - Meu Deus, Eugene! - gritou Nancy quando atingiram um lato particularmente grande e este virou, indo quicar no teto do carro e estilhaando o teto solar.
       Eugene tentava controlar o volante para manter o carro seguindo em linha reta, apesar dos detritos e vasilhames. Ainda assim, este ricocheteava repetidamente 
nas paredes de cimento, com um agnico rudo spero, semelhante ao de unhas raspando num quadro-negro gigante.
       Mais para o fim do beco, o caminho estava livre e Eugene arriscou uma olhada pelo espelho retrovisor. Para seu horror, pde ver a frente do carro vermelho 
entrando na passagem estreita.
       - Eugene, cuidado! - gritou Nancy, apontando para a frente. Eugene desviou os olhos do retrovisor a tempo de ver uma grade correndo em sua direo. Concluindo 
que havia pouca escolha, ele gritou para que as mulheres se segurassem e pisou no acelerador at o fundo.
       O diminuto automvel ganhou velocidade. Tanto Eugene quanto Nancy foram violentamente atirados para a frente, seguros pelos cintos de segurana, enquanto 
Sheila batia de encontro ao encosto do banco dianteiro.
       Apesar dos fragmentos de metal que arrastava, o pequeno carro continuou avanando, indo sair num campo e levantando nuvens de poeira. O carro rodou vrias 
vezes, mas a cada uma delas Eugene conseguiu controlar o volante, impedindo que o automvel capotasse.
       O terreno baldio era um quadrado com cerca de cem metros de lado e nele no se viam rvores. Mais  frente, Eugene podia distinguir uma elevao coberta por 
uma vegetao agreste. Alm da elevao, divisava-se uma parte movimentada da cidade. Acima do topo da colina, os tetos dos veculos presos no trnsito lento eram 
visveis.
       Com a boca seca e os braos doloridos, Eugene lanou outro olhar  sua retaguarda. O carro vermelho tentava manobrar atravs do buraco na grade da cerca e 
o branco vinha imediatamente atrs.
       O plano concebido s pressas por Eugene era subir a colina e misturar-se ao trnsito, mas o terreno tinha outras idias. O solo era muito macio e, quando 
as rodas dianteiras do pequeno automvel alcanaram a base da elevao, atolaram. O carro rodopiou para a esquerda e seguiu aos trancos at parar em meio a uma nuvem 
de poeira. Os trs ocupantes sofreram um violento solavanco.
       Eugene foi o primeiro a se recuperar e estendeu a mo, tocando sua mulher. Ela reagiu como se acordasse de um pesadelo. Ele voltou-se para Sheila, que estava 
tonta, mas bem.
       Eugene soltou o cinto de segurana e saltou com pernas trmulas, olhando na direo da grade. O carro vermelho fora evidentemente retido na abertura estropiada: 
o som de seus pneus girando podiam ser ouvidos do outro lado do campo.
       - Vamos! - gritou Eugene para as mulheres. - Temos uma chance. Vamos subir este morro e desaparecer na cidade.
       As mulheres saram pela porta do passageiro. Enquanto isso, Eugene olhou nervosamente para o carro vermelho a tempo de ver o homem de barba descer.
       - Vamos, depressa! - Eugene apressou as mulheres. Esperando que o homem barbudo viesse correndo na direo deles, ficou surpreso ao v-lo inclinar-se para 
apanhar alguma coisa no carro. Quando ergueu o objeto, Eugene achou que parecia o recipiente Tupperware que haviam trazido para Atlanta.
       Confuso com aquele gesto, Eugene continuou a observar, enquanto Nancy e Sheila subiam a colina, uma ajudando a outra. Alguns segundos mais tarde, Eugene viu-se 
fitando um dos discos negros. Para sua maior perplexidade, o pequeno objeto pairava em pleno ar, bem diante de seu rosto.
       - Venha, Eugene! - chamou Nancy, j quase no topo da elevao. - O que est esperando?
       -  um disco negro - gritou Eugene de volta.
       Eugene percebeu que o disco estava girando rapidamente. As pequenas protuberncias que se alinhavam em torno da borda agora pareciam uma minscula crista.
       O disco negro aproximou-se ainda mais de Eugene, cuja pele comeou a formigar.
       - Eugene! - gritou Nancy, insistente.
       Eugene recuou um passo sem tirar os olhos do disco diante dele, que agora estava ficando vermelho e comeando a irradiar calor. Tirando o casaco e enrolando-o, 
Eugene atirou-o contra o disco, numa tentativa de derrub-lo no cho. Mas isso no aconteceu. Em vez disso, o disco abriu um buraco no tecido do casaco com tanta 
rapidez que Eugene no sentiu qualquer tipo de resistncia. Era como uma faca atravessando um pedao de manteiga em temperatura ambiente.
       - Eugene! - tornou a gritar Nancy. - Venha!
       Como fsico, Eugene sentiu-se fascinado, principalmente quando uma coroa comeou a se formar em torno do disco e a cor deste foi se transformando do vermelho 
para o branco. A sensao de formigamento que Eugene sentia na pele aumentou.
       A coroa expandiu-se com rapidez, tornando-se uma fulgurante bola de luz, to brilhante que a imagem do disco nela contido j no era mais visvel.
       Agora Nancy podia ver o que estava prendendo a ateno do marido. Estava prestes a tornar a cham-lo quando viu a brilhante bola de luz expandir-se de repente 
at engolir o marido.
       O grito instantneo de Eugene foi imediatamente sufocado e substitudo por uma espcie de silvo. O rudo aumentou, tornando-se ensurdecedor, mas apenas por 
um instante; em seguida, foi interrompido de maneira to sbita que Nancy e Sheila sentiram uma fora concussiva, como uma exploso silenciosa.
       Eugene se fora. O carro de aluguel transformara-se numa massa volumosa curiosamente retorcida, como se houvesse sido derretido e puxado na direo do ponto 
onde Eugene estivera.
       Nancy comeou a descer o morro, correndo naquela direo, mas Sheila a agarrou.
       - No! - berrou Sheila. - No podemos. - Havia agora uma outra bola de luz formando-se perto dos destroos do carro.
       - Eugene! - gritou Nancy, desesperada, as lgrimas brotando de seus olhos.
       - Ele se foi - disse Sheila. - Precisamos sair daqui.
       A segunda bola de luz nesse momento se expandia, envolvendo o carro.
       Sheila segurou o brao de Nancy e puxou-a para o topo da colina, em direo ao movimento da cidade.  frente delas, o trnsito pesado e, o melhor de tudo, 
milhares de pedestres. s suas costas, ouviram o estranho silvo novamente e sentiram outra concusso.
       - O que foi aquilo? - perguntou Nancy em meio s lgrimas.
       - Acho que pensaram que estvamos no carro - disse Sheila. - E, se tivesse de dar um palpite sobre o que aconteceu, diria que acabamos de testemunhar a criao 
de dois buracos negros em miniatura.
       - Por que ainda no nos deram notcias? - perguntou Jonathan.  medida que o dia chegava ao fim, ele ia ficando progressivamente preocupado. Agora que a noite 
cara, sua apreenso havia aumentado. - Em Atlanta,  mais tarde ainda.
       Jonathan, Jesse, Cassy e Pitt estavam no carro de Jesse, percorrendo a rua de Jonathan. J haviam passado vrias vezes diante da casa dele. Jesse estava nervoso 
em relao quela visita, mas cedera quando Jonathan insistiu em que precisava de mais roupas e de seu laptop. Queria tambm certificar-se de que os pais no haviam 
ligado e deixado alguma mensagem no computador.
       - Provavelmente seus pais e a Dra. Miller esto muitssimo ocupados - disse Cassy. Mas no fundo do corao no acreditava naquelas palavras. Ela tambm estava 
preocupada.
       - O que voc acha, Jesse? - indagou Pitt, quando alcanaram a casa de Jonathan pela terceira vez. -Acha que  seguro?
       - Para mim, parece tudo limpo - afirmou Jesse. - No vejo nada que sugira uma tocaia. Muito bem, vamos l, mas sejamos rpidos.
       Pararam na entrada da casa e apagaram os faris. Por insistncia de Jesse, esperaram mais alguns minutos para ver se havia alguma mudana nas casas da vizinhana 
ou se algum veculo estacionava na rua. Tudo parecia tranqilo.
       - OK - decidiu Jesse. - Vamos.
       Entraram pela porta da frente e Jonathan desapareceu no segundo andar, dirigindo-se ao seu quarto. Jesse ligou a TV na cozinha e encontrou cerveja gelada 
na geladeira. Ofereceu uma a Cassy e a Pitt. Este aceitou. A TV estava ligada na CNN.
       - Acabamos de receber a notcia - anunciou o reprter - de que h alguns minutos a Casa Branca cancelou a conferncia de cpula multinacional sobre terrorismo, 
afirmando que o presidente acaba de ser acometido pela gripe. O secretrio de imprensa da Presidncia, Arnold Lerstein, anunciou que a reunio provavelmente teria 
sido realizada, como planejado, mesmo sem a presena do presidente, se no fosse pelo fato de que, por coincidncia, a maior parte dos outros lderes mundiais est 
aparentemente sofrendo do mesmo mal. O mdico particular do presidente declarou que est convencido de que o chefe de Estado tem a mesma gripe "rpida" que vem assolando 
Washington nesses ltimos dias e que deve retomar suas atividades normais pela manh.
       Pitt abanou a cabea, em desalento.
       - Esto dominando toda a nossa civilizao, da mesma forma por que um vrus do sistema central se apossa de um hospedeiro. Est indo para o crebro.
       - Precisamos de uma vacina - disse Cassy.
       - Precisamos para ontem - afirmou Jesse.
       O telefone assustou a todos. Cassy e Pitt olharam para Jesse, questionando se deveriam atender. Antes que Jesse pudesse responder, Jonathan atendeu no andar 
de cima.
       Jesse subiu correndo a escada, sendo seguido por Cassy e Pitt. Entrou bruscamente no quarto de Jonathan.
       - Espere um instante - disse Jonathan no aparelho, vendo os outros. Informou ento que era a Dra. Miller.
       - Ponha no viva-voz - sugeriu Jesse. Jonathan pressionou o boto.
       - Estamos todos aqui - anunciou Jesse. - Estamos com o viva-voz. Como vocs se saram?
       - Pessimamente - admitiu Sheila. - Eles nos enganaram. Passaram-se vrias horas antes que eu percebesse que estavam todos infectados. A nica coisa em que 
estavam interessados era em como descobrimos o que estava acontecendo.
       - Meu Deus! - murmurou Jesse. - Foi difcil escapar? Eles tentaram det-los?
       - Inicialmente, no - contou Sheila. - Dissemos que amos para um hotel dormir um pouco, mas eles devem ter nos seguido pois nos interceptaram a caminho do 
aeroporto.
       - Houve problemas? - perguntou Jesse.
       - Houve, sim. Lamento dizer que perdemos Eugene.
       O grupo se entreolhou. Todos tinham uma interpretao diferente para o significado de "perdemos". Jesse foi o nico que teve certeza.
       - Vocs procuraram por ele? - indagou Jonathan.
       - Era como o quarto do hospital - declarou Sheila. - No sei se entende o que quero dizer.
       - Que quarto de hospital? - interrogou Jonathan, comeando a entrar em pnico.
       Cassy passou o brao pelo ombro de Jonathan.
       - Onde  que vocs esto? - perguntou Jesse.
       - No aeroporto de Atlanta - disse Sheila. - Nancy est pssima, como vocs podem imaginar, mas estamos agentando. Decidimos voltar para casa, mas precisamos 
de que algum telefone e compre as passagens da. Estamos com receio de usar nossos cartes de crdito.
       - Vou fazer isso agora mesmo - afirmou Jesse. - Veremos vocs assim que chegarem.
       Jesse desligou e discou o nmero do setor de vendas da companhia area. Enquanto tomava as providncias, Jonathan perguntou a Cassy diretamente se alguma 
coisa acontecera a seu pai.
       Cassy assentiu.
       - Receio que sim - disse ela. - Mas no sei o qu. Voc ter de esperar at sua me voltar para saber mais.
       Jesse desligou o telefone e olhou para Jonathan. Tentou pensar em alguma coisa gentil para dizer, mas, antes que pudesse faz-lo, ouviu o rudo de pneus cantando 
na rua. Das janelas da frente da casa, vinha o flash intermitente de luzes coloridas.
       Correndo at a janela, Jesse entreabriu a cortina. Na rua l fora, atrs de seu carro, havia uma radiopatrulha com as luzes piscando. Nesse momento, os ocupantes 
uniformizados saltavam do carro, em companhia de Vince Garbon. Todos traziam pastores alemes na coleira, com guias curtas.
       Outros veculos do departamento de polcia surgiram, alguns com distintivos, outros no, incluindo um camburo. Todos pararam diante da casa dos Sellers, 
seus ocupantes saltando imediatamente.
       - O que foi? - perguntou Pitt.
       -  a polcia - disse Jesse. - Deviam estar vigiando a casa. Estou vendo at meu antigo parceiro. Ou o que restou dele.
       - Eles esto vindo para c? - quis saber Cassy.
       - Receio que sim - respondeu Jesse. - Apaguem todas as luzes.
       O grupo comeou a correr freneticamente pela casa, desligando as poucas luzes que haviam acendido. Acabaram na cozinha escura. Feixes de luz vindos de fora 
trespassavam as janelas, dando ao local uma aparncia fantasmagrica.
       - Devem saber que estamos aqui - disse Cassy.
       - O que vamos fazer? - perguntou Pitt.
       - No creio que haja muito que possamos fazer - afirmou Jesse.
       - Esta casa tem uma sada secreta - informou Jonathan. -.  pelo poro. Eu costumava us-la para escapulidas noturnas.
       - O que estamos esperando? - replicou Jesse. -Vamos l!
       Jonathan foi na frente, levando seu laptop. Seguiam lenta e silenciosamente, evitando os feixes de luz que entravam pela janela da cozinha. Assim que alcanaram 
os degraus que levavam ao poro e fecharam a porta, sentiram-se um pouquinho menos vulnerveis. Mas o caminho era difcil devido  absoluta escurido. No queriam 
acender luzes porque o poro tinha vrias janelinhas.
       Seguiam em fila indiana, todos segurando naquele que ia  sua frente para no se perderem. Jonathan conduziu-os at a parede nos fundos do poro. Ali, ele 
abriu uma porta macia, cujas dobradias rangeram. Uma rajada de ar frio correu na altura de seus ps.
       - Se vocs esto se perguntando o que  isso - disse Jonathan-, trata-se de um abrigo antiareo, construdo nos anos cinqenta. Meus pais o utilizam como 
adega.
       Todos entraram e Jonathan pediu ao ltimo que fechasse a porta, que se encaixou no batente com um rudo slido e surdo.
       Assim que a porta se fechou, Jonathan acendeu uma lmpada. Encontravam-se numa passagem de cimento, cujas paredes eram recobertas com prateleiras de madeira. 
Viam-se algumas caixas de vinho espalhadas casualmente.
       - Por aqui - indicou Jonathan.
       Encontraram uma outra porta. Alm desta, descia-se um degrau que levava a um cmodo quadrado, de quase quatro metros de lado, com beliches e toda uma parede 
de armrios. Havia tambm uma pia e um minsculo banheiro.
       Numa segunda cmara encontrava-se uma cozinha. Alm desta, mais uma porta slida, levando a um outro corredor que finalmente ia dar ao ar livre, num leito 
de rio seco, atrs da residncia dos Sellers.
       - Ora, vejam s! - comentou Jesse. - Igualzinho a uma sada secreta de um antigo castelo medieval. Genial.
       
       15
       9:45
       
       - Nancy - chamou Sheila delicadamente. - Chegamos.
       Os olhos de Nancy abriram-se de repente e ela despertou com um sobressalto.
       - Que horas so? - perguntou ela, orientando-se em relao ao lugar e  pessoa.
       Sheila lhe informou.
       - Estou me sentindo pssima - declarou Nancy.
       - Somos duas - replicou Sheila.
       Elas haviam passado a noite andando de um lado para o outro no Aeroporto Internacional Hartsfield, de Atlanta, o tempo todo temendo serem reconhecidas. Embarcar 
no vo nas primeiras horas da manh havia sido um pequeno alvio. Nenhuma das duas dormia h quarenta horas. Assim que se viram no ar, mergulharam num sono profundo.
       - O que vou dizer a meu filho? - perguntou Nancy, sem de fato esperar uma resposta. Todas as vezes em que pensava no desaparecimento sbito do marido, as 
lgrimas afloravam-lhe aos olhos.
       As duas mulheres reuniram seus pertences e desembarcaram. Estavam paranicas em relao a todos e certas de que as pessoas as observavam. Quando surgiram 
na extremidade da ponte de embarque que ligava o avio ao aeroporto, Nancy viu Jonathan e correu para ele. Ficaram abraados em silncio por vrios minutos, enquanto 
Sheila cumprimentava Jesse, Pitt e Cassy.
       - Muito bem, vamos embora - disse Jesse, tocando me e filho, que choravam silenciosamente.
       Caminharam em grupo na direo do terminal. O tempo todo a cabea de Jesse girava de um lado para o outro, enquanto ele avaliava constantemente as pessoas 
 sua volta. Sentiu-se satisfeito por ningum estar prestando ateno especial a eles, principalmente os seguranas do aeroporto.
       Quinze minutos mais tarde, encontravam-se na van particular de Jesse, seguindo para a cidade. Sheila e Nancy descreveram em detalhes a desastrosa viagem. 
com a voz trmula, Nancy conseguiu explicar os ltimos momentos de Eugene. A tragdia foi recebida com o silncio.
       - Precisamos resolver para onde ir - disse Jesse.
       - Acho que nossa casa ser o lugar mais confortvel - opinou Nancy. - No  refinada, mas  muito espaosa.
       - No creio que essa seja uma boa idia - objetou Jesse, contando a Nancy e Sheila, ento, o que acontecera na noite anterior.
       Nancy sentiu-se ultrajada.
       - Sei que  egosmo de minha parte ficar to aborrecida por causa de uma casa, levando-se em considerao tudo que est acontecendo - disse ela. - Mas  o 
meu lar.
       - Onde vocs ficaram na noite passada? - indagou Sheila.
       - No apartamento do meu primo - respondeu Pitt. - O problema  que s tem trs quartos e um banheiro.
       - Nas atuais circunstncias, o conforto  um luxo com o qual no podemos contar - afirmou Sheila.
       - Hoje de manh, no programa Today, um bando de altos funcionrios governamentais da rea da sade disse a todos que a gripe que est por a no  motivo 
de preocupao - contou Cassy.
       - Provavelmente eram dos CCDs - disse Sheila. - Aqueles canalhas!
       - O que mais me intriga  o fato da mdia no dizer uma nica palavra sobre todos aqueles discos negros - observou Pitt.
       - Por que a presena dos discos no foi questionada, especialmente aps a apario de tantos deles?
       - Trata-se de uma curiosidade aparentemente inofensiva - declarou Jesse. - com certeza as pessoas esto falando sobre eles, mas no so considerados dignos 
de virarem notcia. Infelizmente, no h motivo para se fazer uma conexo entre os discos e a gripe, at que seja tarde demais.
       - Vamos ter de descobrir uma forma de comear a prevenir as pessoas - afirmou Cassy. - No podemos mais esperar.
       - Cassy tem razo - concordou Pitt. -  hora de irmos a pblico, de todas as maneiras que pudermos: televiso, rdio, jornal, tudo. O pblico precisa saber.
       - Que se dane o pblico! - disse Sheila. -  a comunidade mdico-cientfica que precisamos sensibilizar. Logo, logo no haver ningum com a habilidade necessria 
para encontrar uma forma de parar essa coisa.
       - Creio que os garotos tm razo - afirmou Jesse. - Tentamos os CCDs e falhamos. Precisamos encontrar pessoas da midia que no estejam contaminadas e simplesmente 
espalhar a notcia pelo mundo todo. O problema  que no conheo ningum na imprensa, exceto alguns reprteres policiais vigaristas.
       - No, Sheila est certa... - comeou Nancy. Jonathan desligou-se. Estava arrasado com o destino do pai.
       Como adolescente, o conceito de morte lhe parecia totalmente irreal. Num aspecto amplo, ele no conseguia aceitar o que lhe fora dito.
       A ateno de Jonathan passou da discusso no interior do carro para a paisagem da cidade. Havia uma grande quantidade de pessoas nas ruas. Desde o comeo, 
parecia que estas estavam sempre cheias de gente perambulando, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite. E todos exibindo aquele estpido sorriso falso.
       Jonathan percebeu uma outra coisa,  medida que atravessavam o centro da cidade. As pessoas ocupavam-se em interagir e ajudar, umas s outras. Fosse um passante 
auxiliando um trabalhador a descarregar suas ferramentas ou uma criana ajudando um idoso a carregar um pacote, todos trabalhavam juntos. Para Jonathan, a cidade 
parecia uma colmia.
       Dentro do carro, a discusso atingira um crescendo e Sheila elevara a voz a fim de abafar a de Pitt.
       - Silncio! - gritou Jonathan.
       Para surpresa dele prprio, sua exploso funcionou. Todos olharam para ele, inclusive Jesse, que dirigia.
       - Essa discusso  uma estupidez - disse o garoto. - Precisamos trabalhar unidos. - Ele inclinou a cabea, indicando o mundo fora do automvel: -  o que 
eles certamente esto fazendo.
       Censurados por um adolescente, todos aceitaram a sugesto e comearam a observar o quadro ao redor deles. Viram aquilo a que ele se referia e recobraram a 
compostura.
       -  pavoroso - disse Cassy. - Parecem todos autmatos.
       Jesse entrou na rua onde se localizava o apartamento do primo de Pitt. Comeou a frear quando avistou dois carros que ele tinha certeza serem dois veculos 
da polcia sem identificao. com sua experincia, soube imediatamente que estavam tocaiando o lugar. Era o mesmo que terem emblemas nas laterais dos automveis, 
proclamando o fato.
       - O condomnio  aqui - disse Pitt, quando percebeu que Jesse estava prestes a passar da entrada.
       - No vamos parar - afirmou Jesse, apontando para a direita. - V aqueles dois Fords novos, modelo bsico? Aqueles homens so policiais  paisana. Tenho certeza 
disso.
       Cassy olhou para os homens.
       - No olhem! - advertiu Jesse. - No queremos atrair a  ateno deles.
       Jesse prosseguiu dirigindo.
       - Podamos ir para o meu apartamento - sugeriu Sheila. - Mas s tem um quarto e  num prdio com muitos moradores.
       - Tenho um lugar melhor - informou Jesse. - Na verdade,  perfeito.
       Viajando numa caravana constituda de dois dos Mercedes particulares de Randy Nite, Beau e um grupo de assistentes pessoais seguiram do instituto para o Observatrio 
Donaldson, construdo no topo da montanha Jackson. A vista do local era espetacular, principalmente num dia assim to claro.
       O observatrio por si s era to impressionante quanto sua localizao. Tratava-se de uma imensa cpula hemisfrica, posicionada diretamente no topo do pinculo 
rochoso da montanha. A construo era pintada com um branco reluzente que cegava  luz brilhante do sol. A coberta mvel do domo estava fechada a fim de proteger 
o enorme telescpio refletor abrigado ali dentro.
       To logo o primeiro carro parou, Beau saltou rapidamente acompanhado por Alexander Dalton, que fora advogado em sua vida anterior. Vernica Paterson desceu 
pelo lado do motorista. Ela ainda estava vestida com sua roupa sinttica colante. Beau, no entanto, vestira uma camisa de mangas compridas, com uma estampa escura. 
Trazia a gola levantada e os punhos abotoados.
       - Espero que o equipamento valha todo esse esforo - disse Beau.
       - Pelo que sei,  o modelo mais avanado - afirmou Alexander, um homem alto, magro, com dedos particularmente longos e finos. No momento, funcionava como 
um dos assistentes mais chegados a Beau.
       O segundo Mercedes parou e dele desceu uma equipe de tcnicos, todos carregando suas ferramentas.
       -Ol, Beau Stark - soou uma voz.
       Todos voltaram-se a fim de ver um homem de cabelos brancos, j beirando os oitenta anos, parado no vo de uma porta aberta na base do observatrio. Seu rosto 
era vincado e enrugado, como um pedao de fruta seca, devido  intensidade do sol naquela altitude elevada.
       Beau caminhou at o homem e apertou sua mo. Em seguida, apresentou Vernica e Alexander ao Dr. Carlton Hoffman, dizendo a seus assistentes que estavam diante 
do atual rei da astronomia americana.
       -  muita gentileza sua - disse Carlton. - Podem entrar e comear.
       Beau acenou para que toda a sua equipe entrasse no observatrio. Eles obedeceram sem dizer palavra.
       - Precisam de alguma coisa? - perguntou Carlton.
       - Creio que trouxemos as ferramentas de que precisamos - afirmou Beau.
       Os tcnicos lanaram-se imediatamente ao trabalho, desmontando o gigantesco telescpio.
       - Estou interessado particularmente na cpsula de observao do foco principal - gritou Beau a um dos homens que haviam subido para o conjunto intercambivel 
na extremidade.
       Beau voltou-se para Carlton.
       - Naturalmente o senhor sabe que  bem-vindo ao instituto a qualquer hora que queira nos visitar - disse ele.
       -  muita gentileza de sua parte - replicou Carlton. - Irei, sim, principalmente quando estiverem prontos.
       - No vai demorar muito - declarou Beau.
       - Parem! - gritou uma voz, ecoando no interior do observatrio abobadado. O processo de desmontagem parou bruscamente. - O que est acontecendo aqui? Quem 
so vocs?
       Todos os olhos se voltaram para a porta da cmara de compresso. Diante dela, via-se um homenzinho pequeno e franzino, que tossiu violentamente, mas continuou 
a fitar de modo ameaador os homens que trabalhavam desmontando partes do telescpio.
       - Fenton, estamos aqui - gritou Carlton para o homem.
       - Est tudo bem. Tem algum aqui que quero que voc conhea.
       O nome do recm-chegado era Fenton Tyler. Sua posio era a de astrnomo assistente e, como tal, era o herdeiro legitimo de Carlton Hoffman. Fenton lanou 
um olhar rpido na direo de Carlton, mas logo em seguida voltou a dirigir a ateno para os outros homens, temendo que desatarraxassem mais um nico parafuso que 
fosse.
       - Por favor, Fenton - insistiu Carlton. - Venha at aqui. Relutante, Fenton deslocou-se de lado, continuando a manter seu adorado telescpio em seu campo 
de viso. Quando se aproximou de Beau e dos outros, ficou claro para estes que o homem estava doente.
       - Ele est com a gripe - sussurrou Carlton para Beau-. No esperava que viesse trabalhar.
       Beau assentiu, sabiamente.
       - Compreendo - disse ele.
       Fenton parou ao lado de seu chefe. Estava plido e febril, e espirrou com violncia. Carlton apresentou-o a Beau e explicou que este estava tomando partes 
do telescpio emprestadas.
       - Emprestadas? - repetiu Fenton, totalmente confuso. - No entendi.
       Carlton pousou a mo no ombro de Fenton.
       -  claro que no entendeu - disse ele. - Mas entender. Prometo a voc, e mais rpido do que imagina.
       - OK! - gritou Beau, batendo palmas ruidosamente. - De volta ao trabalho, pessoal. Vamos terminar isso.
       Apesar dos comentrios de Carlton, Fenton estava estupefato com a destruio a que estava assistindo, e expressou sua confuso. Carlton puxou-o de lado a 
fim de explicar.
       - Fico feliz que o Dr. Hoffman esteja aqui - comentou Alexander.
       Beau assentiu. Mas ele j no estava pensando na interrupo. Tinha o pensamento voltado para Cassy.
       - Diga-me, Alexander. Conseguiu localizar aquela mulher que lhe pedi?
       - Cassy Winthrope - disse Alexander, sabendo instantaneamente a quem Beau se referia. - Ela ainda no foi localizada. Est claro que ainda no  uma de ns.
       - Humm - murmurou Beau, pensativo. - Eu nunca deveria t-la deixado sair de minhas vistas quando daquela sua visita de surpresa. No sei o que me deu. Suponho 
que tenha sido vestgio de uma caracterstica romntica humana.  constrangedor. Encontre-a, a qualquer custo.
       - Ns a encontraremos - afirmou Alexander. - No tenha dvida.
       Os ltimos quilmetros foram penosos, mas a van de Jesse conseguiu superar os sulcos da estrada de terra sem manuteno.
       - A cabana fica depois da prxima curva - anunciou Jesse.
       - Graas a Deus! - queixou-se Sheila.
       Finalmente o veculo parou com um solavanco. Diante deles, via-se uma cabana feita com troncos de rvores, aninhada num bosque virgem de gigantescos pinheiros. 
A luz do sol penetrava em ngulos oblquos, atravs das folhas, em feixes de luz surpreendentemente claros.
       - Onde estamos? - perguntou Sheila. - Tombuctu?
       - Dificilmente. - Jesse riu. - Aqui tem eletricidade, telefone, TV, gua encanada e vaso sanitrio.
       - Falando assim, voc faz com que parea um hotel cinco estrelas - disse Sheila.
       - Eu acho que  lindo - comentou Cassy.
       - Venham - chamou Jesse. -vou lhes mostrar a cabana por dentro e o lago que fica ali atrs.
       Eles saltaram do carro com os msculos enrijecidos, principalmente Sheila e Nancy. Todos apanharam os poucos pertences que haviam trazido. Jonathan carregava 
seu laptop.
       O ar estava claro e puro e cheirava a folhas de pinheiro. A brisa fresca produzia um leve suspiro quando passava em meio s rvores perenes e altas. O canto 
dos pssaros vinha de toda parte.
       - Como  que voc comprou essa cabana? - perguntou Pitt, quando alcanavam a varanda na frente da casa. As colunas e balaustradas eram troncos de rvores. 
O piso era de tbuas rsticas de pinheiro.
       - Compramos basicamente para pescar - explicou Jesse. - Annie era a pescadora, no eu. Depois que ela se foi, no consegui vend-la. No que eu venha aqui 
com freqncia, muito menos nestes ltimos anos.
       Jesse abriu com certa dificuldade a porta da frente e todos entraram. Ali dentro havia um leve cheiro de mofo. O ambiente era dominado por uma imensa lareira 
de pedra, que subia at o teto alto e inclinado.  direita, via-se uma cozinha aberta, com uma bomba manual sobre a pia de pedra-sabo.  esquerda, dois quartos. 
A porta do banheiro ficava do lado direito da lareira.
       - Acho que  encantadora - disse Nancy.
       - Bem, certamente  isolada - afirmou Sheila.
       - No creio que pudssemos encontrar um lugar melhor - declarou Cassy.
       - Vamos arejar a casa - disse Jesse.
       Durante a meia hora seguinte, eles trataram de tornar a cabana o mais confortvel possvel. No caminho da cidade, haviam parado num supermercado e se abastecido 
de mantimentos. Os homens apanharam-nos no carro e as mulheres cuidaram de guard-los.
       Jesse insistiu em acender a lareira, embora o dia no estivesse frio.
       - Vai ajudar a tirar a umidade da casa - explicou ele. - E, quando a noite chegar, vocs ficaro felizes com o fogo aceso. Aqui a temperatura cai  noite, 
mesmo nesta poca do ano.
       Por fim, todos desabaram sobre os sofs de riscado e as cadeiras de madeira que se agrupavam em torno da lareira. Pitt estava usando o computador de Jonathan.
       - Acho que ficaremos seguros aqui - disse Jonathan, que abrira um pacote de batatas fritas e as mastigava ruidosamente.
       - Por algum tempo - acrescentou Jesse. - Ningum no departamento de polcia sabe desta casa, pelo que me consta. Mas no estamos aqui para passar frias. 
O que vamos fazer em relao ao que est acontecendo no mundo?
       - Com que rapidez essa gripe pode se espalhar pelo mundo todo - indagou Cassy.
       - Com que rapidez? - replicou Sheila. - Creio que j tivemos uma ampla demonstrao.
       - com um perodo de incubao de apenas algumas horas - disse Pitt -, associado ao fato de tratar-se de uma doena de ciclo curto e de as pessoas infectadas 
desejarem infectar os outros, pode se alastrar como um rastilho de plvora. - Enquanto falava, no parava de digitar no laptop. - Eu poderia fazer um clculo razoavelmente 
preciso se tivesse idia de quantos desses discos pretos caram na Terra. No entanto, mesmo com uma estimativa rudimentar e modesta, as coisas no parecem muito 
boas.
       Pitt girou a tela do computador para que os outros pudessem ver. Ele fizera um grfico circular com uma fatia em vermelho.
       - Esta  a situao que temos apenas aps alguns dias - disse ele.
       - Estamos falando de milhes e milhes de pessoas - lembrou Jesse.
       - Considerando-se tanto o fato de os infectados trabalharem muito bem juntos e sua atitude evangelizadora, no demorar muito para que sejam bilhes - completou 
Pitt.
       - E quanto aos animais? - quis saber Jonathan. Pitt suspirou.
       - Nunca pensei muito nisso - disse ele. - Mas, com certeza eles tambm esto envolvidos. Qualquer organismo que tenha o vrus em seu genoma.
       -  - disse Cassy, pensativamente. - Beau deve ter contaminado aquele cachorro enorme. Desde o incio achei o bicho muito estranho.
       - Ento esses aliengenas se apossam dos corpos dos outros - ponderou Jonathan.
       - De forma semelhante quela como um vrus normal se apossa das clulas individuais - explicou Nancy. - Lembre-se de que foi por isso que Pitt o chamou de 
megavrus.
       Todos ficaram felizes em ouvir a voz de Nancy, que estivera calada por horas.
       - Os vrus so parasitas - continuou ela. - Precisam de um organismo hospedeiro. Sozinhos, so incapazes de fazer qualquer coisa.
       - com toda certeza precisam de hospedeiros - afirmou Sheila. - Principalmente essa cepa aliengena. Nenhum vrus microscpico poderia ter construdo aquelas 
espaonaves.
       -  verdade! - concordou Cassy. - Em algum lugar do universo, esse vrus aliengena deve ter infectado outras espcies que possuam o conhecimento, o tamanho 
e a capacidade de construir aqueles discos para eles.
       - Eu no teria tanta certeza assim - declarou Nancy. -  possvel que pudessem fazer isso sozinhos. Lembram-se que sugeri que os aliengenas poderiam ser 
capazes de se acondicionar, ou pelo menos parte de seu conhecimento, sob uma forma viral a fim de realizar uma viagem espacial intergalctica? Nesse caso, sua forma 
normal poderia ser bem diferente de um vrus. Antes de desaparecer, Eugene estava levantando a hiptese de que talvez a conscincia aliengena pudesse ser alcanada 
atravs de um nmero finito de seres humanos infectados, trabalhando em conjunto.
       - Vocs todos esto quilmetros  minha frente - comentou Jesse.
       - Bem, seja qual for o caso - disse Jonathan -, talvez esses aliengenas controlem milhes de formas de vida em toda a galxia.
       - E agora vem os seres humanos como um lar confortvel, no qual podem viver e crescer - observou Cassy. - Mas por que agora? O que h de to especial nesse 
momento?
       - Eu diria que a escolha foi aleatria - opinou Pitt. - Talvez venham fazendo uma verificao a cada poucos milhes de anos. Enviam um nico agente de sondagem 
 Terra para ver at que ponto as formas de vida aqui evoluram.
       - Despertando o vrus adormecido - acrescentou Nancy.
       - O vrus assume o controle daquele hospedeiro nico - conjeturou Sheila -, que ento observa a configurao do terreno, digamos assim, e envia um relatrio 
para casa.
       - Bem, se foi isso o que aconteceu - disse Jesse -, o relatrio deve ter sido muitssimo bom, pois agora estamos totalmente cercados por esses agentes.
       Cassy assentiu.
       - Faz sentido - concordou ela.-E Beau deve ter sido esse primeiro hospedeiro.
       -  possvel - afirmou Sheila. - Mas se esse quadro estiver correto, ento poderia ter acontecido com qualquer um, em qualquer lugar.
       - Revendo tudo o que aconteceu - disse Cassy, mais para Pitt do que para os outros -, Beau tem de ter sido o primeiro. E sabe de uma coisa? Se no fosse por 
Beau, estaramos como todos os outros por a, completamente alheios ao que est se passando.
       - Ou j seramos um deles - concluiu Jesse.
       Esses pensamentos melanclicos calaram-nos. Durante alguns minutos, os nicos sons que se ouviam eram o crepitar do fogo e o gorjear dos pssaros vindo pelas 
janelas abertas.
       - Ei! - exclamou Jonathan, quebrando o silncio. - O que vamos fazer a respeito disso tudo? Ficar aqui sentados?
       - Claro que no! - respondeu Pitt. - Vamos fazer alguma coisa. Vamos comear a contra-atac-los.
       - De acordo - disse Cassy. -  nossa responsabilidade. Afinal,  possvel que nesse momento saibamos mais sobre essa calamidade do que qualquer outra pessoa, 
em todo o mundo.
       - Precisamos de um anticorpo - decidiu Sheila. - Um anticorpo e talvez uma vacina, para o vrus ou para a protena ativadora. Ou quem sabe uma das drogas 
antivirais. Nancy, o que voc acha?
       - No custa nada tentar - disse ela. - Mas vamos precisar de equipamento e sorte.
       -  claro que vamos precisar de equipamento - afirmou Sheila. - Podemos montar um laboratrio bem aqui. Para isso, necessitamos de culturas teciduais, incubadoras, 
microscpios, centrfugas. Mas temos tudo disponvel. S precisamos trazer para c.
       - Faam uma lista - disse Jesse. - Provavelmente poderei conseguir a maioria dos itens.
       - Tenho de ir at o meu laboratrio - declarou Nancy.
       - Eu tambm - ecoou Sheila. - Precisamos de algumas amostras sangneas das vtimas da gripe. E necessitaremos ter a amostra do fluido do disco.
       - Vamos fazer um resumo daquele relatrio que preparamos para os CCDs - disse Cassy - e divulg-lo.
       -  - concordou Pitt, percebendo a linha de raciocnio de Cassy. - Vamos envi-lo pela Internet!
       - Ei, grande idia! - apoiou Jonathan.
       - Vamos comear enviando-o a todos os principais laboratrios de virologia - decidiu Sheila.
       - Exato - disse Nancy. - E para as indstrias farmacuticas voltadas para a pesquisa. No  possvel que todas essas fontes j estejam contaminadas. Temos 
chance de conseguir algum que nos oua.
       - Posso criar uma rede de "fantasmas" - sugeriu Jonathan. - Ou falsas conexes na Internet. Desde que eu os mude constantemente, ningum nunca conseguir 
nos rastrear.
       Por um instante, todos ficaram se entreolhando. Estavam um pouco tontos e, ao mesmo tempo, aturdidos com a enormidade e a dificuldade do que estavam prestes 
a empreender. Cada um deles tinha sua prpria avaliao das chances de sucesso, mas independente de qual fosse, todos concordavam que tinham de fazer alguma coisa. 
quela altura, no agir seria psicologicamente mais difcil.
       O sol acabara de se pr quando Nancy, Sheila e Jesse seguiram at a van e entraram. Cassy, Jonathan e Pitt, que se encontravam de p na varanda, acenaram 
e lhes disseram que tomassem cuidado.
       Aps Sheila e Nancy passarem por um sono mais do que necessrio, ficou decidido que fariam uma incurso  cidade, em busca de equipamento laboratorial. Tambm 
ficou decidido que os mais jovens ficariam em casa, a fim de reservar lugar no carro. A princpio, os trs jovens opuseram-se, principalmente Jonathan, mas, depois 
de muita discusso, concordaram que aquela era a melhor deciso.
       Assim que a van desapareceu de vista, Jonathan sumiu no interior da casa. Cassy e Pitt foram dar uma breve caminhada. Contornaram a cabana e desceram, por 
entre os pinheiros, at o lago. Chegaram a um pequeno cais e seguiram at sua extremidade. De p ali, em silncio, ficaram admirando a beleza natural do cenrio. 
A noite caa rapidamente, pintando as colinas distantes com prpuras profundos e azuis escuros e prateados.
       - Aqui, em meio a essa esplndida natureza, toda essa histria parece um pesadelo - observou Pitt. - Como se no pudesse estar acontecendo.
       - Entendo o que quer dizer - afirmou Cassy. - Ao mesmo tempo, sabendo que est de fato acontecendo e que todos os homens esto em perigo, sinto um vnculo 
que nunca antes havia percebido. Isto , estamos todos ligados de alguma forma. At agora, eu nunca tinha pensado nos seres humanos como uma grande famlia. E pensar 
no que temos feito uns aos outros... - Cassy estremeceu visivelmente diante desse pensamento.
       Pitt aproximou-se e envolveu-a nos braos. Era um gesto para reconfort-la e mant-la aquecida. Como Jesse avisara, a temperatura cara no momento em que 
o sol baixara.
       - A ameaa de perder a prpria identidade tambm faz com que olhemos a vida de uma forma diferente - afirmou Cassy.
       -  difcil, para mim, esquecer Beau, mas, tenho de faz-lo. Receio que o Beau que conheci no esteja mais entre ns.  como se tivesse morrido.
       - Talvez consigamos desenvolver um anticorpo - murmurou Pitt, baixando os olhos para Cassy. Sentia um forte impulso de beij-la, mas no ousou faz-lo.
       - Ah, , certo - replicou Cassy, zombeteira. - E Papai Noel vem nos visitar amanh.
       - Vamos, Cassy! - exclamou Pitt, sacudindo-a ligeiramente. - No entregue os pontos.
       - Quem falou em entregar os pontos? S estou tentando enfrentar a realidade da melhor maneira possvel. Ainda amo o velho Beau e, provavelmente, sempre amarei. 
Mas, aos poucos, estou percebendo uma outra coisa.
       - O que ? - perguntou Pitt, inocentemente.
       - Estou me dando conta de que tambm sempre amei voc - disse Cassy. - No quero deix-lo constrangido, mas quando ns saamos de vez em quando, eu achava 
que voc no me levava a srio, que, de propsito, mantinha as coisas num nvel casual. Assim, no questionava meus prprios sentimentos. Mas, nesses ltimos dias, 
tenho tido uma impresso diferente em relao aos seus sentimentos e me ocorre que talvez eu estivesse errada.
       Um sorriso brotou das profundezas da alma de Pitt e aflorou, espalhando-se pelo seu rosto como o sol nascendo.
       - Posso lhe assegurar - disse ele - que, se achou que eu no ligava para voc, ento estava absoluta, total e indiscutivelmente errada.
       Pitt e Cassy entreolharam-se, em silncio, na escurido que crescia. Ambos experimentavam uma inesperada felicidade, a despeito da situao. Era um momento 
mgico, at ser quebrado por um grito agudo.
       - Ei, vocs, venham at aqui, rpido! - berrava Jonathan. - Venham ver uma coisa!
       Temendo o pior, Pitt e Cassy dispararam em direo  cabana. Nos poucos minutos em que estavam  margem do lago, a escurido tornara-se consideravelmente 
maior sob os altivos pinheiros, e os dois iam tropeando nas razes. Ao entrarem correndo na cabana, encontraram Jonathan assistindo  TV, com uma perna casualmente 
pendurada no brao do sof. O garoto comia batatas fritas de maneira mecnica.
       - Ouam - murmurou Jonathan, apontando a TV.
       - ...todos concordam que o presidente est mais vibrante e dinmico do que jamais esteve. Para citar um funcionrio da Casa Branca: "Ele  um homem mudado."
       Nesse momento, a locutora teve um acesso de tosse. Em seguida, pediu desculpas e prosseguiu:
       - Enquanto isso, essa curiosa gripe continua a varrer a capital do pas. Os funcionrios do alto escalo do governo, assim como a maioria dos principais membros 
de ambas as casas do Congresso, foram todos derrubados por essa enfermidade que se espalha rapidamente.  claro que todo o pas lamenta a morte do senador Pierson 
Cranmore. Um conhecido diabtico, ele era uma inspirao para outras pessoas afligidas por doenas crnicas.
       Jonathan acionou o boto que anulava o som, no controle remoto.
       - Parece que eles tm o controle da maior parte do governo - disse ele.
       - Creio que j havamos admitido esse fato - afirmou
       Cassy. - E quanto ao resumo que fizemos hoje  tarde? Pensei que voc fosse apront-lo para enviar pela Internet.
       - E foi o que fiz - replicou Jonathan, pondo o dedo no laptop pousado sobre a mesinha de centro e empurrando-o de modo que Cassy pudesse ver a tela. A linha 
telefnica estava conectada  lateral do aparelho. - Est tudo pronto - acrescentou ele.
       - Bem, ento comece a enviar - disse Cassy.
       Jonathan pressionou o boto apropriado e a primeira descrio e advertncia ao mundo sobre o que estava acontecendo disparou pela vasta estrada eletrnica. 
A notcia agora estava na Internet.
       
       
       16
       10:30
       
       Beau estava sentado diante de um grupo de monitores de TV que ele mandara instalar na biblioteca. As pesadas cortinas de veludo estavam fechadas diante das 
janelas em arco a fim de facilitar a viso das imagens nos monitores. Vernica encontrava-se de p s suas costas, massageando-lhe os ombros.
       Os dedos de Beau danaram levemente sobre o painel de controle e ento todos os monitores ganharam vida. Ele aumentou o volume do aparelho do alto,  esquerda. 
Era a NBC cobrindo uma entrevista coletiva com o secretrio de imprensa da Presidncia da Repblica, Arnold Lerstein.
       - No h necessidade de pnico.  o que dizem tanto o presidente quanto a secretria da Sade, a Dra. Alice Lyons. A gripe decerto atingiu propores epidmicas, 
mas trata-se de uma enfermidade breve, sem quaisquer conseqncias negativas. Na verdade, a maioria das pessoas atestam um maior vigor depois de recuperadas. Somente 
os portadores de doenas crnicas devem...
       Beau transferiu o som para o monitor seguinte. O entrevistado era nitidamente britnico. Ia dizendo:
       - ...nas Ilhas Britnicas. Se voc ou algum ente querido comear a apresentar os sintomas, no entre em pnico. Repouso, ch e o controle da febre so as 
providncias recomendadas.
       Beau mudava de um monitor para o outro em rpida sucesso.
       A mensagem era semelhante, fosse em russo, chins, espanhol ou qualquer outra das quarenta e tantas lnguas ali representadas.
       - Tudo isso  reconfortante - comentou Beau. - A infestao est progredindo como planejado.
       Vernica assentiu e prosseguiu com a massagem.
       Beau mudou para o monitor da cmera no porto de entrada do instituto. Tratava-se de uma tomada de grande-angular que inclua um grupo de aproximadamente 
cinqenta manifestantes fuzilando com perguntas o grupo de jovens guardas, que havia crescido em nmero. Alguns dos ces do instituto podiam ser vistos ao fundo.
       - Minha mulher est a - gritava um manifestante. - Eu exijo v-la. Vocs no tm o direito de mant-la a.
       Os sorrisos dos porteiros continuavam fixos.
       - Meus dois filhos - gritou outra manifestante. - Tambm esto a. Eu sei disso! Quero falar com eles. Quero ter certeza de que esto bem.
       Ao mesmo tempo que esse grupo gritava e berrava, havia um fluxo constante de pessoas calmas e sorridentes passando pelo porto. Eram pessoas infectadas que 
haviam sido convocadas para trabalhar no instituto e, sem dizer palavra, eram reconhecidas pelos porteiros.
       O fato de algumas pessoas terem a entrada permitida sem perguntas inflamava ainda mais aquelas que protestavam, que haviam sido ignoradas desde a sua chegada. 
Sem aviso, avanaram furiosamente, em massa, contra o porto.
       Formou-se uma confuso, com muitos gritos e empurres. At mesmo alguns socos foram desferidos. Mas foram os ces que rapidamente determinaram o desfecho, 
ao virem correndo das proximidades e atacarem. Os rosnados ferozes e as mordidas nas pernas dos manifestantes logo corroeram a coragem coletivamente inspirada do 
grupo, que recuou.
       Beau desligou os monitores. Ento inclinou a cabea em direo ao peito, de modo que Vernica tivesse acesso aos msculos na base de seu pescoo. Ele s tivera 
uma hora de sono, em vez das duas de que necessitava.
       - Deveria estar satisfeito - disse ela. - Est tudo indo to bem.
       - Eu estou - respondeu Beau. Em seguida, mudou de assunto: - Alexander Dalton est no salo de baile? Voc o viu quando foi l embaixo?
       - A resposta  sim para as duas perguntas - disse Vernica. -  como voc deseja. Ele nunca transgrediria uma ordem sua.
       - Ento  melhor eu ir ao salo - decidiu Beau. Aprumou o pescoo e se levantou. Um rpido assovio trouxe King imediatamente aos seus ps. Juntos, desceram 
a escadaria central.
       O nvel de atividade no vasto salo aumentara. Havia um nmero de trabalhadores muito maior do que no dia anterior. As vigas de apoio do teto agora estavam 
completamente expostas, assim como os montantes das paredes. Os imensos candelabros e as macias cornijas decorativas tinham desaparecido. As enormes janelas em 
arco estavam quase seladas por completo. No centro do salo, uma complicada estrutura eletrnica estava se erguendo, construda com todas as peas pirateadas do 
observatrio, com vrios aparelhos eletrnicos e com a ajuda do departamento de fsica da universidade prxima.
       Observar toda aquela atividade coordenada visando a um propsito to grandioso trouxe um sorriso bastante amplo aos lbios de Beau. Ele no pde deixar de 
se lembrar que aquele salo um dia fora usado para algo to frvolo quanto a dana.
       Alexander viu Beau parado  entrada do salo de baile e imediatamente foi ter com ele.
       - Est indo bem, no acha?
       - Est uma maravilha - replicou Beau.
       - Tenho outra boa notcia - anunciou Alexander. - Estamos realizando o fechamento imediato da maior parte das fbricas mais poluentes s margens dos Grandes 
Lagos. Daqui a uma semana deve estar tudo acabado.
       - E quanto  Europa Oriental? - indagou Beau. - So eles que mais me preocupam.
       - Mesma coisa - disse Alexander. - Principalmente na Romnia. Fecharo esta semana.
       - Excelente.
       Randy Nite viu Beau conversando com Alexander e dirigiu-se s pressas para l.
       - O que acha? - perguntou Randy, enquanto olhava, orgulhoso, a emergente estrutura central.
       - Est indo bem - disse Beau. - Mas eu ficaria satisfeito com um pouco mais de rapidez.
       - Preciso de mais ajuda ento - retrucou Randy.
       - O que precisar - ofereceu Beau. - Precisamos estar prontos para a Chegada.
       Randy exibiu um sorriso de agradecimento antes de voltar correndo para o seu projeto. Beau virou-se para Alexander.
       - E quanto a Cassy Winthrope? - perguntou ele. Em sua voz, percebia-se uma sbita irritao.
       - Ainda no tivemos notcias dela - respondeu Alexander.
       - Como pode ser? - replicou Beau.
       -  um mistrio. A polcia e a direo da universidade esto sendo exemplarmente cooperativos. Ela ir aparecer. Talvez at mesmo no porto, por sua prpria 
vontade. Eu no me preocuparia com isso, se fosse voc.
       A mo direita de Beau estendeu-se violentamente, agarrando o brao de Alexander com uma poderosa presso que de imediato cortou a circulao do sangue que 
corria para a mo de Alexander.
       Surpreendido por esse gesto abertamente hostil, Alexander baixou os olhos para a mo que o segurava. Aquela no era uma mo humana. Os dedos eram longos e 
enroscavam-se em torno de seu brao como jibias em miniatura.
       - Esse meu pedido para encontrar a garota no  um capricho futil - disse Beau, fitando Alexander com olhos que eram quase que s pupila. - Quero essa garota 
agora.
       Alexander ergueu os olhos para os de Beau. Ele sabia que o melhor era no lutar.
       - Faremos dessa busca a prioridade mxima - afirmou Alexander.
       Jesse havia cortado galhos de pinheiros na floresta prxima e, depois de estacionar a van ao lado da cabana, cobriu-a com os galhos. De fora, o lugar parecia 
completamente deserto, exceto pelas espirais de fumaa que subiam da chamin de pedra.
       Em ntido contraste com o plcido exterior, o interior da cabana fora transformado num movimentado posto de trabalho. Ocupando a rea nobre naquele espao 
estava o laboratrio biolgico improvisado.
       Nancy era a responsvel nessa arena, tendo Sheila trabalhando ao seu lado. Todos suspeitavam que Nancy estivesse redirecionando sua imensa dor pela morte 
de Eugene para a tarefa de encontrar uma forma de deter o vrus aliengena. Era uma mulher obcecada.
       Pitt ocupava-se com um microcomputador. Estava tentando elaborar uma estimativa mais precisa com as informaes veiculadas pela TV. A mdia finalmente percebera 
a histria dos discos negros, mas no relacionava  epidemia de gripe. As histrias eram apresentadas mais como uma forma de estimular o interesse do pblico em 
sair e encontr-los.
       Jesse reconhecia que sua contribuio era mais na rea da logstica, principalmente nos aspectos prticos, como a comida e a manuteno do fogo na lareira. 
No momento, ele estava ocupado dando os toques finais a uma de suas especialidades: sopa com chili.
       Cassy e Jonathan estavam sentados  mesa de jantar, diante do laptop. Para seu deleite, houvera uma distinta inverso nos papis: agora era ele o professor. 
Tambm para seu deleite, Cassy estava trajando um de seus vestidos leves de algodo. Como era evidente que ela no estava de suti, Jonathan tinha grande dificuldade 
em se concentrar.
       - Ento, o que fao? - perguntou Cassy.
       - O qu? - replicou Jonathan, como se acabasse de acordar.
       - Estou chateando voc? - indagou ela.
       - No - apressou-se em dizer Jonathan.
       - Estou perguntando se devo mudar essas ltimas trs letras - disse Cassy. Ela tinha a ateno voltada para a tela de cristal lquido e estava alheia ao efeito 
que sua feminilidade causava em Jonathan. Acabara de dar um mergulho e seus mamilos projetavam-se sob o tecido, parecendo bolas de gude.
       - Certo... ha,  - determinou Jonathan. - Ponto G O V Depois...
       - Depois barra invertida, 6 O 6, R maisculo, g minsculo, barra invertida - completou Cassy. - Ento pressiono Enter.
       Cassy ergueu os olhos para Jonathan e percebeu que ele estava ruborizado.
       - Alguma coisa errada? - indagou ela.
       - No - disse ele.
       - Bem, ento  isso que devo fazer?
       Jonathan assentiu e Cassy acionou a tecla Enter. Quase simultaneamente, a impressora foi ativada e comeou a cuspir pginas impressas.
       - Voil - disse Jonathan. - Estamos em nossa caixa de correio sem que ningum possa nos rastrear.
       Cassy sorriu e cutucou Jonathan amistosamente.
       - Voc  um excelente professor.
       Jonathan corou novamente e desviou os olhos. Ocupou-se recolhendo as folhas na impressora. Cassy ergueu-se e caminhou at Pitt.
       - A sopa estar pronta em trs minutos - anunciou Jesse, sem que ningum respondesse. - Eu sei, eu sei - acrescentou ele. - Todos esto ocupados demais, mas 
vocs precisam comer.vou pr na mesa para quem estiver interessado.
       Cassy descansou as mos nos ombros de Pitt e olhou para a tela de seu computador, onde se via um outro grfico circular. Agora a parte vermelha era maior 
do que a azul.
       -  nesse ponto que voc acha que estamos agora? - indagou Cassy.
       Pitt ergueu o brao e segurou uma das mos de Cassy, apertando-a.
       - Receio que sim - disse ele. - Se os dados que obtive na TV forem razoveis ou mesmo que tenham sido subestimados, a projeo sugere que sessenta e oito 
por cento da populao mundial j est infectada.
       Jonathan deu um tapinha nas costas de Nancy.
       - Desculpe interromper, me - disse ele. - Mas aqui esto as ltimas notcias da rede.
       - Aquele grupo de Winnipeg mandou alguma coisa sobre a seqncia de aminocido da protena? - perguntou Sheila.
       - Mandou, sim - confirmou Jonathan, folheando as pginas e separando a de Winnipeg. Entregou-a a Sheila, que parou o que estava fazendo a fim de l-la. - 
Tambm entrei em contato com um grupo novo em Trondhiem, na Noruega - contou Jonathan. - Esto trabalhando num laboratrio escondido no subsolo do ginsio da universidade 
local.
       - Enviou nossos dados originais para eles? - indagou Nancy.
       - Enviei. E tambm os outros.
       - Ei, eles fizeram progresso - observou Sheila. - Agora temos toda a seqncia de aminocido da protena. O que significa que podemos comear a fabric-la 
por nossa conta.
       - Eis aqui o que o pessoal da Noruega mandou - informou Jonathan. Fez meno de entregar a folha  me, mas Sheila adiantou-se e a apanhou, lendo-a rapidamente. 
Em seguida, amassou-a. - J verificamos tudo isso - disse ela. - Que perda de tempo!
       - Eles esto trabalhando em completo isolamento - disse Cassy, saindo em defesa do grupo noruegus, ao ouvir o comentrio de Sheila.
       - Alguma coisa da equipe da Frana? - perguntou Pitt.
       - Bastante - informou Jonathan, separando o material francs do restante e entregando-o a Pitt. - Parece que a infestao por l ainda est progredindo mais 
devagar do que em qualquer outro lugar.
       - Deve ser por causa do vinho - disse Sheila com uma risada.
       - Esse pode ser um ponto importante - afirmou Nancy. - Se continuar assim, e no se tratar de um fenmeno acidental na curva estatstica, e se conseguirmos 
descobrir o porqu, pode ser um dado muito til.
       - Mas aqui temos as ms notcias - declarou Jonathan, erguendo uma folha de papel. - Pessoas com diabetes, hemofilia, cncer e outras doenas esto morrendo 
em nmeros recordes pelo mundo todo.
       -  como se o vrus estivesse conscientemente limpando os recursos genticos do mundo - observou Sheila.
       Jesse levou a panela de sopa para a mesa e pediu a Pitt que tirasse o computador dali. Enquanto esperava para pousar a panela, perguntou a Jonathan com quantos 
centros de pesquisa espalhados pelo mundo todo tivera contato no dia anterior.
       - Cento e seis - respondeu Jonathan.
       - E quantos foram hoje? - quis saber Jesse.
       - Noventa e trs.
       - Uau! - exclamou Jesse, deixando a panela sobre a mesa. Voltou ento  cozinha para apanhar os pratos e talheres. - Uma reduo bastante rpida.
       - Bem, trs deles talvez fossem legais - disse Jonathan -, mas estavam fazendo perguntas demais sobre quem somos e onde estamos, e ento eu os eliminei.
       - Como diz o ditado: " melhor prevenir do que remediar" - lembrou Pitt.
       - Ainda assim a diminuio foi rpida - observou Jesse.
       - E quanto ao homem que se apresenta como Dr. M? - perguntou Sheila. - Mandou alguma coisa?
       - Um monte de coisas - disse Jonathan.
       - Quem  esse Dr. M? - interrogou Jesse.
       - Foi o primeiro a responder  nossa carta na Internet - explicou Cassy. - Ele respondeu imediatamente. Acreditamos que esteja no Arizona, mas no temos a 
menor idia de onde.
       - Ele nos forneceu muitos dados importantes - afirmou Nancy.
       - Tanto que me deixou um tanto desconfiado - disse Pitt.
       - Vamos, pessoal - chamou Jesse. - A sopa vai esfriar.
       - Eu desconfio de todo mundo - afirmou Sheila, indo at a mesa e ocupando o lugar habitual, na extremidade. - Mas se algum apresentar informaes teis, 
eu aceito.
       - Desde que esse contato no ponha em risco nossa localizao - acrescentou Pitt.
       - Obviamente isso  sine qua non - replicou Sheila, condescendente.
       Em seguida, apanhou as folhas enviadas pelo Dr. M que Jonathan lhe estendia. Segurando-as diante de si, comeou a ler, enquanto com a mo livre levava a sopa 
sofregamente  boca. Parecia uma estudante s vsperas de uma prova.
       Os outros se sentaram  mesa de uma maneira mais civilizada, abrindo os guardanapos sobre o colo.
       - Jesse, voc se superou - disse Cassy depois da primeira colherada.
       - Os elogios so bem-vindos - afirmou ele. Comeram em silncio durante alguns minutos at que Nancy pigarreou.
       - No me agrada tocar nesse assunto - disse ela. - Mas estamos ficando sem os suprimentos laboratoriais bsicos. No vamos poder continuar trabalhando por 
muito tempo, a menos que faamos outra excurso  cidade. Sei que  perigoso, mas receio que tenhamos pouca opo.
       - Sem problemas - retrucou Jesse. - Basta vocs fazerem uma lista. Eu dou um jeito.  importante que voc e Sheila continuem trabalhando. Alm disso, precisamos 
de mais comida.
       - Eu tambm vou - disse Cassy.
       - Sem mim voc no vai - decidiu Pitt.
       - Eu vou tambm - afirmou Jonathan.
       - Voc vai ficar aqui - disse Nancy a Jonathan.
       - Puxa, mame! - queixou-se Jonathan. - Voc no pode querer me proteger. Fao parte disso como todos os outros.
       - Se voc for, eu tambm vou - determinou Nancy. -Alm disso, eu ou Sheila temos de ir. S ns sabemos do que precisamos.
       - Ah, meu Deus! - exclamou Sheila de repente.
       - O que aconteceu? - perguntou Cassy.
       - Esse tal Dr. M - disse Sheila. - Ontem ele nos perguntou o que tnhamos sobre a taxa de sedimentao para aquela seo do DNA que sabamos conter o vrus.
       - Enviamos nossa estimativa, no foi? - indagou Nancy.
       - Enviei exatamente o que vocs me deram - afirmou Jonathan. - Inclusive a parte sobre nossa centrfuga no ter a capacidade de atingir tal nmero de rotaes 
por minuto.
       - Bem, ao que parece, ele tem acesso a uma que tem essa capacidade - disse Sheila.
       - Deixe-me ver - pediu Nancy, apanhando a folha e lendo-a. - Meu Deus, estamos mais perto de isolar o vrus do que imaginvamos!
       - Exato - confirmou Sheila. - O fato de isolar o vrus no  o mesmo que descobrir um anticorpo ou uma vacina, mas  um passo importante. Talvez seja o passo 
mais importante nessa direo.
       - Que horas so? - perguntou Jesse.
       - Dez e meia - respondeu Pitt, segurando o relgio bem perto do rosto para ver o mostrador. Estava escuro sob as rvores no morro que dava para o campus da 
universidade. Jesse, Pitt, Cassy, Nancy e Jonathan estavam sentados na van. Haviam chegado h meia hora, mas Jesse insistira em que aguardassem. No queria que ningum 
entrasse no centro mdico antes da mudana de turno que ocorria s onze. Ele contava com a confuso geral daquela hora para facilitar a tarefa de apanhar o que precisavam 
e sair de l.
       - Vamos comear s quinze para as onze - decidiu Jesse. De seu posto de observao, eles podiam ver que o asfalto de vrias vagas no estacionamento da universidade 
tinha sido cavado. Havia uma gambiarra sobre algumas das reas escavadas e podiam-se ver pessoas infectadas ocupadas ali, plantando legumes e verduras.
       - Definitivamente, eles so bem-organizados - observou Jesse. - Olhem como trabalham juntos, sem sequer conversar.
       - Mas onde os carros vo estacionar? - perguntou Pitt. - Isso  levar o ambientalismo longe demais.
       - Talvez no pretendam ter carros - sugeriu Cassy. - Afinal, os carros so grandes poluidores.
       - Eles parecem mesmo estar limpando a cidade - afirmou Nancy. - Temos de lhes dar crdito por isso.
       - Provavelmente esto limpando todo o planeta - disse Cassy. -  curioso, mas isso nos faz parecer maus. Acho que  preciso algum de fora para que a gente 
d valor a algumas coisas.
       - Parem com isso - disse Jesse. - Vocs esto comeando a falar como se estivessem do lado deles.
       - Est quase na hora - informou Pitt. - Agora ouam o que acho que devemos fazer: Eu e Jonathan vamos ao laboratrio mdico no hospital. Estou familiarizado 
com o lugar e Jonathan entende de computadores. Juntos, poderemos decidir o que precisamos e carregar.
       - Acho que eu deveria ficar com Jonathan - disse Nancy.
       - Me! - gemeu Jonathan. - Voc precisa ir a uma farmcia e no precisa de mim l. J Pitt precisa.
       -  verdade - concordou Pitt.
       - Eu e Cassy iremos com Nancy - decidiu Jesse. - Vamos  farmcia do supermercado; assim, enquanto ela apanha os remdios de que precisa, ns nos abasteceremos 
com os mantimentos.
       - Est bem - disse Pitt. - Nos encontramos aqui em trinta minutos.
       - Melhor quarenta e cinco - corrigiu Jesse. - Ns vamos um pouco mais longe.
       - OK - concordou Pitt. - Est na hora. Vamos l! Todos desceram da van. Nancy abraou Jonathan rapidamente. Pitt agarrou o brao de Cassy.
       - Tome cuidado - pediu ele.
       - Voc tambm - disse Cassy.
       - Lembre-se, pessoal - falou Jonathan: - Mantenham um grande sorriso de babaca no rosto.  o que todos eles fazem.
       - Jonathan! - censurou Nancy.
       Estavam prestes a se afastar quando Cassy agarrou o brao de Pitt. Quando este se virou, ela lhe deu um beijo nos lbios. Em seguida, correu atrs de Nancy 
e Jesse, enquanto Pitt alcanava Jonathan. Ento todos desapareceram no meio da noite.
       A fotografia fora tirada seis meses antes. Tratava-se de um instantneo tendo como fundo uma campina com flores silvestres, formando um leito natural. Cassy 
estava deitada com os cabelos espessos espalhados em torno de sua cabea, formando um halo escuro. Sorria, travessa, para a cmera.
       Beau estendeu a mo enrugada e de consistncia borrachenta. Os dedos longos e serpentiformes envolveram a foto emoldurada, ergueram-na e aproximaram-na mais 
de seus olhos, cujo brilho servia para iluminar o retrato a fim de que ele pudesse ver mais claramente os traos de Cassy. Ele estava sentado na biblioteca do andar 
superior com as luzes apagadas. At mesmo a bancada de monitores estava desligada. A nica fonte de luz era um raio de luar anmico que entrava pelas janelas.
       Beau tomou conscincia de que algum entrara na sala s suas costas.
       - Posso acender a luz? - perguntou Alexander.
       - Se quiser - disse Beau.
       A claridade inundou a sala. Os olhos de Beau se estreitaram.
       - Alguma coisa errada, Beau? - indagou Alexander antes de ver a foto nas mos de Beau.
       No obteve resposta.
       - Se me permite dizer - comeou Alexander -, voc no deveria ficar to obcecado assim por um indivduo. Isso no  caracterstica nossa. Vai de encontro 
ao bem coletivo.
       - Eu tentei resistir - admitiu Beau. - Mas no consigo. Beau bateu o porta-retrato sobre a mesa, com a fotografia voltada para baixo. O vidro se estilhaou.
       -  medida que meu DNA se duplica, supe-se que ele v suplantando o DNA humano; entretanto, as conexes em meu crebro continuam a evocar essas emoes humanas.
       - Senti um pouco disso a que voc est se referindo - admitiu Alexander. - Mas minha antiga companheira tinha um defeito gentico e ela no passou do estgio 
do despertar. Suponho que isso tenha facilitado as coisas.
       - Esse sentimentalismo  uma fraqueza assustadora - reconheceu Beau. - Nossa raa nunca se deparou com uma espcie com tais elos interpessoais. No h nenhum 
precedente pelo qual eu possa me orientar.
       Os dedos serpentiformes de Beau introduziram-se sob a moldura quebrada do retrato. Um estilhao de vidro cortou-o e seu dedo comeou a liberar uma espuma 
verde.
       - Voc se machucou - disse Alexander.
       - No foi nada - protestou Beau, erguendo a moldura quebrada e contemplando a imagem. - Preciso saber onde ela est. Precisamos infect-la. Uma vez que isso 
acontea, estarei satisfeito.
       - A mensagem foi espalhada - insistiu Alexander. - Assim que ela for localizada, seremos informados.
       - Ela deve estar se escondendo - lamentou-se Beau. - Isso est me deixando maluco. No consigo me concentrar.
       - Quanto ao Prtico... - comeou Alexander, mas Beau interrompeu-o.
       - Preciso que encontre Cassy Winthrope. No venha me falar sobre o Prtico antes disso!
       - Meu Deus! Olhem para esse lugar! - exclamou Jesse.
       Encontravam-se no estacionamento diante do Jefferson's Supermarket. Viam-se ali alguns carros abandonados, com as portas abertas, como se os ocupantes houvessem 
fugido em disparada.
       Vrias das imensas folhas de vidro na fachada do supermercado estavam quebradas e os estilhaos de vidro espalhavam-se pela calada. O interior estava iluminado 
apenas por lmpadas de segurana noturna, mas era suficiente para verem que o mercado havia sido parcialmente saqueado.
       - O que ter acontecido? - interrogou Cassy. Parecia uma cena de um pas de terceiro mundo imerso numa guerra civil.
       - No fao idia - comentou Nancy.
       - Talvez as poucas pessoas no-infectadas tenham entrado em pnico - sugeriu Jesse. - Talvez a polcia, como a conhecemos, no exista mais.
       - O que vamos fazer? - perguntou Cassy.
       - O que viemos aqui fazer - respondeu Jesse. - Ora, isso facilita as coisas. Pensei que teria de arrombar o mercado.
       O grupo avanou com cuidado e observou o interior da loja atravs de uma das janelas quebradas, que iam do teto ao cho. O lugar estava sinistramente quieto.
       - Est uma baguna, mas parece que a maior parte das mercadorias foi deixada - observou Nancy. - Parece que quem quer que tenha feito isso estava interessado 
principalmente nas caixas registradoras.
       De onde estavam, podiam ver que as gavetas de todas as caixas registradoras estavam abertas.
       - Gente estpida! - exclamou Jesse. - Se a autoridade civil sucumbir, o papel-moeda no ter qualquer valor.
       Jesse correu os olhos mais uma vez pelo estacionamento vazio. No havia uma nica alma  vista.
       - Pergunto-me por que no tem ningum por aqui - disse ele. - Todos parecem estar perambulando pelo restante da cidade. Mas lembremos que a cavalo dado no 
se olham os dentes. Mos  obra.
       Transpuseram a vidraa quebrada e seguiram pelo corredor central em direo  farmcia, que se localizava nos fundos do supermercado. O trajeto era difcil 
 meia-luz, pois o cho estava coberto de latas, garrafas e caixas de alimentos espalhadas, que haviam sido derrubadas das prateleiras.
       O setor de farmcia era separado do restante do mercado por uma grade de arame que descia do teto at o cho. Quem pilhara a parte de alimentos do mercado 
estivera tambm na farmcia. Um buraco fora aberto na grade com um alicate que ainda estava cado ao cho.
       Jesse segurou as bordas recortadas do buraco, abrindo-o, para que Nancy pudesse passar por ali. Ela fez um rpido reconhecimento atrs do balco da farmcia.
       - O que lhe parece? - indagou Jesse, do lado de fora da grade.
       - Os narcticos se foram - informou Nancy -, mas isso no  problema. As drogas antivirais esto aqui, assim como os antibiticos. Me d cerca de dez minutos 
para eu apanhar o que preciso.
       Jesse voltou-se para Cassy.
       - Vamos ns dois recolher os mantimentos - disse ele. Cassy e Jesse voltaram para a frente do mercado e apanharam sacolas. Em seguida, comearam a percorrer 
os corredores. Cassy escolhia os itens, enquanto Jesse fazia as vezes de carregador.
       Estavam no meio da seo de massas quando Jesse escorregou num lquido derramado de uma garrafa quebrada. O lquido tornara o piso de vinil to escorregadio 
quanto gelo.
       Cassy conseguiu agarrar seu brao a tempo de evitar que casse. Mesmo depois que ele recuperou o equilbrio, seus ps continuaram a deslizar, forando-o a 
caminhar com as pernas abertas. Parecia uma cena de comdia.
       Cassy abaixou-se e examinou a garrafa.
       - No  de se espantar - disse ela. -  azeite de oliva. Tenha cuidado!
       - Cuidado  o meu nome - replicou Jesse. - Como voc acha que sobrevivi durante trinta anos como tira? - Ele sorriu e abanou a cabea. -  engraado: Eu vinha 
esperando uma ltima grande aventura antes de me aposentar. Mas sou obrigado a lhe dizer uma coisa: esse episdio  muito mais do que eu poderia esperar.
       -  muito mais do que qualquer um de ns poderia esperar - acrescentou Cassy.
       Dobraram uma esquina e entraram no corredor dos cereais. Cassy precisou abrir caminho em meio a uma enorme pilha de caixas, que incluam algumas enormes de 
papelo. De repente, ela prendeu a respirao, como se levasse um susto. Num instante Jesse estava ao seu lado.
       - Qual  o problema? - perguntou ele.
       Cassy apontou. No meio do que antes fora uma tosca cabana construda com as caixas, via-se o rosto querubnico de um garotinho que no tinha mais do que cinco 
anos. Sua pele estava suja e as roupas em desalinho.
       - Santo Deus! - deixou escapar Jesse. - O que ele est fazendo aqui?
       Instintivamente, Cassy abaixou-se para apanhar a criana no colo. Jesse agarrou-lhe o brao.
       - Espere - disse. - No sabemos nada sobre ele. Cassy fez meno de soltar o brao, mas Jesse continuou segurando-o com firmeza.
       -  s um menino - disse Cassy. - Est apavorado.
       - Mas ns no sabemos... - comeou Jesse.
       - No podemos simplesmente deix-lo aqui - replicou Cassy.
       Com relutncia, Jesse soltou o brao de Cassy, que se inclinou e ergueu a criana de sua casinha de caixas de cereais. O garoto instintivamente agarrou-se 
a Cassy, enterrando o rosto na curva de seu pescoo.
       - Qual  o seu nome? - perguntou Cassy, enquanto delicadamente dava-lhe tapinhas nas costas. Estava surpresa com a fora com que ele a apertava.
       Cassy e Jesse entreolharam-se. Ambos tinham o mesmo pensamento: Que impacto esse evento inesperado teria em sua j desesperadora situao?
       - Vamos - disse Cassy ao menino. - Tudo vai ficar bem. Voc est em segurana, mas precisamos saber seu nome para podermos falar com voc.
       Lentamente, a criana inclinou-se para trs.
       Cassy sorriu com ternura para o menino e estava prestes a lhe dizer mais algumas palavras de conforto quando percebeu que a criana sorria como se estivesse 
extasiada. E ainda mais assustadores eram seus olhos. As pupilas eram enormes e brilhavam como se iluminadas internamente.
       Experimentando uma instintiva onda de repulsa, Cassy inclinou-se e ps o menino no cho. Tentou mant-lo seguro pelo brao, mas ele era inesperadamente forte 
e soltou-se de sua mo, fugindo em disparada em direo  frente do mercado.
       - Ei! - gritou Jesse. - Volte aqui! - Ele comeou a correr atrs do menino.
       - Ele est contaminado! - avisou Cassy.
       - Eu sei - disse Jesse. -  por isso que no quero que fuja. Correr pelo corredor  meia-luz no era tarefa fcil para Jesse. As solas de seus sapatos ainda 
tinham vestgios de azeite, tornando o avano difcil. Ainda por cima, havia todas aquelas latas, garrafas e caixas de produtos espalhadas.
       O garoto parecia no ter problema em transpor os obstculos e chegou  frente da loja bem antes de Jesse. Postando-se diante de uma das janelas quebradas, 
ele ergueu a mo rolia e abriu os dedinhos. Um disco negro imediatamente levitou de sua palma e desapareceu no meio da noite.
       Jesse alcanou o garoto, ofegante devido ao tanto que escorregara e deslizara. Tambm estava mancando levemente por causa de uma contuso no quadril. Levara 
um tombo perto de uma das caixas registradoras e colidira com uma lata de sopa de tomate.
       - Muito bem, filho - disse Jesse, tentando recuperar o flego enquanto fazia o garoto dar meia-volta, ficando de frente para ele. - O que aconteceu? Por que 
est aqui?
       Exibindo o mesmo sorriso exagerado, a criana ergueu os olhos para o rosto de Jesse, sem dizer uma s palavra.
       - Ora, vamos, menino - insistiu Jesse. - No estou pedindo muito.
       Cassy apareceu atrs de Jesse e espiou por sobre seu ombro.
       - O que foi que ele fez? - indagou ela.
       - Nada, at onde eu sei - respondeu Jesse. - Apenas correu at aqui e parou. Mas eu gostaria que ele tirasse esse sorriso do rosto. Parece que est zombando 
de ns.
       Cassy e Jesse viram as luzes dos faris no mesmo momento. Um veculo entrara no estacionamento do supermercado e vinha em direo a eles.
       - Ah, no! - exclamou Jesse. - Justamente o que no queramos: companhia.
       Logo ficou evidente que o veculo estava em alta velocidade. Tanto Cassy quanto Jesse, instintivamente, recuaram vrios passos. O rudo de pneus cantando 
no asfalto anunciou a sbita parada do carro na frente do mercado. Os feixes dos faris altos inundaram o interior do estabelecimento com uma luz ofuscante. Cassy 
e Jesse ergueram as mos para proteger os olhos. A criana correu na direo da luz e desapareceu em seu claro.
       - Chame Nancy e saiam pelos fundos! - sussurrou Jesse, energicamente.
       - E quanto a voc? - perguntou Cassy.
       - Vou distra-los - disse ele. - Se eu no estiver de volta ao local do encontro daqui a quinze minutos, partam sem mim. Encontrarei outro veculo para voltar.
       - Tem certeza? - questionou Cassy, no gostando da idia de ir embora sem Jesse.
       -  claro que tenho - respondeu ele, bruscamente. - Agora v!
       A viso de Cassy j havia se ajustado o suficiente para que ela pudesse perceber que figuras indistintas estavam descendo de ambos os lados do veculo. A 
intensidade dos faris ainda impedia que se vissem detalhes.
       Cassy virou-se e correu para os fundos do mercado. Na metade do corredor, ela voltou-se momentaneamente a tempo de ver Jesse passando pela janela quebrada, 
seguindo na direo da luz ofuscante.
       Cassy correu o mximo que pde e, propositadamente, colidiu com a grade que separava a farmcia do supermercado. Agarrando-a com ambas as mos, sacudiu-a 
ruidosamente, chamando por Nancy. A cabea desta emergiu detrs do balco. De imediato Nancy viu a luz que vinha da frente do mercado.
       - O que est acontecendo? - perguntou ela. Cassy estava sem flego.
       - Problemas - respondeu. - Precisamos dar o fora daqui.
       - OK - disse Nancy. - J tenho tudo aqui. - Ela saiu detrs do balco e tentou passar pelo buraco na grade. As pontas cortadas dos arames, porm, tinham outra 
idia, e ela ficou presa.
       - Aqui, tome isso - pediu Nancy, entregando a sacola de medicamentos a Cassy. Usando ambas as mos, ela tentou soltar-se, mas viu que no seria fcil.
       A luz que vinha da frente do mercado de repente aumentou dramaticamente. Ao mesmo tempo, fez-se ouvir um silvo, que tambm ganhou intensidade. Quando alcanou 
nveis ensurdecedores, cessou de maneira to sbita que seu efeito concussivo derrubou alguns dos produtos que oscilavam nas prateleiras.
       - Ah, no! - gemeu Nancy.
       - O que foi? - perguntou Cassy.
       - Foi esse o som que ouvimos quando Eugene foi consumido - explicou Nancy. - Onde est Jesse?
       - Venha! - gritou Cassy. - Temos de sair daqui.
       Ela ps no cho a sacola que Nancy lhe dera e tentou puxar as pontas da grade de arame. Feixes de lanterna comearam a varrer o interior da loja.
       - V! - berrou Nancy. - Apanhe a sacola e corra!
       - No sem voc - replicou Cassy, lutando contra a resistente grade de arame.
       - Est bem - disse Nancy. - Voc segura deste lado e eu puxo do outro.
       Trabalhando juntas conseguiram finalmente que Nancy se libertasse.
       Nancy agarrou a sacola e comearam a correr ao longo dos fundos do mercado. No tinham um destino especfico. Estavam apenas contando que a loja tivesse uma 
sada pelos fundos. No entanto, tudo que encontraram foi um interminvel frigorfico com comida congelada.
       Chegando ao canto oposto, entraram no primeiro corredor e seguiram adiante. Pensaram que, correndo ao longo da periferia do estabelecimento, acabariam por 
encontrar uma porta. Mas no foram muito longe.  frente delas, um grupo espectral de pessoas dobrou a esquina. A maior parte delas carregava lanternas.
       Um gemido de medo simultneo escapou dos lbios de Cassy e Nancy. O que fazia com que o grupo fosse especialmente assustador eram seus olhos, que brilhavam 
 luz fraca do mercado como galxias distantes no cu noturno.
       Cassy e Nancy fizeram meia-volta ao mesmo tempo, apenas para se confrontarem com um segundo grupo que se aproximava por suas costas. Agarradas uma  outra, 
esperaram, enquanto os dois grupos se acercavam delas. Quando as pessoas estavam perto o bastante para que as duas mulheres lhes vissem as feies, ficou bvio que 
estavam igualmente divididos entre homens e mulheres, velhos e jovens. O que tinham em comum eram os olhos reluzentes e os sorrisos plsticos.
       Durante alguns momentos, nada aconteceu, exceto pelo fato de que as pessoas infectadas haviam cercado completamente as mulheres, encurralando-as. Cassy e 
Nancy tinham as costas encostadas, uma na outra, as mos apertadas sobre a boca. Nancy deixara cair a sacola de remdios.
       com pavor de ser tocada, Cassy gritou quando uma das pessoas infectadas de repente investiu contra ela, agarrando-lhe o pulso.
       - Cassy Winthrope, suponho - disse o homem, dando uma risadinha. -  de fato um prazer. Algum est sentindo muito a sua falta.
       Pitt tamborilava os dedos sobre o volante da van de Jesse. Jonathan remexia-se, inquieto, no banco do passageiro. Ambos estavam ansiosos.
       - Faz quanto tempo agora? - perguntou Jonathan.
       - Esto vinte e cinco minutos atrasados - disse Pitt.
       - O que vamos fazer?
       - No sei - respondeu Pitt. - Se algum fosse ter problemas, pensei que seramos ns.
       - Desde que nos mantivemos sorrindo, ningum pareceu dar importncia ao que fazamos - disse Jonathan.
       - Fique aqui! - disse Pitt, de repente. - Preciso ir ver o que aconteceu naquele supermercado. Caso eu no esteja de volta em quinze minutos, v para a cabana.
       - Mas como voc vai voltar? - gemeu Jonathan.
       - Tem muitos carros abandonados por a-respondeu Pitt. - Isso no vai ser problema.
       - Mas...
       - Faa o que eu disse - replicou Pitt, asperamente. Ento saltou da van e desceu rapidamente o morro, emergindo de entre as rvores numa rua deserta. Ps-se 
a caminhar na direo do supermercado. Calculou que tinha cerca de seis quadras antes de dobrar para percorrer a ltima delas.
        sua frente, um indivduo saiu de um edifcio e virou na direo de Pitt, que podia ver os olhos do outro brilhando. Reprimindo um impulso de fugir correndo, 
Pitt forou o rosto a abrir-se num amplo sorriso, exatamente como ele e Jonathan haviam feito no centro mdico. Tendo sorrido tanto, seus msculos faciais estavam 
doloridos.
       Pitt descobriu que era enervante caminhar diretamente para a pessoa transformada. Tinha de se concentrar no s no sorriso, como tambm em manter os olhos 
fixos adiante. Ele e Jonathan haviam aprendido, pelo mtodo mais difcil, que o contato visual era visto com suspeita.
       O homem passou por ele sem nenhum incidente e Pitt deixou escapar um suspiro de alvio. Que maneira de se viver, ponderou ele com tristeza. Por quanto tempo 
conseguiriam sobreviver a esse jogo de gato e rato?
       Pitt dobrou a esquina e aproximou-se do supermercado. A primeira coisa que viu foi um grupo de carros estacionados bem  frente do estabelecimento. O que 
o preocupou foi o fato de os faris estarem acesos.  medida que foi se aproximando, pde ouvir que os motores tambm estavam ligados.
       Alcanando a extremidade do estacionamento, Pitt viu um grupo compacto de pessoas sair do mercado e comear a entrar nos carros. Logo chegou a ele o rudo 
de portas batendo.
       Pitt correu e escondeu-se no vo escuro da porta de um edifcio ao lado da entrada do estacionamento do supermercado. Quase imediatamente, os carros comearam 
a manobrar e a vir em sua direo.  medida que foram ganhando velocidade, formaram uma fila nica. Pitt encolheu-se em seu esconderijo quando os faris do carro 
da frente iluminou o caminho diante dele.
       Instantes depois, o primeiro dos seis carros passou a menos de seis metros de Pitt, hesitando momentaneamente antes de entrar na rua e dando a Pitt uma viso 
fugidia dos rostos sorridentes de seus ocupantes infectados.
       Os carros passavam um de cada vez. Quando o ltimo carro parou brevemente, Pitt prendeu a respirao. Um arrepio do mais abjeto horror percorreu sua espinha. 
Sentada no banco traseiro, ia Cassy!
       Incapaz de se conter e sem sopesar as conseqncias, Pitt deu um passo  frente, como se planejasse atirar-se para o carro e abrir a porta bruscamente. A 
fraca luz ambiente caiu sobre ele e, naquele momento, Cassy olhou em sua direo.
       Durante a breve frao de um segundo, seus olhos se encontraram. Pitt impeliu-se a avanar, mas Cassy abanou a cabea e o momento passou. O carro avanou 
com um solavanco e acelerou, desaparecendo na noite.
       Pitt voltou cambaleando ao escuro vo da porta. Estava furioso consigo mesmo por no ter feito alguma coisa. Entretanto, no fundo ele sabia que teria sido 
intil. Tudo que conseguiu ver quando fechou os olhos foi a imagem do rosto de Cassy emoldurado pela janela do carro.
       
       
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       O deslumbrante cu da noite no deserto, antes coalhado de estrelas, agora ia desbotando rapidamente, adquirindo matizes de azul e cor-de-rosa,  medida que 
a promessa de um novo dia clareava o Oriente. A aurora estava chegando.
       Beau encontrava-se no terrao do quarto principal, desfrutando o ar noturno, desde que a boa notcia lhe fora comunicada. Agora esperava impacientemente que 
os ltimos minutos se passassem. Ele sabia que o encontro era iminente desde que vira o carro subir o caminho e desaparecer de vista na frente da manso.
       Beau ouviu o rudo de passos no quarto e o estalido da fechadura das portas duplas se abrindo. Mas no se virou. Manteve os olhos fixos no ponto do horizonte 
em que o sol estava prestes a aparecer para um novo dia, um novo comeo.
       - Voc tem companhia - informou Alexander, retirando-se em seguida e fechando a porta.
       Beau observou os primeiros raios dourados do sol cintilarem. Sentiu no corpo uma curiosa comoo, que em certo sentido ele compreendia, mas em outro considerava 
misteriosa e ameaadora.
       - Ol, Cassy - disse Beau, quebrando o silncio. Lentamente, ele se virou. Estava vestido num robe de veludo escuro.
       Cassy ergueu as mos para proteger os olhos dos raios de sol que desenhavam a silhueta do rosto de Beau. Ela no conseguia ver-lhe as feies.
       -  voc, Beau? - perguntou ela.
       -  claro que sou eu - disse ele, dando um passo  frente.
       De repente, Cassy pde v-lo claramente e sentiu-se sufocar. Ele sofrer mais mutaes. A pequena rea de pele atrs da orelha que ela inadvertidamente vira 
em sua visita anterior havia se espalhado para a frente do pescoo, subindo pela linha do maxilar. Algumas ramificaes daquele tecido j alcanavam as mas do 
rosto, formando uma orla serpiginosa. O couro cabeludo era uma colcha em que se entremeavam retalhos de trechos cobertos com um cabelo ralo e expanses de pele aliengena. 
Sua boca, embora ainda sorrisse, agora estava murcha; os lbios tinham afinado e os dentes haviam recuado e amarelecido. Os olhos eram buracos negros, sem ris, 
e piscavam continuamente, com a plpebra inferior erguendo-se at a superior e no o oposto.
       Cassy encolheu-se e recuou movida pelo absoluto horror.
       - No tenha medo - disse Beau, caminhando at ela e a abraando.
       Cassy enrijeceu. Os dedos de Beau pareciam cobras enroscando-se em torno de partes do seu corpo. E havia um indescritvel odor bestial.
       - Por favor, Cassy, no tenha medo - pediu ele. - Sou s eu, Beau.
       Cassy no respondeu. Ela precisou lutar contra uma urgncia quase irresistvel de gritar.
       Beau inclinou-se para trs, forando-a a olhar novamente para seu rosto transmogrificado.
       - Senti muito a sua falta - disse ele.
       Com uma sbita e inesperada onda de energia, Cassy gritou e empurrou-o, libertando-se. A atitude apanhou Beau completamente de surpresa.
       - Como pode dizer que sentiu a minha falta? - gritou Cassy. - Voc no  mais Beau.
       - Sou, sim - disse ele, numa voz reconfortante. - Sempre serei Beau. Mas tambm sou algo mais. Sou uma mistura de meu antigo eu humano e de uma espcie quase 
to antiga quanto a prpria galxia.
       Cassy olhou com cuidado para ele. Uma parte dela lhe dizia que fugisse, outra estava paralisada pelo horror daquilo tudo.
       - Voc tambm ser parte da nova vida - afirmou Beau.
       - Todos sero parte dela, pelo menos aqueles que no possuem alguma falha gentica grave. Eu apenas tive a honra de ser o primeiro, mas esse foi um acontecimento 
aleatrio. Poderia ter sido voc ou qualquer outra pessoa.
       - Ento estou falando com Beau agora? - indagou Cassy. - Ou estou falando com a conscincia do vrus atravs de Beau?
       - A resposta, como eu j disse,  sim para as duas perguntas - disse Beau, pacientemente. - Entretanto, a conscincia aliengena cresce com cada pessoa infectada. 
Essa conscincia  um complexo de todos os seres humanos infectados, assim como o crebro humano  um complexo de clulas individuais.
       Beau estendeu o brao com cuidado para evitar assustar Cassy ainda mais. Fechando os dedos serpentiformes at formar uma espcie de punho, ele acariciou-lhe 
o rosto.
       Cassy precisou reunir todas as suas foras contra a repulsa que sentiu ao permitir que aquela criatura a tocasse.
       - Tenho de lhe confessar uma coisa - disse Beau. - A princpio, tentei no pensar em voc. Inicialmente foi fcil, graas ao trabalho que precisava ser feito. 
Mas voc continuava a insinuar-se em meus pensamentos e me fez compreender o poder enganador da emoo humana. Trata-se de uma fraqueza nica na galxia.
       "O meu lado humano a ama, Cassy, e sinto-me excitado diante da perspectiva de poder lhe oferecer muitos mundos. Anseio para que voc se torne um dos nossos.
       - Eles no viro - disse Sheila. - Por mais dolorosa que seja essa realidade, receio que tenhamos de aceit-la. - Ela se ergueu e esticou o corpo. No haviam 
dormido nada.
       Atravs das janelas da cabana, o sol do incio da manh podia ser visto banhando o topo das rvores na margem ocidental do lago. A superfcie da gua estava 
coberta por uma nvoa que o sol nascente iria rapidamente dissipar.
       - E, se  essa a realidade - acrescentou Sheila -, ento precisamos nos mandar daqui antes que tenhamos visitantes indesejados.
       Nem Pitt nem Jonathan responderam. Estavam sentados em sofs diferentes, um diante do outro, curvados para a frente com os queixos apoiados nas mos e os 
cotovelos descansados sobre os joelhos. A expresso de ambos era um misto de exausto, descrena e sofrimento.
       - Bem, no temos tempo para levar tudo - ia dizendo Sheila. - Mas creio que deveramos levar todos os dados e as culturas teciduais que esperamos estejam 
produzindo alguns virions.
       - E quanto  minha me? - perguntou Jonathan. - E Cassy e Jesse? E se voltarem aqui procurando por ns?
       - J discutimos isso - replicou Sheila. - No vamos tornar as coisas ainda mais difceis do que so.
       - Tambm no acho que devamos ir embora - disse Pitt. Apesar de j ter perdido as esperanas em relao a Cassy, ainda pensava que Nancy e Jesse poderiam 
aparecer.
       - Ouam, vocs dois - disse Sheila. - Duas horas atrs vocs concordaram em esperar at o amanhecer. Agora j est amanhecendo. Quanto mais tempo esperarmos, 
maiores as chances de sermos apanhados.
       - Mas para onde iremos? - indagou Pitt.
       - Receio que tenhamos de pensar nisso no caminho - respondeu Sheila. - Venham, vamos comear a arrumar as coisas.
       Pitt forou-se a levantar-se do sof. Olhou para Sheila e sua expresso espelhava a imensa dor que sentia. Ela enterneceu-se, caminhou at o sof e o abraou.
       Jonathan ergueu-se, com sbita deciso, e foi at seu laptop. Abrindo-o, comeou a digitar apressadamente. Depois de enviar a mensagem, ficou olhando sem 
ver a tela. Dentro de poucos minutos, chegava uma resposta.
       - Ei! - gritou ele para Sheila e Pitt. -Acabo de entrar em contato com o Dr. M. Ele mudou de idia. Est disposto a nos encontrar. O que vocs acham?
       - Sou naturalmente ctica - admitiu Sheila. - A idia de pr nossas vidas nas mos de algum que s conhecemos como Dr. M me parece absurda. Mas, por outro 
lado, ele vem nos enviando dados muito interessantes.
       - Bem, no temos muita escolha - observou Jonathan.
       - Deixe-me ver sua ltima mensagem - pediu Pitt. Andou at onde Jonathan estava e leu por sobre o ombro dele. Ao chegar ao fim, ergueu os olhos para Sheila. 
- Acho que devemos correr o risco. No consigo imaginar que esteja nos enganando. Diabos! Ele tem tanto medo de ns quanto ns dele.
       - E  melhor do que sair por a perambulando sem destino - acrescentou Jonathan. - Alm disso, ele est conectado  Internet, o que significa que podemos 
deixar uma mensagem aqui e, se minha me ou os outros voltarem, podero pelo menos entrar em contato conosco.
       - Est bem, vocs venceram - disse Sheila, cedendo. - Suponho que isso seja um acordo. Iremos ao encontro desse Dr. M, o que quer dizer que daremos o fora 
daqui. Portanto, mos  obra.
       - Cassy, sei que  difcil para voc - disse Beau. - Eu no me olho mais no espelho. Mas voc precisa superar isso.
       Cassy estava debruada sobre a balaustrada, observando a vista alcinica da propriedade onde se localizava o instituto. O sol se levantara e o orvalho da 
manh estava prestes a desaparecer. L fora, no caminho que levava  casa, havia um fluxo constante de pessoas infectadas seguindo em fila indiana, chegando de todas 
as partes do globo.
       - Estamos construindo um meio ambiente impressionante aqui - disse Beau. - E ele est prestes a se espalhar pelo mundo todo. Trata-se de fato de um novo comeo.
       - Eu gostava do nosso mundo como era - afirmou Cassy.
       - Voc no pode estar sendo sincera - replicou Beau. - No com todos os problemas que existiam. Os humanos levaram a Terra a uma rota de coliso com a autodestruio, 
principalmente nesta ltima metade de sculo. Existem incontveis planetas na galxia, mas poucos com a temperatura to agradvel, com tanta gua e to convidativos 
quanto este.
       Cassy fechou os olhos. Estava exausta e precisava dormir; no entanto, algumas das coisas que Beau estava dizendo faziam de fato um pouco de sentido. Ela obrigou-se 
a tentar pensar.
       - Quando foi que o vrus chegou  Terra pela primeira vez? - indagou ela.
       - A primeira invaso? - perguntou Beau. - H cerca de trs bilhes de anos terrestres. Foi quando as condies na Terra haviam chegado a um ponto em que a 
vida estava evoluindo a um ritmo razoavelmente rpido. Uma nave exploradora liberou os virions nos oceanos primitivos e eles incorporaram-se ao DNA em evoluo.
       - E essa  a primeira vez que uma nave exploradora retorna aqui? - quis saber Cassy.
       - No, por Deus, no. A cada cem milhes de anos terrestres aproximadamente, uma sonda volta a fim de despertar o vrus e ver que tipo de vida evoluiu.
       - E a conscincia do vrus no permaneceu?
       - O vrus propriamente dito ficou - disse Beau. - Mas voc est certa: a conscincia teve permisso para ir embora. Das outras vezes os organismos eram sempre 
inconvenientes.
       - Qual foi a ltima vez? - perguntou Cassy.
       - H cerca de cem milhes de anos terrestres. Mas foi uma visita desastrosa. A Terra estava totalmente infestada com enormes criaturas reptilianas, que predavam 
umas s outras, canibalescamente.
       - Voc se refere aos dinossauros?
       - , acho que foi assim que vocs os rotularam. Qualquer que seja o nome, porm, aquela era uma situao totalmente inaceitvel para a conscincia. Assim, 
a infestao foi interrompida. No entanto, foram feitos ajustes genticos para que os imensos rpteis morressem, permitindo que outras espcies evolussem.
       - Como os seres humanos - sugeriu Cassy.
       - Exato - confirmou Beau. - Esses tm corpos maravilhosamente versteis e crebros de tamanho razovel. O lado negativo so as emoes.
       Apesar de tudo, Cassy deixou escapar uma risada breve. A idia de uma cultura aliengena, capaz de explorar a galxia, tendo problemas com as emoes humanas 
era despropositada.
       -  verdade - disse Beau. - A primazia das emoes se traduz em uma importncia exagerada do indivduo, o que  contrrio ao bem coletivo. De minha perspectiva 
dual,  assombroso que os seres humanos tenham realizado tanto. Numa espcie em que cada indivduo luta para maximizar suas condies, acima e alm das necessidades 
bsicas, a guerra e a discrdia so inevitveis. A paz passa a ser a aberrao.
       - Quantas outras espcies na galxia o vrus dominou? - perguntou Cassy.
       - Milhares. Onde quer que encontremos um recipiente apropriado,
       Cassy continuou a fitar a distncia. Ela no queria olhar para Beau porque a aparncia dele era to perturbadora que bloqueava seu pensamento, e ela queria 
pensar. No podia deixar de lhe ocorrer que quanto mais soubesse, melhores seriam suas chances de evitar ser infectada e permanecer sendo ela mesma. E estava aprendendo 
muito. Quanto mais tempo conversava com Beau, menos ouvia o lado humano e mais percebia o aliengena.
       - De onde voc vem? - perguntou Cassy, de sbito.
       - Onde  nosso planeta de origem? - repetiu Beau, como se no houvesse ouvido a pergunta. Ele hesitou, tentando ordenar as informaes coletivas a que tinha 
acesso. A resposta, porm, no estava disponvel. - Creio que no sei. No sei nem mesmo qual era nossa forma fsica original. Estranho! Essa pergunta nunca me ocorreu.
       - Alguma vez passa pela conscincia do vrus que de certa forma  errado tomar posse de um organismo que j possui uma conscincia? - questionou Cassy.
       - No quando estamos oferecendo algo to melhor - afirmou Beau.
       - Como pode ter tanta certeza disso?
       -  simples. Refiro-me  sua histria. Olhe o que vocs fizeram uns aos outros e a este planeta durante o curto perodo em que reinaram aqui como criaturas 
dominantes.
       Cassy assentiu. Mais uma vez, o que ela ouvia fazia um certo sentido.
       - Venha comigo, Cassy - chamou Beau. - Tem uma coisa que eu quero mostrar a voc. - Beau foi at a porta que levava ao quarto e a abriu.
       Cassy obrigou-se a fazer meia-volta. Encheu-se de coragem para enfrentar a aparncia de Beau, que lhe pareceu quase to chocante quanto da primeira vez em 
que o vira. Ele segurava a porta para ela; ento, com um gesto, falou:
       -  no andar de baixo.
       Desceram pela escada principal. Em contraste com a tranqilidade l de cima, o primeiro andar estava repleto de pessoas sorridentes e em plena atividade. 
Ningum prestou ateno em Beau e Cassy. Ele a levou para o salo de baile, onde o nvel de atividade era quase frentico. Era difcil entender como tantas pessoas 
podiam trabalhar juntas.
       O cho, as paredes e o teto da enorme sala estavam cobertos por um labirinto de fios. No meio daquele espao, via-se uma imensa estrutura que pareceu a Cassy 
pertencer a um modelo e tropsito do outro mundo. No centro deste, havia um cilindro de ao muito grande, que lembrava vagamente um aparelho de ultra-som gigantesco. 
Vigas de ao tinham sido dispostas em linhas oblquas em vrias direes. Essa superestrutura sustentava o que parecia a Cassy equipamento para armazenar e transnitir 
eletricidade de alta voltagem. Um centro de comando podia ser visto a um lado, contendo um nmero impressionante de monitores, mostradores e botes.
       A princpio, Beau nada falou. Simplesmente deixou que Cassy se sentisse estupefata com a cena.
       - Est quase finalizado - disse ele, por fim.
       - O que  isso? - perguntou Cassy.
       -  o que chamamos de Prtico, uma conexo formal com outros mundos que infestamos.
       - O que voc quer dizer com conexo? Isso  uma espcie de aparelho de comunicao?
       - No - disse Beau. - Transporte, no comunicao. Cassy engoliu em seco. Sua garganta ressecara.
       - Voc se refere a outras espcies, de outros planetas que voc, isto , o vrus, infectou? Eles podero vir aqui?  Terra?
       - E ns poderemos ir at eles - completou Beau, triunfante. - A Terra estar daqui por diante conectada a esses outros mundos. Seu isolamento chegou ao fim. 
Agora ela passar a fazer parte da galxia.
       Cassy sentiu-se enfraquecer de repente. O horror da Terra sendo invadida por inmeras criaturas aliengenas agora vinha somar-se ao medo que sentia por si 
mesma. Juntando-se isso ao turbilho frentico daquela atividade pavorosa  sua volta, e  sua exausto fsica, emocional e mental, Cassy sofreu uma sncope. O salo 
comeou a girar e escurecer, e ela desfaleceu.
       Quando voltou a si, Cassy no tinha idia de quanto tempo estivera inconsciente. A primeira coisa de que teve conscincia foi de uma ligeira nusea, que passou 
rapidamente aps um arrepio. Em seguida, percebeu que sua mo direita havia sido fechada e que estava sendo segura com firmeza.
       Os olhos de Cassy se abriram. Ela encontrava-se no cho do movimentado salo de baile, olhando uma parte daquela engenhoca futurista e improvisada, que, supostamente, 
era capaz de transportar criaturas aliengenas para a Terra.
       - Voc vai ficar bem - disse Beau.
       Cassy estremeceu. Aquele era o clich que sempre se dizia aos pacientes, independente do prognstico. Cassy deixou seus olhos seguirem at Beau. Ele estava 
ajoelhado ao seu lado, mantendo sua mo fechada. Foi nesse momento que Cassy se deu conta de que havia alguma coisa na palma de sua mo, algo pesado e frio.
       - No! - gritou ela, tentando soltar a mo. Mas Beau a mantinha firme. - Por favor, Beau.
       - No tenha medo - disse ele, brandamente. - Voc vai ficar bem.
       - Beau, se voc me ama, no faa isso - pediu Cassy.
       - Cassy, acalme-se. Eu a amo de verdade.
       - Se voc tem algum controle sobre suas aes, solte a minha mo. Quero continuar a ser eu mesma.
       - Voc continuar - disse Beau, reconfortando-a. - E ser muito mais. Eu tenho controle. Estou fazendo o que quero. Eu quero o poder que me foi dado, e quero 
voc.
       - Ahhh! - gritou ela.
       Ento Beau soltou-lhe a mo. Cassy ergueu-se, sentando no cho, e com uma exclamao de repugnncia atirou longe o disco negro, que deslizou numa pequena 
rea do cho antes de cair pesadamente em meio a um feixe de fios.
       Cassy agarrou a mo ferida e observou a gota de sangue que ia aumentando lentamente na base de seu dedo indicador. Ela fora espetada e a realidade esmagadora 
do que isso significava f-la tornar a tombar no cho. Uma nica lgrima rolou de sob cada uma de suas plpebras e deslizou pelo lado de seu rosto. Agora ela era 
um deles.
       
       
       18
       9:15
       
       O posto de gasolina parecia cenrio de um filme dos anos 30 ou a capa de uma revista do Saturday Evening Post. Havia duas bombas de gasolina magricelas, que 
pareciam arranha-cus em miniatura com topos arredondados em estilo art dco. No centro dos topos, ainda podia-se discernir a imagem de um Pgaso vermelho, apesar 
da tinta descascada.
       A construo atrs das bombas era da mesma poca e desafiava a crena que ainda pudesse estar de p. Durante a ltima metade de sculo, a areia soprada pelo 
vento do deserto lavara da madeira que revestia o prdio qualquer vestgio de tinta. A nica coisa ainda razoavelmente intacta era o velho telhado de madeira impermeabilizada. 
A porta, que fora de tela, ia e vinha com a brisa quente: um tributo permanente  longevidade de suas ferragens.
       Pitt estacionou a van na margem da estrada, do lado oposto ao estabelecimento dilapidado, de forma que pudessem observ-lo.
       - Que fim de mundo! - exclamou Sheila, enxugando o suor que escorria para os seus olhos. O sol do deserto estava apenas comeando a dar evidncias da fora 
que teria ao meio-dia.
       Encontravam-se numa estrada de pista dupla praticamente abandonada, que no passado fora a rota principal de travessia do deserto do Arizona. Mas a rodovia 
interestadual, trinta quilmetros mais ao sul, mudara essa condio. Os carros agora raramente se aventuravam pela pista de macadame sulcada, como mostravam os punhados 
de areia que a invadiam.
       - Foi aqui que ele disse que nos encontraria - afirmou Jonathan. - E  exatamente como ele descreveu, porta de tela e tudo mais.
       - Bem, onde est ele? - indagou Pitt, correndo os olhos pelo horizonte distante. Exceto por algumas elevaes solitrias  distncia, nada havia seno o deserto 
plano em todas as direes. O nico movimento visvel era o de moitas de amaranto.
       - Talvez devssemos sentar e esperar - sugeriu Jonathan, que estava tendo dificuldade em manter os olhos abertos devido ao sono.
       - No tem abrigo de nenhuma espcie aqui - disse Pitt. - Isso me deixa nervoso.
       - Talvez devssemos dar uma olhada dentro da loja desse posto em runas - sugeriu Sheila.
       Pitt tornou a ligar a van, atravessou a estrada e estacionou entre as antigas bombas de gasolina e o prdio arruinado. Todos olharam aquela estrutura com 
inquietao. Havia algo de estranho ali, principalmente com a porta de tela se abrindo e fechando sem parar. Agora que estavam perto, podiam ouvir as velhas dobradias 
rangendo. As pequenas janelas de vidraas, que surpreendentemente se apresentavam intactas, estavam muito sujas para lhes permitir ver o interior.
       - Vamos dar uma olhada l dentro - disse Sheila.
       Hesitantes, saltaram do veculo e aproximaram-se com cuidado da varanda  entrada da construo. Havia duas antigas cadeiras de balano de palhinha, cujos 
assentos h muito tinham apodrecido. Perto da porta, a forma enferrujada de uma velha mquina de Coca-Cola. A tampa de correr encontrava-se aberta, deixando ver 
que o interior estava repleto de todos os tipos de entulho.
       Pitt abriu a porta de tela e experimentou a porta interna. Estava destrancada. Ele a abriu.
       - Vocs vm ou no vm? - perguntou ele.
       - Vamos atrs de voc - respondeu Sheila.
       Pitt entrou, seguido por Jonathan e Sheila. Pararam no vo da porta e olharam ao redor. com as janelas sujas, a iluminao era escassa. Havia uma mesa de 
metal  direita, com um calendrio atrs dela. O ano era o de 1938. O cho estava repleto de lixo, areia, garrafas quebradas, jornais velhos, latas de leo vazias 
e velhas peas de carro. As teias de aranha pendiam como feixes de barba-de-velho dos pedaos de vigas do teto.  esquerda via-se uma porta almofadada parcialmente 
aberta.
       - Parece que faz muito tempo que ningum pe os ps aqui - disse Pitt. -Acham que esse suposto encontro foi uma espcie de armadilha?
       - No creio - respondeu Jonathan. - Talvez ele esteja esperando por ns no deserto, observando-nos para ter certeza de que no h nada de errado conosco.
       - De onde ele poderia estar nos vigiando? - indagou Pitt.
       - L fora o terreno  to plano quanto uma panqueca.
       Ele caminhou at a porta entreaberta e a empurrou, abrindo-a por completo. As dobradias protestaram ruidosamente. A segunda sala era ainda mais escura do 
que a primeira, com uma nica janelinha. As paredes eram cobertas por prateleiras, sugerindo que o cmodo servira como depsito.
       - Bem, no tenho certeza se vai fazer muita diferena se o encontrarmos ou no - disse Sheila, desanimada. - Eu tinha esperanas de que, como estava nos dando 
algumas informaes interessantes, ele tivesse acesso a um laboratrio ou coisa parecida.  desnecessrio dizer que no poderemos fazer qualquer trabalho num lugar 
como este. Acho que  melhor irmos embora.
       - Vamos esperar mais um pouco - pediu Jonathan. - Tenho certeza de que o cara  legal.
       - Ele nos disse que estaria aqui quando chegssemos - Sheila lembrou a Jonathan. - Ou ele mentiu para ns ou...
       - Ou o qu? - perguntou Pitt.
       - Ou eles o apanharam - respondeu Sheila. - A essa altura, ele j pode ser um deles.
       - Um pensamento muito otimista - comentou Pitt.
       - Precisamos enfrentar a realidade - disse Sheila.
       - Ei, esperem um pouco - pediu Pitt. - Ouviram isso?
       - O qu? - perguntou Sheila. -A porta de tela?
       - No, uma outra coisa. Um barulho de alguma coisa raspando.
       Jonathan levantou a mo e passou no alto da cabea.
       - Alguma coisa caiu em mim. Poeira ou algo parecido. - Ele olhou para cima. - Oh-oh, tem algum l em cima.
       Todos ergueram os olhos. Somente nesse momento perceberam que o teto no tinha forro. Acima dos caibros estava mais escuro do que l embaixo. Mas, agora que 
seus olhos haviam se ajustado  pouca iluminao, eles conseguiram distinguir uma figura no espao que seria o sto, de p sobre as vigas.
       Pitt abaixou-se e agarrou uma alavanca para remover pneus em meio ao entulho que cobria o cho.
       - Largue isso - ordenou uma voz spera. com uma velocidade surpreendente, a figura desceu do sto, pendurando-se num s brao e saltando. Na outra mo, segurava 
uma impressionante Colt 45, e examinou os visitantes com o olhar firme. Era um homem de sessenta e poucos anos, com a pele avermelhada, cabelos crespos grisalhos 
e uma compleio magra e rija.
       - Largue o ferro - repetiu o homem.
       Pitt largou a alavanca, atirando-a ruidosamente no cho, e ergueu as mos.
       - Sou eu, Jumpin Jack Flash - apresentou-se Jonathan, excitado, batendo repetidamente no peito. - Foi o nome que usei na Internet. O senhor  o Dr. M?
       - Talvez seja - respondeu o homem.
       - Meu nome verdadeiro  Jonathan. Jonathan Sellers.
       - Eu sou a Dra. Sheila Miller.
       - E eu Pitt Henderson.
       - O senhor estava nos inspecionando?-perguntou Jonathan. -  por isso que estava escondido no telhado?
       - Talvez - replicou o homem. Em seguida, fez sinal para que os trs convidados se dirigissem ao depsito.
       Pitt estava hesitante.
       - Somos amigos. De verdade. Somos pessoas normais.
       - V! - ordenou o homem, estendendo a pistola na direo do rosto de Pitt.
       Este nunca vira uma 45 antes, principalmente assim, olhando para o cano escuro e ameaador.
       - Estou indo - disse Pitt.
       - Todos vocs - comandou o homem.
       Com relutncia, todos seguiram para o depsito escuro.
       - Fiquem de frente para mim - disse o homem.
       Receosos do que iria acontecer, todos fizeram o que ele mandou. com a garganta seca, eles observavam aquele homem rijo, que literalmente cara sobre eles. 
O homem fitou-os de volta. Houve um momento de silncio.
       - Eu sei o que est fazendo - disse Pitt. - Est verificando nossos olhos. Est vendo se eles reluzem!
       O homem por fim assentiu.
       - Voc est certo - disse ele. - E fico satisfeito em dizer que no reluzem em absoluto. timo! - Ele guardou a 45 no coldre. - Meu nome  McCay. Dr. Harlan 
McCay. E presumo que iremos trabalhar juntos. Estou feliz em conhecer vocs, de verdade.
       Com grande alvio, Pitt e Jonathan acompanharam o homem, saindo  luz do sol, onde trocaram apertos de mo entusiasmados. Sheila seguiu-os, mas parecia irritada 
devido  recepo inicial. Ela queixou-se que ele a deixara apavorada.
       - Sinto muito - desculpou-se Harlan. - No era minha inteno assust-los, mas tomar cuidado  uma necessidade dos tempos. Mas isso agora ficou para trs.vou 
lev-los at onde vocs trabalharo. Receio que no tenhamos muito tempo, se quisermos conseguir algum resultado.
       - O senhor tem um laboratrio ou um lugar semelhante para trabalhar? - perguntou Sheila, seu humor desanuviando-se.
       - Tenho - disse Harlan. - Tenho um pequeno laboratrio. Mas precisamos prosseguir por um bom trecho. Fica a uns vinte minutos daqui. - Ele abriu a porta deslizante 
da van e entrou. Pitt acomodou-se ao volante, Sheila sentou-se no banco do passageiro dianteiro e Jonathan juntou-se a Harlan.
       Pitt ligou o motor.
       - Para onde vamos? - indagou ele.
       - Em frente - disse Harlan. - Eu aviso quando for para virar.
       - O senhor clinicava num consultrio particular antes de toda essa confuso? - perguntou Sheila, quando a van entrava na estrada.
       - Sim e no - respondeu Harlan. - A primeira parte de minha vida profissional eu passei na Universidade da Califrnia, em Los Angeles, numa posio acadmica. 
Tive formao em medicina interna, com subespecialidade em imunologia. Entretanto, cerca de cinco anos atrs, me dei conta de que estava cansado daquilo, e ento 
vim para c e comecei a exercer clnica mdica numa cidadezinha chamada Paswell.  s um ponto minsculo no mapa. Trabalhei muito com os ndios nas reservas que 
tm ali perto.
       - Imunologia! - exclamou Sheila. Estava impressionada. - No  de admirar que estivesse nos enviando material to interessante.
       - Posso dizer o mesmo em relao a voc - replicou Harlan. - Qual a sua formao?
       - Infelizmente, medicina de emergncia na maior parte - admitiu Sheila. - No entanto, cheguei a fazer residncia em medicina interna.
       - Emergncia! - exclamou Harlan. - Ento estou ainda mais impressionado com a sofisticao de seus dados. Pensei que estava me comunicando com um colega imunologista.
       - Receio que os mritos no sejam meus - disse Sheila. -A me de Jonathan estava conosco ento, e era virologista. Foi ela que fez a maior parte do trabalho.
       - Creio que no devo perguntar onde ela est agora - disse Harlan.
       - No sabemos onde ela est-apressou-se a dizer Jonathan.
       - Ela foi a uma farmcia na noite passada buscar alguns remdios e no voltou.
       - Lamento - solidarizou-se Harlan.
       - Ela ir entrar em contato comigo pela Internet - replicou Jonathan, sem querer perder as esperanas.
       Seguiram por alguns minutos em silncio. Ningum queria contradizer o garoto.
       - Estamos indo para Paswell agora? - perguntou Sheila. A idia de irem para uma cidadezinha era-lhe muito atraente. Queria um banho e uma cama.
       - No, pelo amor de Deus! - respondeu Harlan. - Todo mundo est infectado por l.
       - Como o senhor conseguiu no ser infectado? - indagou Pitt.
       - Pura sorte, a princpio - disse Harlan. - Por acaso eu estava com um amigo no momento em que ele foi espetado por um daqueles discos negros, ento passei 
a fugir deles como se foge de uma praga. Ento, quando comecei a ter uma vaga idia do que estava acontecendo e de que no havia nada que eu pudesse fazer, me refugiei 
no deserto. E  onde estou, desde ento.
       - E como, daqui do deserto, o senhor podia estar nos pedindo e enviando todas aquelas informaes? - perguntou Sheila.
       - Eu j lhe disse: tenho um pequeno laboratrio.
       Sheila olhou pela janela da van, do lado onde estava sentada. A paisagem montona do deserto estendia-se em direo s montanhas distantes. No havia construes 
ali, muito menos um laboratrio biolgico. Ela comeou a se perguntar o que haveria por baixo daquele emaranhado de cabelos grisalhos de Harlan.
       - Na verdade, tenho uma notcia encorajadora - disse Harlan. - Assim que vocs me forneceram a seqncia do aminocido da protena ativadora, e eu pude produzi-la, 
desenvolvi um anticorpo monoclonal um tanto rudimentar.
       A cabea de Sheila virou-se bruscamente na direo de Harlan. Ela estudou aquele homem do deserto, o rosto vincado e curtido, os olhos azuis, a barba por 
fazer.
       - Tem certeza? - indagou ela.
       -  claro que tenho. Mas no se entusiasme demais, pois no se trata de algo to especfico quanto eu gostaria que fosse. Mas funciona. O mais importante 
 que provei que a protena  antignica o bastante para promover uma resposta imunognica num camundongo. S preciso selecionar um linfcito B melhor para produzir 
meu hibridoma.
       Pitt arriscou um rpido olhar na direo de Sheila. Apesar de ter feito alguns cursos de biologia avanada, ele no tinha a menor idia do que Harlan estava 
falando ou mesmo se aquilo fazia sentido. Entretanto, era bvio que Sheila estava extraordinariamente impressionada.
       - Para produzir um anticorpo monoclonal so necessrios reagentes e outros materiais sofisticados, como uma fonte de clulas de mieloma - observou Sheila.
       - Sem dvida - concordou Harlan. - Vire  direita aqui, Pitt, pouco depois daquele cacto.
       - Mas no tem estrada ali - objetou Pitt.
       - Um mero tecnicismo - replicou Harlan. - Vire assim mesmo.
       Cassy despertou de um rpido cochilo, levantou-se da cama e dirigiu-se  janela grande, de vrias vidraas. Ela se encontrava num quarto de hspedes no segundo 
andar da manso, que dava para o lago.  esquerda, podia ver o trnsito de pedestres indo e vindo do porto, em fila nica. Diretamente  sua frente, sua viso da 
propriedade- era limitada por uma rvore alta e frondosa.  direita, via-se a ponta do deque que circundava a piscina, assim como cerca de cem metros do gramado, 
antes de este juntar-se a uma floresta de pinheiros.
       Ela consultou o relgio em seu pulso. Perguntou-se quando comearia a se sentir mal. Tentou lembrar o intervalo entre o momento em que Beau fora espetado 
e seus primeiros sintomas, mas no conseguiu. Tudo que ele lhe disse foi que se sentira mal na sala de aula. Ela no sabia em que aula.
       Voltando  porta, tornou a girar a maaneta. Ainda estava trancada com tanta segurana como quando fora posta ali. Dando meia-volta, ela se recostou na porta 
e olhou  sua volta. Tratava-se de um quarto generoso, de teto alto, mas, exceto pela cama, estava completamente vazio. E a prpria cama consistia num colcho nu, 
sobre um estrado de molas.
       O breve cochilo havia reanimado Cassy at certo ponto. Ela sentia uma espcie de depresso e raiva. Pensou em tornar a se deitar, mas no acreditava que pudesse 
dormir. Em vez disso, retornou  janela.
       Percebendo que no havia fechadura, testou a janela, que, para sua surpresa, abriu-se com facilidade. Debruando-se sobre o peitoril, ela olhou para o cho. 
Cerca de seis metros abaixo, havia um pavimento de lajes que interligava a varanda dos fundos  da frente e que era margeado por uma balaustrada de calcrio. Seria 
uma queda muito dura se ela tentasse saltar, mas Cassy pensou srio naquela idia. A morte talvez fosse prefervel ao destino de tornar-se um deles. O problema era 
que uma queda de seis metros provavelmente apenas mutilaria, no mataria.
       Cassy ergueu os olhos e examinou a rvore com mais ateno. Um galho robusto chamou-lhe a ateno em particular, projetando-se do tronco e arqueando-se diretamente 
para a janela e ento desviando-se para a direita. Seu interesse estava voltado para uma curta extenso horizontal, cerca de dois metros de onde Cassy se encontrava.
       A questo que ocorreu a Cassy era se poderia saltar da janela, agarrar o galho e segurar-se a ele. Ela no sabia. Nunca fizera nada assim em toda a sua vida 
e o simples fato de a idia lhe ter ocorrido a surpreendia. No entanto, aquelas circunstncias no eram normais, e ela no demorou a animar-se. Afinal, parecia-lhe 
possvel, principalmente depois de todo o trabalho com pesos que vinha fazendo na academia nos ltimos seis meses, com o incentivo de Beau.
       Alm disso, pensou Cassy, o que aconteceria se no conseguisse? Suas perspectivas presentes eram sombrias. Chocar-se contra a balaustrada no parecia muito 
pior e talvez fizesse mais do que machuc-la.
       Subindo no parapeito, Cassy empurrou a folha da janela at sua altura mxima, criando uma abertura quadrada de cerca de um metro e meio de lado. Daquela posio, 
o cho parecia dramaticamente mais distante.
       Ela fechou os olhos. Seu corao estava disparado e a respirao, acelerada. Sua coragem vacilou. Lembrou-se de certa vez em que fora ao circo ainda criana, 
quando vira os trapezistas, e pensara que nunca poderia fazer aquilo. Em seguida, porm, pensou em Eugene e Jesse, e naquilo em que Beau estava se transformando. 
Pensou no horror de perder a prpria identidade.
       com sbita deciso, Cassy abriu os olhos e saltou no ar.
       Pareceu-lhe transcorrer uma eternidade antes que suas mos fizessem contato com a rvore. Talvez recorrendo a instintos arbreos que ela no sabia possuir, 
Cassy calculara a distncia com perfeio. Suas mos alcanaram o galho no lugar certo e ela o agarrou. Agora a questo era se poderia manter-se segura, enquanto 
suas pernas balanavam-se abaixo dela.
       Houve alguns momentos de terror antes que a oscilao parasse. Ela conseguira! Mas ainda no havia acabado. Estava a seis metros do cho, embora agora estivesse 
suspensa sobre a grama e no sobre o calamento.
       Balanando as pernas para ajudar a impulsionar o corpo, Cassy deslizou pelo galho at alcanar um ponto em que pde apoiar o p direito num galho mais baixo. 
Dali foi relativamente fcil descer pela rvore e por fim saltar para a grama.
       No momento em que seus ps tocaram o cho, Cassy estava de p e j caminhando. Ela resistiu  tentao de sair correndo pelo extenso gramado, sabendo muito 
bem que isso apenas chamaria ateno para si. Em vez disso, obrigou-se a seguir sem pressa, depois de pular a balaustrada baixa. Ento seguiu o caminho at a frente 
da casa.
       Imitando o sorriso, o olhar perdido voltado para um plano mdio e o caminhar relaxado dos infectados, Cassy misturou-se  multido de pessoas infectadas que 
se dirigiam ao porto. Seu corao quase saltava pela boca e ela estava aterrorizada, mas o artifcio funcionou. Ningum prestou ateno nela. A parte mais difcil, 
porm, era forar-se a no olhar  sua volta, principalmente para os ces.
       - Como sabe para onde estamos indo? - perguntou Pitt. Haviam percorrido quilmetros de uma trilha que, em certos pontos, mal se distinguia do deserto propriamente 
dito.
       - Estamos quase l - disse Harlan.
       - Ah, por favor! - exclamou Sheila, impaciente. - Estamos no meio do maldito deserto. Sem a estrada pavimentada, isso aqui se parece mais com o fim do mundo 
do que a rea em torno do posto de gasolina abandonado. Isso  algum tipo de brincadeira?
       - No  nenhuma brincadeira - disse Harlan. - Tenha pacincia! Estou oferecendo a todos vocs uma chance de ajudar a salvar a raa humana.
       Sheila lanou um olhar a Pitt, mas a ateno deste estava totalmente concentrada na trilha. Sheila deixou escapar um sonoro suspiro. Justo quando ela comeava 
a olhar Harlan com simpatia, estava ficando claro que ele os estava conduzindo a uma tentativa infrutfera. No havia laboratrio ali no deserto. A situao toda 
era absurda.
       - OK - disse Harlan. - Pare ali, ao lado daquele cacto florido.
       Pitt fez o que lhe era mandado. Pisou no freio e desligou o motor.
       - Muito bem. Desam todos - ordenou Harlan, abrindo a porta de correr e saltando para a areia. Jonathan seguiu-o imediatamente.
       - Vamos - Harlan encorajou os outros.
       Sheila e Pitt entreolharam-se, revirando os olhos. Estavam parados no meio do deserto. Exceto por algumas pedras grandes e arredondadas espalhadas aqui e 
ali, um punhado de cactos e algumas dunas movedias, nada havia em torno deles.
       Harlan caminhara cerca de seis metros antes de se voltar. Surpreendeu-se por ningum o estar seguindo. Jonathan saltara da van, mas, como os outros no haviam 
se movido, ele hesitou.
       - Pelo amor de Deus! - queixou-se Harlan. - Do que vocs precisam? De um convite impresso?
       Sheila suspirou e desceu do veculo. Pitt seguiu-lhe o exemplo. Em seguida, os trs acompanharam Harlan, que parecia dirigir-se a lugar nenhum.
       Sheila enxugou o suor da testa.
       - No sei o que pensar disso tudo - sussurrou ela. - Num minuto esse sujeito parece um enviado de Deus, no outro parece totalmente biruta. E, para completar, 
aqui est mais quente que o inferno.
       Harlan parou e esperou que os outros o alcanassem. Apontou para o cho sob seus ps e disse:
       - Bem-vindos ao Laboratrio de Reao  Guerra Biolgica Washburn-Kraft.
       Antes que algum pudesse responder quele comentrio absurdo, Harlan abaixou-se e agarrou uma argola camuflada. Ento puxou-a para cima e uma poro circular 
do cho do deserto ergueu-se. Ali debaixo havia uma abertura arredondada, revestida com ao inoxidvel. Apenas o topo de uma escada era visvel.
       Harlan fez um gesto abrangente com a mo.
       - Toda essa rea que vai daqui at alguns quilmetros de Paswell encontra-se repleta de instalaes subterrneas. Esse deveria ser um grande segredo, mas 
os ndios nativos o conheciam.
       - Trata-se de um laboratrio operante? - interrogou Sheila. Aquilo era bom demais para ser verdade.
       - Ele estava sendo mantido numa espcie de suspenso temporria das funes vitais - informou Harlan. - Foi construdo no auge da guerra fria e ento considerado 
suprfluo quando a ameaa de uma guerra bacteriolgica contra os Estados Unidos diminuiu. Exceto por alguns poucos burocratas que mantinham o lugar abastecido, foi 
praticamente esquecido; pelo menos,  essa a minha avaliao da situao. Seja como for, depois que toda essa confuso comeou, vim para c e o pus em funcionamento 
a todo vapor. Portanto, respondendo  sua pergunta: sim, trata-se de um laboratrio operante.
       - E  essa a entrada? - perguntou Sheila, inclinando-se sobre a borda da abertura e olhando l para baixo. Dali podiam-se ver luzes. A escada descia em linha 
reta por uns dez metros.
       - No, essa  uma sada de emergncia, alm de ser uma abertura para ventilao - disse Harlan. - A entrada principal fica perto de Paswell, mas eu tenho 
medo de us-la e ser visto por algum de meus antigos pacientes.
       - Podemos entrar? - indagou Sheila.
       - Ei,  por isso que estamos aqui - respondeu Harlan. - Entretanto, antes de dar incio ao tour, quero cobrir a van com uma lona para camuflagem.
       Todos desceram a escada, alcanando um corredor branco e sofisticado, iluminado por fileiras de lmpadas fluorescentes. De um compartimento fechado na base 
da escada, Harlan apanhou a lona que mencionara. Pitt voltou  superfcie com ele para ajud-lo.
       - Legal, hein! - disse Jonathan a Sheila, enquanto esperavam. O corredor parecia estender-se infinitamente, em ambas as direes.
       - Mais do que legal - replicou Sheila. -  uma ddiva de Deus. E, se pensarmos que foi construdo para impedir um ataque bacteriolgico dos russos e, em vez 
disso, est sendo usado com o mesmo propsito contra aliengenas,  verdadeiramente irnico.
       Quando Harlan e Pitt tornaram a descer, Harlan levou-os ao que disse ser o sentido norte.
       - Vai levar algum tempo para vocs se orientarem - disse ele. - At l, recomendo que fiquem todos juntos.
       - Onde esto as pessoas que mantinham esse lugar conservado? - indagou Sheila.
       - Elas vinham em turnos, como os sujeitos que costumavam guarnecer os silos subterrneos de msseis - respondeu Harlan. - Mas depois que foram infectados, 
acho que esqueceram do lugar ou ento foram embora da cidade. Comentava-se em Paswell que, por algum motivo, muita gente estava indo para Santa F. Seja como for, 
eles no esto mais por aqui, e a essa altura no creio mais que voltem.
       Chegaram a uma cmara de compresso. Harlan a abriu e fez com que todos entrassem. Ali dentro havia chuveiros e macaces azuis. Harlan fechou a porta e girou 
alguns dispositivos. Ouviu-se o ar entrando no compartimento.
       - Isso era para se certificarem de que nenhum agente de uma guerra bacteriolgica entrasse no laboratrio, exceto em frascos apropriados - disse Harlan. - 
Obviamente essa no  a nossa preocupao no momento.
       - De onde vem a energia? - perguntou Sheila.
       -  nuclear.  mais ou menos como um submarino nuclear. O lugar  totalmente independente do que acontece na superfcie.
       Todos sentiram os ouvidos obstrurem-se  medida que crescia a presso. Quando esta se igualou ao interior do laboratrio, Harlan abriu a porta interna.
       Sheila estava estupefata. Nunca vira um laboratrio assim em toda a sua vida. Era constitudo por uma srie de trs salas imensas, com incubadoras e freezers 
grandes o bastante para que se entrasse neles. E, para aumentar sua surpresa, havia o fato de que todo o equipamento era de ltima gerao.
       - Esses freezers so um pouquinho assustadores - disse Harlan, dando tapinhas numa das portas de ao inoxidvel. - Eles contm praticamente todos os tipos 
de agentes biolgicos latentes conhecidos, tanto bacterianos quanto virais. - Em seguida, apontou para uma outra porta com grandes ferrolhos, como um enorme cofre. 
- Ali h uma biblioteca sobre agentes qumicos. Um dos viles de James Bond faria uma festa a dentro.
       - O que tem atrs daquelas portas? - perguntou Sheila, indicando portas de segurana fechadas a presso, com visores redondos semelhantes a vigias.
       - Essas levam aos quartos de confinamento e a uma pequena enfermaria - informou Harlan. - Creio que consideraram essas instalaes necessrias para o caso 
de algum dos funcionrios sucumbir ao que quer que estivessem tentando dominar.
       - Olhem! - exclamou Jonathan, apontando na direo de uma srie de discos negros posicionados embaixo de uma coifa de exausto.
       - No toquem neles! - advertiu Harlan, ansioso.
       - No se preocupe - disse Jonathan. - Sabemos tudo sobre eles.
       Todos se aproximaram e examinaram a coleo.
       - Eles podem fazer mais do que infectar as pessoas - disse Sheila.
       - Eu que o diga! - replicou Harlan. - Venham comigo.vou lhes mostrar uma coisa.
       Harlan conduziu-os por um corredor curto para o qual davam vrias salas de raios X, assim como um aparelho de ressonncia magntica. Ele abriu a porta da 
primeira sala de raios X Ali dentro, o aparelho estava retorcido, como se houvesse sido derretido e puxado para o prprio centro.
       - Meu Deus! - exclamou Sheila. - Parece exatamente o que ocorreu no quarto da enfermaria estudantil. O senhor sabe como isso aconteceu?
       - Acho que sim - disse Harlan. - Tentei radiografar um daqueles discos pretos e ele no gostou. Isso pode parecer loucura, mas acho que ele criou um buraco 
negro em miniatura. Meu palpite  que essa  a forma como eles chegam e se vo daqui.
       - Legal! - exclamou Jonathan. - E como  que fazem isso?
       - Quisera eu saber - disse Harlan. - Masvou lhes contar a explicao que dei para mim mesmo: De alguma maneira, eles tm a capacidade de gerar energia interna 
suficiente para criar um imenso campo gravitacional instantneo, de modo a implodirem subatomicamente.
       - E para onde vo? - perguntou Jonathan.
       - Bem, essa  uma pergunta difcil - disse Harlan. - Talvez devamos recorrer  teoria do buraco de minhoca do cosmos. Nesse caso, estariam num outro universo 
paralelo.
       - Uau! - tornou a exclamar Jonathan.
       - Isso  um pouco demais para mim - disse Pitt.
       - Para mim tambm - concordou Sheila. - Vamos voltar ao laboratrio. - Quando retornavam, ela perguntou: - E aqui embaixo tem camundongos e clulas de mieloma 
disponveis para a produo de anticorpo monoclonal?
       - Temos mais do que camundongos - disse Harlan. - Temos ratos, cobaias, coelhos e at mesmo alguns macacos. Na verdade, metade do meu tempo  gasto alimentando 
esses camaradas.
       - E quanto a acomodaes? - indagou Sheila. Cansada e suja como estava, no podia deixar de pensar no prazer de um banho de chuveiro e um cochilo.
       - Por aqui - disse Harlan, conduzindo-os ao corredor principal, onde atravessaram uma porta dupla. Primeiro chegaram a uma sala de estar gigantesca, com uma 
imensa TV e toda uma parede repleta de livros. Ao lado dessa sala, uma rea de refeies, adjacente a uma moderna cozinha. Alm da sala de jantar e levando a um 
corredor central, havia vrios quartos, todos com seu prprio banheiro.
       - Ei, est perfeito - disse Jonathan, vendo que cada quarto possua seu prprio terminal de computador.
       - Isso  bom - concordou Pitt, olhando para a cama. -  muito bom.
       Assim que Cassy se viu fora do instituto, conseguiu encontrar um carro com facilidade. Havia centenas deles simplesmente abandonados, como se muitas das pessoas 
infectadas no estivessem mais interessadas neles. Aquela gente parecia ter preferncia por caminhar.
       Logo que encontrou um telefone, ela tentou ligar para a cabana. Depois de deixar o telefone tocar vinte vezes, desistiu. Era evidente que no havia ningum 
l, o que s podia significar uma coisa: que tinham sido descobertos. Aquela constatao foi muito dolorosa para Cassy e, por mais de uma hora, ela ficou sentada 
no carro do qual se apoderara sentindo-se deprimida ao ponto da paralisia. Seu desejo de falar pelo menos uma vez mais com Pitt e com os outros fora frustrado.
       O que por fim arrancou Cassy das profundezas de seu torpor foi uma sbita sensao de formigamento em seu nariz, seguida por uma srie de espirros violentos. 
Instantaneamente ela soube o que estava acontecendo: os sintomas da gripe aliengena estavam comeando.
       Cassy voltou ao telefone e, apesar de saber que era em vo, tentou ligar novamente para a cabana. Como previra, continuou sem obter resposta. Porm, enquanto 
o telefone tocava, ela pensou que havia pelo menos uma pequena possibilidade de que, mesmo que a cabana tivesse sido descoberta, um ou mais deles houvesse escapado. 
Foi ento que pensou naquilo que Jonathan tivera tanta pacincia em lhe ensinar: como entrar na Internet.
       Quando Cassy voltou ao carro, a irritao que sentia no nariz j se espalhara para a garganta, e ela comeou a tossir. A princpio era s uma espcie de pigarro, 
mas logo progrediu, transformando-se em tosse.
       Cassy seguiu para a cidade. Ainda havia algum trnsito de automveis, mas o trfego era leve. Em contraste, viam-se milhares de pessoas perambulando pelas 
ruas e outras atarefadas com todas as necessidades da vida. Muitos faziam trabalhos de jardinagem. Todos sorriam e havia pouca conversa.
       Cassy estacionou o carro e saltou para a calada. Embora muitos estabelecimentos comerciais ainda estivessem funcionando, outros estavam desertos, como se 
os funcionrios houvessem se levantado num momento arbitrrio e atravessado a porta. Nada tinha sido trancado.
       Um dos estabelecimentos vazios era uma tinturaria. Cassy entrou, mas no achou o que estava procurando. Porm, encontrou, na porta ao lado, uma firma de fotocpias. 
O que ela queria era um computador conectado a um Modem.
       Cassy sentou-se e ativou a tela. Ao deixar a loja, os funcionrios no haviam nem mesmo desligado o equipamento. Lembrando-se do nome que Jonathan usara em 
suas conexes na Internet, Jumpin Jack Flash, Cassy comeou a digitar.
       - Isso  tudo que voc tem? - perguntou Sheila a Harlan, enquanto segurava um pequeno frasco contendo um lquido claro.
       - Por enquanto,  s - confirmou Harlan. - Mas tenho um grupo de camundongos com hibridomas implantados em suas cavidades-eritoneais, assim como um monte 
de culturas de clulas cozinhando na incubadora. Certamente podemos extrair mais desse anticorpo monoclonal. Mas a sua ao ainda  fraca. Eu preferiria tentar encontrar 
uma clula produtora de anticorpos mais vida.
       Sheila, Pitt e Jonathan haviam tomado banho e descansado um pouco, mas estavam muito eltricos para conseguir dormir. Sheila estava especialmente ansiosa 
para comear a trabalhar e instara Harlan a mostrar-lhe tudo o que fizera.
       Jonathan e Pitt seguiram-nos de perto. Pitt estava tendo dificuldades em acompanhar as explicaes de Harlan, enquanto Jonathan nem mesmo tentava. Como no 
havia estudado biologia a fundo, aquilo tudo lhe soava como grego. Ento Jonathan ignorou a todos, sentou-se diante de um dos muitos terminais disponveis e comeou 
a digitar.
       -vou mostrar a vocs dois o processo usado para selecionar linfcitos B do bao emulsificado de camundongos - ia dizendo Harlan. - E, por sua vez, vocs podem 
me mostrar os virions que, junto com a me de Jonathan, conseguiram isolar.
       - No temos muita certeza de que os virions se encontrem na cultura tecidual - informou Sheila. - S suspeitamos que estejam. Estvamos prestes a isol-los.
       - Bem, podemos verificar isso facilmente - replicou Harlan.
       - Ah, meu Deus! - gritou Jonathan, de repente. Assustados com o grito, todos olharam na direo de Jonathan, cujos olhos estavam grudados no monitor.
       - O que aconteceu? - perguntou Pitt, nervoso.
       -  uma mensagem de Cassy! - gritou Jonathan.
       Pitt praticamente saltou por sobre uma bancada do labora trio, parando ao lado de Jonathan. Ento fitou o monitor com olhos arregalados.
       - Ela est digitando uma mensagem neste instante - informou Jonathan. - Ou seja, ela tambm est diante do computador neste exato momento.
       - Isso  fantstico - Pitt conseguiu dizer.
       - Que garota legal - comentou Jonathan. - Est fazendo exatamente o que ensinei a ela.
       - O que ela est dizendo? - perguntou Sheila. - Est dizendo onde est?
       - Ah, no! - gemeu Jonathan. - Ela disse que foi contaminada.
       - Droga! - afligiu-se Pitt, rilhando os dentes.
       - Diz que j est experimentando os primeiros sintomas da gripe - continuou Jonathan. - Ela quer nos desejar boa sorte.
       - Entre em contato com ela! - gritou Pitt. - Agora, ao vivo, antes que ela finalize.
       - Pitt, isso  intil - disse Sheila. - S vai tornar as coisas mais difceis. Ela est infectada!
       - Ela pode estar infectada, mas est claro que ainda  Cassy - retrucou Pitt. - De outra forma, no estaria nos desejando boa sorte. - Ele fez com que Jonathan 
chegasse para um lado e comeou a digitar, furiosamente.
       Jonathan ergueu os olhos para Sheila, que balanou a cabea. Embora soubesse que aquilo estava errado, no tinha coragem de impedi-lo.
       Para Cassy, a imagem no monitor era um borro intermitente.  medida que comeara a digitar, as lgrimas haviam aflorado. Fechando os olhos por um instante 
e enxugando-os com as costas da mo, ela tentou controlar-se. Queria deixar uma ltima mensagem para Pitt. Queria lhe dizer que o amava.
       Abrindo os olhos e levando as mos outra vez ao teclado, Cassy estava prestes a digitar a ltima frase quando uma mensagem simultnea surgiu na tela. Ela 
fitou, atnita, as letras que diziam: "Cassy, sou eu, Pitt. Onde voc est?"
       Foram os segundos mais longos da vida de Pitt. Ele olhava fixamente para o monitor, rezando para que ela respondesse. Ento, como se atendendo s suas preces, 
os caracteres negros comearam a saltar do fundo luminoso.
       -  isso a! - gritou Pitt, enquanto desferia no ar um golpe com a mo fechada. - Eu a peguei. Ela sabe que estou aqui.
       - Que ela est dizendo? - Sheila aventurou-se a perguntar. Teve medo de fazer aquela pergunta porque tinha certeza de que esse contato iria resultar em sofrimento 
e problemas.
       - Est dizendo que no est muito longe daqui - informou Pitt. -vou lhe dizer que venha ao meu encontro.
       - Pitt, no! - gritou Sheila. - Mesmo que ela ainda no seja um deles agora, logo, logo vai ser. Voc no pode se arriscar. E com certeza no pode expor este 
laboratrio.
       Pitt olhou para Sheila. Sua dor emocional era palpvel. Sua respirao saa em curtos arquejos.
       - No posso abandon-la-disse ele. - Simplesmente, no posso.
       - Mas precisa - insistiu Sheila. - Voc viu o que aconteceu a Beau.
       Os dedos de Pitt pairavam acima do teclado. Ele nunca experimentara uma indeciso to angustiante.
       - Esperem - disse Harlan, subitamente. - Pergunte a ela quanto tempo se passou desde que foi infectada.
       - Que diferena isso faz? - perguntou Sheila, irritada com a interferncia de Harlan num momento como aquele.
       - Pergunte a ela - insistiu Harlan, aproximando-se e parando atrs de Pitt.
       Pitt digitou a pergunta. A resposta veio instantaneamente: cerca de quatro horas. Harlan consultou o relgio em seu pulso e mordeu a parte interna da bochecha, 
enquanto pensava.
       - O que est passando por sua cabea? - perguntou Sheila, fitando Harlan nos olhos.
       - Tenho uma pequena confisso a fazer - anunciou ele.
       - Eu no contei toda a verdade sobre aqueles discos negros. Um deles me espetou, quando eu recolhia o ltimo lote.
       - Ento voc  um deles! - exclamou Sheila, horrorizada.
       - No, pelo menos no creio que seja - afirmou Harlan.
       - Combinei meu fraco anticorpo monoclonal  protena ativadora, e desde ento venho tomando injees dessa droga. Comecei a fungar, mas no cheguei a desenvolver 
a gripe.
       - Isso  fantstico! - exclamou Pitt. - Deixe-me contar a Cassy.
       - Espere! - ordenou Sheila. - Quanto tempo depois de ser espetado voc auto-aplicou o anticorpo?
       - Essa  minha nica preocupao - disse Harlan. - Houve um intervalo de trs horas. Eu me encontrava em Paswell quando aconteceu. Levei trs horas para chegar 
at aqui.
       - Com Cassy j se passaram quatro horas - lembrou Sheila. - O que voc acha?
       - Acho que vale a pena tentar - afirmou Harlan. - Podemos coloc-la num dos quartos de confinamento e ver o que acontece. Se no funcionar, no tem como ela 
sair de l. Aqueles quartos so como masmorras.
       Pitt no precisava de nenhum outro incentivo. Sem mais palavras, comeou a contar a Cassy que dispunham de um anticorpo para a protena e a lhe dar as indicaes 
de como chegar ao posto de gasolina abandonado.
       - Por que voc no nos contou que fora espetado? - interrogou Sheila. Ela no sabia se devia sentir-se zangada ou encorajada por essa nova informao.
       - Para ser franco - disse Harlan -, temi que vocs no acreditassem que eu estivesse bem. Mas eu ia lhes contar, mais cedo ou mais tarde. Na verdade, o fato 
de que a droga aparentemente funcionou me faz sentir um tanto otimista.
       - Bem, eu diria o mesmo! - exclamou Sheila. -  a primeira informao positiva at aqui.
       Pitt finalizou sua comunicao com Cassy e foi at Sheila e Harlan.
       - Espero que tenha sido o mais discreto possvel com a indicao de como chegar aqui - disse Harlan. - com certeza no queremos um mundo de pessoas infectadas 
l no posto  sua espera, quando voc chegar.
       - Tentei ser - disse Pitt. - Mas ao mesmo tempo quis me certificar de que Cassy encontraria o lugar.  to ermo por l.
       - Na verdade, o risco provavelmente  muito pequeno - tranqilizou-o Harlan. - Minha opinio  de que as pessoas infectadas no esto usando a Rede. Aparentemente, 
no precisam delapois parecem saber o que os outros esto pensando.
       - O senhor no vem comigo? - Pitt indagou a Harlan.
       - Acho que  melhor no - disse Harlan. - S resta uma dose incompleta de meu anticorpo.vou ter de me ocupar em sua produo para que haja uma quantidade 
maior disponvel quando sua amiga chegar aqui. Isso significa que precisar encontrar o caminho sozinho. Acha que consegue?
       - Parece que no tenho muita escolha - replicou Pitt. Harlan entregou-lhe o frasco do anticorpo que lhe restava, junto com uma seringa.
       - Espero que saiba como aplicar uma injeo - observou ele.
       Pitt comentou que acreditava que pudesse faz-lo pois trabalhara no hospital durante trs anos.
       -  melhor aplicar por via intravenosa - sugeriu Harlan. - Mas esteja preparado para uma ressuscitao boca a boca se ela apresentar uma reao anafiltica.
       Pitt visivelmente engoliu em seco, mas assentiu.
       - E  bom tambm voc levar isso - disse Harlan, desafivelando o coldre em que se encontrava a Colt 45. - Aconselho-o a us-la, se precisar. Lembre-se: as 
pessoas infectadas so muito incisivas quando se trata de infect-lo, se perceberem que voc ainda no foi contaminado.
       - E quanto a mim? - indagou Jonathan. -vou com Pitt. Ele pode ter problemas em encontrar o caminho de volta, e quatro olhos so melhores do que dois.
       - Acho que  melhor voc ficar - opinou Sheila. - Temos tarefas de sobra para voc. - Ela enrolou as mangas. - E vamos estar muito ocupados.
       Uma vez que Cassy fora localizada, trazida para o instituto e subseqentemente infectada, o progresso no Prtico acelerou-se. Embora os milhares de trabalhadores 
no precisassem de que lhes fosse dito individualmente o que fazer, no fim suas instrues vinham mesmo era de Beau. Por conseqncia, era preciso que este passasse 
uma boa parte de seu tempo nas proximidades da construo e que sua mente estivesse isenta de pensamentos irrelevantes. com Cassy no andar de cima, prestes a se 
tornar um dos infectados, Beau desempenhava suas responsabilidades com facilidade.
       O avano chegara mesmo a um ponto em que era possvel energizar brevemente uma parte das placas eltricas. O teste fora um sucesso, embora indicasse que algumas 
partes do sistema precisassem de uma maior blindagem. Aps comunicar essas instrues, Beau fez uma pausa.
       Subiu a escada principal  maneira normal dos bpedes, embora tivesse conscincia do fato de que provavelmente seria mais fcil para ele agora subir pulando, 
galgando seis ou oito degraus de uma s vez. Houvera um considervel aumento de seus quadrceps.
       -Alcanando o corredor do andar superior, ele pressentiu que havia alguma coisa errada. No percebera antes, no andar de baixo, porque o nvel de comunicao 
no-falada em redor do Prtico era muito intenso. A essa altura, ele j deveria estar recebendo estmulos enviados pela conscincia coletiva desenvolvendo-se em 
Cassy. Como no houvesse absolutamente nada, ele temeu que ela tivesse morrido.
       Beau apressou o passo. Seu medo era de que talvez Cassy abrigasse algum gene desastroso ainda por se manifestar. Naquele caso, o vrus teria ento se autodestrudo. 
Com uma sensao de pnico que ele no compreendia, Beau lutou para abrir a porta trancada. Preparando-se para depararse com o corpo inerte cado sobre o colcho, 
ficou ainda mais surpreso ao encontrar o quarto vazio.
       Beau olhou pela janela aberta. Dirigiu-se at ela e olhou para o cho l fora. Viu a calada e a balaustrada. Em seguida, seus olhos subiram pela rvore e 
alcanaram o galho. De repente, ele soube. Ela havia fugido.
       Deixando escapar um grito que ecoou pela enorme manso, ele saiu do quarto correndo e disparou escadas abaixo. Estava dominado pela raiva e esta no era saudvel 
para o bem coletivo. A conscincia coletiva raras vezes havia experimentado a raiva e no sabia como enfrent-la.
       Beau entrou no salo de baile e instantaneamente a azfama cessou. Todos os olhos se voltaram para ele, sentindo a mesma raiva, mas sem ter idia do porqu. 
As narinas de Beau tremiam, enquanto seus us olhos procuravam Alexander. Por fim, avistou-o na bancada dos controles de comando.
       Com arrogncia Beau dirigiu-se at seu tenente e agarrou-lhe o brao com seus dedos serpentiformes.
       - Ela se foi! Quero que a encontrem! Agora!
       
       
       19
       12:45
       
       Pitt chutou alguns seixos no caminho que levava da estrada ao velho posto de gasolina. Abaixou-se e recolheu outros, atirandoos distraidamente contra as antigas 
bombas. As pedras retiniram contra o metal enferrujado.
       Protegendo os olhos contra o sol, que a essa altura estava significativamente mais opressivo em calor e intensidade do que duas horas antes, Pitt esquadrinhou 
a estrada de pista dupla at o ponto em que ela desaparecia no horizonte. Estava comeando a se preocupar. Pensou que ela j estaria l quando ele chegasse.
       No momento em que ia se abrigar na sombra da varanda, seus olhos perceberam o claro do sol refletindo num pra-brisa. Um veculo estava se aproximando.
       Inconscientemente, a mo de Pitt envolveu a coronha da Colt. Havia sempre a possibilidade de no ser Cassy.
        medida que o veculo foi chegando mais perto, Pitt pde perceber que se tratava de uma perua de ltimo tipo, com pneus grandes e um compartimento de bagagem 
no teto. O carro vinha em grande velocidade.
       Por um momento, Pitt considerou a idia de se esconder no interior do prdio, assim como Harlan fizera, mas logo desistiu da idia. Afinal, a van de Jesse 
estava parada ali em frente, bem  vista.
       O veculo entrou no posto, parando. Pitt s teve certeza de que era Cassy quando ela abriu a porta e o chamou, gritando. Os vidros do carro eram escuros.
       Pitt alcanou o veculo a tempo de ajudar Cassy a descer. Ela tossia e seus olhos estavam avermelhados.
       - Talvez voc no devesse chegar muito perto - disse Cassy, numa voz profundamente anasalada. - No temos certeza se isso pode passar de uma pessoa para outra, 
como uma infeco.
       Ignorando seu comentrio, Pitt envolveu-a num caloroso abrao. O nico motivo por que a soltou logo foi sua preocupao em administrar-lhe o anticorpo.
       - Eu trouxe um pouco do medicamento que mencionei pela Internet - disse Pitt. - Obviamente, acreditamos que  melhor injet-lo em seu sistema o mais rpido 
possvel, e isso significa que devemos faz-lo por via intravenosa.
       - Onde vamos fazer isso? - indagou Cassy.
       - Na van.
       Deram a volta pelo veculo, at a porta de correr.
       - Como est se sentindo? - perguntou Pitt.
       - Pssima - admitiu Cassy. - No consegui ficar confortvel naquele 4x4; o percurso  muito duro. Todos os meus msculos esto doendo. E tambm estou com 
febre. H meia hora, eu estava tremendo, se  que voc pode acreditar nisso neste calor.
       Pitt abriu a porta da van e fez com que Cassy se deitasse no banco do veculo. Preparou a seringa, mas ento, aps fazer o torniquete, confessou sua inexperincia 
em venopuno.
       - No quero saber - disse Cassy, virando o rosto para o outro lado. - Simplesmente faa o que tem de fazer. Afinal, voc vai ser mdico um dia.
       Pitt assistira  administrao intravenosa de medicamentos milhares de vezes, mas nunca tentara faz-lo. A idia de furar a pele de outra pessoa j era assustadora, 
quanto mais a de uma pessoa que ele amava. Mas as conseqncias de no faz-lo sobrepujaram qualquer incerteza que sentia. No final, tudo correu bem e Cassy lhe 
disse isso.
       - Voc s est sendo boazinha - disse Pitt.
       - No,  srio. Eu quase no senti. - Mal acabou de elogilo, Cassy teve um explosivo acesso de tosse que a deixou ofegante.
       Pitt ficou momentaneamente apavorado com a possibilidade de que ela estivesse tendo uma reao  injeo, como Harlan advertira. Embora Pitt houvesse recebido 
treinamento em ressuscitao cardiopulmonar, na verdade tambm nunca pusera esses conhecimentos em prtica. Ansioso, ele segurou-lhe a mo, em busca do pulso. Felizmente, 
este permanecia firme e regular.
       - Me desculpe - Cassy conseguiu dizer, quando recuperou o flego.
       - Voc est bem? - perguntou Pitt. Cassy assentiu.
       - Graas a Deus! - exclamou Pitt, engolindo para aliviar a garganta seca. - Voc fica aqui no banco de trs. Temos um trajeto de uns vinte minutos pela frente.
       - Para onde estamos indo? - indagou Cassy.
       - Para um lugar que  como uma resposta a uma prece - respondeu Pitt. - Trata-se de um laboratrio subterrneo construdo para enfrentar uma guerra qumica 
ou biolgica.  perfeito para o que temos de fazer. Ou seja, se no conseguirmos fazer l, ento no conseguiremos em lugar nenhum. De to bom que . Alm disso, 
tem uma enfermaria, onde podemos cuidar de voc.
       Pitt estava subindo para se acomodar ao volante, quando Cassy segurou-lhe o brao.
       - E se esse anticorpo no funcionar? - perguntou ela. - Voc me avisou que era fraco e muito rudimentar. O que faro comigo se eu me tornar um deles? No 
quero pr em risco o que vocs todos esto fazendo.
       - No se preocupe - tranqilizou-a Pitt. - Tem um mdico chamado Harlan McCay que tambm foi espetado e ainda est bem, aps receber o anticorpo. Mas se o 
pior acontecer, existe por l o que ele chama de quartos de confinamento. Mas tudo vai ficar bem. - Pitt deu um tapinha em seu ombro.
       - Esquea os clichs, Pitt - disse Cassy. - com tudo que est acontecendo, nem tudo vai ficar bem.
       Pitt encolheu os ombros. Sabia que ela tinha razo. Ele acomodou-se ao volante, deu a partida no veculo e entrou na estrada. Cassy permaneceu deitada no 
banco traseiro.
       - Espero que tenha aspirina nesse lugar para onde estamos indo - disse ela. Sentia-se mal como no se lembrava de jamais ter estado em toda sua vida.
       - Tenho certeza que sim - afirmou Pitt. - Se a enfermaria for como o restante do lugar, ento tem de tudo.
       Seguiram em silncio por alguns quilmetros. Pitt tinha a ateno concentrada na estrada, com medo de perder o local onde deveria tomar a trilha. Quando ia 
para o posto, ele erguera um pequeno monte de pedras para marcar o local, mas agora temia que aquele recurso no fosse suficiente. As pedras eram pequenas e tudo 
tinha a mesma colorao.
       - No posso deixar de pensar que minha vinda para c tenha sido uma m idia - disse Cassy, aps outro acesso de tosse.
       - No fale assim! - pediu Pitt. - No quero ouvir voc falar isso.
       - Faz mais de seis horas agora. Talvez muito mais. Eu no tinha muita certeza da hora quando fui espetada. Tanta coisa aconteceu.
       - O que houve com Nancy e Jesse? - perguntou Pitt. Era uma pergunta que ele evitara at ali, mas nesse momento queria mudar de assunto.
       - Nancy foi contaminada - disse Cassy. - Eles a espetaram na minha presena. S mais tarde fui entender por que no fizeram o mesmo comigo. com Jesse a histria 
foi outra. Acredito que tenha acontecido com ele o mesmo que com Eugene. Mas no tenho certeza. Eu no vi. S ouvi. E houve tambm um claro de luz. Nancy disse 
que foi o mesmo que ocorreu antes.
       - Harlan acredita que aqueles disquinhos sejam capazes de criar buracos negros em miniatura - contou Pitt.
       Cassy estremeceu. A idia de desaparecer por um buraco negro parecia-lhe o eptome da destruio. At mesmo os tomos do indivduo deixariam de existir no 
universo.
       - Vi Beau outra vez - disse Cassy.
       Pitt virou-se para olhar Cassy antes de voltar a ateno para a estrada. Era a ltima coisa que esperara ouvi-la dizer.
       - Como ele estava? - indagou ele.
       - Horrendo. E as transformaes que sofreu so visveis. Ele est num processo progressivo de mutao. A ltima vez que o vi era apenas um pedacinho de pele 
atrs da orelha. Agora  a maior parte do seu corpo.  estranho, pois as outras pessoas infectadas no pareciam estar mudando. No sei se isso ainda vai acontecer 
ou se tem algo a ver com Beau ter sido o primeiro. Ele  definitivamente o lder. Todos fazem o que ele quer.
       - Beau teve algo a ver com o fato de voc ser contaminada? - perguntou Pitt.
       - Receio que sim - disse Cassy. - Ele cuidou de fazer isso pessoalmente.
       Pitt balanou a cabea de modo imperceptvel. No podia acreditar que seu melhor amigo pudesse fazer uma coisa assim, mas ento lembrou-se de que na verdade 
aquele no era mais seu melhor amigo. Era um aliengena.
       - O mais horrvel para mim foi que ainda havia uma parte do antigo Beau nele - contou Cassy. - Ele chegou a me dizer que sentia a minha falta e que me amava. 
Pode acreditar?
       - No - respondeu Pitt simplesmente, enquanto por dentro enfurecia-se por Beau, mesmo como um aliengena, ainda estar tentando tirar Cassy dele.
       Beau estava de p a um canto, em meio s sombras atrs da unidade de controle do Prtico. Seus olhos cintilavam intensamente. Era difcil para ele concentrar-se 
nos problemas presentes, mas precisava faz-lo. O tempo estava se esgotando.
       - Talvez devssemos tentar carregar algumas das placas eltricas novamente - gritou Randy para Beau, sentado diante dos controles. Uma pequena falha surgira 
e, at aquele momento, Beau ainda no apresentara uma soluo.
       Arrancado de um devaneio com Cassy, Beau tentou pensar. O problema, desde o incio, fora criar energia suficiente para transformar em antigravidade a potente 
e instantnea gravidade de um grupo de discos negros trabalhando em conjunto e, ao mesmo tempo, manter o Prtico intacto. A reao teria de durar apenas um nanossegundo, 
enquanto sugava matria de um universo paralelo, trazendo-a para este. De repente, a resposta ocorreu a Beau: precisavam de uma blindagem maior.
       - Muito bem - disse Randy, satisfeito em obter alguma orientao. Em seguida alertou os milhares de trabalhadores que, de imediato, voltaram em enxame para 
a superestrutura sobre a gigantesca construo.
       - Acha que isso vai funcionar? - perguntou Randy a Beau. Beau comunicou que acreditava que sim. Aconselhou-o a prover de energia todas as placas eltricas 
por um instante, assim que o aumento da blindagem estivesse completo.
       - O que me preocupa  que voc me disse que devemos esperar os primeiros visitantes para esta noite - afirmou Randy. - Seria uma calamidade se no estivssemos 
prontos. Esses indivduos estariam perdidos no vazio como meras partculas primrias.
       Beau resmungou. Estava mais interessado no fato de que Alexander entrara no salo. Beau observou-o aproximar-se. No lhe agradavam as vibraes que estava 
captando. Dava para ver que eles no a haviam encontrado.
       - Seguimos o rastro dela - relatou Alexander, propositadamente permanecendo fora do alcance de Beau. - Isso nos levou ao ponto onde ela se apoderou de um 
veculo. Agora o estamos procurando.
       - Vocs iro encontr-la! - rosnou Beau.
       - Ns iremos encontr-la - repetiu Alexander, num tom de voz tranqilizador. - A essa altura, sua conscincia deve estar se expandindo e isso ir nos ajudar 
bastante.
       - Apenas encontrem-na - disse Beau.
       - Sabe, no tenho uma explicao - declarou Sheila.
       Ela e Harlan encontravam-se sentados no laboratrio, em bancos com rodinhas, que lhes permitiam ir rapidamente de bancada em bancada.
       Harlan tinha o queixo apoiado na mo e mordia a parte interna da bochecha, um hbito seu indicando que estava imerso em pensamentos.
       - Ser que fizemos alguma coisa estpida? - perguntou Sheila.
       Harlan balanou a cabea negativamente.
       - Repassamos nosso protocolo diversas vezes. No foi um problema tcnico. Tem de ser uma descoberta verdadeira.
       - Vamos examinar mais uma vez - disse Sheila. - Eu e Nancy tomamos uma cultura tecidual de clulas nasofarngeas humanas e acrescentamos a protena ativadora.
       - Qual foi o veculo usado para a protena? - indagou Harlan.
       - O meio de cultura tecidual normal - informou Sheila.
       - A protena  plenamente solvel num meio aquoso.
       - Muito bem, e depois?
       - Simplesmente deixamos a cultura incubar - respondeu Sheila. - Pudemos ver que o vrus fora ativado pela rpida sntese do DNA alm do que era preciso para 
a replicao celular.
       - Como vocs testaram isso?
       - Usamos adenovrus inativados para carregar sondas de DNA marcadas com fluorescena para as clulas.
       - E depois? - perguntou Harlan.
       - Foi a que paramos - disse Sheila. - Pusemos as culturas de lado, para incubar por mais tempo, na esperana de obter o vrus.
       - Bem, e de fato conseguiram.
       - , mas olhe para essa imagem. Sob o microscpio eletrnico de varredura, o vrus parece ter passado por um moedor de carne em miniatura. Esse vrus  no-infeccioso. 
Alguma coisa o matou, mas nada havia na cultura que pudesse fazer isso. No faz sentido.
       - No faz sentido, mas meu instinto me diz que isso est tentando nos informar alguma coisa - observou Harlan. - S somos muito estpidos para ver.
       - Talvez devssemos tentar outra vez - sugeriu Sheila.
       - Talvez a cultura tenha aquecido demais no carro, durante a viagem.
       - Voc a embalou muito bem - objetou Harlan. - No creio que seja essa a resposta. Mas, est bem, vamos repetir o procedimento. Alm disso, tenho alguns camundongos 
que venho infectando. Suponho que possamos tentar isolar o vrus a partir deles.
       - Grande idia! - entusiasmou-se Sheila. - Talvez esse processo seja mais fcil.
       - No conte com isso - disse Harlan. - Os camundongos infectados so surpreendentemente fortes e inteligentes. Sou obrigado a mant-los separados e trancados 
a sete chaves.
       - Santo Deus! - espantou-se Sheila. - Est sugerindo que os camundongos tambm esto se tornando aliengenas?
       - Receio que sim. De um modo ou de outro. Meu palpite  que, se houvesse camundongos infectados em quantidade suficiente num s lugar, eles poderiam coletivamente 
agir como um indivduo nico e inteligente.
       - Talvez fosse melhor nos limitarmos s culturas teciduais por ora - disse Sheila. - Seja como for, temos de isolar vrus vivos e infecciosos. Esse tem de 
ser o prximo passo, se quisermos fazer algo em relao a essa infestao.
       O silvo da cmara de compresso sendo pressurizada soou.
       - Deve ser Pitt - gritou Jonathan, correndo para a porta e olhando pela janelinha. -  Pitt, e Cassy est com ele! - anunciou ele, aos gritos, para os outros 
dois.
       Harlan apanhou um frasco de anticorpo monoclonal recm-extrado.
       - Acho melhor eu assumir meu papel de mdico por algum tempo - disse ele.
       Sheila adiantou-se e fez sinal para que ele lhe entregasse o frasco.
       - Medicina de emergncia  a minha especialidade - disse ela. - Precisamos de voc como imunologista.
       Harlan entregou-lhe o frasco.
       - com prazer. Sempre fui melhor pesquisador do que clnico. A cmara de compresso se abriu. Jonathan ajudou Cassy a transpor a porta. Ela estava plida e 
febril. A excitao de Jonathan refreou-se. Ela estava mais doente do que ele imaginara. Ainda assim, ele no pde se conter e perguntou onde estava sua me.
       Cassy ps a mo em seu ombro.
       - Eu lamento - disse ela. - Fomos separadas logo depois de sermos apanhadas no supermercado. No sei onde ela est.
       - Ela foi espetada? - quis saber Jonathan.
       - Receio que sim.
       - Vamos! - chamou Sheila. - Temos trabalho a fazer. - Ela ps o brao de Cassy sobre o prprio ombro. - Vamos levla para a enfermaria.
       Amparada de um lado por Sheila e do outro por Pitt, Cassy foi conduzida atravs do laboratrio at a enfermaria. No caminho, foi apresentada a Harlan, que 
manteve a porta aberta para passarem.
       - Acho que seria melhor se ela ocupasse um dos quartos de confinamento - sugeriu Harlan, tomando a frente do grupo e levando-os at l.
       O lugar parecia um quarto comum de hospital, exceto pela entrada, que tinha uma cmara de compresso, de forma que o ambiente pudesse ser mantido a uma presso 
inferior  do restante do complexo. A porta interna tambm podia ser trancada e o vidro do visor que havia nesta tinha 2,5cm de espessura.
       Todos se apertaram no quarto. com a ajuda de Sheila e de Pitt, Cassy estendeu-se na cama e deixou escapar um suspiro de alvio.
       Sheila foi direto ao trabalho. com a habilidade adquirida atravs de muita prtica, ela comeou o procedimento intravenoso e ento administrou uma dose considervel 
do anticorpo monoclonal, injetando-o na entrada do conduto intravenoso.
       - Voc teve alguma reao adversa com a primeira injeo? - perguntou Sheila, momentaneamente acelerando o processo intravenoso a fim de carregar o restante 
do anticorpo para o sistema de Cassy.
       Esta abanou a cabea.
       - No houve problemas - disse Pitt. - Exceto por um acesso de tosse, que me assustou. Mas no creio que estivesse relacionado ao medicamento.
       Sheila ligou Cassy a um monitor cardaco. Os batimentos estavam normais e o ritmo, regular.
       - Sentiu alguma diferena desde a primeira injeo? - indagou Harlan.
       - No que eu tenha percebido - respondeu Cassy.
       - No  de se espantar - observou Sheila. - Esses sintomas so principalmente de suas prprias linfocinas, as quais ns sabemos se elevam muito nos primeiros 
estgios.
       - Quero agradecer a todos vocs por me deixarem vir para c - disse Cassy. - Sei que esto se arriscando.
       - Estamos felizes por t-la conosco - afirmou Harlan, dando-lhe um aperto no joelho. - Quem sabe, como eu, voc possa ser um valioso objeto experimental.
       - Tomara - replicou Cassy.
       - Est com fome? - perguntou Sheila.
       - Nem um pouco. Mas certamente eu aceitaria uma aspirina.
       Sheila olhou para Pitt.
       - Acho que vou deixar isso a cargo do Dr. Henderson - disse ela, com um sorriso irnico. - Enquanto isso, o restante de ns precisa voltar ao trabalho.
       Harlan foi o primeiro a sair. Sheila parou, com uma perna na cmara de compresso. Olhando para trs, ela acenou para Jonathan.
       - Venha. Vamos deixar a paciente com seu mdico. Jonathan seguiu-a, relutante.
       - Voc tinha razo - comentou Cassy. - Este lugar  inacreditvel.
       -  exatamente do que a doutora precisava - disse Pit - Deixe e ir buscar a aspirina.
       Pitt levou alguns minutos para encontrar a farmcia e mais alguns para localizar a aspirina. Quando voltou ao quarto de confinamento, viu que Cassy estava 
dormindo.
       - No quero perturb-la - disse ele.
       - Voc no est me perturbando - replicou Cassy, tomando a aspirina e ento voltando a deitar-se. Ela bateu a mo sobre o colcho ao seu lado. - Sente-se 
um minuto - pediu ela. - Preciso lhe contar o que eu soube atravs de Beau. Esse pesadelo est prestes a se tornar ainda pior.
       A tranqilidade do deserto foi subitamente quebrada pela repetitiva concusso das ps do rotor e do estrondo da turbina militar a jato Huey,  medida que 
o helicptero sobrevoava baixo a paisagem rida. Na cabine, Vince Garbon segurava um binculo diante dos olhos. Ele disse ao piloto que seguisse uma faixa de macadame 
negro que cortava a areia de um horizonte ao outro. No banco de trs, iam dois ex-policiais da antiga unidade de Vince.
       - A ltima notcia que tivemos  que o veculo tomou essa estrada - gritou Vince para o piloto acima do barulho do motor.
       O piloto assentiu.
       - Estou vendo alguma coisa l na frente - anunciou Vince. - Parece um velho posto de gasolina, mas tem um veculo parado ali que se encaixa na descrio.
       O piloto desacelerou o avano do helicptero. Vince segurava o binculo o mais firme que podia.
       - E. Acho que  ele mesmo. Vamos descer e dar uma olhada. O helicptero baixou, erguendo um horrendo redemoinho de areia e p ao faz-lo. Quando os esquis 
encontravam-se firmes sobre o solo, o piloto desligou o motor. Os pesados rotores foram girando com menos velocidade at parar. Vince saltou da cabine.
       A primeira coisa que ele verificou foi o automvel. Abriu a porta e pde imediatamente perceber que Cassy estivera ali. Verificou o porta-malas. Estava vazio.
       Gesticulando na direo do prdio, os dois ex-policiais entraram. Vince permaneceu do lado de fora e percorreu com o olhar o horizonte. Estava to quente 
que podia ver ondas de calor tremeluzindo no ar.
       Os policiais saram rapidamente e balanaram as cabeas, num gesto negativo. Ela no estava ali.
       Vince fez sinal para que voltassem ao helicptero. Estava perto. Podia senti-lo. Afinal, at onde ela podia seguir a p naquele calor?
       Pitt entrou no laboratrio. Todos estavam trabalhando com tanta intensidade que nem mesmo ergueram a cabea.
       - Finalmente ela dormiu - informou ele.
       - Voc trancou a porta externa? - perguntou Harlan.
       - No - disse Pitt. - Acha que eu deveria?
       - com certeza - respondeu Sheila. - No queremos ter nenhuma surpresa.
       - Eu volto j - disse Pitt, retornando  cmara de compresso. Ele olhou para Cassy, que ainda dormia tranqilamente. A tosse havia diminudo de maneira significativa. 
Pitt trancou a porta.
       Voltando ao laboratrio, ele se sentou. Mais uma vez, ningum pareceu perceber sua presena. Sheila estava absorta, inoculando culturas teciduais com a protena 
ativadora. Harlan extraa mais anticorpo. Jonathan estava diante de um terminal de computador, usando fones de ouvidos e manipulando um joystick.
       Pitt perguntou a Jonathan o que ele estava fazendo e o garoto tirou os fones do ouvido.
       -  muito legal isso aqui - disse ele. - Harlan me mostrou como me conectar com todos os equipamentos de monitorizao na superfcie. Existem cmeras ocultas 
em cactos falsos, que podem ser direcionadas com este joystick. H tambm aparelhos de escuta e sensores de movimento. Quer ver?
       Pitt declinou da oferta. Em vez disso, contou a eles que Cassy lhe descrevera algumas coisas apavorantes e perturbadoras sobre os aliengenas.
       - Como o qu, por exemplo? - perguntou Sheila, continuando a trabalhar.
       - A coisa mais grave - disse Pitt -  que eles esto fazendo com que as pessoas infectadas construam uma imensa mquina futurista chamada Prtico.
       - E o que esse Prtico supostamente ir fazer? - indagou Sheila, enquanto girava com delicadeza um frasco contendo uma cultura.
       -  algum tipo de transportador - respondeu Pitt. - Disseram-lhe que essa mquina ir trazer para a Terra todos os tipos de criaturas aliengenas de planetas 
distantes.
       - Meu Deus! - exclamou Sheila, pondo de lado o frasco.
       - No temos como enfrentar mais nenhum adversrio. Talvez fosse melhor desistirmos.
       - Quando  que esse Prtico ir entrar em operao? - quis saber Harlan.
       - Fiz a mesma pergunta - disse Pitt. - Cassy no sabe, mas ela tem a impresso de que ser em breve. Beau lhe disse que estava quase finalizado. Cassy contou 
que havia milhares de pessoas trabalhando nele.
       Sheila suspirou ruidosamente, exasperada.
       - Que outras notcias encantadoras ela lhe deu?
       - Alguns fatos interessantes - contou Pitt. - Por exemplo, o vrus aliengena chegou  Terra pela primeira vez h trs bilhes de anos. Foi a que introduziu 
seu DNA nas vidas que ento se desenvolviam.
       Os olhos de Sheila se estreitaram.
       - H trs bilhes de anos? - interrogou ela. Pitt assentiu.
       - Foi o que Beau lhe disse. Ele tambm contou que os aliengenas enviavam a protena ativadora a cada cem milhes de anos terrestres ou coisa parecida, a 
fim de "despertar" o vrus e ver que tipo de vida evoluiu aqui e se valia a pena habit-lo. O que ele queria dizer com anos terrestres ela no perguntou.
       - Talvez isso esteja relacionado  capacidade deles de irem de um universo a outro - conjeturou Harlan. -Aqui no nosso, estamos presos na imobilidade do espao-tempo. 
Porm, do ponto de vista de outro universo, o que  um bilho de anos aqui pode ser apenas dez anos l. Tudo  relativo.
       A explicao de Harlan provocou um momento de silncio. Pitt deu de ombros.
       - Bem, no posso dizer que isso faa sentido para mim - disse ele.
       -  como uma quinta dimenso - afirmou Harlan.
       - Que seja - replicou Pitt. - Voltando, porm, ao que Cassy me disse, ao que parece esse vrus aliengena  responsvel pelas extines em massa ocorridas 
na Terra. Todas as vezes que voltavam aqui, as criaturas que haviam infestado no eram apropriadas, ento eles iam embora.
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       - E todas as criaturas que eles haviam infectado morriam? - perguntou Sheila.
       - Foi o que eu entendi. O vrus deve ter produzido alguma mudana letal no DNA, causando o desaparecimento de espcies inteiras, o que criou uma oportunidade 
para que novas criaturas evolussem. Ela me contou que Beau se referiu especificamente ao ocorrido com os dinossauros.
       - Ora vejam s! - disse Harlan. - Adeus  teoria dos asterides ou dos cometas.
       - E como essas criaturas morriam? - indagou Sheila. - Quero dizer, qual era a causa especfica de sua morte?
       - No creio que ela tenha essa resposta - declarou Pitt. - Pelo menos, no me disse. Mas posso lhe perguntar mais tarde.
       - Isso pode ser importante - afirmou Sheila, olhando um ponto fixo, sem ver. Sua mente estava em alvoroo. - Ento, supostamente, o vrus veio para a Terra 
h trs bilhes de anos...
       - Foi o que ela disse.
       - O que voc est pensando? - indagou Harlan.
       - Existe alguma bactria anaerbia disponvel no laboratrio? - perguntou Sheila.
       - Tem, claro - disse Harlan.
       - Vamos pegar algumas e infect-las com a protena ativadora - sugeriu Sheila, com crescente excitao.
       - OK-concordou Harlan, afvel, pondo-se de p. - Mas o que voc tem em mente? Por que quer bactrias que proliferam sem oxignio?
       - Satisfaa a minha vontade - pediu Sheila. - V busc-las enquanto eu preparo um pouco mais da protena ativadora.
       Beau abriu bruscamente as portas duplas que levavam da sala de estar ao deque que circundava a piscina. Ele saiu e atravessou o deque. Alexander seguia-o, 
correndo.
       - Beau, por favor! - pediu Alexander. - No v! Precisamos de voc aqui.
       - Encontraram o carro dela - disse Beau. - Ela est perdida no deserto. S eu posso encontr-la. A essa altura ela j deve estar bem adiantada no processo 
de se tornar uma de ns.
       Beau desceu os poucos degraus que levavam do deque ao gramado e dirigiu-se ao helicptero que esperava. Alexander continuava a segui-lo.
       - Certamente essa mulher no pode ser assim to importante - disse ele. - Voc pode ter qualquer mulher que quiser. Esse no  o momento de deixar o Prtico. 
Nem mesmo testamos as placas na potncia mxima. E se no estivermos prontos?
       Beau girou sobre os calcanhares. Seus lbios estreitos estavam repuxados devido  fria.
       - Essa mulher est me enlouquecendo. Preciso encontra-la. Eu voltarei. At l, prossigam sem mim.
       - Por que no esperar at amanh? - insistiu Alexander.
       - A Chegada j ter acontecido e ento voc pode ir procur-la. Haver tempo mais do que suficiente.
       - Se ela estiver perdida no deserto, estar morta amanh - contestou Beau. - Est decidido.
       Beau virou-se para o helicptero e rapidamente cobriu a distncia que o separava do aparelho. Nos ltimos metros, precisou abaixar-se sob as ps que giravam. 
Subiu para o assento da frente, ao lado do piloto, cumprimentou Vince no banco de trs com um gesto de cabea e ento fez sinal para que o piloto levantasse vo.
       - Faz quanto tempo? - perguntou Sheila.
       - Cerca de uma hora - respondeu Harlan.
       - Deve ser tempo suficiente - disse Sheila, impaciente. - Uma das primeiras coisas que descobrimos foi a rapidez com que a protena ativadora funciona, uma 
vez que tenha sido absorvida por uma clula. Agora vamos submeter a cultura a uma leve dose de raios X moderados.
       Harlan olhou Sheila de soslaio.
       - Estou comeando a ter uma idia do que est se passando nesse seu crebro - disse ele. - Voc est tratando esse vrus como um provrus, que  o que ele 
. E agora quer mud-lo da forma latente para a ltica. Mas por que a bactria anaerbia? Por que sem oxignio?
       - Vamos ver o que acontece antes de eu explicar - decidiu Sheila. - Mantenha os dedos cruzados. Isso pode ser o que estamos procurando. Um calcanhar-de-aquiles 
aliengena.
       Aplicaram uma dose de raios X na cultura bacteriana infectada sem perturbar sua atmosfera de dixido de carbono. Quando preparavam lminas para exame no microscpio 
eletrnico de varredura, Sheila percebeu que suas mos tremiam de excitao. Ela torcia de todo corao para que estivessem  beira da descoberta.
       Com uma de suas poderosas pernas, Beau chutou a porta do posto de gasolina abandonado. O golpe arrancou-a das dobradias, fazendo-a espatifar-se contra a 
parede oposta do cmodo. Adentrando o sombrio interior, os olhos de Beau cintilaram intensamente. A viagem de helicptero pouco fizera para aplacar sua fria.
       Ele ficou ali de p na semi-escurido por vrios segundos, ento virou-se e caminhou de volta  brilhante luz do sol.
       - Ela nunca esteve ali - afirmou Beau.
       - No pensei que estivesse - disse Vince, agachado na areia do outro lado das velhas bombas de gasolina. - Tem outras marcas frescas de pneus aqui. - Ele 
se levantou e olhou na direo do leste. - Devia haver um segundo veculo. Talvez tenham-na apanhado.
       - O que voc est sugerindo? - perguntou Beau.
       - Evidentemente, ela no apareceu em nenhuma cidade - afirmou Vince. - Caso contrrio, teramos sabido. Isso significa que est aqui no deserto. Sabemos que 
h grupos isolados de "fugitivos" escondendo-se nessa rea e que at aqui evitaram a infeco. Talvez ela tenha se juntado a um deles.
       - Mas ela est infectada - disse Beau.
       - Eu sei. Essa parte  um mistrio. Seja como for, acho que devamos seguir ao longo desta estrada, no sentido leste, e ver se avistamos algum rastro saindo 
para o deserto. Deve haver algum tipo de acampamento.
       - Muito bem - concordou Beau. -  o que vamos fazer. O tempo est se esgotando.
       Eles voltaram para o helicptero e levantaram vo. O piloto recebeu ordens de voar alto o bastante para no erguer muita areia e p e, ao mesmo tempo, baixo 
o suficiente para que vissem quaisquer trilhas afastando-se da estrada.
       - Meu Deus, a est ele - disse Harlan. Eles haviam focalizado um virion aumentado em sessenta mil vezes. Tratava-se de um vrus grande e filamentoso, parecendo 
um representante da famlia Filoviridae, com minsculas projees semelhantes a clios.
       -  espantoso pensar que estamos olhando para uma forma de vida aliengena altamente inteligente - comentou Sheila.
       - Ns sempre pensamos em vrus e bactrias como sendo primitivos.
       - No creio que este seja o aliengena propriamente dito - afirmou Pitt. - Cassy mencionou que a forma viral era o que permitia ao aliengena resistir  viagem 
espacial e infestar outras formas de vida na galxia. Ao que parece, Beau no sabia qual era a aparncia da forma aliengena original.
       -  possvel que seja esse o propsito do Prtico - disse Jonathan. - Talvez o vrus tenha gostado tanto daqui que os prprios aliengenas estejam vindo.
       - Pode ser - concordou Pitt.
       - Muito bem - disse Harlan a Sheila. - Ento seu truquezinho com a bactria anaerbia funcionou. Ns vimos o vrus. Mas qual era seu motivo misterioso?
       - O motivo estava no fato de o vrus ter vindo para a Terra h trs bilhes de anos - respondeu Sheila. - Naquele tempo, a Terra era um lugar muito diferente. 
Havia muito pouco oxignio na atmosfera primitiva. Desde ento, as coisas mudaram. O vrus ainda est perfeito quando se encontra na forma latente ou at mesmo quando 
 ativado e transforma a clula. Mas, se for induzido a formar virions, ele  destrudo pelo oxignio.
       - Muito interessante - disse Harlan, baixando os olhos para a cultura cuja tampa havia sido retirada, expondo-a assim ao ar do laboratrio. - Se for esse 
o caso, ento veremos vrus danificados e no-infecciosos se fizermos outra lmina.
       -  exatamente o que espero - afirmou Sheila.
       Sem perder tempo, Sheila e Harlan lanaram-se ao trabalho, preparando uma segunda amostra. Pitt ajudava-os como podia. Jonathan voltou a brincar com o sistema 
de segurana computadorizado.
       Quando Harlan focalizou a nova lmina, ficou logo evidente que Sheila estava certa. Era como se os vrus tivessem sido parcialmente comidos.
       Sheila e Harlan ergueram-se com um salto e, entusiasticamente, bateram as mos espalmadas e se abraaram. Estavam extasiados.
       - Que idia brilhante! - exclamou Harlan. - Voc merece os parabns. E um prazer ver a cincia em ao.
       - Se estivssemos praticando cincia de verdade - disse Sheila -, teramos de provar exaustivamente essa hiptese. Por ora, vamos aceit-la pelo que parece 
ser.
       - Ah, de acordo - assentiu Harlan. - Mas faz sentido.  impressionante o quanto o oxignio pode ser txico e como poucas pessoas leigas sabem disso.
       - Acho que no estou entendendo - interveio Pitt. - De que modo isso ir nos ajudar?
       Os sorrisos desapareceram do rosto de Sheila e Harlan, que se entreolharam por um instante, retomando ento seus lugares. Ambos estavam perdidos em seus pensamentos.
       - No tenho muita certeza de que forma essa descoberta ir nos ajudar - disse Sheila, por fim. - Mas ela precisa ajudar. Esse tem de ser o calcanhar-de-aquiles 
aliengena.
       - Deve ter sido essa a forma por que eles mataram os dinossauros - ponderou Harlan. - Assim que decidiram pr fim  infestao, os vrus passaram todos do 
estado latente ao de virions. E ento, bam! Entraram em contato com o oxignio e tudo se acabou.
       - Isso no soa muito como uma teoria cientfica - observou Sheila com um sorriso.
       Harlan deu uma risada.
       - Concordo - disse ele. - Mas serve para nos dar uma pista. Temos de induzir os vrus nas pessoas infectadas a deixarem a forma latente e sarem da clula.
       - Como se ativa um vrus latente? - perguntou Pitt. Harlan deu de ombros.
       - De vrias formas - disse ele. - Numa cultura tecidual em geral isso  feito com radiao eletromagntica: luz ultravioleta ou raios X moderados, por exemplo, 
como os que usamos com a cultura de bactrias anaerbias.
       - Existem algumas substncias qumicas que podem produzir o mesmo efeito - informou Sheila.
       -  verdade - concordou Harlan.-Alguns antimetablitos e outros venenos celulares. Mas isso no nos ajuda. Tampouco os raios X. Afinal no podemos, de uma 
hora pra outra, radiografar todo o planeta.
       - Existem outros vrus comuns que vivem em forma latente como esse vrus aliengena? - perguntou Pitt.
       - Muitos - disse Sheila.
       - Sem dvida - afirmou Harlan. - Como o vrus da AIDS.
       - Ou todo o grupo viral do herpes - lembrou Sheila. - Podem ficar escondidos a vida toda ou ento causar problemas intermitentes.
       - Como o herpes labial, por exemplo? - indagou Pitt.
       - Isso mesmo - disse Sheila. - Esse  o herpes simples. Permanece latente em certos neurnios.
       - Ento uma manifestao de herpes labial significa que um vrus em forma latente foi induzido a formar partculas de vrus? - perguntou Pitt.
       - Exato - afirmou Sheila com uma pontada de exasperao.
       - Eu mesmo tenho herpes labial todas as vezes que tenho um resfriado - contou Pitt.
       - Pois bem, Pitt - disse Sheila. - Talvez fosse bom se voc nos deixasse a ss para pensarmos. Esse no  o momento apropriado para uma aula.
       - Espere um pouco - interveio Harlan. - Pitt acaba de me dar uma idia.
       - Eu? - perguntou Pitt, inocentemente.
       - Sabe qual  o melhor agente de induo viral? - indagou Harlan, retoricamente. - Uma outra infeco viral.
       - E em que isso pode nos ajudar? - quis saber Sheila. Harlan apontou para a porta do imenso freezer do outro lado do laboratrio.
       - Temos ali todos os tipos de vrus. Estou comeando a pensar que deveramos responder ao fogo com fogo!
       - Est querendo dizer dar incio a algum tipo de epidemia? - perguntou Sheila.
       -  exatamente no que estou pensando - afirmou Harlan. - Alguma coisa extraordinariamente infecciosa.
       - Mas aquele freezer est cheio de vrus destinados a serem usados como agentes em guerras biolgicas. Seria como sair do espeto e cair na brasa.
       - Ora, aquele freezer tem de tudo: desde vrus que causam simples incmodos at os mais mortais - retrucou Harlan. - S temos de escolher um que seja adequado.
       - Bem... - ponderou Sheila. -  verdade que nossa primeira cultura tecidual tenha sido induzida provavelmente pelo veculo adenoviral que usamos para a anlise 
do DNA.
       - Venham! - chamou Harlan. -Vou lhes mostrar o inventrio.
       Sheila se levantou. Tinha muitas dvidas sobre esse procedimento de responder ao fogo com fogo, mas no estava disposta a rejeitar a idia de imediato.
       Prximo do freezer, havia uma mesa com uma estante acima dela. Nesta, viam-se trs enormes fichrios de capa preta. Harlan entregou um a Sheila, outro a Pitt 
e ele mesmo abriu o terceiro.
       -  como uma carta de vinhos num restaurante fino - gracejou Harlan. - Lembrem-se de que precisamos de algo infeccioso.
       - O que quer dizer com "infeccioso"? - indagou Pitt.
       - Capaz de ser transmitido de uma pessoa para outra - respondeu Harlan. - E precisamos que a transmisso se d pelo ar, e no como a AIDS ou a hepatite. Queremos 
uma epidemia mundial.
       - Meu Deus! - exclamou Pitt, examinando o ndice de seu volume. - Nunca pensei que existissem tantos vrus assim. Aqui est o filovrus. Uau! E aqui o Ebola.
       - Malignos demais - objetou Harlan. - Queremos uma doena que no mate por si mesma, de modo que um indivduo infectado possa espalh-la para o maior nmero 
de pessoas possvel. As doenas rapidamente fatais, acredite ou no, costumam ser autolimitadas.
       - Eis aqui a famlia Arenaviridae - informou Sheila.
       - Tambm so muito malignos - rejeitou Harlan.
       - Que tal a Orthomyxoviridaet - sugeriu Pitt. -A gripe com certeza  infecciosa. E j houve algumas epidemias mundiais.
       -  uma possibilidade - admitiu Harlan. - Mas a gripe tem um perodo de incubao longo e alguns tipos podem ser fatais. Eu preferiria encontrar algo cujo 
processo infeccioso fosse rpido e um pouco mais benigno. Vamos l... Era isso que eu estava procurando.
       Harlan pousou ruidosamente o fichrio que estivera segurando sobre a mesa. Estava aberto na pgina 99. Sheila e Pitt debruaram-se para examin-la.
       - Picornaviridae - leu Pitt, lutando com a pronncia da palavra. - O que causam?
       -  nesse gnero que estou interessado - disse Harlan, apontando para um dos subgrupos.
       - Rinovrus - leu Pitt em voz alta.
       - Exatamente - confirmou Harlan. - A gripe comum. No seria irnico se a gripe comum viesse a salvar a humanidade?
       - Mas nem todo mundo pega a gripe quando uma onda se espalha - lembrou Pitt.
       -  verdade - concordou Harlan. - Todos tm nveis diferentes de imunidade s centenas de diferentes cepas que existem. Mas vamos ver o que nossos microbiologistas 
contratados pelo Pentgono encontraram.
       Harlan virou as pginas at encontrar a seo sobre os rinovrus, que consistia em 37 pginas. A primeira delas apresentava um ndice de sorotipos e um pequeno 
resumo.
       Todos leram o resumo em silncio. O texto sugeria que os rinovrus possuam utilidade limitada como agentes de uma guerra biolgica. A razo apresentada era 
que, embora as infeces das vias respiratrias superiores afetassem o desempenho de um exrcito moderno, a perturbao no chegaria a ser de um grau significativo 
e certamente no to grande quanto a de um enterovrus que provocasse diarria.
       - Parece que no estavam muito entusiasmados com os rinovrus - observou Pitt.
       -  verdade - concordou Harlan. - Mas ns no estamos tentando incapacitar um exrcito. S queremos que o vrus se instale e provoque problemas metablicos 
a fim de trazer o vrus aliengena para fora.
       - Eis aqui algo que parece interessante - disse Sheila, apontando para uma subseo no ndice, onde se lia rinovrus artificiais.
       -  disso que precisamos - afirmou Harlan com entusiasmo, folheando o fichrio com pressa at chegar  seo indicada, onde fez uma rpida leitura.
       Pitt tentou fazer o mesmo, mas no faria qualquer diferena se o texto estivesse escrito em snscrito. Aquele era um jargo altamente tcnico.
       - Perfeito! Absolutamente perfeito! - exclamou Harlan, olhando para Sheila. - Foi feito sob encomenda, tanto literal quanto figuradamente. Eles criaram um 
rinovrus que nunca viu a luz do dia" o que significa que ningum est imune a ele. Trata-se de um sorotipo a que ningum nunca foi exposto, portanto todos o contrairo. 
... feito sob medida!
       - A mim, me parece que estamos dando um grande passo no escuro - comentou Sheila. -Voc no acha que deveramos de alguma forma testar essa hiptese?
       - Mas  claro - respondeu Harlan, com grande excitao. Ele estendeu a mo e a pousou sobre a maaneta da porta do freezer.-Vou apanhar uma amostra do vrus 
para fazermos uma cultura. Ento testaremos naqueles camundongos que contaminei. Nossa, estou feliz por ter feito isso. - Harlan abriu o freezer e desapareceu em 
seu interior.
       Pitt olhou para Sheila.
       - Acha que vai funcionar? - perguntou ele. Sheila deu de ombros.
       - Ele parece bastante otimista - respondeu ela.
       - Se funcionar, no ir matar a pessoa? - indagou Pitt. Ele estava pensando em Cassy e tambm em Beau.
       - No h como confirmar isso - disse Sheila. - Pelo que sabemos, a essa altura estamos tateando na escurido.
       - Esperem! - pediu Vince, apertando o binculo de encontro aos olhos. - Acho que estou vendo algumas marcas seguindo para o sul.
       - Onde? - perguntou Beau. Vince apontou.
       Beau assentiu.
       - Vamos pousar - disse ele ao piloto.
       O piloto pousou o helicptero na pista de macadame. Ainda assim, uma tremenda quantidade de areia e p ergueu-se em remoinhos no ar.
       - Espero que essa areia toda no cubra as marcas - disse Vince.
       - Estamos a uma distncia suficiente - afirmou o piloto. Ele desligou o motor e os rotores pararam. Vince e o policial sentado ao seu lado, Robert Sherman, 
imediatamente saltaram e subiram a estrada, correndo at onde as marcas comeavam. Beau e o piloto desceram da cabine tambm, mas ficaram perto do helicptero.
       Beau respirava pesadamente pela boca, com a lngua pendendo para fora, como um co ofegante. A pele aliengena no dispunha de glndulas sudorparas e ele 
estava comeando a sentir muito calor. Ele olhou  sua volta, procurando uma sombra, mas no se via qualquer refgio contra o sol inclemente.
       - Quero voltar para o helicptero - afirmou Beau.
       - Est muito quente l dentro - objetou o piloto.
       - Quero que voc ligue o motor - insistiu Beau.
       - Mas isso vai dificultar o retorno dos outros - disse o piloto.
       - O motor vai ficar ligado! - rosnou Beau.
       O piloto assentiu e fez o que lhe era ordenado. O ar-condicionado foi ativado e logo baixou a temperatura.
       L fora, as ps girando lentamente levantaram uma tempestade de areia em miniatura. Eles mal podiam ver os dois homens a cem metros  frente, abaixados, examinando 
o solo.
       O rdio foi ativado e o piloto ajustou os fones de ouvido. Beau olhou para o horizonte montono, ao sul. Alm da raiva, ele experimentava uma ansiedade progressiva. 
Odiava aquelas emoes humanas.
       -  uma mensagem do instituto - o piloto disse a Beau. - Houve um problema. Eles no esto conseguindo a potncia mxima nas placas eltricas. O sistema desativa 
os disjuntores.
       Os longos dedos serpentiformes de Beau entrelaaram-se, formando punhos semelhantes a ns apertados. Seu pulso acelerou. A cabea comeou a latejar.
       - O que digo a eles? - indagou o piloto.
       - Diga-lhes que voltarei logo - respondeu Beau.
       Depois de desligar, o piloto tirou os fones do ouvido. Ele experimentava indcios do estado mental de Beau atravs da conscincia coletiva e remexeu-se incomodado 
no assento. Sentiu-se aliviado ao ver os outros retornando.
       Vince e Robert tiveram de cobrir o rosto, ao abaixarem-se sob as ps que giravam, protegendo-se da areia que parecia aferroa-los, antes de entrar no helicptero. 
Eles no tentaram falar at que a porta estivesse fechada.
       - So as mesmas marcas que estavam no velho posto de gasolina - informou Vince. - E esto indo para o sul. O que voc quer fazer?
       - Vamos segui-las! - decidiu Beau.
       Com grande dificuldade, Harlan, Sheila, Pitt e Jonathan conseguiram transferir seis dos camundongos infectados para um compartimento de segurana biolgica 
nvel in.
       - Que bom que no so ratos - comentou Pitt. - Se fossem maiores do que camundongos, no creio que tivssemos conseguido control-los.
       Sheila estava pondo desinfetante e ataduras em vrias das mordidas que Harlan levara.
       - Eu sabia que eles iriam dar trabalho - disse ele.
       - O que vamos fazer agora? - perguntou Jonathan, curioso em relao ao experimento.
       - Vamos contaminar os camundongos com o vrus, que est na cultura naquele frasco ali dentro do compartimento - esclareceu Harlan.
       - Onde  a sada de ventilao dessa cabine? - indagou Sheila. - No queremos que o vrus escape, caso no funcione.
       - O escapamento  tratado por radiao - afirmou Harlan. - No h com que se preocupar.
       Harlan enfiou as mos cobertas de ataduras nas grossas luvas de borracha que penetravam pela parte da frente do gabinete. Ele apanhou o frasco contendo a 
cultura tecidual, tirou a rolha e despejou o meio de cultura num pratinho.
       - Pronto. Isso ir vaporizar rapidamente e ento nossos amiguinhos peludos iro inspirar o vrus artificial.
       - O que so esses pontos pretos nas costas dos camundongos? - quis saber Jonathan.
       - O nmero de pontos representa h quantos dias o camundongo foi infectado - explicou Harlan. - Eu os estava infectando em seqncia, de modo que pudesse 
acompanhar o processo de infestao fisiologicamente. Agora fico feliz por ter feito assim. Pode haver uma reao diferente, dependendo do quanto o vrus ativado 
tenha se expressado.
       Durante alguns minutos os quatro ficaram parados diante do compartimento, observando os camundongos correndo pela gaiola.
       - No est acontecendo nada - queixou-se Jonathan.
       - Nada no nvel do organismo todo - disse Harlan. - Mas minha intuio me diz que muita coisa est acontecendo no nvel molecular/celular.
       Alguns minutos depois, Jonathan bocejou.
       - Puxa - disse ele. -  como ficar vendo a tinta secar.vou voltar ao computador.
       Alguns minutos mais tarde, Pitt quebrou o silncio.
       - O que  interessante  como eles parecem estar trabalhando em conjunto. Olhem como esto formando uma pirmide para explorar a parede de vidro.
       Sheila resmungou. Ela percebera o fenmeno, mas no estava interessada. O que queria ver era alguma reao fsica por parte dos camundongos. Como o nvel 
de atividade dos animaizinhos no havia se alterado, ela comeava a sentir-se cada vez mais nervosa. Se esse experimento no desse certo, estariam de volta  estaca 
zero.
       Como se estivesse lendo os pensamentos de Sheila, Harlan observou:
       - No creio que vamos esperar por muito tempo. Meu palpite  que s vai ser preciso o estmulo de uma nica clula para dar incio a uma cascata. Minha nica 
preocupao  com o fato de no termos testado a viabilidade do vrus. Talvez devssemos fazer isso agora.
       Harlan virou-se para fazer o que sugerira, quando Sheila agarrou-lhe o brao.
       - Espere! - gritou ela. - Olhe aquele camundongo com os trs pontos.
       Harlan acompanhou o dedo com o qual Sheila apontava. Pitt postou-se atrs deles, olhando por sobre o ombro de Harlan. O camundongo em questo parara de repente 
seu rpido e incessante vaivm pela gaiola, sentara-se sobre as ancas e repetidamente esfregava os olhos com as patas dianteiras. Em seguida, sacudiu-se algumas 
vezes.
       Os trs observadores trocaram olhares.
       - Ser que ele est espirrando? - perguntou Sheila.
       - Quisera eu saber - replicou Harlan. Ento o camundongo cambaleou e desabou.
       - Est morto? - indagou Pitt.
       - No - disse Sheila. -Ainda se pode ver claramente que est respirando, mas ele no parece muito bem. Olhe aquela espuma saindo dos olhos.
       - E da boca - completou Harlan. - E tem outro camundongo comeando a apresentar os sintomas. Acho que est funcionando!
       - Esto todos apresentando os sintomas - observou Pitt. - Olhe aquele ali com o maior nmero de pontos. Parece que est tendo um ataque.
       Ouvindo o alvoroo, Jonathan voltou e conseguiu espremer a cabea entre os outros, vendo de relance os camundongos aflitos.
       - Argh! - exclamou ele. - A espuma  esverdeada. Harlan tornou a introduzir as mos nas luvas e segurou o primeiro camundongo. Ao contrrio de seu comportamento 
beligerante anterior, o animalzinho dessa vez no apresentou resistncia. Ficou tranqilamente deitado na palma da mo de Harlan, com a respirao rasa. O cientista 
deixou o animal de lado e estendeu a mo para aquele que havia tido o ataque.
       - Este est morto - declarou Harlan. - Como era ele que estava infectado h mais tempo, acho que isso quer nos dizer alguma coisa.
       - Provavelmente est nos dizendo como os dinossauros morreram - afirmou Sheila. - com certeza foi um processo rpido.
       Harlan largou o camundongo morto e retirou as mos, esfregando-as com entusiasmo.
       - Bem, a primeira parte desse experimento correu muito bem, eu diria. Agora que os testes com os animais acabaram, acho que  hora de comear a testar os 
humanos.
       - Voc quer dizer liberar o vrus? - perguntou Sheila - Abrir a porta e deix-lo sair?
       - No, ainda no estamos prontos para o trabalho clnico de campo - afirmou Harlan com um brilho nos olhos. - Eu estava pensando que o prximo estgio pode 
ser ainda no mbito domstico. Estava pensando em ser eu o objeto da experincia.
       - Ora, espere... - protestou Sheila. Harlan ergueu a mo.
       - Existe um longo histrico de cientistas famosos que usaram a si mesmos como as proverbiais cobaias - disse ele. - Essa  uma oportunidade perfeita para 
seguir o exemplo deles. Eu fui infectado e, embora j tenham se passado alguns dias, mantive a infestao a um nvel mnimo com o anticorpo monoclonal.
       Agora  hora de eu me livrar completamente do vrus. Portanto, em vez de me ver como um cordeiro oferecido em sacrifcio, vejo-me como um beneficirio de 
nossa inteligncia coletiva.
       - Como voc prope que se faa isso? - perguntou Sheila. Uma coisa era realizar experincias com camundongos, outra bem diferente era com um ser humano.
       - Ora-disse Harlan, agarrando uma das culturas teciduais inoculadas com o rinovrus artificial e seguindo para a enfermaria. - Faremos da mesma forma como 
com os camundongos. A diferena  que vocs me trancaro num dos quartos de confinamento.
       - Talvez devssemos primeiro experimentar com outro animal - insistiu Sheila.
       - Bobagem - disse Harlan - No podemos nos dar ao luxo de dispor de todo esse tempo. Lembre-se do tal Prtico.
       Todos seguiram Harlan, que obviamente estava decidido a utilizar a si mesmo como objeto da experincia. Sheila tentou dissuadi-lo da idia durante todo o 
caminho at o quarto de confinamento, mas Harlan no estava disposto a ser impedido.
       - Apenas me prometam que trancaro a porta - pediu Harlan. - Se alguma coisa estranha acontecer, no quero expor todos vocs ao risco.
       - E se precisar de cuidados mdicos? - perguntou Sheila. - Como, por exemplo, que Deus nos livre, de uma ressuscitao cardiopulmonar?
       -  um risco que eu tenho de correr - disse Harlan, de maneira fatalista. - Agora saiam para que eu possa pegar minha gripe em paz.
       Sheila hesitou durante um momento, tentando pensar numa outra forma de convencer Harlan a no fazer o que ela considerava uma loucura prematura. Por fim, 
ela transps a porta da cmara de compresso e trancou-a. Olhou pelo vidro, quando Harlan lhe fazia um sinal com o polegar, indicando que estava tudo certo.
       Admirando a coragem de Harlan, Sheila repetiu o gesto.
       - O que ele est fazendo? - perguntou Pitt do corredor. A cmara de compresso era suficiente para uma s pessoa.
       - Est tirando a rolha do frasco com a cultura - contou Sheila.
       -vou voltar para o computador - disse Jonathan. A tenso fazia-o sentir-se incomodado.
       Pitt entrou na cmara de compresso vizinha e olhou para Cassy atravs do visor. Ela ainda dormia tranqilamente. Pitt voltou  cmara ocupada por Sheila.
       - Aconteceu alguma coisa?
       - Ainda no - respondeu Sheila. - Ele s est deitado l fazendo caretas para mim. Est agindo como se tivesse doze anos.
       Pitt perguntou-se como se comportaria se a situao fosse inversa e se fosse ele, Pitt, quem estivesse no quarto de confinamento. Pensou que estaria apavorado, 
incapaz de ficar fazendo piadas como Harlan.
       - Espere um segundo! - pediu Vince, excitadamente. - Faa a volta para que eu possa ver o ponto que acabamos de sobrevoar.
       O piloto inclinou o helicptero para a esquerda, descrevendo um amplo crculo.
       Vince apertava o binculo sobre os olhos. O terreno abaixo parecia to montono quanto durante toda a ltima hora. Fora extraordinariamente difcil seguir 
as marcas de pneus do alto, e eles haviam tomado o caminho errado por diversas vezes.
       - Tem alguma coisa l embaixo - anunciou Vince.
       - O que ? - grunhiu Beau. Seu humor tornara-se ainda mais sombrio. O que ele pensara ser uma simples questo de resgatar Cassy no deserto estava se tornando 
um fiasco.
       - No sei lhe dizer - afirmou Vince. - Mas vale a pena dar uma olhada. Eu sugeriria que descssemos.
       - Pouse! - ordenou Beau, rispidamente.
       O helicptero pousou em meio  tempestade de areia provocada por ele mesmo. Ali, sem a pista de macadame, era pior do que antes. Quando o ar clareou, todos 
viram o que atrara a ateno de Vince. Tratava-se de uma van camuflada por uma lona, que fora parcialmente removida pelo vento gerado pelas ps do rotor.
       - Finalmente algo de positivo - disse Beau, saltando do helicptero. Ele dirigiu-se  van, agarrou a lona e a arrancou com um puxo. Ento abriu a porta dianteira 
do veculo, do lado do passageiro.
       - Ela esteve aqui - disse ele. Olhou na traseira do veculo e ento virou-se para perscrutar a rea.
       - Beau, acabo de receber outra comunicao do instituto - gritou o piloto, que havia permanecido junto ao helicptero.
       - Eles querem inform-lo de que receberam uma mensagem de que a Chegada  esperada para daqui a cinco horas terrestres. E querem lembr-lo de que o Prtico 
ainda no est pronto. O que eu digo a eles?
       Beau agarrou a cabea com os dedos longos e pressionou as tmporas numa tentativa de aliviar a tenso. Ento expirou o ar lentamente. Ignorando o piloto, 
gritou para Vince que Cassy estava por perto.
       - Posso senti-lo - acrescentou Beau. - Mas o sinal est estranhamente fraco.
       Vince e Robert haviam se afastado da van em crculos cada vez mais amplos. De repente, Vince parou e se abaixou. Erguendo-se, gritou para que Beau fosse at 
l.
       Beau juntou-se aos dois homens.
       Vince apontou para o cho.
       -  um alapo camuflado - disse ele. - Est trancado por dentro.
       Os dedos de Beau colearam sob as bordas do alapo. Progressivamente, ele foi fazendo fora para cima at que a tampa saltou no ar. Vince e Beau inclinaram-se 
sobre a abertura e olharam para o corredor iluminado l embaixo. Seus olhos se encontraram.
       - Ela est a embaixo - disse Beau.
       - Eu sei - replicou Vince.
       - Caramba! - gritou Jonathan, os olhos quase saltando das rbitas. Em seguida, chamou com a fora mxima de seus pulmes: - Pitt, Sheila, algum venha at 
aqui!
       Pitt deixou de lado a seringa de anticorpo que estava preparando para Cassy e saiu correndo da enfermaria, entrando no corredor que levava ao laboratrio 
onde Jonathan se encontrava. Pitt no tinha a menor idia do que acontecera, mas havia desespero na voz de Jonathan. Ele percebeu que Sheila corria atrs dele.
       Encontraram Jonathan sentado diante do computador. Seus olhos estavam colados ao monitor e o rosto tinha a palidez de uma bola de sinuca de marfim.
       - O que foi que aconteceu? - perguntou Pitt, parando ao lado de Jonathan.
       Este estava momentaneamente mudo. Tudo que conseguiu fazer foi gesticular na direo da tela do computador. Pitt olhou para ali e, num reflexo, cobriu com 
a mo a boca aberta.
       - O que foi? - perguntou Sheila, ansiosa, alcanando Pitt.
       -  um monstro! - Jonathan conseguiu dizer. Sheila prendeu a respirao ao ver o que estava na tela.
       -  Beau! - exclamou Pitt, horrorizado. - Cassy disse que ele estava sofrendo um processo de mutao, mas eu no tinha idia...
       - Onde ele est? - perguntou Sheila, forando-se a ser prtica, apesar da aparncia grotesca de Beau.
       - Foi um alarme que me chamou a ateno - contou Jonathan. - Em seguida o computador automaticamente ativou a minicmera apropriada.
       - Quero saber onde ele est - repetiu Sheila freneticamente.
       Jonathan manipulou, atrapalhado, o teclado e conseguiu fazer surgir na tela um diagrama esquemtico das instalaes. Uma seta vermelha piscava numa das sadas 
de ventilao de emergncia.
       - Acho que  aquela por onde entramos - disse Pitt.
       - Acho que voc tem razo - concordou Sheila. - O que significa o alarme, Jonathan?
       - Diz aqui: "tampa do alapo aberta" - informou Jonathan.
       - Acho que isso quer dizer que eles abriram a porta.
       - Santo Deus! - exclamou Sheila. - Eles vo entrar aqui.
       - O que devemos fazer? - perguntou Pitt.
       Sheila passou a mo, nervosa, pelos cabelos louros soltos; seus olhos verdes percorreram a sala, desnorteados. Ela se sentia como um animal encurralado.
       - Pitt, v ver se consegue trancar a porta da cmara de compresso - disse ela, atabalhoadamente. - Isso talvez os retarde por algum tempo.
       Pitt saiu da sala em disparada.
       - Onde est a pistola de Harlan? - indagou Jonathan.
       - Eu no sei - respondeu Sheila. - V procur-la. Sheila tomou a direo da enfermaria.
       - Aonde voc vai? - gritou Jonathan para Sheila.
       - Tenho de tirar Harlan e Cassy daqueles quartos de confinamento.
       - O que voc quer que eu faa, Beau? - perguntou Vince, quebrando o que parecera um longo silncio.
       - O que voc acha que  isso? - indagou Beau, apontando para o interior brilhante e branco, da mais moderna tecnologia, que se via pelo alapo.
       - No tenho a menor idia - declarou Vince.
       Beau lanou um olhar ao helicptero. O piloto esperava, obedientemente. Beau tornou a olhar para o alapo. Sua mente estava um turbilho e suas emoes, 
desordenadas.
       - Quero que voc e seu colega desam por esse estranho buraco e encontrem Cassy - disse Beau. Ele falava lenta e deliberadamente, como se estivesse fazendo 
um grande esforo para conter um acesso de fria. - Quando a encontrarem, quero que a levem para mim. Preciso voltar para o instituto, masvou mandar o helicptero 
de volta para apanhar vocs.
       - Como quiser - disse Vince, com cuidado. Estava com medo de dizer a coisa errada. A fragilidade das emoes de Beau era bvia.
       Beau levou a mo ao bolso e tirou um disco negro, entregando-o a Vince.
       - Use-o como achar necessrio - disse ele. - Mas no machuquem Cassy! - Em seguida, fez meia-volta e dirigiu-se ao aparelho que o aguardava.
       
       
       20
       19:10
       
       Desajeitadamente, Sheila destrancou a fechadura da porta do quarto de confinamento onde Harlan se encontrava. No momento em que a abriu, Harlan j se encontrava 
de p ao seu lado. Estava surpreso e irritado.
       - Que diabos voc est fazendo? - perguntou ele. -Acaba de contaminar a si mesma e toda a instalao.
       - No podia ser evitado - afirmou Sheila com veemncia. - Eles esto aqui!
       - Quem est aqui? - indagou Harlan, sua expresso rapidamente mudando para a preocupao.
       - Beau e pelo menos uma outra pessoa infectada - despejou Sheila. - Eles abriram o alapo que usamos para entrar. Devem ter seguido Cassy. Estaro aqui a 
qualquer minuto.
       - Maldio! - exclamou Harlan, parando por um segundo para pensar e ento passando pela cmara de compresso.
       Imediatamente encontraram Cassy e Pitt, quando os dois saam do quarto de confinamento ao lado. Embora Cassy parecesse sonolenta e confusa, sua cor havia 
melhorado.
       - Onde est Jonathan? - perguntou Harlan.
       - No laboratrio - respondeu Pitt. - Ele estava procurando sua Colt.
       Com Harlan seguindo  frente, o grupo deixou correndo a enfermaria, passando ao laboratrio propriamente dito, no qual foram de sala em sala. Encontraram 
Jonathan no ltimo cmodo, agachado junto  porta que dava para o corredor, segurando a pistola com ambas as mos.
       - Vamos dar o fora daqui - gritou Harlan para Jonathan. Em seguida, o mdico entrou na incubadora e saiu segundos depois carregando um punhado de frascos 
de cultura contendo o rinovrus.
       Um rudo alto, parecendo uma exploso, fez-se ouvir vindo do corredor. Os olhos de todos se voltaram para o vo da porta aberta. Uma chuva de fascas surgiu 
ali, como se algum estivesse fazendo um trabalho de solda no local. Ao mesmo tempo, a presso na sala caiu precipitadamente, obstruindo os ouvidos de todos.
       - O que aconteceu? - interrogou Sheila.
       - Eles esto atravessando a porta da cmara de compresso - gritou Harlan. -Vamos! Depressa! - Fez sinal para que todos recuassem na direo da enfermaria. 
No entanto, antes que algum pudesse se mover, um disco preto dobrou no corredor e entrou no laboratrio. O objeto reluzia com uma luz vermelha e estava circundado 
por um halo nebuloso.
       -  um disco! - gritou Sheila. - Fiquem longe dele.
       - Isso mesmo! - berrou Harlan. - Quando em ao, ele  radioativo. Est expelindo partculas alfa.
       O disco sobrevoava Jonathan, que se abaixou e voltou correndo na direo dos outros. Harlan conduziu o grupo pela porta, passando para o laboratrio ao lado. 
Ao entrar por ltimo na sala, ele bateu a pesada porta corta-fogo de cinco centmetros de espessura.
       - Depressa! - ordenou.
       O grupo j havia atravessado metade do segundo laboratrio quando o mesmo rudo explosivo que tinham ouvido antes reverberou pela sala, seguido por outra 
chuva de centelhas. Harlan virou-se a tempo de ver o disco passando sem esforo atravs da porta.
       Todos alcanaram o terceiro laboratrio e dispararam na direo das portas duplas que levavam  enfermaria. Harlan deu-se ao trabalho de bater a segunda porta 
corta-fogo antes de seguir os outros. s suas costas, ele tornou a ouvir o barulho de exploso. Algumas centelhas atingiram sua nuca quando ele corria para a enfermaria. 
As portas fecharam, balanando-se, atrs dele.
       - Para onde? - perguntou Sheila.
       - A sala de raios X- gritou Harlan, apontando com a mo que carregava um dos frascos de cultura. - A que ainda est em bom estado.
       Jonathan foi o primeiro a chegar. Ele abriu a porta blindada e segurou-a para os outros. Todos se aglomeraram ali dentro.
       - Isso  um beco sem sada! - gritou Sheila. - Por que nos trouxe para c?
       - Fiquem atrs da chapa de proteo - ordenou Harlan, entregando rapidamente a Sheila e Pitt os frascos de cultura tecidual. Em seguida, ativou a mquina 
que posicionava a coluna de raios X. Apontou a luz de posicionamento diretamente para a porta que dava para o corredor, antes de voltar correndo e espremer-se atrs 
da chapa com os outros.
       As mos de Harlan moveram-se com rapidez sobre alavancas e botes no painel de controle da mquina de raios X no momento em que as centelhas e o rudo explosivo 
comeavam a se fazer ouvir na entrada da sala. Graas  proteo de chumbo, o disco precisou de alguns segundos a mais para atravessar a porta da sala de raios X 
do que levara com as portas corta-fogo. Quando alcanou o interior da sala, sua cor vermelha havia empalidecido levemente.
       Harlan armou o boto que enviou a alta voltagem embutida na mquina  fonte de raios X Ouviu-se um zumbido eletrnico e a luz no teto da sala enfraqueceu.
       - Esses so os raios X mais fortes que esta mquina  capaz de produzir - explicou ele.
       Bombardeado com os raios X, o disco instantaneamente passou do vermelho plido para um branco luminoso. O halo plido intensificou-se, expandiu e logo engoliu 
o disco. O som de uma enorme fornalha inflamando-se foi de imediato interrompido por um rudo surdo. No mesmo instante, a maior parte do aparelho de raios X, a mesa, 
uma bandeja de instrumentos, parte da porta e os acessrios de iluminao foram todos deformados, como se tivessem sido sugados na direo do ponto onde o disco 
se encontrava. At mesmo as pessoas sofreram essa sbita fora de imploso e imediatamente abraaram-se e agarraram-se no que puderam.
       Uma nuvem de fumaa acre pairava na sala.
       Todos sentiram-se momentaneamente tontos.
       - Todo mundo est bem? - perguntou Harlan.
       - Meu relgio explodiu - informou Sheila.
       - O mesmo aconteceu com o relgio de parede - replicou Harlan, apontando-o. O vidro havia se estilhaado e os ponteiros foram arrancados. - Isso foi o fenmeno 
de um buraco negro em miniatura.
       Um barulho l fora, no laboratrio, assustou a todos, trazendo-os de volta  realidade.
       - Obviamente eles conseguiram passar pela cmara de compresso - disse Harlan. - Vamos embora! - Ele apanhou a arma das mos de Jonathan e entregou-lhe um 
frasco de cultura. Cassy e Pitt recolheram o restante dos frascos. Harlan saiu detrs da chapa de proteo deformada, levando todos na direo da porta.
       - No toquem em nada - advertiu ele. - Pode haver ainda alguma radiao.
       Foram necessrios os trs homens para conseguir abrir a porta retorcida. Harlan espiou l fora. Podia ver o corredor at as portas duplas que levavam ao laboratrio. 
Havia um pequeno buraco chamuscado na folha direita da porta. Ele olhou para o outro lado. O caminho estava livre.
       - Para a esquerda - comandou ele. - Sigam at a porta no final e atravessem para a sala de estar. Entenderam?
       Todos assentiram.
       - Vo! - disse Harlan, mantendo os olhos nas portas duplas at que a ltima pessoa houvesse desaparecido do corredor. Estava prestes a segui-los quando uma 
das folhas da porta dupla se abriu na direo oposta.
       Harlan disparou um tiro. O barulho foi ensurdecedor no corredor.
       O projtil atingiu a porta fechada e estilhaou a janela tipo vigia. O lado que estivera aberto fechou-se rapidamente.
       Harlan disparou pelo corredor e percorreu sua extenso com pernas que de repente haviam se tornado moles. Chegou cambaleando  sala de estar.
       - Harlan? - disse Sheila. -Voc foi ferido? - Todos tinham ouvido a arma ser disparada.
       Harlan abanou a cabea. Uma pequena quantidade de espuma borbulhava em sua boca e vertia de seus olhos.
       - Acho que  o rinovrus expulsando o vrus aliengena - conseguiu dizer, apoiando-se contra a parede. - Est acontecendo. Infelizmente, numa hora um tanto 
imprpria.
       Pitt correu at Harlan e passou o brao deste sobre seu prprio ombro. Em seguida, apanhou a arma da mo trmula de Harlan.
       - Me d a arma - disse Sheila. Pitt passou-a para ela. - Como vamos sair daqui? - perguntou Sheila a Harlan.
       O som de vidro sendo quebrado chegou at eles vindo do laboratrio.
       - Vamos usar a entrada principal - decidiu Harlan. - Meu Range Rover deve estar l. Eu no saa por ali com medo de ser descoberto. Agora isso no faz a menor 
diferena.
       - Muito bem - disse Sheila. - Como chegamos at l?
       - Samos no corredor principal e viramos  direita - indicou Harlan. - Ento passamos pelas salas de depsito, depois das quais h outra cmara de compresso. 
Em seguida, vem um corredor comprido, onde h alguns carrinhos eltricos. A sada d no interior de uma construo que parece uma casa de fazenda.
       Sheila abriu ligeiramente a porta para o corredor e comeou a pr a cabea para fora a fim de olhar na direo das salas do laboratrio. Ela sentiu a bala 
antes de ouvir uma arma distante ser disparada. O projtil passara to perto dela que chegou a chamuscar parte de seu cabelo antes de enterrar-se na porta.
       Mais do que depressa ela recuou para a sala de estar.
       - Eles sabem onde estamos - disse Sheila, enxugando a testa com a mo e examinando esta. No teria se surpreendido se houvesse sangue ali. - Existe outra 
forma de chegar  sada? com certeza no vamos poder usar o corredor.
       - Teremos de us-lo - afirmou Harlan.
       - Ah, grande! - murmurou Sheila. Ela olhou para a arma em sua mo, perguntando-se quem ela achava que estava enganando. Nunca em sua vida disparara uma arma, 
nem para praticar, quanto mais numa batalha de verdade.
       - Podemos usar o sistema contra incndio - sugeriu Harlan, apontando na direo do painel de segurana na parede da sala de estar. - Se puxar aquela alavanca, 
o laboratrio e todas as instalaes vo se encher de um vapor que inibe o fogo. Os intrusos no vo conseguir respirar muito bem.
       - Ah, muito inteligente - disse Sheila com sarcasmo. - E, ns,  claro, vamos sair daqui simplesmente prendendo a respirao.
       - No, no - replicou Harlan. - No armrio debaixo do painel tem respiradores suficientes para pelo menos meia hora.
       Sheila foi at o armrio e o abriu. O interior estava repleto de equipamentos semelhantes a mscaras contra gases. Ela apanhou cinco e distribuiu-os entre 
eles. As instrues no longo tubo do respirador eram para que se quebrasse o lacre, agitasse e ento o ajustasse ao rosto.
       - Est todo mundo de acordo? - indagou Sheila.
       - Bem, no temos muita escolha - retrucou Pitt. Todos ativaram suas unidades e ento prenderam as tiras atrs da cabea. Quando todos fizeram um sinal de 
positivo, Sheila puxou a alavanca que acionava o sistema contra incndio. Imediatamente ouviu-se um clangor, seguido por uma voz mecnica que repetia "Fogo nas instalaes" 
vezes e vezes seguidas. Um minuto depois, o sistema de sprinklers foi ativado, expelindo ondas de um fluido que rapidamente se vaporizava. A sala encheu-se de uma 
nvoa semelhante a fumaa.
       - Temos de nos manter juntos - gritou Sheila. Era difcil falar com a mscara contra gases, e a cada instante se tornava tambm cada vez mais difcil enxergar. 
Sheila abriu a porta do corredor e ficou satisfeita em ver que o local estava to enevoado quanto a sala de estar. Ela se inclinou para fora, olhando na direo 
dos laboratrios, mas no conseguia ver mais do que um metro ou um metro e meio  sua frente.
       Ento saiu para o corredor. Dessa vez no houve disparos.
       - Vamos - disse ela para os outros. - Pitt, voc e Harlan vo na frente para que saibamos aonde estamos indo. Cassy e Jonathan, vocs carregam os frascos.
       Num grupo compacto, eles percorreram o corredor, que, em meio  nvoa, parecia interminvel. Finalmente chegaram  cmara de compresso e entraram. Sheila 
fechou a porta atrs de si. e Pitt abriu a do outro lado.
       Depois da cmara, o ar foi progressivamente clareando, mais ainda depois que embarcaram num dos carrinhos eltricos. Quando alcanaram a escada de sada, 
j podiam remover as mscaras.
       Eram seis lances de escada at a superfcie. Por fim saram por uma porta tipo alapo, do tamanho de um tapete pequeno, na sala de estar de uma casa de fazenda. 
com o alapo fechado, ningum suspeitaria o que ele escondia.
       - Meu carro deve estar no celeiro - disse Harlan, tirando o brao do ombro de Pitt. - Obrigado, Pitt - agradeceu ele. - No creio que tivesse conseguido sem 
voc, mas j me sinto um pouco melhor. - Ento assoou o nariz sonoramente.
       - Vamos rpido - instou Sheila. -Aquela gente que estava atrs de ns pode ter encontrado os respiradores tambm.
       O grupo deixou a casa pela porta da frente e caminhou para os fundos, em direo ao celeiro. O sol havia se posto e o calor do deserto ia rapidamente se dissipando. 
Havia uma mancha vermelho-sangue ao longo do horizonte, a oeste, mas o restante do cu era uma tigela emborcada de um tom azul-anil. Algumas estrelas piscavam sobre 
suas cabeas.
       Como Harlan esperara, seu Range Rover ainda estava estacionado em segurana no interior do celeiro. Ele ps todos os frascos de cultura tecidual no compartimento 
de bagagem traseiro antes de acomodar-se ao volante. Em seguida, apanhou a Colt com Sheila e guardou-a no compartimento da porta.
       - Tem certeza de que est bem para dirigir? - indagou Sheila, estupefata diante de sua recuperao.
       - Sem problemas - garantiu Harlan. - Sinto-me completamente diferente do que sentia h apenas quinze minutos. Os nicos sintomas que tenho agora so os de 
uma gripe comum. Eu diria que nossa experincia humana foi um sucesso absoluto!
       Sheila sentou-se no banco do passageiro da frente. Cassy, Pitt e Jonathan acomodaram-se no assento traseiro. Pitt abraou Cassy, que se aconchegou junto a 
ele.
       Harlan ligou o carro e deu r, saindo do celeiro. Em seguida, fez uma manobra em U e seguiu para a estrada.
       - Essa infestao aliengena certamente reduziu o trnsito - observou ele. - Olhem para isso. Nem um carro  vista e estamos a apenas quinze minutos de Paswell.
       Harlan dobrou  direita e acelerou.
       - Para onde estamos indo? - perguntou Sheila.
       - No creio que tenhamos muitas opes - respondeu Harlan. - Meu palpite  que o rinovrus ir cuidar da infestao. O problema agora se resume no tal Prtico. 
Temos de tentar fazer alguma coisa a respeito.
       Cassy empertigou-se.
       - O Prtico! - exclamou ela. - Ento Pitt contou a vocs.
       - com certeza - afirmou Harlan. - Ele disse que voc acreditava que a tal coisa j estivesse quase pronta. Tem alguma idia de quando eles devem us-la?
       - No me disseram especificamente - respondeu Cassy.
       - Mas tenho o pressentimento de que ser usado assim que estiver pronto.
       - Ento a temos a resposta - disse Harlan. - S temos de torcer para que cheguemos l a tempo e descobrir uma forma de estragar os planos deles.
       - O que  esse rinovrus de que vocs estavam falando? - indagou Cassy.
       - Notcias muito boas - disse Harlan, olhando para Cassy pelo espelho retrovisor. - Principalmente para voc e para mim.
       Cassy ento ouviu toda a seqncia de eventos que levou  descoberta de uma forma de livrar a raa humana do flagelo do vrus aliengena. Tanto Harlan quanto 
Sheila louvaram-na pelas informaes que ela dera a Pitt.
       - O mais importante foi o fato de o vrus aliengena ter chegado aqui h trs bilhes de anos - afirmou Sheila. - Se no soubssemos disso, no nos teria 
ocorrido que ele pudesse ser sensvel ao oxignio.
       - Talvez ento eu devesse respirar um pouco desse rinovrus agora - sugeriu Cassy.
       - No h necessidade - assegurou Harlan. - O simples fato de estar aqui neste carro significa que todos vocs esto sendo devidamente infectados. Calculo 
que s sejam necessrios uns poucos virions, pois ningum tem imunidade contra ele.
       Cassy recostou-se no banco e aconchegou-se a Pitt.
       - H apenas algumas horas eu pensei que estivesse tudo perdido.  um choque voltar a ter esperanas.
       Pitt abraou-a com mais fora.
       - Tivemos uma sorte incrvel!
       Chegaram aos arredores de Santa F poucos minutos depois das onze da noite. Haviam seguido direto para l, parando uma nica vez num posto de gasolina abandonado 
para encher o tanque. Aproveitaram para abastecer-se de doces e amendoins em uma mquina automtica. Havia moedas  vontade na caixa registradora.
       Cassy permanecera no carro. quela altura, encontrava-se em plena fase de fraqueza, mal-estar e eliminao de espuma pela boca e pelos olhos por que Harlan 
passara quando deixavam o laboratrio subterrneo. Harlan estava extasiado, vendo o sofrimento temporrio de Cassy como mais uma evidncia da eficcia da "rinocura", 
como ele denominou o processo.
       Contornando o centro de Santa F, eles seguiram as indicaes de Cassy e rumaram direto para o Instituto para um Novo Comeo. A essa hora da noite, o porto 
externo encontrava-se profusamente iluminado por holofotes. Os manifestantes do dia haviam desaparecido, mas havia um nmero significativo de pessoas infectadas 
deixando a propriedade.
       Harlan passou para o acostamento da rua e parou. Ento, debruou-se para a frente e inspecionou a cena.
       - Onde fica a manso? - perguntou ele.
       Durante o trajeto, Cassy explicara a todos tudo o que pudera recordar sobre a disposio do instituto, principalmente o fato de que o Prtico estava sendo 
erguido no salo de baile, no primeiro andar,  direita da entrada principal.
       - A casa fica atrs daquela srie de rvores - informou Cassy. - No d para v-la daqui.
       - Para que lado ficam as janelas do salo? - indagou Harlan.
       - Acredito que para os fundos da casa - respondeu Cassy.
       - Mas no tenho certeza, pois foram vedadas com tbuas.
       - Ento esqueamos a idia de entrar pelas janelas - replicou Harlan.
       - Considerando-se o propsito do Prtico - disse Pitt -, deve ser necessria muita energia para seu funcionamento, e s pode ser energia eltrica. Talvez 
pudssemos deslig-lo.
       - Uma sugesto muitssimo engraada - gracejou Harlan
       - Mas no consigo imaginar que para transportar aliengenas atravs do tempo e do espao eles estejam contando com a mesma energia que usamos em nossas torradeiras. 
Tendo visto o que um nico e relativamente minsculo disco negro pode fazer, pense no que um monte deles poderia realizar se estivessem trabalhando em conjunto.
       - Foi s uma idia - replicou Pitt, sentindo-se estpido e decidido a guardar seus pensamentos para si mesmo.
       - A que distncia a casa fica do porto? - indagou Sheila.
       - Uma distncia considervel - disse Cassy. - Uns duzentos metros ou mais. O caminho passa primeiro entre as rvores e em seguida atravessa uma extenso de 
gramado aberto.
       - Bem, creio que este seja o nosso primeiro problema - conjeturou Sheila. - Precisamos chegar at a casa, se quisermos fazer alguma coisa.
       - Um bom argumento - disse Harlan.
       - Que tal pular a cerca nos fundos? - sugeriu Jonathan. - Este porto est iluminado, mas eu no vejo luzes em outro lugar.
       - H ces enormes patrulhando a propriedade - contou Cassy. - Eles esto infectados, exatamente como as pessoas, e trabalham em conjunto. Receio que ir at 
a casa atravessando o gramado seja perigoso.
       De repente, o cu noturno acima das rvores se iluminou com faixas ondulantes de energia, dando a impresso de um fenmeno semelhante  aurora boreal. As 
faixas formaram uma esfera e comearam a se expandir e contrair, fazendo lembrar um organismo respirando. Porm, cada expanso sucessiva era maior do que a anterior, 
de modo que o fenmeno se ampliava a cada segundo.
       - Oh-oh. Tenho a impresso de que j estamos atrasados - disse Sheila. - A coisa est comeando.
       - Muito bem, saiam todos do carro! - ordenou Harlan.
       - O que voc pretende? - perguntou Sheila.
       - Quero que todos saiam - insistiu Harlan. -vou tomar uma atitude impulsiva.vou dirigir at l e entrar no salo de baile com este carro. No posso deixar 
que prossigam.
       - Bem, voc no vai fazer isso sozinho - afirmou Sheila.
       - Como quiser - replicou Harlan. - No tenho tempo para discutir. Mas vocs trs, fora!
       - No temos mesmo para onde ir - disse Cassy, olhando para Pitt e depois para Jonathan. Os dois fizeram um gesto afirmativo com a cabea, indicando que ela 
falava pelos trs. - Creio que estamos nisso juntos.
       - Ah, pelo amor de Deus! - exclamou Harlan, enquanto punha o Range Rover na trao 4x4 normal. - Exatamente o que a raa humana precisava: um carro cheio 
de mrtires! - Acelerou ento o motor e disse a todos que apertassem bem os cintos de segurana, ao mesmo tempo em que puxava o seu o mximo possvel. Em seguida, 
ligou o aparelho de CD do carro e selecionou sua msica favorita: Sagrao da Primavera, de Stravinsky. Adiantou a msica at a parte de que mais gostava: era onde 
os timbales ressoavam com o volume quase na potncia mxima, ele entrou na rua.
       - O que vai dizer aos homens no porto? - gritou Sheila.
       - Que comam a poeira do meu carro! - gritou Harlan de volta.
       Atravessando o caminho, havia uma cancela de madeira branca e preta, com contrapesos. O trnsito de pedestres a contornava. Harlan a atingiu a cerca de setenta 
quilmetros por hora e o pra-choque do Range Rover a reduziu a pedaos. Os guardas sorridentes saltaram para ambos os lados, saindo do caminho.
       Sheila girou o corpo no banco e olhou para trs. Os guardas haviam se recuperado e corriam atrs deles. Tambm em perseguio ao carro, uma matilha de ces 
latia ferozmente. Tanto vigias quanto ces, porm, sumiram de vista quando Harlan fez uma curva em S em meio a algumas conferas virgens.
       O Range Rover, em alta velocidade, deixou as rvores para trs. A enorme manso avultou-se  frente deles, surgindo do meio da noite. Toda a construo brilhava, 
em especial as janelas. As faixas ondulantes de luz que se expandiam ritmicamente no cu pareciam estar sendo emitidas do teto, como chamas gigantescas.
       - No vai diminuir a velocidade um pouco? - berrou Sheila. O motor gemia como uma turbina a jato e os timbales martelavam. Era como se a orquestra inteira 
estivesse dentro do carro. Sheila ergueu o brao e agarrou a ala sobre a porta do passageiro, a fim de equilibrar-se.
       Harlan no respondeu. Sua expresso era de intensa concentrao. At aquele momento, ele dirigia o veculo dentro dos limites da estradinha. Agora que tinha 
a casa  vista, guiou diretamente para l, atravessando o gramado, a fim de evitar os pedestres. As pessoas deixavam a manso em fila nica, num fluxo contnuo, 
a caminho do porto.
       A cerca de trinta metros da ampla e majestosa escadaria que levava  varanda diante da casa, Harlan reduziu a trao, a despeito do fato de que as rotaes 
do motor j estavam prximas  marca vermelha no mostrador. O carro respondeu diminuindo consideravelmente a velocidade. Ao mesmo tempo, uma potncia significativa 
foi dirigida s rodas traseiras.
       - Caramba! - gritou Jonathan, enquanto a distncia at os degraus ia diminuindo. As pessoas podiam ser vistas saltando cegamente sobre os corrimos de calcrio, 
a fim de escaparem de trs toneladas de ferro arremessando-se velozmente sobre elas.
       O Range Rover atingiu o primeiro degrau e sua frente empinou-se, lanando o veculo ao ar. Os pneus tornaram a fazer contato com o solo nos fundos da varanda, 
a trs metros da porta dupla da entrada. Luzes laterais multifacetadas margeavam a porta da frente, de ambos os lados, assim como no alto.
       Todos, exceto Harlan, fecharam os olhos, apertando-os, quando ocorreu a coliso com a casa. O som abafado de vidros estilhaando-se pde ser ouvido acima 
da msica clssica, mas, surpreendentemente, foi pequeno o efeito sobre o impulso de avano do carro. Harlan pisou no freio e jogou o volante para a direita, disposto 
a evitar a majestosa escadaria diretamente  sua frente.
       O carro derrapou no piso de mrmore xadrez preto e branco, roou num imenso candelabro de cristal e ento colidiu com um aparador de mrmore e uma parede 
interna revestida de gesso. Ouviu-se um rudo de desabamento e todos foram atirados de encontro a seus cintos de segurana. O airbag do lado do passageiro foi acionado, 
pressionando uma Sheila assustada contra o assento.
       Harlan lutava para controlar o volante, enquanto o carro passava aos solavancos sobre a mesa e a viga de 5x10 destroadas. A coliso final foi contra uma 
estrutura de metal e madeira coberta com cabos eltricos, o avano do carro sendo interrompido por uma viga de ao que quebrou o pra-brisa, estilhaando-o em mil 
pedacinhos de vidro temperado.
       Fora do carro ouviram-se exploses acompanhadas por centelhas, assim como um estranho zumbido mecnico que foi mais sentido do que ouvido acima da estrondosa 
msica clssica, que continuava a tocar.
       - Esto todos bem? - perguntou Harlan, erguendo os dedos do volante. Estivera segurando-o com tanta fora que cortara a circulao. Tanto suas mos quanto 
os antebraos estavam enrijecidos. Ele diminuiu o volume do aparelho de CD.
       Sheila lutava contra o airbag que murchava e que lhe queimara com o impacto o rosto e os braos.
       Todos afirmaram haver suportado surpreendentemente bem a batida.
       Harlan olhou atravs do pra-brisa quebrado, mas tudo que pde ver foram fios e destroos retorcidos.
       - Voc acha que isso aqui  o salo de baile, Cassy? - indagou ele.
       - Creio que sim - respondeu Cassy.
       - Ento, misso realizada - disse Harlan. - com toda essa fiao, certamente batemos em algum tipo de equipamento de alta tecnologia. A julgar por todas essas 
centelhas, acho que conseguimos alguma coisa.
       Como o motor do Range Rover ainda estivesse funcionando, Harlan deu marcha  r e pisou no acelerador. com uma boa dose de rangidos, o carro recuou ao longo 
de seu caminho de destruio. Depois de cerca de trs metros, o veculo j havia se afastado da superestrutura do Prtico. Todos puderam ver, l em cima, uma plataforma 
que parecia feita de Plexiglas. Degraus ovais do mesmo material levavam at ela. De p sobre a plataforma via-se uma hedionda criatura aliengena iluminada pelas 
incessantes fascas eltricas. Seus olhos negros como carvo fitavam os ocupantes do carro com incredulidade.
       De repente, a criatura jogou a cabea para trs e emitiu um grito aflito de agonia. Lentamente, ela desabou sobre a plataforma e segurou a cabea com as mos, 
no auge da aflio.
       - Meu Deus!  Beau! - exclamou Cassy no banco traseiro.
       - Receio que sim - concordou Pitt. - S que a mutao agora est completa.
       - Deixe-me sair! - disse Cassy, soltando o cinto de segurana.
       - No - objetou Pitt.
       - Tem muitos fios soltos por a - argumentou Harlan. -  perigoso demais, principalmente com todas essas fascas. A voltagem deve ser astronmica.
       - No me importo - replicou Cassy, debruando-se sobre Pitt e abrindo a porta.
       - No posso deixar voc ir - afirmou Pitt.
       - Me solte - falou Cassy, rispidamente. - Preciso sair. com relutncia, Pitt deixou que Cassy saltasse do carro.
       Cautelosamente, ela evitou os fios e ento, devagar, subiu os degraus at a plataforma.  medida que se aproximava, podia ouvir os gemidos de Beau acima do 
zumbido mecnico e das exploses dos fios. Ela o chamou e ele lentamente levantou os olhos.
       - Cassy? - espantou-se Beau. - Por que no pressenti a sua chegada?
       - Porque eu fui libertada do vrus - disse ela. - Existe esperana! Esperana de recuperarmos nossas antigas vidas.
       Beau abanou a cabea.
       - No para mim. No posso voltar e, no entanto, tambm no posso prosseguir. Eu tra a confiana que depositaram em mim. Essas emoes humanas so um terrvel 
estorvo. So completamente inadequadas. Ao querer voc, eu renunciei ao bem coletivo.
       Um sbito aumento na intensidade das centelhas eltricas precedeu uma vibrao, leve a princpio, mas que rapidamente foi ganhando fora.
       - Voc precisa fugir, Cassy - disse Beau. - A rede eltrica foi interrompida. No haver nenhuma fora para neutralizar a antigravidade. Vai haver uma disperso.
       - Venha comigo, Beau - pediu Cassy. - Temos uma maneira de livr-lo do vrus.
       - Eu sou o vrus - afirmou Beau.
       A vibrao chegara a um ponto em que Cassy estava tendo dificuldades em manter o equilbrio sobre os degraus translcidos.
       - V, Cassy! - gritou Beau, passionalmente.
       Com um toque final do dedo estendido de Beau, Cassy alcanou com esforo o piso do salo de baile. O lugar agora estava sendo sacudido, como se atingido por 
um terremoto.
       Ela conseguiu chegar at o carro. Pitt segurava a porta aberta para que entrasse.
       - Beau disse que precisamos fugir - gritou Cassy. - Vai haver uma disperso.
       Sem precisar de mais encorajamento, Harlan deu marcha  r e pisou fundo no acelerador. Os solavancos e abalos eram mais intensos do que quando o veculo 
entrara na casa, mas logo estavam de volta ao hall de entrada. Com grande habilidade, Harlan manobrou o carro de modo a ficar de frente para a porta estraalhada. 
O candelabro no teto balanava-se tanto que estilhaos de cristal voavam em vrias direes. Sentada no banco da frente e sem o escudo do pra-brisa, Sheila teve 
de proteger o rosto com as mos.
       - Segurem-se todos - avisou Harlan. com as rodas derrapando sobre o mrmore polido, ele arremeteu o Range Rover pela porta da frente, atravessou a varanda 
e desceu os degraus. O solavanco que sofreram ao bater no cho, na base da escada, foi to intenso quanto o impacto que experimentaram ao colidir com a parede no 
salo de baile.
       Harlan atravessou o gramado em linha reta, na direo da diviso entre as rvores que marcava o ponto onde a estradinha emergia.
       - Precisa dirigir nessa velocidade toda? - queixou-se Sheila.
       - Cassy disse que vai haver uma disperso - disse Harlan. - Calculei que quanto mais longe estivermos, melhor.
       - Que diabos  uma disperso? - perguntou Sheila.
       - No tenho a menor idia - admitiu Harlan. - Mas parece algo muito ruim.
       Naquele momento houve uma tremenda exploso atrs deles, mas sem o rudo ou a onda de choque usuais. Cassy virou-se para trs a tempo de ver a casa literalmente 
voar em pedaos pelos ares. Tambm no havia nenhum claro de luz para indicar o ponto de conflagrao.
       Ao mesmo tempo todos no Range Rover tiveram conscincia de que estavam no ar. Sem nenhuma trao, o motor acelerou at Harlan tirar o p do acelerador.
       O vo durou apenas cinco segundos e o retorno  terra se fez acompanhar por uma sbita guinada, pois a velocidade das rodas havia se reduzido, mas o movimento 
de avano do carro no.
       Estupefato diante daquele estranho fenmeno, Harlan freou, fazendo o carro parar. Ele estava aborrecido por ter perdido totalmente o controle do veculo, 
mesmo que por apenas alguns segundos.
       - Ns voamos por um momento - declarou Sheila. - Como isso aconteceu?
       - No sei - respondeu Harlan, olhando os instrumentos e mostradores, como se estes pudessem oferecer alguma resposta.
       - Vejam o que aconteceu com a casa! - exclamou Cassy. - Ela desapareceu!
       Todos se voltaram para olhar. Fora do carro, os pedestres estavam fazendo o mesmo. No havia fumaa ou escombros. A casa simplesmente desaparecera.
       - Bem, agora sabemos o que  uma disperso - afirmou Harlan. - Deve ser o oposto de um buraco negro. Creio que quando uma coisa  dispersa, ela se reduz a 
suas partculas primrias, e estas simplesmente se espalham.
       Cassy sentiu a emoo brotar em seu ntimo, experimentando uma sbita e intensa sensao de perda, e algumas lgrimas rolaram pelo seu rosto.
       Do canto do olho, Pitt viu as lgrimas de Cassy e compreendeu imediatamente, abraando-a.
       - Eu tambm sentirei a falta dele - disse ele. Cassy assentiu.
       - Acho que sempre irei am-lo - afirmou ela, enxugando uma lgrima com o n de um dedo. Mas, ento, rapidamente acrescentou: - Mas isso no significa que 
eu no ame voc. 
       Com uma sofreguido que deixou Pitt sem flego, Cassy o apertou num abrao forte. Timidamente a princpio e depois com igual ardor, Pitt correspondeu ao abrao.
       Harlan saltou do carro e dirigiu-se  traseira, apanhando os frascos.
       - Venha, pessoal - chamou ele. - Temos um trabalho de infeco a fazer.
       - Puxa vida! - gritou Jonathan. - Vejam! A minha me. Todos olharam na direo em que Jonathan apontava.
       - , acho que tem razo - disse Sheila.
       Jonathan desceu do carro com a inteno de correr pelo gramado para alcan-la. Harlan agarrou-lhe o brao e meteu um dos frascos em sua mo.
       - D-lhe um pouco disso, filho - disse ele. - Quanto mais cedo, melhor.
       
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
  
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